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Discursos de esposas e amantes

Subseção 4.4: “ C LAUDIA RESPONDE ”

Cada vez mais eu escrevo com menos palavras.

Clarice Lispector Nesta última subseção, da seção 4, analisamos o discurso da revista sobre o triângulo amoroso a partir dos títulos dados, por Claudia, às cartas que compõem nosso

corpus. Entendemos que, com essa materialidade, é possível verificar como a revista se

posiciona diante do casamento, da traição do homem e da permanência do sujeito- consulente nos triângulos amorosos. Buscamos, assim, a partir do percurso dos títulos, compreender como sentidos são produzidos pela revista para os lugares no casamento (e para o próprio casamento). Optamos em tratar os títulos a partir dos eixos aos quais as sequências discursivas foram dispostas, assim, nossa análise se dará a partir de três conjuntos de títulos atribuídos às cartas que analisamos nas três subseções anteriores: o jogo imaginário, a reificação do marido e o discurso de amor.

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Discorremos, inicialmente, sobre a importância do título no jornalismo, considerando que nossa materialidade discursiva vem de uma revista, uma mídia, assim, os títulos das cartas foram dados por jornalistas, a partir de técnicas e perspectivas específicas exigidas por essa posição. Trazemos, nesta subseção, autores que pensaram os títulos, especificamente, para matérias jornalísticas (notícias e reportagens), porque entendemos que as cartas integram, igualmente, uma edição da revista, logo, atendem a práticas jornalísticas correntes. Conforme nos diz Drummond, ao se “escrever carta, está” se “fazendo jornalismo” (alusão à epígrafe trazida na subseção 1.2).

Segundo Guimaraes (1995), os títulos “são chaves para a decodificação da mensagem, se convenientemente propostos. Enunciados sucintos (...), sua interpretação deve ser integrada numa leitura global” (p. 51). Chamado, pelos jornalistas, de “rosto” (PINTO: 2011), o título tem o intuito de chamar a atenção dos leitores e motivá-los à leitura do que se segue porque provocou interesse instantâneo. Seria, assim, um ponto de partida da leitura, pois é para onde o olhar do leitor primeiro repousa, podendo, também, ser determinante na sua decisão de continuar ou não continuar lendo.

Há um esmero dos jornalistas em elaborar um título que seja objetivo, atrativo, sintético, claro, simples, ritmado e que capte a essência do texto ao qual se refere, dando uma dica do que virá, de forma a despertar a curiosidade, o desejo do leitor em saber mais, funcionando, como uma antecipação do que será dito. O título, então, deve “ser concreto e estar relacionado com o assunto de que fala o texto, informando directamente, levantando pistas sobre o que vai ser revelado, ou, simplesmente, brilhando pela sua oportunidade ou originalidade” (GRADIM: 2000, p. 69), pois “um título fraco é jazigo de uma notícia forte” (BAHIA, 2009).

Bahia (2009) compara o título a uma obra de arte apesar de pertencer à técnica de redação, uma vez que, além de “anunciar o fato, resumir a notícia” tem a função de “embelezar a página” com seu “visual objetivo e harmônico” (p. 58). É, a primeira linha do texto, ainda que inconfessadamente: é, portanto, inseparável do texto, fiel e ligado intimamente a ele, mesmo tendo estrutura própria e independente dele. Há quem defenda, no entanto, que o título pode ser capaz de dizer tanto que dispensa o resto, ideia esta que nos motivou a entender os títulos das cartas como um discurso de Claudia sobre triângulos amorosos. Mais do que isso, os títulos das cartas têm uma função para além de informativa ou de apresentar ao leitor uma visão geral do conteúdo ao qual precede: os títulos das cartas, em nosso, entendimento são opinativos.

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Nas cartas, cujas sequências discursivas foram aqui analisadas, por exemplo, os títulos, geralmente, aparecem negritados e destacados do texto principal, podendo aparecer também em letras garrafais em algumas edições, o que deflagra a importância dada a ele e sua função de ‘chamariz’ para o corpo do texto. Uma peculiaridade é que os títulos das cartas não são dados por quem, a priori, as escreve, assim, eles (títulos) antecipam o dizer do sujeito-conselheira/o (interlocutor em B) e não do sujeito- consulente (interlocutor em A). Por isso, entendemos que os títulos dados às cartas não se restringem a serem sínteses das cartas, mas àquilo que mais clama por dizer para o interlocutor em B.

