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ungido filho de Deus.

3. C ONTEXTO BÍBLICO

No início… Deus

Pode parecer tautológico o primeiro termo do evangelho de Marcos. Contudo, ele aparece de facto a abrir diversos livros bíblicos, e com um significado não imediatamente acessível ao leitor146. Na LXX, avrch, verte quase automaticamente o hebraico rō’š (literalmente, “cabeça”)

ou o seu derivado abstracto rē’šît, cujo uso em sentido figurado inclui a acepção social (“superior, chefe”), local (“cume”), temporal (“início”), valorativa (“o melhor”)147. Em sentido

temporal, rō’š/rē’šît indica o “início” de um período de tempo objectivamente delimitado, ou o “primeiro” numa série de unidades temporais e acções que chegaram ao fim148. A esta luz, o

primeiro termo do evangelho abarca um sentido polivalente: “início” de uma obra literária, da primeira unidade dessa obra, e de “início da descrição de uma série de acontecimentos”149.

Tanto as conexões intratextuais150 como, sobretudo, a rede de contactos a nível intertextual

145 Cf. R. MEYNET,Traité de rhétorique biblique, 195.

146 Além dos textos que vamos aprofundar, o livro de Oseias apresenta também assinaláveis paralelismos com Mc 1,1: a frase que vem logo a seguir ao título (Os 1,1) apresenta um nexo entre o «início» e o termo «palavra do Senhor», seguindo-se depois o nome próprio do profeta (1,2: «Início da palavra do Senhor a Oseias»). É indiscutível aqui o significado temporal do termo «início». Cf. F.I. ANDERSEN –D.N.FREEDMAN, Hosea, 155.

147 H.-P.MÜLLER,«rō’š, head», 1184 e 1187. Na verdade, o primeiro termo de Marcos abrange um amplo espaço semântico tanto em hebraico como em grego bíblico. O significado “primazia”, que lhe está sempre associado, pode predicar, seja do tempo e do espaço (“início”), seja da importância hierárquica de algo ou alguém numa cadeia de “autoridade”, seja ainda de um factor de ordem supracategorial, comummente vertido através de termos como “princípio” ou mesmo “essência”. Sem a preposição e seguido de genitivo, avrch, aparece na Torá, e sobretudo na literatura sapiencial, com os significados de “princípio” e “essência”; salienta-se, deste modo, a importância primordial do filho primogénito (Gn 49,3; Dt 21,17), da palavra de Deus (Sl 119,160) e, mais particularmente em contexto sapiencial, o “temor do Senhor” como «princípio» da sabedoria (Sl 111,10; Pr 1,7; 9,10; Sir 1,14). Esta tripla vertente de significado transparece também, quer nas cerca de oitenta ocorrências de avrch, na LXX, onde traduz de forma automática o hebraico rō’š, quer nas cerca de quarenta vezes em que lemos o termo no NT. Uma palavra, portanto, carregada de «numerosas peculiaridades e obscuridades», como salienta G. DELLING, «avrch,», 481. Cf. BAGD, 111-112; K. WEISS, «avrch,», 161-162.

148 Em Deutero-Isaías, rō’š (40,21; 41,4) e rē’šît (46,10) alcançam a sua função teológica mais importante quando, usados em sentido temporal, caracterizam o passado de bem-estar de Israel, ou a era primordial do mundo, em contraste com o presente e o futuro. Para o profeta, a história de Israel coincide com a própria história; o “mundo” do seu povo é a soma de toda a realidade. Em Is 52,4, os acontecimentos salvíficos através dos quais o Senhor fundou Israel servem de modelo para o acto salvífico do Senhor em favor de Israel. Cf. H.-P.MÜLLER,«rō’š, head»,

149 Cf. Eve-Marie BECKER, Das Markus-Evangelium, 112. Na mesma linha, Collins, 130; Ernst, 50.

150 R. MEYNET,Traité de rhétorique biblique, 354-355, demonstra em que medida o contexto intratextual permite precisar o sentido de um termo, ou de outra unidade de texto, examinado em cada um dos seus níveis de organização textual.

vincam no termo «início» um significado temporal rico de ressonâncias, a saber: «origem absoluta, começo de toda a palavra, de todo o discurso, de toda a história, de toda a acção ou drama»151.

