Discursos de esposas e amantes
Subseção 4.1: O JOGO IMAGINÁRIO
4.1.1 Interlocutora em A: sujeito-consulente-esposa
Tabela 1
“Ter duas mulheres é crime”
Imagem de si (A) Referente (amante) Referente (marido) SD45: O que mais me fez
sofrer humilhação
SD46: Meu sogro diz que sou uma boa dona de casa, ótima esposa, carinhosa, responsável
SD47: Já tentei conversar com ele (marido)
SD48: Os parentes dele gostam mais dela do que de mim
SD49: Os parentes dele gostam mais dela do que de mim
SD50: Diz que sabe o que faz e não permite discussão
Seção Caixa Postal, Ano IX, nº 98, p. 16, novembro de 1969.
Durante o patriarcado, discursos foram sedimentados sobre a conduta masculina e a conduta feminina (conforme discutido na subseção 2.2) e são retomados, nos dizeres desta carta, como pré-construídos, dizeres já formulados em outro lugar e cujos sentidos, por serem da ordem do memorável, foram cristalizados (INDURSKY: 2011), tornando, tolerável a bigamia por parte da esposa e normal por parte dos parentes do marido, afinal, o patriarcado é “um sistema de dominação, modelado pela ideologia machista” (SAFFIOTI: 2004, p. 50) que categoriza hierarquicamente os sexos, permitindo ao homem direitos exclusivos. Esse “sempre-já-aí da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade” e seu “sentido” sob a forma de universalidade (o mundo das coisas)” é, justamente, o que Pêcheux ([1975] 2014: p. 151) define como sendo pré-construído.
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O título da carta dado por Claudia (“ter duas mulheres é crime”) projeta a imagem de que, para B, o marido é, antes de tudo, um criminoso, rompendo com a naturalização da bigamia no dizer de A na SD50. O cotidiano das relações interpessoais, tal qual nos lembra Lagazzi (1988), ainda que não seja regulado por leis, se ampara em regras e padrões morais (entendido como “bons costumes” pelo senso comum) a serem seguidos pelos membros de uma comunidade. Como o sujeito-conselheira/o não é legitimado a definir o que é crime, temos caracterizado o juridismo, essa “intertextualidade da instância jurídica, do Direito” (p. 46), que atua no implícito, permitindo a Claudia, por sua filiação ao discurso jurídico, dizer sobre direitos, deveres e responsabilidades.
Nas SDs 45/46/48, há uma projeção para a esposa de humilhada porque, sobretudo, a família sabia do adultério, silenciava sobre ele: o silenciamento das vozes dos parentes produz sentidos (ORLANDI: 1990), funcionando como um ‘consentimento’ à bigamia: “quem cala consente”, já diz o velho ditado. Ao ser comparada à outra, pela família, projeta a imagem de que a amante é uma mulher mais cativante do que ela (esposa), o que nos faz lembrar um jogo de apostas: ‘a uma ou a outra?’, “gostam mais dela” ou “de mim”? (SD48)
O discurso do sogro nos chega atravessado pelo discurso da interlocutora em A, movimento este definido por Authier-Revuz (1998) como “heterogeneidade mostrada”, por trazer uma alteridade enunciativa, caracterizada pela inserção das palavras do outro (sogro) na constituição do dizer da uma (interlocutora A), portanto, localizável no fio discursivo. E, nesse ponto, ela se projeta como “boa dona de casa, ótima esposa, carinhosa, responsável” (SD46): atributos da boa-esposa-dona-de-casa localizados em uma formação discursiva fundada no patriarcalismo.
A imagem projetada de um marido autoritário e machista (“não permite discussão” – SD50), cuja violência simbólica, imposta à mulher, buscou legitimar o poder dele sobre ela (BOURDIEU: 2014), reafirma a mesma FD patriarcal em que o sujeito-esposa está filiada: ele “diz que”, SD50, (heterogeneidade mostrada) é irredutível da sua plena condição de bígamo e não está disposto ao diálogo, por ela proposto, porque pretende a manutenção do status quo.
