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O termo oi` a;ggeloi («os anjos») não comparece em algumas testemunhas antigas. A partir da lição daqui resultante, poderíamos ser levados a inferir a intenção de colocar as feras (em vez dos anjos) a servirem Jesus, evocando possivelmente o topos escatológico (e apocalíptico) de uma restauração da harmonia original (cf. p.e. Is 11,6-8)636.

632 A abreviação para evkei/ («ali») é atestada por f 1 69.205. 565. 700. 1424. 2542 al sys; por sua vez, a variante longa evkei/ evn th/| evrh,mw| é testemunhada por W M 1506 syp..h.

633 Mc 1,8; 3,29; 12,36; 13,11 – lições todas bem atestadas (tal como a lição to. pneu/ma em 1,10). Em rigor, o argumento do paralelo lucano (defendido p.e. por Trevijano-Etcheverría, 171) não é sustentável, se notarmos que no início do paralelo lucano sobre as tentações (Lc 4,1) aparecem duas referências ao Espírito: na primeira, Jesus aparece «cheio do Espírito Santo» (plh,rhj pneu,matoj a`gi,ou, 1a), ao passo que na segunda diz-se que o mesmo Jesus «era conduzido pelo Espírito [evn tw/| pneu,mati] ao deserto» (1c). Bem atestada pela tradição textual, esta segunda referência, que omite a`gi,ou tal como no texto de Marcos, é que constitui o lugar paralelo de Mc 1,12.

634 L 33. 579. 892 pc lat syhmg; Eus. No mesmo sentido lê f 13, embora invertendo a ordem das palavras para kai. nu,ktaj tessera,konta [«e quarenta noites»].

635 Q 892. 2542. pc

1.2ASPECTOS GRAMATICAIS

kai. euvqu,j

(10a.12)

Típico do estilo paratáctico de Marcos, o uso da conjunção kai, vai intensificar-se em 10- 13637. Veremos ao longo destas observações gramaticais que a sua utilização no início das

frases nem sempre implica igual valor semântico, e veremos também que isso decorre, quer do contexto narrativo, quer da sua integração em determinadas locuções. É o caso, também, da locução kai. euvqu,j638. Unidas à partícula kai, («e/mas») encontramos as primeiras duas

ocorrências do advérbio euvqu,j («imediatamente/logo») – essa outra «típica partícula marcana que, não raro, conecta episódios claramente distintos»639. Todavia, conforme afirma Juan

Mateos, no seu estudo exaustivo sobre o uso deste advérbio em Marcos, «euvqu,j, e os seus equivalentes em línguas modernas, não tem um significado absoluto e uniforme; denota sempre imediatez, só que variável, consoante lha permite o vínculo que for possível estabelecer entre as acções que [este termo] conecta»640. Aplicado à locução kai. euvqu,j em Mc 1,10a e 12,

significa isto que, nem a proximidade entre ambas as ocorrências da locução, nem o facto de elas surgirem no início da respectiva frase, garantem que a respectiva função sintáctica e o respectivo significado sejam idênticos. As seguintes observações de carácter gramatical e narrativocorroboram a nossa hipótese de haver, em 10a e em 12, dois sentidos distintos de kai. euvqu,j.

Tal como sucede com muitos outros advérbios, também euvqu,j é, a nível etimológico, a forma adverbial de um adjectivo: euvqu,j / euvqei/a / euvqu, (à letra: «direito / directo / recto»)641.

Justamente como adjectivo é que o termo comparece na citação bíblica inaugural – literalmente: «fazei direitas [euvqei,aj] as veredas [do Senhor]» (3c). O sentido do adjectivo é, ali, claramente espacial-figurativo. À luz da sua etimologia, portanto, a forma adverbial euvqu,j engloba um sentido local, que pode ser convenientemente vertido por «directamente»642.

Não há dúvida de que, em 10a e em 12, euvqu,j é utilizado na sua função adverbial. Nessa capacidade, e em conformidade com o significado que lhe é específico – a saber, a noção de “sucessão” temporal ou local – ele conecta um antecedente e um consequente, o que permite

637 Chegados a este ponto da narrativa, já é possível darmo-nos conta da frequência conspícua com que o evangelista utiliza kai, no início de cada nova frase (1,5.6.7.9.10.11.12.13). O uso aparentemente monótono desta partícula indica, também ele, a influência das estruturas gramaticais da língua hebraica no estilo de Marcos. Cf. M. ZERWICK –J.SMITH, Biblical Greek, § 454; E.C. JAY, Grammatica Greca del Nuovo Testamento, 319-320.

638 A grande frequência de euvqu,j em Marcos tem gerado não poucas divergências entre os intérpretes (síntese de posições, com bibliografia, em Blass – Debrunner, § 102.2). Se na generalidade das ocorrências no resto do NT o advérbio mais não significa senão «imediatamente», o seu uso em Mc está longe de ser claro em cada uma das suas 39 ocorrências – ou 42: a oscilação das cifras em Marcos depende do texto que adoptarmos. O termo aparece 21 vezes em Mt, e 17 em Lc (16 em Act); seis no quarto evangelho (uma em 3 Jo e outra no Apocalipse) e apenas uma em Paulo (Gl) e na Carta de Tiago. Não obstante os evangelhos de Mt e de Lc superarem largamente o de Marcos em extensão, a frequência de euvqu,j é claramente muito menor naqueles dois Sinópticos.