Destacamos que, entre o final da década de 1980 e a primeira metade da década de 1990, a revista optou por não dar títulos a cartas e identificá-las com nome (ou pseudônimo) da suposta remetente, assim como a cidade em que residia. A partir da década de 2010 (década em que o “consultório sentimental” deixou de compor a revista), ou seja, no último formato desta seção, a revista suprimiu tanto o título quanto os dados pessoais.

Observemos os títulos dados às cartas, cujas sequências foram discursivamente analisadas no eixo “o jogo imaginário”, em ordem de aparição:

 Ter duas mulheres é crime  Uma vocação de vítima  A culpa não é da outra  Meu marido me traiu  A ex-perturba

 A outra: mais um depoimento  Amor e ódio podem se confundir

 Ela tem conflitos e busca apoio, mas deveria ouvir sua consciência68

 O marido quer o desquite para casar novamente, mas a esposa não admite  Propriedade Privada

Nas sequências discursivas, Claudia diz da traição como sendo responsabilidade do marido e não da amante (“a culpa não é da outra”), contrariando, inclusive, os dizeres postos no mito da Medusa, em que a culpa pela traição do homem recai sobre a amante, deslizando, pois, com sentidos estabilizados sobre a amante sedutora e o marido indefeso. Quem trai é o marido (“meu marido me trai”) com quem a esposa tem um

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Trazemos a imagem dessa carta, anexo F, a título de ilustração de uma carta com título e assinada por Carmen da Silva.

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vínculo e com quem tem um acordo de fidelidade celebrado durante a cerimônia (Igreja Católica) do casamento69: “prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”70

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A revista se posiciona de tal forma contrária ao homem se manter, concomitantemente, em duas relações maritais que diz da bigamia como sendo um crime (“ter duas mulheres é crime”), logo, o homem que mantém o triângulo amoroso é imaginado, pela revista, como criminoso que, sob a perspectiva do jurídico, violou uma obrigação legal. Conceitos legais (ou do Direito), interpelaram o discurso de Claudia, reproduzindo o que o Estado diz sobre a bigamia, em nossa formação social, inserindo o sujeito em um ritual que define o que é “certo” ou “errado”, dicotomia essa com a qual o discurso jurídico atua (PÊCHEUX: 2014). Afinal, o acontecimento discursivo possibilita outros sentidos para o que é “certo” ou “errado” em uma relação conjugal, ainda que não inviabilize a retomada (via interdiscurso) de enunciados existentes em outra FD.

Mas, se a imagem do homem projetada por Claudia, na materialidade linguística do conjunto dos títulos, é de culpado pela relação a três, a imagem da mulher que se mantém no triângulo é projetada como de passiva, com “vocação de vítima”, que não ouve “a sua consciência” e não enfrenta o marido/amante de forma a acabar com o “conflito” por ele gerado. Tal comportamento nos remete à reflexão de Bauman (2004) sobre o que mesmo amamos: “amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento” (p. 72).

Assim, diz que “amor e ódio podem se confundir” porque coloca em dúvida qual sentimento leva a mulher a permanecer em uma cena do três, na qual é infeliz. Ama a posse do marido e odeia a possibilidade da perda? Para Barthes (2003), “todo episódio de linguagem que encena a ausência do objeto amado – sejam quais forem sua causa e duração – tende a transformar essa ausência em provação de abandono” (p. 35): a perspectiva do abandono seria, em nosso caso, a perspectiva do afastamento do objeto e a consequente mudança da posição de esposa.

O “mais um depoimento” da “outra” marca a constância com que Claudia recebe cartas de mulheres, em posição de amante, pedindo conselhos ou, simplesmente,

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Entendemos que mesmo a mulher não tendo experimentado a celebração do casamento pela Igreja Católica, os dizeres proferidos durante o ritual funcionam como interdiscurso das obrigações do casal.

