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Discursos de esposas e amantes

Subseção 4.1: O JOGO IMAGINÁRIO

4.1.2 Interlocutora em A: sujeito-consulente-amante

Tabela 6

“A outra: mais um depoimento”

Imagem de si Referente (esposa) Referente (amante) SD94: Sou outra de amor a

conta gotas, de viver e morar sozinha

SD95: Amo com dedicação SD96: Eu sofro com a ideia de uma separação definitiva dos dois. Ou do conhecimento, da parte dela, de nosso amor. SD97: Eu amo essa criança e devo defendê-la

SD98: Sofro sua ausência

SD99:Tenho meus

momentos de ciúme e revolta

SD100: Prefiro ser pouco feliz a tentar ser muito feliz em troca do sofrimento de três pessoas

SD101: Não deve ser pecado, desde que não causemos sofrimento aos

SD103: É dessas mulheres que jamais aprenderão a dar amor, carinho, compreensão,

companheirismo, além dos deveres de dona de casa SD104: Preterida por outra SD105: Ela nunca entenderá SD106: E recebo amor SD107:...em troca do sofrimento de três criaturas SD108: Nós nos amamos

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outros

SD102: Não tenho cultura

Seção Caixa Postal, Ano IX, nº 91, p. 06, abril de 1969.

Esta carta tem a peculiaridade de ser uma repercussão (comentário) a um artigo publicado em janeiro de 1969, intitulado “Três Leitoras Falam da Outra”, o que, conforme nos traz Foucault ([1970] 2000), seria um “comentário”, porque tem a característica de fazer reaparecerem palavras de um texto primordial pré-existente. Apesar de ter em B seu/ua interlocutor/a, não prevê uma resposta, por já ser uma resposta ao artigo. Ressaltamos que na subseção “o discurso de amor” esta carta será retomada, momento em que trataremos, especialmente, do amor discursivizado por esta enunciadora.

A posição de outra é assumida e justificada, sobretudo, pelas imagens projetadas de si mesma que revelam as contradições deste sujeito-amante, lembrando que todo sujeito é determinado por seus “exteriores”, por evidências sobre as quais não tem conhecimento nem controle, que repousam no inconsciente que o afeta e na ideologia que o interpela (PÊCHEUX: [1969] 2014, [1975] 2014) e, portanto, o torna contraditório: “amo com dedicação” (SD95), mas “sofro sua ausência” (SD98).

A culpa permeia a imagem que projeta de si: sofre pelo sofrimento que pode causar à família do amante, caso o triângulo seja descoberto. Em seu dizer, recupera o pré-construído sobre o pecado, dito antes e em outro lugar, marcando sua inserção em um FD cristã, a qual determinou o seu dizer, a partir da sua posição em um contexto sócio-histórico, de que o relacionamento com um homem casado (pelas leis de Deus), talvez, não seja pecado se não causar sofrimento aos outros: “não deve ser pecado, desde que não causemos sofrimento aos outros” (SD101). O advérbio “não” aparece, nesta SD, representando uma “oposição”, uma “inversão” ao que é pecado e, segundo Fedatto (2015), os marcadores de negação são palavras que significam, aludindo ao “silêncio fundador”, conceito cunhado por Orlandi, porque ao dizer “não”, pressupõe-se a pré-existência de algo, logo, “não” “não tem a ver com ausência, com abandono” (p. 32): para ser não-pecado precisa haver o pecado. O mesmo procedimento se adequa quando projeta a imagem de si mesma de sem cultura: “não tenho cultura” (SD102), também uma inversão, uma oposição a ter cultura.

O sofrimento dela é permitido: sofre pela “ausência” (SD98) do homem, pela sua solidão. Impedir o sofrimento de outros vale mais do que a própria felicidade, de

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forma a projetá-la imaginariamente como ‘generosa’. Em seu dizer, tenta, assim, antecipar o sentido que, acredita, suas palavras produzirão sobre o leitor (interlocutor em B), pois “todo sujeito tem a capacidade de experimentar, ou melhor, de colocar-se no lugar em que seu interlocutor ‘ouve’ sua palavra” (ORLANDI: 2015, p. 37).

Na SD100, mensura a felicidade entre os advérbios, em oposição, “pouco” (na posição de amante) e “muita” (se estivesse na posição de esposa), marcando o seu conformismo em ser a outra pouco feliz para não ser a esposa muito feliz e pecadora, por ter causado o sofrimento de outros. O estado de felicidade, atrelado ao casamento, está relacionado à própria condição feminina, ou à construção do que pertence ao feminino, pois, como nos lembra Beauvoir ([1949] 1980), “o destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento” (p. 187).

