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Introdução: Marcos proclama o «Início do Evangelho de Jesus» (Mc 1,1)

1.TEXTO

1 VArch. tou/ euvaggeli,ou VIhsou/ cristou/ Îui`ou/ qeou/Ð. 1Início do evangelho de Jesus, ungido filho de Deus.

1.1 CRÍTICA TEXTUAL

ui`ou/ qeou/

(1b)

Comparece neste passo o problema textual mais importante e o mais debatido desta primeira sequência, designadamente, a questão do título cristológico «filho de Deus» (1b) aplicado a «Jesus» (1a)118. São três as variantes textuais: ui`ou/ qeou/ («filho de Deus»)119; ui`ou/ tou/ kuri,ou

(«filho do Senhor»)120; omissão121. Dado o facto de a segunda variante ser pouco atestada, a

discussão centra-se na primeira e na terceira variantes. A omissão do título «filho de Deus», frequentemente preferida pelos comentadores deste evangelho122, é bem testemunhada por

códices antigos e independentes entre si (embora a família de manuscritos predominante seja a do texto de Cesareia). Além de configurar uma lectio brevior, a omissão poderia ser explicada com base em três argumentos de crítica interna:

118 Para um recente status quaestionis do problema textual em Mc 1,1, cf. P.M. HEAD, «Text-Critical Study of Mark 1:1», 621-629.

119 B (cód. Vaticano, séc. IV; afim ao texto alexandrino do NT), a1 (lição corrigida do cód. Sinaítico cujo original é do séc. IV), D (cód. de Beza, séc. V-VI; principal representante do texto Ocidental) W (cód. de Freer, séc. IV; em Mc 1,1-5,30 é afim ao texto Ocidental) L (cód. Regius, séc. VIII; muito afim a B) e alguns manuscritos latinos. Confirmam esta lição, com a variante «filho de Deus», o cód. A (Alexandrino, s. V), os manuscritos minúsculos f 1.13 33, M (o “texto da Maioria”, incluídos os códices bizantinos koinē), muitos latinos (latt), as versões sy (siríacas, parcialmente) e co (versões coptas, a mais antiga é do séc. VIII-IX; texto afim ao de Alexandria). Doravante, serão apenas desdobradas as siglas que ainda não tiverem sido aqui identificadas. Para o texto de Marcos, as siglas e as datas das testemunhas textuais, seguimos B.M.METZGER, The Text of the New Testament; e Collins, 120-125.

120 1241 (manuscrito que contém o NT; do séc. XII ou XIII; nos evangelhos, é afim a C – cód. Efrém: palimpsesto com manuscrito do séc. V; afim às principais famílias de texto – e a L).

121 a*(lição original do cód. Sinaítico; contém uma cópia completa do NT em grego; séc. IV; em geral, é afim à família de textos de Alexandria, mas contém também influências do texto Ocidental ), Q (cód. Koridethi, séc. IX; afim ao texto de Cesareia utilizado nos séc. III e IV por Orígenes e Eusébio), 28 (manuscrito dos evangelhos, séc. XI; afim ao texto de Cesareia), poucos mais, e falta parcialmente nas versões armena (arm; séc. V?; afim ao texto de Cesareia) e georgiana(geo1; séc. IX?; afim ao texto de Cesareia), bem como nas citações de Ireneu, Orígenes, Basílio, Vitorino e Jerónimo.

122 Destacamos apenas alguns comentários que consideramos mais marcantes: Pesch, I, 139; cf. Schnackenburg, 15; Marcus, 141; Collins, 130.

1. a frase euvagge,lion tou/ VIhsou/ Cristou/ («evangelho de Jesus Cristo») surge no NT como um conceito estereotipado, logo desde as mais antigas cartas paulinas123;

2. é mais fácil entender a razão pela qual um copista reverente ou uma autoridade protocristã poderia acrescentar a expressão «filho de Deus» do que a razão por que outros haveriam de a omitir124;

3. afigura-se improvável que, logo no início de um Evangelho, um escriba pudesse omitir, intencionalmente ou não, um título cristológico tão recorrente125.