O facto de este «início», que coincide com o início narrativo, se articular com um termo da esfera semântica da palavra (divina), como é o termo «evangelho», e com uma autoridade que está à cabeça e determina tudo o que se segue, é indício forte de que o «início» do evangelho de Marcos convoca o início da própria Bíblia:

No início criou Deus o céu e a terra (Gn 1,1).

Além de marcada pela repetição lexical («início» e «Deus»), a alusão de Mc 1,1 a Gn 1,1 acolhe, também, uma ordem análoga dos termos: «início» no começo da frase; no centro a identificação do protagonista: «Deus» criador / «Jesus», o «filho de Deus»152. O significado de

Gn 1,1 envolve a noção de «acção global quanto à extensão do seu resultado (o céu e a terra)» e sublinha uma certa dimensão cronológica, a saber, «a dignidade do começo, a ideia de princípio»153. Nesse mesmo sentido, o termo «início» reaparecerá duas vezes no discurso

escatológico de Jesus no evangelho, para indicar os dois pólos “decisivos” da história: o «início da criação que Deus criou» (Mc 13,19; cf.10,6) e o «início» do «fim» dos tempos, i.e. as provações escatológicas (13,7-8).

Também o início literário do quarto evangelho articula o termo «início» com «Deus» criador e com a Sua «Palavra/Verbo»154:

No início era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no

início junto de Deus. Tudo por Ele aconteceu e sem Ele nada aconteceu (Jo 1,1-3)155.

Se prosseguirmos a leitura, vemos que o texto joanino, ao mesmo tempo que comunga com Mc 1,1 termos como «Jesus» e «ungido», bem como o tema da filiação divina, estreia

151 Standaert, I, 76-77. Pesch, I, 142, observa que, além do sentido temporal (ligado ao conceito de acção ou acontecimento), o termo “início” liga-se ao conceito de coisa (“evangelho”), pelo que deverá ser entendido também como «princípio e fundamento». Com esse duplo significado na LXX, indica o Autor Sl 110,10; Pr 1,7; Ecl 1,14.

152 Ulterior confirmação de que o evangelista recorre ao relato das origens desde o início desta sua primeira sequência será indicada oportunamente, mormente a propósito do quarto passo (Mc 1,10-13)

153 P. BEAUCHAMP, Création et séparation, 152-153. O Autor salienta particularmente que a noção cronológica vincada pelo autor sacerdotal (P) envolve em particular uma dimensão cultual: «o começo e a base do seu calendário – o da história sacerdotal e o de todas as coisas – é a criação do céu e da terra e do seu exército […]. [“No início”] designa portanto essa forma única de começo que é o começo de tudo. Colocando o bloco da criação em relação com todo o desenrolar do tempo, confere-lhe simultaneamente o lugar inicial na cronologia e a dignidade de premissa da obra divina». E porque o processo da criação surge claramente situado na perspectiva da temporalidade é que «a primeira semana surge simultaneamente integrada na, e emergindo da, temporalidade: ela é a forma arquetipal do tempo e, como tal, repete-se incessantemente. A semana é a comemoração indefinidamente repetida da acção primeira de Deus, que é a criação, mas esta acção está ela mesma constantemente presente, e é comemorada não pelo seu prolongamento, porquanto segundo P ela está concluída, mas pelo seu resultado».

154 Cf. também 1 Jo 1,1-4. A afinidade vocabular e mesmo composicional entre o prólogo do evangelho joanino e o prólogo desta Carta foi recentemente estudada por J. ONISZCZUK, La Prima Lettera di Giovanni, 32-34. No prólogo do evangelho de Lucas (1,2), porém, o termo «início» aparece unido à preposição “desde”, para indicar a primeira manifestação pública da pessoa de Jesus, vincando assim o sentido “temporal” da expressão. Cf. K. WEISS, «avrch,», 162. R. MEYNET, Luc, 32.37, defende que a expressão «desde o início» (Lc 1,2), além de sinónima do advérbio «desde a origem» (a;nwqen, 1,3) forma com ele uma unidade de sentido, patente inclusivamente ao nível da composição de Lc 1,1-4.