639 Cf. Trevijano-Etcheverría, 138. Partindo desta observação, infere este Autor uma explicação para o facto de uma corrente da tradição textual ocidental ter suprimido euvqu,j em Mc 1,10.

640 J. MATEOS, «euvqu,j y sinonimos», 127.

641 Veja-se E.C. JAY, Grammatica Greca del Nuovo Testamento, 248-249.

despertar no leitor a impressão de uma “sucessão” 643. Chegados aqui, importa decidir qual o

tipo de “sucessão” veiculado em 10a e em 12: será temporal, espacial, ou ambas?

O antecedente da locução kai. euvqu,j em 10a é a acção referida pelo verbo finito em 9c (kai. evbapti,sqh, «[foi…] ser baptizado»), e o seu consequente directo é a forma verbal finita ei=den («viu», 10b). Acresce, no entanto, que do consequente faz parte, além do seu consequente

directo (ei=den, 10b), também a forma participial avnabai,nwn («subindo», 10a), na função de consequente indirecto. Por conseguinte, através da locução kai. euvqu,j, sublinha o narrador a simultaneidade entre a acção expressa pelo particípio avnabai,nwn e a acção expressa pelo

aoristo ei=den644. A sucessão é aqui imediata, e esta imediatez afigura-se-nos estritamente

temporal, mesmo se a cronologia em apreço é a da linguagem apocalíptica – característica da

cena no seu todo, como oportunamente veremos. Conforme salienta a copulativa kai, em 10c, esta impressão de sucessão imediata envolve uma multiplicidade de acções: à emersão de Jesus das águas (10a), sucede primeiro o rompimento dos céus (10b) e, em seguida, a descida do Espírito (10cd). Concluímos, assim, que em 10a o evangelista aplica a locução kai. euvqu,j para vincar uma simultaneidade cronológica, designadamente, a de que, uma vez consumada a submersão de Jesus por João (9c), «imediatamente [euvqu,j], subindo da água, [Jesus] viu».

Em 12, o antecedente imediato de kai. euvqu,j é o verbo finito com que o narrador apresenta a irrupção da voz celeste (kai. fwnh. evge,neto, «e uma voz surgiu», 11a). Ao contrário de 10a, o

consequente de kai. euvqu,j é, desta feita, simples: [kai. euvqu,j] to. pneu/ma auvto.n evkba,llei («[…]

o Espírito O expulsa»). Também aqui a impressão de imediatez parece indesmentível: à visão do Espírito e à audição da voz celeste vai suceder a experiência do Espírito que imediatamente arrebata Jesus para o deserto. Chegados a este ponto, cumpre perguntar se, sobreposto ao significado cronológico, não estará também o significado local que, como vimos, está contido também na etimologia de euvqu,j. Em causa está apurar se, quando reitera a locução kai. euvqu,j, o narrador está na verdade a salientar que a ida de Jesus para o deserto é, não só imediata, mas também directa, isto é, sem qualquer outra deslocação de permeio. A dimensão local de euvqu,j parece-nos corroborada no plano sintáctico, quer pelo predicado, quer pelo complemento de lugar: pelo predicado, uma vez que o verbo de movimento (evkba,llei) ao qual o advérbio euvqu,j está directamente associado é um verbo cuja semântica de deslocação vem realçada, não só pelo verbo radical (ba,llein, «atirar»), mas também pelo seu prefixo preposicional (evk, «fora»), que também indica espaço. A complementar este predicado surgem os restantes elementos sintácticos da frase: a preposição eivj («para»), indicadora de espaço, tal como a sua complementar evk; e, de maneira particularmente vincada, o deserto, destino da deslocação de Jesus.

Uma tradução adequada dos versículos 10 e 12 deverá, pois, vincar esta complementaridade

temporal e local que a mesma locução kai. euvqu,j aí apresenta645. Daqui a nossa proposta de,

em 10a, verter por «E imediatamente» o valor coordenativo e meramente temporal da locução kai. euvqu,j. Já quanto à tradução do v. 12, ela deve evidenciar, simultaneamente, a impressão

643 Nesta observação e na análise subsequente, seguimos de perto o estudo exaustivo que temos vindo a citar, de J. MATEOS, «euvqu,j y sinonimos», 105-139, sobre o uso deste advérbio, em Marcos e no NT.

644 Cf. J. MATEOS, «euvqu,j y sinonimos», 120.122.

645 Segundo J. MATEOS, «euvqu,j y sinonimos», 115-124 e 127, são nove as ocorrências de euvqu,j com sentido local-temporal: Mc 1,28.29; 3,6; 4,29; 7,25; 8,10; 9,15; 11,2; 15,1. Excluída dessa lista está, portanto, Mc 1,10.12.

inicial de contraste com a teofania de 10-11 espelhada no verbo evkba,llei («expulsa»), e o valor

local-temporal da locução kai. euvqu,j. Neste sentido, entendemos ser necessário: reconhecer

valor adversativo à copulativa kai,646; e referir a vertente temporal no início da frase,

pressupondo uma vertente também local no advérbio euvqu,j, vertente essa dada logo a seguir pelo contexto, no verbo («expulsa») e no complemento de lugar («deserto»)647. Assim, temos:

«Mas logo o Espírito O expulsa para o deserto».