Em contraponto a estes argumentos há que reconhecer sinais de lectio difficilior, como são a presença de seis genitivos, todos seguidos numa mesma frase e interligados pelo mesmo som final (homeoteleuto).

A inclusão de ui`ou/ qeou/ («filho de Deus») como parte genuína do texto, indiscutivelmente atestada por inúmeras e diversificadas recensões textuais antigas (sobretudo a combinação de B D W al), é particularmente reforçada por razões de crítica interna. Razões, estas, de ordem

redaccional126, desde logo, porquanto Marcos, para apresentar Jesus, mostra predilecção por

este título ou por variantes do mesmo, como são: «filho amado» (1,11; 9,7; 12,6), «o filho» (13,32), «filho de Deus» (3,11), «filho do Altíssimo» (5,7), «filho do [Deus] bendito» (14,61) e «o [ou “um”] filho de Deus» (15,39). Razões, também, de ordem teológica. Com efeito, independentemente das considerações que poderiam explicar com plausibilidade o facto de alguns manuscritos omitirem «filho de Deus»127, cumpre reconhecer previamente que esta

expressão se coaduna com a fé de Marcos, ao ponto de poder lidimamente figurar no início do seu Evangelho. Favorecem, ainda, esta inclusão no início do Evangelho as duas considerações seguintes. Antes de mais, o facto de o mesmo título ser utilizado pelo centurião romano, na cena da morte de Jesus, criando um “efeito-inclusão” entre 1,1 e 15,39. Este facto indica a simpatia de Marcos por prefigurações e por interligações abrangentes na composição do seu texto128. Por outro lado, o título «filho de Deus», colocado a seguir a «ungido» (cristou/) em

Mc 1,1, responde à própria estrutura do Evangelho, que tem como eixos de todo o seu desenvolvimento duas confissões de fé: a confissão de Pedro como porta-voz dos apóstolos («Tu és o ungido», 8,29) e a confissão do centurião como representante dos pagãos («este homem era filho de Deus», 15,39)129.

123 Quer nesta ordem dos dois termos, quer na ordem inversa – cf. 1 Ts 1,1; Gl 1,1 e Fl 1,1. Trevijano- Etcheverría, 7.

124 Collins, 130. Com efeito, era prática comum antiga (à qual os copistas muitas vezes sucumbiam) expandir os títulos dos livros (cf. Ap 1,1-8). Cf. Metzger, 62; IDEM, The Text of the New Testament, 205.

125 Marcus, 141. Contra a inclusão de «filho de Deus», também Pesch, I, 139, que, partindo unicamente de uma Crítica das Fontes e da Redacção, conclui: «ui`ou/ qeou/ [«filho de Deus»] no evangelho de Marcos nunca decorre da redacção».

126 Cf. Donahue-Harrington, 60.

127 Para explicarem a omissão, os autores que consideram «filho de Deus» como parte de Mc 1,1, aludem principalmente ao homeoteleuto, i.e. «um lapso do copista ocasionado pela semelhança das letras finais dos nomina sacra» (Metzger, 62). Este aparente lapso acidental tornar-se-ia particularmente compreensível nos unciais, onde era muito usual figurarem abreviações para os nomes sagrados. Cf. Focant, 56; Guelich, 6. Perspicaz a observação crítica de Gundry, 33: «Quanto mais se multiplicarem as possíveis explicações para uma omissão posterior, menos força ganha o recurso a esse mesmo critério».

128 Cf. Donahue-Harrington, 60; Hooker, 34. Gnilka, I, 50 n. 25, nota a ausência de artigo em Mc 1,1 e em 15,39.

A combinação de razões de ordem externa e interna, favorável à lição longa de Mc 1,1, afigura-se-nos forte, não obstante subsista neste ponto a divisão entre os especialistas130. A

essas razões se acrescentarão, oportunamente, as de ordem retórica.