155 Versão de Jo 1,1-3 a partir de R. MEYNET, «Analyse rhétorique du prologue de Jean», 508-509. Para uma sinopse de Jo 1,1-3 e de 1 Jo 1,1-4, cf. J. ONISZCZUK, La Prima Lettera di Giovanni, 35.

uma reflexão cristológica original que realça na obra da criação o papel vital da pessoa do Verbo (Jo 1,3), o «unigénito do Pai» (1,14.18) incarnado em «Jesus Cristo» (1,17).

O evangelho de Jesus

«Evangelho» é o segundo vocábulo do evangelho de Marcos, um termo cujo reconhecido peso semântico se nos revela se considerarmos, não apenas a pregação cristã dos primórdios e suas raízes bíblicas e extrabíblicas, de que a obra marcana naturalmente se faz eco, mas também o quadro de géneros literários em que essa pregação tomou forma escrita.

Nas fontes extrabíblicas em língua grega, verificamos que o vocabulário «evangélico» (substantivos e verbo) surge aplicado predominantemente em sentido positivo e, não raro, no contexto do anúncio de uma vitória, exprimindo quer “as boas novas favoráveis” quer “a recompensa” do arauto por essas “boas novas”156. Estão em causa acontecimentos de carácter

público que, conjugados não raro com uma componente religiosa, são tidos como decisivos para a vida de uma comunidade157. Acolhendo todos esses aspectos, ao mesmo que

modificando-os e acrescentando-lhes novas dimensões, o vocabulário «evangélico», que já aparece na LXX158, é recorrente nos escritos cristãos do NT como em nenhuma outra obra em

língua helénica, surgindo com especial frequência nas cartas paulinas159 e no evangelho de

Marcos160. Mas antes de nos determos sobre as raízes bíblicas de «evangelho», cumpre-nos

notar que o evangelista parece caracterizar com a expressão «evangelho de Jesus» todo o conteúdo da sua obra, suscitando assim a questão do “evangelho” como forma literária original.

… como forma literária (inédita) da obra de Marcos?

Será a segunda palavra do texto de Marcos, além de uma indicação sobre o conteúdo, uma autodefinição da obra quanto ao seu género literário? Ou seja, reconhece Marcos na sua obra alguma forma literária dada?161 Numerosas propostas têm surgido no sentido de se identificar

com precisão o género literário dos evangelhos, e o do Evangelho de Marcos em particular162.

156 Cf. BAGD, 317; G. FRIEDRICH, «euvagge,lion», 722; G. STRECKER, «euvagge,lion», 70.

157 G. FRIEDRICH, «euvagge,lion», 721-725, ilustra a noção de «recompensa pelas boas notícias», referindo HOMERO, Odisseia XIV.152; para o anúncio de vitória ou êxito militar, cita PLUTARCO, Pompeu 41,4; Fócio 23,6; a componente cultual-sacrificial do termo nas fontes helénicas e a ulterior conexão com o culto imperial romano surge em PLUTARCO, Sertório 11,7-8; Flávio JOSEFO, Guerra III, 106 §503; e esp. FILÓSTRATO, Vida de Apolónio VIII, 26-27, que narra a visão de um «evangelho», i.e. o assassinato de Domiciano, o qual deu origem a sacrifícios aos deuses pela morte do tirano. Cf. também R. FABRIS, «Vangelo», 1624-1625.1639.