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Tabela 2
“Uma vocação de vítima”
Imagem de si Referente (amante) Referente (marido) SD51: Sou engenheira civil
e atualmente mantenho a minha família
SD52: Tinha a esperança de ser feliz apesar de conhecer o problema insolúvel de meu marido: ele tinha uma amante e dois filhos
SD53: Ainda não resolvi se largo tudo e tento recomeçar minha vida (...) ou se espero dois anos para ver se consigo domar a ‘fera’.
SD54: Ajude-me a encontrar um caminho
SD55: A fase do noivado foi tumultuada por ameaças de morte, cartas anônimas e o medo de tragédias SD56: Apenas uma fofoqueira, preocupada com minha destruição SD57: É uma psicopata e uma viciada em tóxicos SD58: Ela telefonava todos os dias e me dizia palavrões
SD59: Ela chegou lá e inventou uma história qualquer
SD60: ...para ver se consigo domar a ‘fera’
SD61: Prometia o rompimento de suas relações com a outra família
SD62: Ficavam os dois zombando de mim
SD63: Meu marido se transforma num bêbado SD64: Tentou me atirar do carro em movimento e, uma noite dessas, me deu uma surra
SD65: Segundo ele, todo homem deve ter duas mulheres
SD66: ...para ver se consigo domar a ‘fera’ Seção Claudia responde: Aqui, Carmen responde, Ano XI, nº 133, p. 05, out de 1972.
As posições de esposa e amante, nessa trama discursiva, tem a peculiaridade de terem sido invertidas: a esposa entra depois na cena protagonizada, anteriormente, pelo atual marido e pela atual amante, porque o homem se casa com outra mulher, que não a mãe de seus filhos, e com a qual se relacionava maritalmente.
Na SD51, há uma projeção da atual esposa, no início da carta, como engenheira e mantenedora da casa, alguém com formação acadêmica e bem remunerada, marcando um distanciamento com a imagem produzida para a “amante”: “fofoqueira” (SD56), vulgar. Traz, por consequência, a imagem de um marido ‘escalador social’, confortável na posição de ‘sustentado pela mulher’. Essa imagens, como nos lembra Orlandi (2015), não surgem do nada: assentam-se “no modo como as relações sociais se inscrevem na história e são regidas” (p. 40), fazendo com que o dizer da interlocutora em A, articulado em um jogo de imagens, seja ajustado a seus objetivos. O mito da Medusa, inscrito em uma rede de memória, ressoa, reverberando sentidos que colocam a outra na posição de algoz, pois tanto a esposa quanto a amante punem a rival e mantém o homem intocado.
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A esposa se projeta, ainda, como alguém que tinha esperança de ser feliz, casando-se com um homem que se relaciona(va) com uma mulher violenta e inconformada, por sua vez, com o casamento do companheiro (e pai dos seus filhos), o que nos permite considerar a imagem de uma mulher otimista e ingênua. A imagem de esperançosa, porém, ao fim da carta, é substituída pela imagem de insegura e duvidosa sobre um futuro feliz junto ao marido. Considera a possibilidade de recomeçar a vida sozinha em outro lugar, ainda que não descarte permanecer no casamento por mais “dois anos” (SD53), prazo esse, imaginariamente, necessário, para “domar a fera” (SD53).
Ao longo da carta, temos a imagem projetada de si como um sujeito passivo diante da violência a qual se submete, como sujeito vocacionado à vitimização (alusão ao título da carta), configurando uma relação hierárquica, porque é uma relação de força entre esposa e marido, formalizada pela “atribuição de lugares socialmente definidos” (LAGAZZI: 1988, p. 90). Ocorre que tanto a violência física quanto a violência simbólica se fazem presentes em muitas relações interpessoais.
O procedimento amoroso nem sempre é pacífico. Inclui brigas violentas, sofrimentos verdadeiros, separações que superamos ou não. É preciso reconhecer que é uma das experiências mais dolorosas da vida subjetiva. (...) O amor tem também seu próprio regime de contradições e violências. (...) O drama amoroso é a mais clara experiência do conflito entre a identidade e a diferença (BADIOU e TRUONG: 2013, p. 41).