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depondo sobre seus dramas: não é um depoimento, é “mais” um entre outros tantos. Os relatos das cartas são relatos de tristezas, de mágoas em que as supostas remetentes (“outras” ou não) buscam desabafar, partilhar suas dores e angústias. “O sujeito amoroso”, afinal, “vive na crença de que, de fato, o objeto amado o ama” (BARTHES: 2003, p. 279), levando-o a se manter na posição de outra, de amante, em uma eterna espera do amado.

A revista diz também do desejo das mulheres se manterem no casamento ou de terem um, da importância dada a elas ao ter um homem. Ao se referir ao homem como “propriedade privada”, Claudia projeta a imagem de um homem coisificado, que tem uma dona, cuja posse pretende ser exclusiva. Sartre (2014) diz da contemplação que todo amante faz do amado como se fosse um “puro ser-objeto” em meio a tantos outros objetos.

A mulher, em posição de esposa, é projetada como inconformada com a separação (“a ex-perturba”), incapaz de seguir com a sua vida de divorciada, se dedicando a incomodar a atual esposa do ex-marido, talvez em uma tentativa desesperada de reatar o casamento. Essa imagem de mulher dependente do casamento é ratificada ao dizer que “o marido quer o desquite (...), mas a esposa não admite”, contradizendo a máxima de que “quando um não quer dois não fazem”. A posição de esposa é a posição desejada e pela qual não admite se retirar, mesmo contrariando a vontade do marido de desfazer o casamento: processos discursivos, afinal, proveram as mulheres de uma definição do feminino que faz funcionar o imaginário de que ser esposa é a posição de mulher respeitada, completa e aprovada socialmente, assim como o imaginário de que casamento durável era a condição natural de toda mulher.

Observemos os títulos dados às cartas, cujas sequências foram discursivamente analisadas no eixo “a reificação do marido”, em ordem de aparição:

 Não se engane com mentiras  Aprenda amar o seu marido  Reflita antes de decidir  A crise dos 40 anos

 Melhor um marido infiel que a solidão... melhor?  Meu marido me traiu

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A posição da revista, enquanto crítica da passividade da mulher diante da traição e da inadmissibilidade da prática do homem de “ter duas mulheres”, já não é tão evidente neste conjunto de títulos. Sentidos sobre a infidelidade do homem deslizaram porque em seu dizer Claudia deixa de condenar o adultério e passa a justificá-lo. Ao dizer que o homem tem uma amante porque vive “a crise dos 40 anos” ou porque a esposa não aprendeu a “amar o seu marido”, está retirando dele a responsabilidade pelo surgimento da cena do três: ou ele é vítima da inevitável crise de autoafirmação, pela qual todo homem maduro passa, ou é vítima da falta de afeto da esposa. A partir das reflexões de Klima e Malinowski sobre amor e morte, Bauman (2004) nos traz que

o amor e a morte não têm história própria. São eventos que ocorrem no tempo humano - eventos distintos, não conectados (muito menos de modo causal) com eventos “similares”, a não ser na visão de instituições ávidas por identificar (por inventar) – retrospectivamente - essas conexões e compreender o incompreensível. Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. (p. 15)

Diante desta conjectura, a sugestão de Claudia cairia no vazio: aprender a amar é uma impossibilidade, pois amor e morte são eventos que ocorrem à revelia. Ou se ama ou não, não há formula para amar: aprender a amar é um artifício para manter o casamento com alguém que não se ama, mas que se pretende ter. Por sua vez, a tolerância com infidelidade masculina se dá pela retomada de pré-construídos que colocam a ‘pulada de cerca’ do homem como algo, natural (“a crise dos 40 anos”), inerente ao masculino. O adultério seria uma consequência de fenômenos sobre os quais o homem não tem controle. A esposa, por sua vez, deve refletir “antes de decidir” pela separação porque a traição do marido, no dizer de Claudia, deve ser atenuada e não ser um motivo para a esposa, por um impulso, acabar com o casamento.