158 Seis ocorrências ao todo, nenhuma no singular. Na LXX, distingue-se a forma neutra plural («ta, euvaggeli,a», “recompensa pelas boas novas”: 2 Sm 4,10) da forma feminina singular («h` euvaggeli,a», “a boa nova”: 2 Sm 18,20- 27; 2 Re 7,9). Esta distinção não se encontra em mais nenhuma outra fonte. Cf. G. FRIEDRICH, «euvagge,lion», 725. Salientaremos adiante que o sentido globalmente positivo inerente à raiz e ao uso do vocabulário “evangélico” nas fontes gregas não é evidente na raiz hebraica bśr, geralmente vertida pela LXX com a terminologia “evangélica”.

159 De um total de 72 ocorrências no NT, Paulo usa o termo 60 vezes.

160 Marcos usa «evangelho» oito vezes, seis vezes nos lábios de Jesus (além das três ocorrências na primeira sequência, cf. 8,35; 10,29; 13,10; 14,9 e 16,15). Mateus usa-o quatro vezes, Lucas evita o substantivo no seu evangelho, e João ignora-o.

161Subjacente a esta questão literária está a questão de ordem histórico-crítica – que ultrapassa os limites metodológicos da nossa investigação – sobre a complexa origem e desenvolvimento da tradição pré-marcana.

Esta questão do género literário, conquanto disputada, é hermeneuticamente decisiva, porquanto da resposta decorre um quadro de interpretação para a leitura deste Evangelho como um todo.

Os Autores, escudados na certeza de que, à época do evangelista, o termo «evangelho» não configurava um género literário distinto, defendem a originalidade literária da obra de Marcos no contexto da Igreja das origens, e têm maioritariamente afirmado que só no período pós- bíblico é que claramente «evangelho» começou a designar uma dada “forma literária”, em particular a dos evangelhos canónicos163. Entretanto, propostas mais recentes apresentam

sólida evidência de que Marcos terá deliberadamente acolhido modelos literários em que propositadamente verteu as suas fontes. Formas como a “narrativa biográfica” (bioi) e a “historiografia” estão entre as mais plausíveis, o que não significa que o evangelho de Marcos se esgote na forma literária “biográfica” ou “historiográfica” qua tale164. Nesta perspectiva

matizada, que reconhece a possibilidade de uma pluralidade de modelos subjacente à obra de Marcos, «evangelho» surge como o novum no notum165, i.e. como uma forma literária inédita

que resulta do facto de Marcos ter acolhido determinados modelos literários conhecidos nos quais enxertou a novidade histórica da salvação de Deus trazida por Jesus e atestada pelos testemunhos relativamente episódicos de que o evangelista dispunha166. Consideramos válida

esta tese, cuja fundamentação inclui os quatro pontos que seguidamente destacamos.

1. Um género é determinável, quer a partir da organização do seu material, quer por comparação com outros géneros ou obras congéneres. Ora, se compararmos os evangelhos canónicos, verificamos que, por um lado, todos eles exibem forma narrativa e que, por outro, nenhum outro, além do de Marcos, entende «evangelho» como designação literária167. Marcos

surge como um caso literário à parte, revelador de uma ênfase no carácter querigmático da sua narrativa evangélica. Indo agora a outro grande bloco literário do NT, como é o das Cartas Paulinas, verificamos que «evangelho» refere aí o anúncio cristão daquele plano salvífico de Deus proclamado pelos profetas e que se realizou mediante a morte e ressurreição de Cristo168. 163 BAGD, 318, sugere que se pressente já em Mc 1,1 a transição para o uso cristão posterior, em que «evangelho» significa um livro que trata da vida e do ensinamento de Jesus. Usando o termo «evangelho» no plural, um uso que só no séc. IV se viria a consolidar, e que acabaria por incluir também os apócrifos, Justino surge como o primeiro autor cristão a reflectir explicitamente sobre a natureza literária dos “evangelhos” canónicos, considerando-os “reminiscências” ou “notas”. Cf. W. S. VORSTER, «Gospel Genre», 1077-1079. Guelich, xx.

164 Cada um destes géneros pode manifestar-se em subtipos distintos entre si (p.e., a biografia pode ser em registo dramático de comédia, ou tragédia), como observa Guelich, xx.