No título “uma vocação de vítima”, dado à carta, um gesto interpretativo de
Claudia, o sujeito-conselheira (interlocutora em B) diz ser uma tendência do sujeito-
consulente (interlocutora em A) se manter em uma posição inferiorizada e submissa em relação ao marido, logo, confortável (porque é vocacionada) nessa trama amorosa, em que é simbólica e fisicamente violentada pelo marido e pela rival. A interlocutora em B, em seu dizer, alerta
SD67: ela (ex-mulher) não se atreveria a incomodar você, se seu marido não permitisse. Mas ele a estimula de todas as formas (...). Se puder, saia dessa.
Na SD64, conforme podemos observar, projeta-se a imagem do marido de um homem violento e a própria imagem de uma mulher passiva diante das ações dele, justificado pelo fato de que “a execução do projeto de dominação-exploração da categoria social homens exige que sua capacidade de mando seja auxiliada pela violência” (SAFFIOTI: 2001, p. 115). A relação de ambos (casal projetado nesta carta)
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traz como legítima a dominação de um em detrimento da submissão da outra porque é, em si, uma relação de poder, em que a mulher (apenas por ser mulher), historicamente, ocupa a posição de vítima, punida simbólica e fisicamente, sem, com isso, deixar, ao mesmo tempo, de, em seu dizer, punir a rival (outra mulher), categorizando-a como “fofoqueira” (SD56), “psicopata”, “viciada” (SD57) e desbocada (SD58).
A imagem de domadora de “fera” (SD53), esboçada ao fim da carta, nos parece em desalinho, ainda que a continue projetando como um sujeito esperançoso e inocente. A “fera” que se vê capaz de amansar seria o marido ou a rival? Amansar a fera funcionaria como a domesticação do marido ou a limitação do trânsito da rival?
A imagem produzida da amante é extensa e negativa: ameaçadora, mentirosa, “fofoqueira” (SD56), perigosa, “psicopata”, “viciada” (SD57), despudorada. Ela seria onipresente na vida do casal desde o noivado, apesar das promessas do então noivo em dissolver o vínculo. A imagem projetada do marido como mentiroso, debochado, bêbado, violento e machista aproxima-se à imagem projetada da amante e distancia-se da imagem projetada de si mesma, colocando-a como uma personagem em dissonância com os outros personagens, uma intrusa na cena, anteriormente, do dois. Vale ressaltarmos que, ao dizer que o marido “se transforma num bêbado”, está não-dizendo que ele é bêbado; o verbo transformar produz efeitos outros que indicam que o marido assume outra forma que não a sua: “se transforma num bêbado”, em outro (uma persona) que não é ele mesmo. Ao dizer isso e não aquilo sobre si e sobre a rival, a interlocutora em A retoma o que Magalhães (2011) aponta como sendo o “ideário patriarcal sobre a condição feminina” em que a mulher da casa é a santa, “cuja função é perpetuar os padrões da sociedade” e a da rua é a puta, “a desclassificada” que, simultaneamente, deflagra “a imoralidade da sociedade, aquilo que deve ser extirpado” e valoriza a santa e os “padrões morais por ela representados” (p. 49).
Tabela 3
“A culpa não é da outra”
Imagem de si Referente (amante) Referente (marido) SD68: Sempre tivemos um
convívio ótimo, com muita
compreensão e
companheirismo
SD69: Tomei a decisão de
SD72: Uma jovem
secretária estava tomando astutamente conta da situação
SD73: Ela já era praticamente dona de um
SD75: Começando a atravessar a terrível crise dos 40 anos
SD76: Sempre tivemos um convívio ótimo, com muita
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entrar em contato com ela SD70: Não tenho mais confiança nele
SD71: Espero ansiosa sua opinião
dos nossos automóveis SD74: O que ela estava fazendo era errado, pois estava afetando a estrutura familiar de sete pessoas
companheirismo
SD77: Ótimo pai, bom marido e por demais trabalhador
SD78: Sempre teve boa conduta e nunca foi dado a esse tipo de vida
SD79: Perdeu toda a noção do que ficava bem e do que ficava mal
SD80: Estava expondo sua conquista
Seção Claudia responde, Ano XVI, nº 182, p. 04, novembro de 1976.