A imagem de conformada se opõe a imagem de ciumenta e revoltada com a situação, prevalecendo a imagem da boa-moça que sofre em silêncio para não causar sofrimento aos outros. Discursivamente, no entanto, não é porque não foi dito que “não está lá” porque o não-dito, impreterivelmente, “já está sempre lá, implícito e inegável” (ORLANDI: 2008, p. 69), logo, ao não dizer para a esposa do amante da sua existência, camufla o dizer, mas não o torna inexistente.

Sente-se amada pelo amante: “recebo amor”; “nos amamos” (SDs 106/108). O pronome oblíquo “nos” inclui o amante na cena discursiva e, nesse movimento, diz sobre o amor dele. As imagens projetadas dele também são contraditórias, pois mesmo amando a amante, sofreria com o fim do casamento que causaria o “sofrimento de três criaturas” (SD107), funcionando como uma espécie de justificativa para manterem o triângulo amoroso.

A imagem projetada da esposa é a de quem se dedica aos afazeres domésticos, mas falha nos afazeres de amante: não sabe amar nem dar carinho, é incompreensiva, não é companheira e jamais entenderia o porquê de estar sendo preterida por outra. Na imagem negativa produzida da esposa, a interlocutora em A produz uma imagem positiva de si: ela tem o que a esposa (preterida) não tem, antecipando, do seu lugar de amante, assim, os efeitos do sentido que o desvelamento do caso extraconjugal do marido teria sobre sua esposa.

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Tabela 7

“Amor e ódio podem se confundir”

Imagem de si Referente (esposa) Referente (amante) SD109: Eu estava

desesperada com a falta de afeto

SD110: Eu me entreguei a ele de corpo e alma

SD111: Eu me senti tão bem e feliz

SD112: Minha alegria foi embora (...) era casado SD113: Chego a odiá-lo SD114: Talvez eu tenha medo de ficar só

SD115: Ouvi dizer que existe uma cirurgia para reconstruir a virgindade que para mim é muito importante

SD116: Nunca o perdoei SD117: Mas na hora fico uma doçura, esqueço tudo

SD118: Não pode largar a mulher por causa dos filhos

SD119: Com a promessa de que nos casaríamos em breve

SD120: Ele resolveu contar a verdade

SD121: Perguntei-lhe se era insensível, se não estava arrependido

SD122: Ele disse que não se arrependeria nunca, pois gostava muito de mim e essa era a única forma de me possuir

SD123:...por ter me enganado

SD124: É um mentiroso SD125: Já me contou sobre uma outra mulher com quem teve um filho

SD126: Outro dia ele me disse que queria um filho e que, portanto, não iria mais comprar pílula

Seção Aqui, Carmen responde, Ano XI, nº 134, p. 05, novembro de 1972.

As imagens que o sujeito-amante produz de si são antecipadas no título dado à carta por Claudia: “Amor e ódio podem se confundir”. Ela ama (“me senti tão bem e feliz” – SD111; “fico uma doçura, esqueço tudo” – SD117) o amante ao mesmo tempo em que o odeia (“chego a odiá-lo” – SD113) por tê-la enganado. É um sujeito que, ao mesmo tempo ama e odeia, que oscila, portanto, entre dois polos. Essa ambiguidade se dá porque, apesar da mágoa pela traição, ela tenta corresponder ao que a sociedade esperava (e espera) das mulheres: “o recato, a docilidade, uma receptividade passiva em relação aos desejos e às necessidades do marido” (KEHL: 1998, p. 45).

A virgindade é um ponto crucial na trama discursiva: ao entregar-se a ele “de corpo e alma” (SD110), ela se torna refém dele: projeta a imagem de que nenhum outro

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homem a quererá por não ser mais virgem. A castidade, uma das premissas na construção da imagem da boa-moça-para-casar é um pré-construído no sistema patriarcal, em que a virgindade funcionava como um ‘selo de qualidade’ e garantia para o futuro marido. Além de filiada à FD patriarcal está também filiada a FD católica, pois entregar-se para alguém que não o marido configuraria um pecado: o sujeito-amante, logo, diz o que pode e deve ser dito a partir do lugar onde se insere. Del Priore (2014), ao tratar sobre o casamento no século XIX, ratifica: “o culto à Virgem e a influência da Igreja Católica eliminavam a possibilidade de ‘perder a honra’” (p. 45).