165 Collins, 19, discute o processo de criação do género «evangelho» recordando a sua analogia com a relação entre o livro do Apocalipse e o género “apocalipse”: o mesmo termo que significava o processo e o conteúdo de uma “revelação”, passou a ser usado, desde Ap 1,1 para caracterizar o conteúdo da obra e o meio pelo qual esse conteúdo foi dado a conhecer.Na mesma linha, Guelich, xix, sustenta que, embora possa não ter sido intenção do evangelista designar a sua obra literária como «evangelho», «Marcos legou à Igreja dos primórdios um género literário particular», desde logo porque Mateus e Lucas dele se serviram como modelo.

166 Um estudo exaustivo sobre a discussão está aqui fora de questão. Para as considerações seguintes e para a posição que defendemos, inspiramo-nos sobretudo no sugestivo e bem documentado estudo sobre o “género literário” de Marcos, em Collins, 15-44.

167 Mateus assinala que o seu texto é “livro” (bi,bloj, Mt 1,1), Lucas designa-o com o termo geral «narração/narrativa» (dih,ghsij, 1,1), e João inaugura a sua obra com um hino cristológico. Além dos dicionários de referência, e do estudo clássico de W. MARXSEN, El evangelista Marcos, 111-143 (cap. 3: «Euangelion»), sobre o significado das discrepâncias dos Sinópticos entre si e em relação a Paulo, cf. esp. Standaert, I, 77.

Em Paulo, este anúncio manifesta-se primordialmente através da oralidade e no contexto itinerante do serviço missionário. Além disso, quando Paulo qualifica “evangelho” com os determinativos (“de Deus” ou “de Cristo”, p.e.), pretende referir a boa nova sobre Jesus Cristo, e não a boa nova que Jesus proclamou169. Se Marcos conheceu a tradição Paulina, então, o

Evangelho de Marcos poderá configurar uma proclamação do acontecimento-Cristo à maneira de Paulo170. Para Marcos, no entanto, esta manifestação do querigma missionário é concebida

em forma narrativa – aspecto formal, este, que os restantes evangelistas terão adoptado de Marcos, e não da tradição paulina.

3. Nas palavras inaugurais «evangelho de Jesus» (Mc 1,1) ressoa aquele sentido

querigmático e confessional em que as entendia qualquer ouvinte familiarizado com «o

evangelho» por Paulo, pois o evangelista logo acrescenta em tom de confissão de fé: “Ungido Filho de Deus”. No passo simétrico (1,14-15), porém, percebe-se que a expressão «[Jesus] anunciava o evangelho de Deus» já constitui evidência narrativa de que Jesus fora, Ele próprio, arauto do evangelho171. Este facto revela outro ângulo da referida originalidade histórico-

literária de Marcos: o conceito de «evangelho» expresso em Mc 1,1.14-15 alarga-se desde um seu nível oral originário (reflectido ainda em 1,1) até ao nível narrativo no qual o próprio Jesus, objecto da pregação de Marcos desde a primeira linha de texto (1,1), surge logo a seguir caracterizado como o primeiro arauto do “evangelho de Deus” desde o momento inaugural do seu ministério público (1,14-15)172.

3. Evidência ainda mais decisiva de que o Evangelho de Marcos configura uma proclamação em forma narrativa do acontecimento que é o próprio Jesus, encontramo-la no facto de esta narração exibir certa sequência cronológica, desde o início do Seu ministério até à Sua morte e ressurreição. Mercê da intervenção do evangelista sobre as suas tradições, o protagonista Jesus, à medida que vai trilhando o caminho que o conduzirá a uma morte de mártir, surge caracterizado como personificação da revelação e da redenção divinas173. Deste modo, quando

o evangelista diz «evangelho de Jesus» no início da sua obra, além de exprimir a fé eclesial como sua testemunha qualificada, e além de prestar um serviço à catequese, à pregação e à liturgia do cristianismo das origens174, está também a criar o modelo narrativo onde cabe a 169 Veja-se o determinativo «[evangelho] de Deus» em 1 Ts 2,2.8.9; Rm 1,1; 15,16; e 2 Cor 11,73,2. «[Evangelho] de Cristo» em 1 Ts 3,2; Rm 15,19; 1 Cor 9,12; 2 Cor 2,13; 9,13; 10,14; Gl 1,7; Fl 1,27. Cf. Collins, 15; Joseph A. FITZMYER, «The Gospel in the Theology of Paul», 339-350.