Nestas sequências discursivas, as imagens projetadas pelo sujeito-esposa do marido e da amante se assemelham às imagens projetadas, por exemplo, no mito da Medusa e no mito da Eva: a traição do marido é justificada pela “terrível crise dos 40 anos” (SD75) e pela astúcia da “jovem secretária” (SD72) que seduziu o marido, fazendo com que ele perdesse a noção do bem e do mal. Ao dizer que o marido foi um sempre-já companheiro, compreensivo, “ótimo pai, trabalhador” (SD77) até ser ‘vítima’ de uma jovem interesseira e destruidora de família, o sujeito-esposa retira dele a incumbência pela traição e a coloca sobre a amante.
Dizeres sobre a crise da meia-idade e a secretária-puta, alojados na memória discursiva da interlocutora em A, se relacionam com dizeres presentes e delineiam o discurso (ORLANDI: 2015) por ela produzido, em que a “jovem secretária” (SD72) é projetada como responsável pelo adultério cometido pelo marido vulnerável às suas artimanhas e à “crise dos 40 anos” (SD75), afinal, “toda produção discursiva (...) faz circular formulações anteriores, já enunciadas” porque “toda formulação apresenta em seu “domínio associado” outras formulações que ela repete, refuta, transforma, denega...” (COURTINE: 2009, p.104).
Pela imagem projetada de si, o sujeito-esposa, apesar de compreensiva, tem a atitude de entrar em contato com a amante e exigir dela a conduta ‘certa’ de não afetar, “a estrutura familiar de sete pessoas” (SD74): o ‘acerto de contas’ com a amante garante a impunidade do marido. Ao discursivisar sobre a preocupação em manter “a estrutura familiar de sete pessoas” (entendida por nós como sendo composta por ela, pelo marido e por cinco filhos), a instituição familiar, um dos aparelhos ideológicos de Estado
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(ALTHUSSER: 1974), se apresenta como um bem a ser preservado, porque, aos moldes da família tradicional, deve ser única, sacralizada e definitiva (ROUDINESCO: 2003), corroborado pela escolha do vocábulo “estrutura” para se referir à família, deslizando sentidos e a ressignificando como sólida e sustentável. A sua desestruturação, em contrapartida, transgrediria os preceitos de indissolubilidade delineados durante o patriarcado, pois, como nos lembra Beauvoir (1980), o casamento moderno não deixou de perpetuar o passado.
A interlocutora em B, por meio do título da carta (“A culpa não é da outra”), corrobora a imagem de culpada que o sujeito-esposa faz da amante do marido e alerta para o equívoco dessa projeção ao inserir o advérbio de negação, que funcionaria “como um questionamento metalinguístico” (FEDATTO: 2015, p. 96) à afirmação da interlocutora em A de que a culpa pela formação do triângulo amoroso é da “jovem secretária” (SD72), instaurando “uma polêmica entre pontos de vistas antagônicos” (IDEM), talvez inconciliáveis, entre diferentes posições-sujeito. E, ao dizer que a culpa da traição não é da outra, formula um interdito sobre quem é o responsável pela formação do triângulo amoroso: o marido. Trazemos o interdito como fundador e constituinte do discurso, atuando como um impeditivo do se dizer tudo, possibilitando ao leitor (em nosso caso) completar o que ficou por dizer, pois “o dizer é sempre faltante, é sempre meio-dito, dito no meio, dito pela metade: inter-dito” (TFOUNI: 2013, p. 40). Na resposta dada à carta, entretanto, a interlocutora em B diz, explicitamente:
SD81: não me canso de repetir que quem tem compromisso com a esposa é o marido, e não a “outra”. (...) O ressentimento e o rancor da mulher enganada devem se dirigir a quem o enganou – isto é – o marido.