A posição de Claudia sobre o casamento a três é contraditória, levando-a a questionar sua própria indefinição: “Melhor um marido infiel que a solidão... melhor?” Bauman (2004), em referência a Fromm (1957), nos coloca que a solidão, atributo da individualidade humana, é, comumente, temida e o amor possessivo surge como uma resposta a essa benção/maldição. Se, por um lado, Claudia, em seu dizer, defende que a esposa deve evitar a separação porque a traição do marido é justificável ou porque a levará à solidão, por outro lado, se coloca em posição de dúvida quanto à manutenção (ou não) da esposa na cena do três. Afinal, diz que acreditar na inocência do marido quanto à traição é se enganar “com mentiras”, é uma ilusão, tal qual acreditar que a bissexualidade é uma opção momentânea (marido bissexual). Assim, as repostas dadas

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às cartas seriam o “furo”, o lugar, o ponto das contradições e de encontro da memória (patriarcado e catolicismo) com a atualidade (ondas feministas, por exemplo) (PÊCHEUX: 2015).

Observemos os títulos dados às cartas, cujas sequências foram discursivamente analisadas no eixo “o discurso de amor”, em ordem de aparição:

 Indecisa

 Entre o sim e o não

 A outra: mais um depoimento  Como agir sem chantagem  Amo um homem casado  Amor e liberdade

 Sofrendo por uma paixão

 Ela está angustiada com suas fantasias  Célia B / Itu-SP

 Amor impossível

Na materialidade linguística desses títulos, observamos a reincidência de palavras que rementem ao sentimento da amante, “aquela que ama” (HOUAISS: 2009), que fazem parte, pois, de um mesmo campo semântico: “amo”, “amor”, “paixão”. Conforme defendemos na subseção anterior, o discurso de amor é, sobretudo, um discurso da mulher na posição de amante. A recorrência da palavra amor (e suas derivações) se dá no discurso da amante, logo, no dizer de quem ama.

Os títulos desse grupo de cartas fazem, portanto, referência ao amor: “amo um homem casado”; “amor e liberdade”; “sofrendo por uma paixão”; “amor impossível”. A revista diz da impossibilidade de viver plenamente um amor com “um homem casado” porque o amor pleno se dá quando se tem “liberdade” para vivê-lo na sua completude com alguém descompromissado com outra mulher, do contrário, a amante sofrerá por esta “paixão” e viverá angustiada “em suas fantasias” de um amor jamais completamente realizado.

A posição de amante, no dizer de Claudia, é a de uma mulher em estado de dúvida, “entre o sim” de viver uma história de amor e “o não” de viver uma história de amor com um homem casado: a indecisão (“indecisa”) sobre a manutenção do caso, logo, sobre a sua manutenção na posição de amante é uma premissa. A posição de amante, no dizer de Claudia, não seria uma posição em que a mulher quer como sendo

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definitiva e, na tentativa de se tornar a protagonista de uma cena do dois, é capaz de atitudes extremas como chantagear o amado para se casar com ela, o que é condenado no dizer da interlocutora em B: “como agir sem chantagem”. O sujeito-conselheira sugere que a chantagem, portanto, não deve ser uma opção válida enquanto recurso para garantir o protagonismo do sujeito-consulente (interlocutora em A) na cena do dois.

Temos um exemplo de carta em que o título foi substituído pelo nome (ou pseudônimo) da suposta remetente e pela cidade onde reside: “Célia B / Itu-SP. Ao suprimir o título, entendemos que a revista pretendeu ser mais protocolar no tratamento dado às cartas, que conforme já mencionamos, tem como uma de suas características o nome do remetente e a cidade de onde está enviando a carta. Trazemos, no anexo G, um exemplo de carta em que a suposta remetente também era identificada pelo nome (ou pseudônimo) e cidade, não havendo título. Claudia passa, com isso, a imagem de distanciamento (não mais de “companheira fiel”), de menos envolvimento com os problemas apresentados pelo sujeito-consulente, de impessoalidade, de profissionalismo, mas não só: ao nomear as remetentes, dá mais veracidade à seção, pois, se elas têm nome é porque existem. Essa proposta durou cerca de 7 anos, em meados da década de 1990, os títulos voltaram às cartas e lá permaneceram até 2008, quando títulos, nomes (ou pseudônimos) e cidade foram, igualmente, suprimidos.