Ela (interlocutora em A) entregou-se a ele porque o acreditava solteiro e disposto a desposá-la e, ao descobrir que não casaria com ela, se desespera por não possuir mais o selo de intacta (“ouvi dizer que existe uma cirurgia para reconstruir a virgindade que para mim é muito importante” – SD115) e quer recuperá-lo, forjando a sua ‘pureza’, criando um hímen falso que, crê, poderá lhe garantir um futuro casamento. Parece-nos que falsear a virgindade, por meio da reconstituição do hímen, era um artifício ao qual as mulheres não raramente recorriam, conforme podemos verificar neste anúncio:

(...) mas no caso de quererem ainda parecer ou fingirem que o sejam para certas pessoas, que sejam fáceis de se capacitarem de tais coisas se lhes aplica um novo remédio de cuja aplicação resulta um novo hímen, sendo o seu preço medíocre e o seu uso facílimo, o qual é composto de um emoliente (Fragmento publicado em um jornal, no início do século XIX – DEL PRIORE: 2014, pp 52/53)

Todo discurso é constituído pela exterioridade (e não só) e pelas relações das formações discursivas às quais o sujeito do dizer está filiado e que, por sua vez, se remetem ao interdiscurso, assim, o sujeito-amante fez retornar uma memória de algo já- dito, já-construído sobre a virgindade, projetando, pois, para o presente, algo formulado no passado, justamente, porque discursos sobre a castidade continuam se movimentando, circulando, produzindo sentidos (ORLANDI: 2008).

No dizer da interlocutora em A, projeta-se a imagem do amante de mentiroso, enganador e insensível a sua triste condição de solteira-não-virgem. O patriarcado imprimiu a virilidade como chancela do macho: quanto mais filho, mais másculo. Pela imagem projetada dele (sujeito-amante), ter filho com as mulheres com as quais se relaciona é uma condição: ele tem filhos com a esposa, filho com uma amante do passado e pretende ter filho com a atual (SD126). Essa repetibilidade, essa retomada de dizeres sobre a masculinidade, que foram outrora regularizados, constituem uma

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memória do que é ser macho, pois “a noção de memória discursiva diz respeito à existência histórica do enunciado no seio de práticas discursivas, reguladas pelos aparelhos ideológicos” (COURTINE: 1982, p. 52 apud INDURSKY: 2011, p. 72). A promessa de casamento feita por ele foi, supostamente, uma artimanha para “possuir” a amante, porque nas imagens que projeta das mulheres, a de mulher-objeto parece-nos ser uma imagem primordial.

Observamos que o discurso do amante atravessa o discurso da interlocutora em A: “ele disse que” (SD122); “já me contou” (SD125); “ele me disse” (SD126). O discurso do outro (amante) é trazido para o discurso dela (sujeito-amante): essas formas de dizer vão alterar a aparente unicidade do fio condutor do discurso, pois inscrevem o outro no dizer do um, protegendo, assim, o discurso do outro, garantindo a sua presença e, nessa inserção, diferencia o seu dizer do dizer do amante (“isso-fala”) (ORLANDI: 2008).

A imagem projetada da esposa pela interlocutora em A nos chega, minimamente, atravessada pelo discurso do amante/marido que a projeta como mãe cuidadosa e dependente dele para criar os filhos. E ao dizer que o amante “não pode largar a mulher por causa dos filhos” (SD118) justifica a não intenção dele (amante) em romper com o triângulo amoroso. Verificamos que em outras cartas também os filhos são evocados como ‘desculpa’ para os amantes não se separarem das esposas o que, de alguma forma, conformam, confortam as amantes. Mas não só, ao dizer sobre os filhos não diz sobre a esposa: a preocupação não é com a esposa é só com os filhos (não-rivais). Vale ressaltar que o amante tem filho com outra mulher em posição de não-esposa e pretende ter um filho com ela (também não-esposa): “Já me contou sobre uma outra mulher com quem teve um filho” (SD125); “outro dia ele me disse que queria um filho” (SD126). Os filhos bastardos, obedecendo aos preceitos defendidos durante o patriarcado, continuam, assim, ocupando uma posição hierárquica inferior aos filhos denominados “legítimos”. Lembramos que, no Brasil-colônia, os filhos bastardos compunham o núcleo dos membros secundários da família junto a outras categorias de menor importância: serviçais, amigos, afilhados etc. (FREYRE: 2004).

Tabela 8

“Ela tem conflitos e busca apoio, mas deveria ouvir a sua consciência” Imagem de si Referente (esposa) Referente (amante)

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horrorizados o quanto nos amávamos

SD128: Sabemos do perigo, tentamos romper, mas não conseguimos SD129: Não há, porém, sentimento de culpa entre nós

SD130: Carmen: você nos condena?

para evitar escândalos querido

SD133: Descobrimos horrorizados o quanto nos amávamos

SD134: Ele tolera a esposa SD135: Sabemos do perigo, tentamos romper, mas não conseguimos

Seção Carmen responde, Ano XVIII, nº 212, p. 04, junho de 1979.