.
Podemos supor que o fato de ela (sujeito-conselheira) não se cansar “de repetir” que a culpa pela traição é do marido se dá pela também repetência de dizeres (do sujeito-consulente) que colocam “a outra” como responsável pelo adultério cometido pelo marido, tal qual ocorre no mito da Medusa.
Apesar de se projetar como insegura em relação ao marido, não confiando mais nele, clama ansiosamente, por uma resposta de Claudia, marcando a si como um sujeito duvidoso sobre a manutenção ou o fim do casamento, este bem tão precioso, e o marido como indigno de confiança.
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Tabela 4
“Meu marido me traiu”
Imagem de si Referente (amante) Referente (marido) SD82: Meu mundo caiu
SD83: Exigi que ele não a visse mais
SD84: Não confio mais nele
SD85: Quero continuar casada
SD86: Meu marido se envolveu com uma conhecida
SD87: Garantiu que somente ela estava apaixonada
SD88: Meu marido se envolveu com uma conhecida
SD89: Não confio mais nele
Seção Claudia responde: Interpessoal, Ano 37, nº 02, p. 12, fevereiro de 1997.
O “quero continuar casada” (SD85) nos traz a imagem projetada do sujeito- esposa sobre si como esposa-para-sempre: ter o marido mesmo que a imagem projetada dele seja de não-confiável e leviano. Sartre (2014) afirma que toda pessoa, ao amar, se coloca à inteira disposição do amado, transcendendo, absolutamente, como uma coisa a ser, pelo outro, apropriada, assim, “a liberdade do amante, em seu próprio esforço para fazer-se amar pelo outro como objeto, aliena-se desaguando no corpo-para-outro, ou seja, produz-se surgindo na existência com uma dimensão de fuga para o outro” (p. 147). Parece-nos, pelas imagens projetadas de si, que a interlocutora em A se arremessa ao marido, alienando-se da traição ocorrida e da sua desconfiança em relação à fidelidade dele, o que se confirma com esta SD em que a interlocutora em B pergunta: SD90: Casada com a realidade ou com uma ilusão?
O advérbio de negação “não”, materializado na SD83 e na SD84, “coloca em cena o repúdio, a refutação, a recusa” a algo ou a alguém, atuando como “um marcador de tensão” (FEDATTO: 2015, p. 96), pois não marca o que é, mas o que não é: chama atenção para um ato anterior (envolvimento com amante) que gerou uma reação negativa (“não a visse mais” – SD83, “não confio” – SD84). Ao dizer o “não”, está se contrapondo ao sim.
O título de “meu marido me traiu”, apesar de ter sido dado por Claudia, traz o pronome possessivo “meu” e o oblíquo “me”, marcas de primeira pessoa, assim, o interlocutor em B se coloca na posição da interlocutora em A, atestando que ela (sujeito-consulente) foi traída pelo marido e coloca a traição dele como cerne do
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problema. Assim, o título, ainda que dado pela revista, é parte do dizer da esposa (interlocutora em A) e projeta o marido como responsável pela traição.
A imagem de que a amante (“conhecida” – SD86) vive um amor não correspondido com o marido é trazida pelo discurso atravessado da outra sobre o dela, e, ao trazer uma enunciadora exterior ao seu discurso, o sujeito-esposa confirma a presença do outro no discurso do um, alteridade essa que constitui todo dizer (AUTHIER-REVUZ: 1998). Essa imagem projetada, de que a amante vive um amor unilateral, atua como um acalanto a despeito da traição, pois, ao dizer que “somente ela estava apaixonada” (SD87), ele diz que ele próprio jamais esteve apaixonado: ao dizer x, ele não diz y. E, porque ele não estava apaixonado, não se comprometeu inteiramente à outra (SARTRE: 2014), minimizando os efeitos da traição.