Mc 1,1: um versículo à parte?

A análise atenta das mais antigas testemunhas textuais permite extrair duas conclusões sobre a origem e a transmissão de Mc 1,1. Primeira: o versículo nunca foi entendido senão como escrito pelo próprio evangelista. Segunda: só posteriormente é que os escribas terão caído na conta da importância de to. euvagge,lion («o evangelho») como termo adequado para designar o género literário da obra131.

1.2ASPECTOS GRAMATICAIS

tou/ euvaggeli,ou VIhsou/

(1a)

Que relação gramatical entre «Jesus» e «Evangelho» é evocada através desta expressão? Decorre daqui a clássica discussão sobre o genitivo «de Jesus», que pode ser entendido, quer em sentido objectivo («Evangelho sobre Jesus»), quer em sentido subjectivo («Evangelho

anunciado por Jesus»). Partindo do uso mais antigo do termo em Paulo, os Autores que

interpretam a expressão em sentido objectivo salientam que Marcos indica uma forma narrativa com a qual se molda o conteúdo da Boa Nova, i.e. a pessoa, as obras e as palavras de Jesus, como messias e filho de Deus132. À luz do que Marcos narra em 1,14, certos Autores que

defendem o sentido subjectivo vincam que o “evangelho” é a proclamação da Boa Nova da salvação, de que Deus é autor e Jesus o portador133. No entanto, ao invés de se excluir uma das

alternativas em favor da outra, a tendência entre a maioria dos Autores vai no sentido de cada vez mais se respeitar a ambiguidade do grego e se manter a polissemia da expressão, vertendo- a por «evangelho de Jesus»134.

130 Daí que NA27 tenha decidido incluir dentro de parênteses rectos o texto discutido. Cf. Metzger, 62. Esta hesitação é notória também em diversos Autores que, sem eliminarem o segundo título cristológico, também o não admitem definitivamente, uma vez que preferem incluí-lo dentro de parênteses. Cf. p.e. É. CUVILLIER, Marc, 23 : «[…] Jésus Christ [fils de Dieu]»); Ernst, 48.

131 Cf. M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco, 40-41. A maioria das testemunhas textuais (em que se incluem os códices Sinaítico e Vaticano) antepõe ao texto evangélico – à maneira de uma inscriptio ou subscriptio dos documentos – o título Kata. Ma/rkon, que a lição posterior teria alargado para Euvagge,lion kata. Ma/rkon («Evangelho segundo Marcos»). Como observa Collins, 129, «na escrita e na publicação de livros, o título aparecia mais na fase da recepção do que na da escrita». Na mesma linha, V. FUSCO, «Le titre “évangiles”», 325-336. Ambos os autores são tributários do estudo pormenorizado de M. HENGEL, «The Titles of the Gospels», 64-84, que refere como testemunhas mais antigas da presença de inscriptiones os papiros P66, 75, 4, 64, 67.

132 Salientamos em particular Schnackenburg, 15; Pesch, I, 142; E. Schweizer,26-27; Guelich, 9; Lentzen-Deis, 27.

133 Cf. Gundry, 33.

134 Entre Autores mais recentes, cf. Collins, 16.135; Marcus, 147; Focant, 55, nota a; É. CUVILLIER, Marc, 24; M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco, 45. Na mesma linha, Ernst, I, 50; Gnilka, I, 50; W. MARXSEN, El evangelista Marcos, 131-133; L.E. KECK, «The Introduction», 359 n. 1; G. FRIEDRICH, «euvagge,lion», 728.

Como nota M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco, 45 n. 29, é sintomático que, até à 14.ª edição (de 1982), Blass – Debrunner (§ 163), assinalasse Mc 1,1 como um caso de genitivo objectivo («evangelho sobre Jesus»), ao passo que a partir da 16.ª edição, de 1984, tal observação deixou de aparecer.

