Eu morei na rua Rio Branco dos meus 6 à 15 anos, já faz algum tempo que eu saí de lá, e sinceramente, não sinto falta alguma. Eu não gosto da minha infância, porém ela simplesmente não sai da minha cabeça, mas o que não sai também, foram as experiências um pouco anormais que eu sofri na casa 306 da rua Rio Branco.
Sempre fui uma criança um pouco... precoce, comecei a me masturbar com 8 anos e desde então fui adquirindo um vício anormal por aquele prazer, achava várias maneiras de me satisfazer, com revistas, esponjas, e tudo o que uma criança de 8 anos pode ter acesso, mesmo que escondido.
A casa 306 não foi sempre nossa, e isso ficou explícito quando encontramos uma porção de bonecos, a maioria com alguns traços feitos à mão, no sótão da casa, pois era um casarão antigo, e era o orçamento que nos cabia, mas os bonecos, ah... esses bonecos, sempre me davam um arrepio na espinha por causa da semelhança com humanos, eles eram muito bem-feitos, se me perguntassem eu diria que eram crianças e bebês que foram empalhados e deixados ali pra morrerem sufocados na poeira. Minha família decidiu deixar esses moradores estranhos ali mesmo, não tínhamos pra onde levar, apenas jogamos um lençol por cima e tentamos esquecer da existência deles, o que não era tão fácil, até hoje eu não esqueço de suas expressões...
Todas as noites eu ouvia passos no sótão, rápidos e sagazes, do meu quarto aquele barulho ficava ensurdecedor, eu acordava meus pais quase toda noite pra reclamar, e eu não podia ignorar o medo nos olhos deles quando me falavam pra apenas voltar a dormir e ignorar aquilo que então o barulho iria parar, porque provavelmente eram apenas ratos, e muitas vezes funcionava, mas outras, apenas aumentava o som dos passos, eu e minha família queríamos acreditar muito que eram apenas ratos.
Criança tem uma coragem e uma curiosidade as vezes que não dá a escolha de ter medo, um dia em uma das brincadeiras sexuais comigo mesmo, tive a ideia de subir até o sótão e trazer um dos bonecos pro meu quarto, esse boneco tinha roupa de cozinheiro, e tinha em seu avental uma frase dizendo: Bom apetite, amiguinho! Esse era um dos que davam menos medo. Eu queria me aventurar, eu tinha curiosidade, coloquei o boneco de bruços no meu colchão,
tampei a cabeça dele com um pano e fiz um buraco com uma tesoura no meio dos glúteos plastificados, dentro havia muito algodão, eu fui por cima do boneco e me masturbei naquela aberração. Meus pais já haviam chegado, então eu não iria levar de volta pro sótão, eu não queria que eles tivessem vergonha de ter um filho tarado. Deixei o boneco dentro do meu armário fechado e não queria olhar pra ele de novo.
Acordei com as galinhas do vizinho cacarejando e senti que o clima estava estranho. Dessa vez eu não levantei logo, um sentimento de desconforto tomava conta do meu corpo magrelo. Dei uma olhada no meu quarto e percebi que a porta do armário em que havia colocado o boneco estava entreaberta. Senti um calafrio percorrer o meu corpo e torcia para ser apenas minha imaginação criando paranoias, aquele boneco não pode ter aberto a porta sozinho, então decidi levantar-me para averiguar de perto.
Quando coloco uma perna pra fora da cama, sinto parte das minhas costas e pernas meladas de um líquido que já estava frio, o que queria dizer que já fazia tempo que estava lá. Eu passei o dedo indicador onde parecia estar molhado, torcendo para ser mijo, mas quando levanto-o ele está repleto de sangue sujo, fétido e com uma substância misturada junto que parecia algodão.
Em questão de milésimos de segundos calafrios tomaram conta de mim, parecia que eu conseguia sentir as sinapses do meu cérebro avisando que algo estava muito errado. Eu estava parado na mesma posição, uma perna pra fora da cama e o dedo à altura dos meus olhos, porém, um momento súbito de curiosidade, adrenalina e medo fizeram eu me mexer, mesmo que fosse com a menor velocidade possível, como se eu tivesse me escondendo de algo ou alguém, mas por que diabos eu estava com tanto medo?
Quando sentei-me na cama senti uma dor enorme vindo do meu ânus, e quando levantei escorreu mais sangue pelas pernas, foi assim que eu descobri de onde vinha aquela melação toda. Mal conseguindo me mexer direito, mas ainda com medo, fui até o armário pé por pé, eu tinha que acabar com essa palhaçada
chegando, já virados pra mim eu percebo um olhar assustado em seus olhos, eles não conseguiam esconder que sangue escorria por suas pernas e coxas também: “Nós já acionamos a polícia filho, não se preocupe.” Ouvimos batidas na porta que pareciam com a ponta de uma faca. Meu pai foi devagar atender, segurando uma toalha em suas nádegas, eu fui junto com ele porque não queria ficar sozinho em nenhum momento.
Quando atendemos à porta tinha um boneco. Aquele maldito boneco segurando uma faca imunda de sangue com uma cesta repleta de pedaços de carne pequenos e grandes, todos misturado com algodão sujo, moscas estavam fazendo um banquete com aquilo. Quando eu me abaixo pra pegar aquela merda e jogar longe, vejo que tem um bilhete em baixo da cesta, e quando leio, meu corpo estremece por inteiro...
“Bom apetite, amiguinho.”