No início da carta da qual foram recortadas as SDs desta tabela 8, a interlocutora em A diz ser casada e projeta uma imagem extremamente negativa do marido, para justificar o seu caso extraconjugal. Optamos por nos deter às sequências que tratam da sua posição de amante, de forma a atender o proposto nesta subseção.

Os pronomes pessoais e oblíquos de primeira pessoa do plural, assim como os verbos conjugados na primeira pessoa do plural colocam o amante na cena discursiva, na fonte do dizer: o amante não é só alguém de quem se diz, mas alguém que diz, ainda que seu dizer (do outro) chegue pelo dizer do um à revelia. Ao incluir o amante na trama discursiva, o dizer da interlocutora em A o torna cúmplice do amor perigoso, projeta a imagem dele como de alguém que ama e, como ela, está disposto a correr riscos (“descobrimos”, “nos amávamos”; “sabemos”; “entre nós”; “nos condena” – SDs127/8/9/130): ela diz não amar solitariamente. Indursky (1992), em sua reflexão sobre o uso do “nós” “na fala dos quarteis”, auxilia nossa discussão. O nós seria uma espécie de “eu” amplificado, porque inclui o dizer do outro no dizer do um. A pessoa não-discursiva (o amante, em nosso caso) ao associar-se à pessoa discursiva (a interlocutora em A) é integrada ao discurso. Ao usar o “nós”, o sujeito-consulente pega emprestada a voz do amante, e, consequentemente a inclui no seu dizer e, nesse movimento, torna a palavra de ambos uma palavra comum.

O amante é um “querido” (SD132) amigo dela e do esposo, o que corrobora o observado em outras cartas: as mulheres, quando traem o marido, tendem a fazê-lo com alguém das suas relações cotidianas, encontra o amante (e não o procura) em ambientes específicos e por ela frequentados (no local de trabalho, no consultório médico, na casa).

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São projetadas imagens de que ambos os amantes se horrorizaram com o amor que existe entre eles e do perigo de a relação ser desvelada. O medo maior parece ser do amante, que “tolera” (SD134) a esposa por medo do escândalo que ela, porventura, fará. Temos aí projetada a imagem de uma esposa insuportável e escandalosa, responsável, portanto, por impedir que os amantes assumam seu amor plenamente. Por consequência, projeta-se a imagem do amante de tolerante, parcimonioso e discreto, e a imagem de si como destemida, já que não menciona o mesmo medo em relação à atitude do marido diante de uma possível descoberta da traição. A esposa do amante seria culpada, e não o amante, pela manutenção do triângulo amoroso, fazendo ressoar, ainda que dizendo do lugar de amante, o mito da Medusa.

Ao dizer que “não há, porém, sentimento de culpa entre nós”, projeta-se, na SD129, a imagem de si e do outro como não-culpados pelo triângulo, que poderíamos, por envolver quatro sujeitos, tratar como quadrado (composto por dois triângulos): afinal, ambos traem e são pivôs da traição do outro. Entendemos que, ao dizer “não há culpa”, a enunciadora pressupôs um “há culpa”, porque a negação não parte de um vazio, mas de uma inversão de algo pré-existente.

Ao dizer que não se sentem culpados (os amantes) - SD129 - e ao perguntar a Carmen (interlocutora em B) se ela os condena - SD130 - desliza um sentido outro de que a imagem de si é de um sujeito incomodado com a imagem que será projetada deles por B: primeiro marca a não-culpa para depois perguntar se o adultério é condenável. Comenta Carmen (B):

SD136: o que deseja, parece-me bem claro, é que eu apazigue a sua consciência, eu a justifique, eu lhe dê a benção.

Pelo título, a imagem produzida por Claudia do sujeito-consulente é a de alguém em conflito entre a culpa e a não-culpa por ser adúltera e por ser pivô do adultério do outro e que tem a ‘consciência pesada’ por fazê-lo. No dizer da interlocutora em B, pela referência à “consciência” da interlocutora em A, projeta-se a imagem de culpada porque ela está interferindo na cena do dois, algo condenável pelo senso comum. Logo, projeta-se a imagem de que o sujeito-consulente não se sente culpada, mas deveria: afinal, a mulheres que ameaçam o casamento de outros não são inocentes. A inserção da palavra “benção” no comentário de B corrobora nossa premissa, pois retoma um dizer pré-construído pela Igreja Católica de que o adultério é refutável, apesar da culpa, historicamente, ter pesos distintos sobre homens e mulheres, conforme ratificado por

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este fragmento de uma carta escrita pelo médico José Lino Coutinho a sua filha na primeira metade do século XIX:

O homem por sua vida mais livre, vivendo quase sempre fora de casa, e mesmo por sua educação, é mais facilmente tentado a cometer uma infidelidade conjugal, sem que nela ninguém reflita e sem que por isso grande nódoa se lhe segue. Quanto à feminina: o mundo olha com indulgência a traição cometida pelo homem, quando não desculpa de maneira alguma aquela mulher (DEL PRIORE: 2014, p. 47).

