“Digam-me agora, o que poderá, ainda, acontecer-me de pior ?” - O caso do champanha - Anton Tchekov Os anos subsequentes à quebra da bolsa em 1929, foram pródigos em fatos e histórias peculiares relativos ao enorme esforço da população em tentar superar as dificuldades provocadas pela grande depressão.
Foco desse movimento que se expandiu em escala mundial, os Estados Unidos nos brindaram com narrativas de gente desesperada que a todo custo lutava para conseguir alento num caminho de incertezas.
Anthony era um comerciante que sobreviveu às intempéries da dura crise e, embora visse sucumbir vários colegas, nunca perdeu as esperanças no seu tino e na recuperação econômica de seu país.
Continuou investindo no seu negócio e nas pessoas que o apoiaram, e por isso conseguiu prosperar num meio em que muitos fracassaram.
Na véspera do natal de 1931, procurando manifestar reconhecimento pelas graças alcançadas e ao mesmo tempo desejando incentivar no seu próximo uma atitude de desprendimento e solidariedade, fez divulgar, por um dos jornais da cidade, sua intenção de presentear, com um cheque de 10 mil dólares, àquele que demonstrasse o maior desapego material possível, bem como realizasse ao mesmo tempo, o maior gesto de caridade.
Dez mil dólares ! Era mais que qualquer chefe de família ganharia trabalhando toda a sua vida arduamente naqueles tempos de vacas magras. E para isso bastaria que o concorrente declarasse sua boa vontade e doasse algum dinheiro para instituições de caridade.
O anúncio dizia: “Os pretendentes devem comparecer ao salão da loja de armarinhos à rua tal...e, até à meia-noite do dia 24 de dezembro fazer suas propostas, com base nas quais o sr. Anthony escolherá um vencedor.”
A notícia correu mais rápido que fogo num rastilho de pólvora, e às 19 horas, horário em que se abriram as portas da loja para recebê-los, uma multidão ávida para ganhar dinheiro fácil lotava todas as dependências do prédio.
Foi preciso distribuir senhas para que se pusesse alguma ordem naquilo que parecia um belo tumulto.
Enfim, organizada a sessão, os depoentes, por ordem de numeração, começaram a relatar para um apontador, o que entendiam por desapego material e fazer caridade.
-Nesses anos, nunca deixei de ajudar meus vizinhos e amigos. Se receber o prêmio, ainda mais favores hei de fazer por eles – dizia vagamente o primeiro.
-Ora, caridade tenho feito eu, repartindo o pouco que disponho com os filhos de meus irmãos. Vou destinar 10 por cento do prêmio aos moradores do meu bairro .
Com isso, abriu-se uma disputa no estilo de um leilão. Cada pretendente aumentava mais a proporção do prêmio que daria para este ou aquele grupo, esta ou aquela instituição de caridade, diminuindo progressivamente a parte que lhe caberia enquanto ganhador da competição.
-Vou deixar metade do prêmio ao hospital psiquiátrico!
-Repartirei 60 por cento entre o asilo e a ordem religiosa dos franciscanos!
À medida que se aproximava a hora final, cada qual aumentava um ponto percentual à sua promessa de beneficência, incluindo mais uma instituição filantrópica à lista dos favorecidos.
A história alegre vislumbrada por Anthony, havia se transformado numa história enfadonha, pois os pretendentes em vez de declararem suas boas
em que os ouvintes perceberam um misto de cinismo e infâmia, uma quase provocação à honrosa proposta de Anthony.
-Muito bem, senhoras e senhores, podem dividir os 10 mil entre todas as instituições filantrópicas de nossa cidade - arrematou Franz, um imigrante europeu, fugido de um processo por estelionato em seu país, (onde tentou vender um castelo a um nobre francês) buscando a sorte na América. Com isso, mostrou a todos o absurdo a que chegara a situação.
Convencidos de que não haveria mais “lances”, todos se aquietaram. O grande vencedor seria também o maior perdedor.
Tendo anotado todas as propostas, Anthony já estava preparando os papéis que assegurariam que o ganhador faria tal doação. Para ele havia terminado o duelo.
Mas antes que todo o processo finalizasse, um homem se levantou e acrescentou:
-Tenho uma proposta melhor.
Todos se voltaram para ele e Anthony perguntou:
-O que pode ser melhor que doar todo um prêmio para obras assistenciais ?
-Senhor, a regra do jogo diz claramente que o pretendente deve demonstrar desapego material e caridade. Embora o sr. Franz nada retenha do valor em dinheiro, pelo fato de se tornar um benfeitor para diversas instituições, ele, com toda certeza, terá o reconhecimento e gratidão de tais sociedades, o que, numa metamorfose se converterá em prestígio garantindo-lhe de imediato favores e ganhos materiais.
-É bem provável, sr...
-Allan.
Embora não lhe fosse familiar, o último pretendente era bastante conhecido na cidade. De respeitável jornalista num conceituado periódico, o “crash” tirou-lhe num único golpe, o trabalho, a profissão, a esposa e a dignidade,
transformando-o num inveterado alcoólatra, capaz de sozinho, consumir numa semana um barril de amontilado.
-Mas o que poderia ser mais despojado da parte de um homem que doar todo o seu prêmio a instituições filantrópicas ?
-Deixá-lo imediatamente como herança. Ao doador, não restaria nem mesmo desfrutar em vida do reconhecimento dos donatários.
Anthony, um cristão convicto, ficou extremamente surpreso, chocado, quase rechaçando a insólita proposta. De repente viu seu sonho tornar-se um pesadelo. Contrafeito, teve que reconhecer o argumento como válido. Em vez de assistir a uma missa do galo, iria ouvir um réquiem para os mártires que seu jogo, numa fatalidade, havia criado.
Ao público restou fitar longamente o proponente para certificar-se de sua sobriedade e lucidez.
O empresário fez um gesto ao advogado que começou a providenciar um testamento, enquanto ele próprio assinava o cheque em nome de Allan, e que este endossou ao orfanato da cidade.
Antes que os sinos da igreja mais próxima repicassem avisando que Jesus havia nascido novamente, meu pai voltou calmamente para casa, onde cumpriu sua parte no trato, fazendo jus ao prêmio.
Como um corvo, vi-o adentrar sorrateiramente nosso humilde lar com sua capa preta, velha e surrada, abrir um armário da cozinha e pegar um objeto.
Depois deitou-se pela última vez, tendo ao colo seu gato preto de estimação.
Vivendo até a maioridade naquele orfanato, ouvi sempre menções ao seu gesto abnegado e à ousadia com que venceu os competidores naquela contenda