A nossa opção vai fundamentar-se nas quatro considerações seguintes. O sentido objectivo de «evangelho de Jesus» (i.e., mensagem da Igreja e do evangelista sobre Jesus) é irrecusável, em virtude da presença do artigo determinativo «do» (tou/), indicando que o conteúdo semântico do termo «evangelho», subsequentemente determinado também pelo genitivo «de Jesus» (VIhsou/), é bem conhecido do leitor135. Por outro lado, notaremos também que, no seio

da sequência 1,1-15, o próprio conteúdo escatológico da mensagem aqui anunciada pelo evangelista (i.e., «Jesus» como genitivo objectivo) supõe sempre o anúncio de Jesus como aquele que na história introduziu a Boa Nova (i.e., «Jesus» como genitivo subjectivo)136. Em

terceiro lugar, se considerarmos as restantes ocorrências de «evangelho» em Marcos, vemos confirmação de que o termo tem sempre o sentido de “mensagem” crida ou anunciada, por Jesus ou pelos seus discípulos137. Finalmente, impõe-se uma consideração de dinâmica

narrativa: neste passo inicial do seu Evangelho, Marcos fornece apenas noções propedêuticas indispensáveis, susceptíveis de cativarem o leitor para um exercício de leitura, terminada a qual ele estará em posição de entender melhor o conteúdo do evangelho e o(s) seu(s) arauto(s)138.

Com a generalidade dos comentadores, portanto, tomamos em sentido inclusivo a expressão anfibológica «do evangelho de Jesus» (1a). O evangelho é, aqui, não só uma mensagem acerca

de Jesus, mas também uma mensagem proclamada por Jesus através de Marcos. A tradução

comum «evangelho de Jesus» é a que melhor respeita a dupla nuance – «evangelho sobre Jesus» e «evangelho proclamado por Jesus» – do original grego.

tou/ euvaggeli,ou VIhsou/ cristou/ ui`ou/ qeou/

(1ab)

É pouco comum encontrar um homeoteleuto no início de uma obra literária em grego139. A

presença de seis genitivos todos seguidos numa mesma frase, logo a abrir o evangelho, carece também de explicação. Essa já aflora na discussão crítico-textual em torno do aposto (desconhecido em grego não bíblico) «filho de Deus»140. Na análise retórica do versículo

inaugural, conforme iremos ver, não faltam razões para aceitar como gramaticalmente fundamentada esta unidade sintáctica inaugural, em cujo último termo dever-se-á colocar um ponto final.

135 M. ZERWICK J.SMITH, Biblical Greek, 53 § 165: «A função do artigo é a de indicar (originalmente, era um pronome demonstrativo), determinar, distinguir de outros, indicar como sendo este ou estes, ou simplesmente tais. Podemos assim ter a certeza de que o uso do artigo mostra que a coisa de que se fala era na mente do Autor (ou na daqueles cujos hábitos discursivos se tornaram regra) determinada e familiar». Cf., também, Blass – Debrunner, § 252.254.

136 Cf. M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco, 45.

137 Mensagem anunciada por Jesus, em Mc 1,14.15; mensagem anunciada pelos discípulos, em Mc 8,35; 10,29; 13,10; 14,9; 16,15. Cf. M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco, 43-47.

138 Cf. M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco, 45. 139 Guelich, 6, nota c.

140 Cumpre observar que, tal como a expressão “filho do homem” usada por Jesus, a expressão “filho de Deus” não contém qualquer valor perifrástico de sabor semítico. O ponto gramatical aqui em questão é o de que, em hebraico e aramaico, pode-se exprimir uma característica ou condição de uma pessoa mediante uma expressão perifrástica que comummente inclui: o estado constructo de “filho” + um substantivo comum em nexo constructo (exemplo: “filho da força” = “herói”). Cf. E.C. MALONEY, Semitic Interference, 169.

2.COMPOSIÇÃO: PRIMEIRO PASSO (MC 1,1)

+ 1

VArch. tou/ euvaggeli,ou VIhsou/