O sujeito-esposa se projeta como aniquilada pelo suposto fim de seu “mundo”, SD85, (cujo sentido, em um movimento parafrástico, desliza para a palavra casamento), mas também capaz de reagir, tomar as rédeas, e exigir que o caso acabe. O bem precioso, o casamento, porque “selava (e ainda sela) o destino e a realização de mulher de ser esposa, mãe e dona de casa” (KEHL: 1998), precisa ser mantido a qualquer custo65 e, para tal, formula a imagem de si como decidida, lutadora, focada.
Tabela 5
“A ex perturba”
Imagem de si Referente (amante) Referente (marido) SD90: Estou a ponto de
explodir
SD91: A ex-mulher do meu marido não nos deixa em paz
SD92: A filha, de 11 anos, sempre me maltrata a mando da mãe
SD93: Ele diz para não ligar
Seção Relações Delicadas, Ano 47, nº 03, p. 51, março de 2008.
Esta carta, em especial, não traz exatamente a traição como referente, mas aborda o desdobramento da separação e do posterior casamento do ex-marido com outra mulher.
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Esta carta é retomada na subseção “a reificação do marido”, onde tratamos, especificamente, da necessidade do sujeito-esposa em (man)ter o casamento.
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Nas imagens, aqui, projetadas, verificamos que a outra já foi a uma na cena do dois e parece não estar satisfeita com a mudança de posição. A posição de ex-esposa parece não ser a posição desejada, mas a posição imposta. As posições de amante e esposa se inverteram, escorregaram e, nesse deslocamento, a enunciadora se filiou a outras redes de constituição, projetando, com isso, imagens outras de si e dos outros envolvidos na trama discursiva, justamente, porque a sua relação de identificação com o sujeito do saber foi alterada (ORLANDI: 2015).
A imagem projetada pelo sujeito-esposa para a enteada é de uma menina má (“sempre me maltrata” – SD92), apesar dos 11 anos, e manipulada pela mãe para acabar com seu sossego. Temos aí projetada a imagem da amante como manipuladora, inescrupulosa, pois é capaz de usar a filha para atingi-la (sujeito-esposa). A imagem projetada de si, por conseguinte, é de alguém frágil, incapaz de reagir aos maus tratos de uma criança e de romper com as constantes tentativas da ex-esposa de perturbar (alusão ao título) a cena do dois.
O marido é projetado como alguém displicente em relação às investidas da ex- esposa: “ele diz para não ligar” (SD93), apesar de ser incluído, pelo pronome oblíquo “nos”, como vítima da ex-esposa na imagem projetada pelo sujeito-esposa (“não nos deixa em paz” – SD91). O homem é disputado e fica passivo enquanto elas se rivalizam: a ex-esposa é dedicada a não deixar o ex-marido e a esposa (“nos”) “em paz” e o sujeito-esposa, por sua vez, é vítima (reconhecida) das investidas da outra, pois está emocionalmente abalada com a abordagem da outra na cena do dois.
A imagem da interlocutora em A sobre si produz efeitos de sentido no modo de como se percebe como esposa. Mas, ao dizer sobre o casamento, entraram em jogo também as projeções das imagens que faz do marido, da ex-mulher do marido, da enteada (referentes do discurso, de quem, pois, sobre se diz), além de considerar, sobremaneira, os efeitos que suas palavras teriam sobre a interlocutora em B, porque o mecanismo de antecipação, ou seja, de se colocar no lugar do seu “ouvinte” (leitor de sua carta, em nosso caso) e imaginar o efeito que seu discurso produzirá sobre ele, regula toda a sua argumentação. Assim, ao se colocar como alguém “a ponto de explodir” (SD90), por causa das interferências da ex-mulher do marido e da enteada em seu casamento, suspeita produzir determinado efeito sobre a interlocutora em B, a partir do qual todo o seu processo de argumentação foi direcionado (ORLANDI: 2015)
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Mitos como o da Medusa, Io, Eco e Afrodite, formulações feitas em outro tempo e em outro lugar, esquecidas pela interlocutora em A, têm seus sentidos cristalizados