170 Cf. W. S. VORSTER, «Gospel Genre», 1077-1079. J. MARCUS, «Mark – Interpreter of Paul», 473-487, salienta que, não obstante o interesse biográfico estar mais patente em Marcos do que em Paulo, a centralidade do querigma é um dos aspectos teológicos em que se manifesta a continuidade entre o Apóstolo e Marcos. Por seu lado, M. HENGEL, «Literary Theological and Historical Problems», Studies in the Gospel of Mark, 54-56, baseando-se em Act 10,36; 15,7; 1 Cor 15,1-2; Gl 2,7, sustenta persuasivamente quer a origem em Pedro da acepção cristocêntrica do termo «evangelho», que chega a Marcos via Paulo, quer a certeza de que por detrás da autoridade e da antiguidade de Pedro está a chamada tradição jesuana, razão por que se manteve e se afirma com tanta veemência em Marcos.

171 Collins, 16.

172 D. DORMEYER – H. FRANKEMÖLLE, «Evangelium als literarische Gattung und als theologisher Begriff» 1676.1687-94, discutem a possibilidade de, no contexto da missionação proto-cristã itinerante, isso significar que Jesus fosse apresentado como o próprio «fundador do movimento missionário» e que, nesse mesmo contexto, o termo «evangelho» no singular e o conceito que lhe corresponde fossem a expressão simples com que os missionários protocristãos de língua grega referiam a mensagem por eles anunciada.

173 Cf. M. HENGEL, «Literary Theological and Historical Problems», 56-58.

174 Autores como M. HENGEL, «Literary Theological and Historical Problems», 52; L. W. HURTADO, «Gospel (Genre)», 282; e, mais recentemente, Standaert, 32-34, salientam que Marcos foi composto para a leitura solene na liturgia (pascal).

totalidade da actividade de Jesus. Na forma «evangelho» cabe, a par da narrativa do acontecimento histórico-salvífico, uma biografia essencial da figura excepcional de Jesus. Passos como o da Transfiguração (Mc 9,2-9) permitem alvitrar que os aspectos biográficos de Jesus terão sido moldados a partir de modelos bíblicos e tipológicos, disponíveis desde logo na proto-história de Israel, entre os quais avultam Moisés na Torá e Elias em 1-2 Reis. Aspecto fundamental destas biografias sobre o “homem de Deus” é, sobretudo no caso de Moisés, o de que elas supõem a promessa escatológica de um “profeta” como Moisés (Dt 18,19-20). Seria, pois admissível, como escreve M. Hengel, que a história de Jesus enquanto acontecimento salvífico escatológico por excelência, i.e. enquanto evangelho, fosse concebida em relação de tensão dialéctica ou «contraste tipológico-antitípico»175 com a história de Moisés enquanto

“acontecimento salvífico” para Israel.

4. Finalmente, esta verificação de que o evangelho de Marcos apresenta um pendor simultaneamente “biográfico” e “historiográfico”176 carece de uma derradeira clarificação

sobre o tipo de “biografia” e de “história” aí presente. Somos assim reconduzidos à narrativa bíblica, às Escrituras judaicas. A linguagem vívida de Marcos, servida pelo estilo narrativo veloz, onde as mudanças de cena se sucedem a cada passo, compreendem-se melhor à luz «dos ciclos veterotestamentários das narrativas proféticas e das histórias biográficas de heróis bíblicos como Moisés e David»177. Prosseguindo nesta mesma linha, e aprofundando-a, A.

Yarbro Collins vislumbra no evangelho de Marcos três principais linhas de influência