Para o leitor de Mc 1,10-13, a impressão global daqui resultante há-de ser a de que, no quadro histórico do Seu baptismo no Jordão, Jesus vivencia uma experiência simultaneamente

sensível (ei=den… fwnh. evge,neto, «viu… uma voz surgiu», 10) e espiritual (to. pneu/ma […]

katabai/non eivj auvto,n, «o Espírito… descendo sobre Ele», 10d). Uma experiência profundamente ambivalente, portanto, conforme se verifica desde a leitura do v. 12 («mas logo o Espírito o expulsa…») em diante (12-13). Indissoluvelmente vinculados a esta

simultaneidade sensível e espiritual estão elementos de tempo e de espaços – um momento de

revelação único, posterior ao Seu baptismo (10a)648, bem como dois espaços geograficamente

contíguos: o Jordão (9c.10a) e o deserto (12.13a). Assinalar em Mc 1,10-13a a simultaneidade de todas estas dimensões contrastantes é, em nosso entender, a função de euvqu,j, esse «advérbio conectivo de sucessão imediata que aparece com tanta frequência em Mc»649.

ei=den

(10b-d)

Não obstante a ambiguidade quanto ao sujeito de ei=den («viu») entendemos que este verbo finito da longa oração principal (10b-d) só pode predicar de Jesus, referido pelo nome no passo anterior (9)650. É através do verbo o`ra,w («ver») – no indicativo aoristo, e regendo

sintacticamente dois complementos: o rasgar-se do céu e a descida do Espírito – que o evangelista retrata, em síntese interpretativa, uma parte da experiência pós-baptismal de Jesus. Com o modo indicativo, indica-se que aquela grandiosa visão se produziu efectivamente, e, através do aoristo, refere o narrador, não só o facto da sua consumação no passado, mas sobretudo que a qualidade ou modo de realização daquela acção passada foi fundamentalmente pontual. Cabe ao leitor o ónus de decidir qual o aspecto verbal desta acção pontual, isto é, se o seu carácter pontual passado (aoristo) aponta no sentido de uma visão simplesmente momentânea, ou no sentido de uma visão prolongada. Neste último caso, está em causa decidir se o aspecto do aoristo é “incoativo” (a acção contemplada do ponto de vista do seu início), “culminante” (a acção contemplada do ponto de vista do seufim) ou “globalizante” (a acção

646 Sobre o valor (também) adversativo desta conjunção, cf. Blass – Debrunner, § 442.

647 Ao verter a mesma locução num passo paradigmático como é Mc 1,29, J. MATEOS, «euvqu,j y sinonimos», 116, sobrepõe ao elemento temporal o elemento local do advérbio euvqu,j. Esta é também a solução deV. TAYLOR, The Gospel According to St. Mark, 178 («The meaning of euvqu,j may be ‘So then’, but it is also possible that the intention is to say that the first thing He did on leaving the synagogue was to enter the house of Simon and Andrew»), e a da TOB, NT, Paris 1972 («juste en sortant de la synagogue, ils allèrent»).

648 Como bem assinala J. PALACHUVATTIL, «He Saw», 55, o nexo temporal indefinido entre o baptismo e a visão indica que a visão não é efeito do rito baptismal de João.

649 J. MATEOS, «euvqu,j y sinonimos», 109.

650 A outra possibilidade – a descartar – seria a de considerar João como sujeito de ei=den («viu»). Cf., entre outros, Guelich, 32; J. PALACHUVATTIL, «He Saw», 55.

contemplada do ponto de vista da sua totalidade)651. Em nosso entender, aplica-se ao aspecto

verbal de ei=den («viu») em Mc 1,10 a definição que de “aoristo globalizante” propõe M. Alexandre Júnior: «a acção é contemplada como evento, em toda a sua totalidade e abrangência […] como um todo completo e acabado sem qualquer atenção dada ao tempo que ela levou a ser realizada. A acção pode ter tido objectivamente lugar num momento imperceptível de tempo, durante uma sucessão de eventos, ou num período de tempo alargado. O que conta é o evento em si e a visão globalizada que dele se tem»652. Para Marcos, a visão “globalizante”

que Jesus teve incluía o rasgar-se do céu diante de Si (scizome,nouj tou.j ouvranou,j, v. 10b), bem como a descida do Espírito sobre Ele (to. pneu/ma … katabai/non eivj auvto,n, 10c)653.

Embora o advérbio euvqu,j (10a) e a copulativa kai, (11a) possam causar ao leitor a impressão de uma simultaneidade desta visão e da irrupção da voz celeste (11a), a construção sintáctica – marcadamente independente – das respectivas proposições não deixa dúvidas de que se trata de duas acções logicamente distintas654, conquanto interligadas e até inseparáveis no tempo e

no espaço655.