A indulgência sobre a traição masculina e a inclemência sobre a traição feminina nos chegam como uma normalidade: um é assim mesmo desde sempre, porque o senso comum funciona, justamente, para “homogeneizar e tornar coerente o comportamento do sujeito para poder controlá-lo e dirigi-lo segundo os interesses da Religião e/ou do Estado” (LAGAZZI: 1988, p. 29). E nesse movimento regulador, as mulheres saem em desvantagem.

Tabela 9

“O marido quer o desquite para casar novamente, mas a esposa não admite” Imagem de si Referente (esposa) Referente (amante) SD137: Apaixonei-me SD138: Decidimos ir embora SD139: ...dominado pela mulher SD140: Sua esposa começou a fazer todo o tipo de chantagem emocional para mantê-lo junto dela

SD141: Tentou suicídio, fez greve de fome e diz que nunca admitirá a separação não se importando se o marido a ama ou não SD142: Ela jurou que, se ele sair de casa, ela se mata e mata os filhos dele

SD143: O quanto ela está sendo egoísta, o quanto perdeu o orgulho

SD144: Por um homem

maravilhoso, que

representa tudo que sempre desejei na vida

SD145: Ele se confessa eternamente dominado pela mulher, em todos os sentidos

SD146: Ele sempre procurou colocar panos quentes

SD147: Decidimos ir embora

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As imagens projetadas no dizer da interlocutora em A para a esposa do amante e do amante estão em oposição: ela é dominadora, ameaçadora, passional; ele, “dominado” (SD139), ameaçado, apaziguador. Nessa construção espelhada das imagens, ela coloca o amante, homem “maravilhoso” (SD144) e ideal, como vítima e refém da esposa, chantagista, “egoísta” (SD143) e sem orgulho próprio.

A esposa é a responsável por eles (amantes) não irem “embora” (SD138). O “embora” funciona, no imaginário dela (sujeito-amante), como um lugar outro onde as memórias do casamento do amante seriam apagadas e eles, apaixonados, recomeçariam uma nova vida como se fosse uma tabula rasa. O domus surge como o lugar da família em contraposição ao “embora”: “se ele sair de casa” (SD142)... A manutenção do marido “junto” (SD140) a ela (esposa) se dá no âmbito do privado e independe da reciprocidade do amor. Para entendermos melhor a importância dada à vida entreparedes, retomamos o conceito de casa-grande, lapidado por Freyre (2004), como sendo coração e cérebro, local, portanto indispensável à manutenção da unidade da família e da sua saúde financeira. Mesmo o conceito de casa tendo sido redimensionado com o passar dos anos, manteve-se como um reduto de intimidade e, de certa forma, como um castelo em que a mulher é a rainha, se contrapondo ao homem que reina na

platea. Assim, ao se dizer sobre a família, se diz do lar, da casa, que é seu universo.

Apesar da imagem de ambos (amantes) como de decididos a partir, também é projetada a imagem de temerosos ao fazê-lo, diante de uma possível trágica repercussão: a morte de um (ou mais) dos envolvidos na cena discursiva. A imagem projetada da esposa se assemelha a de Medeia, feiticeira bárbara, protagonista de uma clássica narrativa trágica, que, para vingar-se do abandono do marido, mata os filhos de ambos (GOUVÊA Jr.: 2014). O mito da Medeia funciona como uma memória discursiva que, como tal, segundo as reflexões de Paveau (1990) sobre este conceito específico,

está, com efeito, estreitamente ligada às condições sócio-históricas e cognitivas de produção dos discursos, aos dados extra-discursivos e, sobretudo, pré-discursivos que participam da elaboração e da circulação das produções verbais de sujeitos social e culturalmente situados (p. 2).

Chama-nos atenção o fato de que a imagem produzida de si, em seu dizer, se reduz a de mulher apaixonada e decidida a ir embora com o amante, enquanto as imagens produzidas do amante e da sua esposa são extensas e minuciosas. A