Conforme nos traz Pêcheux, “todo enunciado é intrinsecamente suscetível a tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para outro” (p, 53), assim, um título sempre pode ser outro, mas foram estes os títulos desenhados por Claudia e, por isso, são as imagens por ela projetadas sobre casamento, amor e traição. E, se o título é uma escrita “com menos palavras” (alusão à epígrafe), nem, por isso, ele significa menos ou é menor em produção de sentidos. Ao visualizarmos os títulos alinhados verticalmente, percebemos que tínhamos um texto e, se tínhamos um texto, tínhamos “uma unidade complexa”, uma representação, portanto, “de um conjunto de relações significativas individualizadas em uma unidade discursiva”, heterogeneamente constituído, afetado por condições de produção. E como “unidade inteira” (ORLANDI: 1995, p. 115) nos permitiu depreender marcas no discurso de Claudia sobre a traição e os triângulos amorosos.

Nossas análises se fecham (por ora) nesta subseção, em que trazemos os títulos atribuídos às cartas, materialidades linguísticas das quais recortamos as sequências discursivas por nós analisadas nas subseções anteriores. Defendemos que, ao

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retomarmos os títulos das cartas para analisarmos os discursos de Claudia sobre triângulos amorosos, também discorremos sobre as imagens que se projetam, no dizer de Claudia, sobre esposas, amantes, maridos/amantes em situação de traição, em que pesem a reificação do marido pelas esposas (sujeito-consulente) e os discursos sobre o amor a partir dos discursos de amor, sobretudo das amantes (sujeito-consulente).

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“EM FECHAMENTO”

Nada de alegrias inefáveis e de ilusões juvenis. Era um ato simples e grave.

Machado de Assis

Denominamos esta última parte do trabalho de “em fechamento”, fazendo uma alusão ao emfechamento, um blog criado em 2011, destinado “a discutir editoração, design, comunicação e cultura”, que nos auxiliou com alguns dados trazidos na seção 1. Na introdução deste trabalho, trouxemos as propostas dessa pesquisa, discorremos sobre os mitos com os quais lidamos e apresentamos nossas primeiras abordagens sobre a teoria, cujos conceitos possibilitaram nossas análises discursivas, apresentadas como do

mito ao rito, o discurso. Propositalmente, aqui, invertemos esta disposição e, assim,

discorreremos sobre nossas últimas (por ora) considerações: do rito ao mito. Não vemos como necessário um retorno à teoria como um à parte, já que ela esteve na base de toda a nossa discussão, então, nestas considerações, ela permeará os nossos apontamentos.

A hipótese sobre a qual nos debruçamos e supomos ter respondido é que os símbolos presentes no mito da Medusa (e em outros mitos) perduram até os dias atuais, considerando que as mulheres continuam acusando suas rivais pela traição do companheiro e não o próprio companheiro. Para tanto, analisamos discursivamente cartas atribuídas às mulheres com circulação nos chamados "consultórios sentimentais" da revista feminina Claudia, nas últimas seis décadas, que tratam, em sua materialidade discursiva, de triângulos amorosos. Temos, assim, que, em seus dizeres, o sujeito- consulente (interlocutor em A) e o sujeito-conselheira/o (interlocutor em B) evidenciam, em seus dizeres, suas condutas diante da infidelidade masculina enquanto integrantes (A) ou expectoras (B) de um triângulo amoroso: a essas condutas chamamos de rito. Rito esse que se aproxima do rito discursivizado no mito da Medusa (entre outros mitos), que traz a mulher como implacável com a rival, diante da participação em uma cena do três.

Os discursos materializados nas cartas (e em suas respostas ou ‘comentários) nos chegaram pela revista Claudia, assim, discorreremos sobre a imprensa feminina brasileira, mais especialmente sobre a revista Claudia, sobre o casamento e os triângulos amorosos – ritos – para depois relacionarmos os dizeres de sujeitos- consulente/conselheira/o aos discursos materializados nos mitos.