Veja você, a ideia que aqui venho por trazer, o conceito tão nobre que se faz tão necessário em tempos de grave crise moral do ser humano, é o quanto a fidelidade comercial é um valor nobre e belo, o quanto as pessoas deviam respeitá-lo, e o quão pouco elas o respeitam. É algo maravilhoso quando uma pessoa e um estabelecimento amam-se e respeitam se mutuamente, nunca falhando um ao outro na milenar troca de valioso dinheiro por excelentes produtos, um dando ao outro aquilo que o outro mais quer e ambos tendo seus desejos realizados. E é algo horrível quando alguém troca o estabelecimento que o serviu tão bem e por tanto tempo por algum concorrente qualquer, privando de dinheiro alguém que é fiel a você e dando tal dinheiro a um incompetente indigno de confiança ou fidelidade, que irá lhe dar um produto pior por um preço mais alto. Nessa segunda situação, todos saem perdendo, exceto um qualquer-um ignorante. Usarei o meu cotidiano e os lugares que frequento como exemplos do que fazer ou não quanto à fidelidade comercial.
O melhor exemplo de fidelidade comercial que posso dar é a locadora de DVDs na minha rua, uma das últimas do universo. E eu sou uma das últimas pessoas do universo que alugam filmes ao invés de assisti-los de graça na internet. Por causa da fidelidade comercial. Sou tão fiel ao lugar quanto ele é a mim, jamais falhando em ir lá alugar um filme sempre que posso, assim como a tal locadora nunca me falha em me conseguir o filme que quero. Ambos saímos ganhando com nossa fidelidade mútua, provando o quão belo tal valor pode ser.
É verdade que, vez que outra, meus amigos ou família me forçam a trair a locadora, me arrastando para cinemas, mas, nesses casos, ponho a culpa toda neles, por me forçarem a algo tão desonroso.
igualmente bem. O mínimo que posso fazer é declarar ao lugar: você é o melhor, e saiba sempre disso! É difícil encontrar alguém tão incrível quanto você, que entende as necessidades dos homens. Posso ter casos ocasionais, mas o lugar que cuida de minha saúde estará sempre em primeiro lugar no meu coração.
Você há de me chamar de hipócrita agora, e não sem razão, pois admito que também cometo erros. Que fique bem claro que este parágrafo é um guia do que não fazer. Acontece que tem três padarias na minha rua, e eu frequento as três, e com igual... frequência. Gosto igualmente das três, tanto quando elas gostam igualmente de mim. Sou fiel em minha infidelidade, indo em todas sempre que posso, e, até agora, isso vem dando certo, na verdade. O único problema é esconder de cada uma a existência das outras duas, o que fica difícil quando elas estão na mesma rua, mas isso eu também venho conseguindo - sei que perderei todas as três no dia em que algo escapar, e, em minha fidelidade, não pretendo de forma alguma frequentar uma quarta. Tem a confeitaria maravilhosa, a padaria do mercadinho, que fica mais perto de casa, e a outra, que fica aberta até tarde, sempre lá para me salvar de morrer de fome quando as outras já se cansaram de mim por aquele dia. Os padeiros são mercenários, mas, afinal de contas, eles merecem receber bastante quando têm um emprego tão nobre quanto salvar vidas de uma morte lenta e dolorosa... enfim, o que quero dizer com tudo isso é que faço algo extremamente errado: privo uma das padarias de receber três vezes mais dinheiro e me privo de comer três vezes mais o melhor dos pães. Juro por minha alma que, se eu não gostasse igualmente das três, já teria escolhido uma.
E é isso. Espero que este texto tenha sido um guia tão bom para a fidelidade comercial quanto é necessário que ele seja, pois este povo deste mundo precisa aprender a ser fiel - afinal, na troca de discos de metal e pedaços de papel colorido por produtos e serviços, todos saem ganhando, e nada de bom pode vir da infidelidade, visto que só lucram aqueles incapazes de fazer um produto ou serviço de qualidade. Então, repense seus hábitos e atitudes, e seja fiel.
Canova
Carapicuíba/SP
Piolhos
Eita apelido que Adriano aprecia em si mesmo: Fera.
Hoje está atrasado pra receber seu prêmio. E que conquista. Fera batalhou muito a vida inteira pra isso. Finalmente terá a oportunidade de fazer uma coisa nobre tão desejada por ele: Esfregar o troféu na cara de seu pai.
E sempre tem um pai não é mesmo? Ou uma mãe. Mas, na maioria das vezes, lá está o bendito progenitor com seu andar altivo, rompante assustador e tom autoritário. Mas nunca é apenas isso.
Seu Zé deve ser o maior responsável por todos os desgostos de Adriano. O grosseirão bebe? Nem uma gota. Fuma? Passa longe. Trai sua esposa? Acho que não. Bom, com relação a isso, agora é que não se mete a besta em tais tipos de aventuras mesmo. Já chegamos lá.
Ora. Então qual é o motivo de tanto ressentimento? A questão é que o disgrama batia, sem razão aparente, em Adriano, todos os dias, enquanto berrava com gozo na face: “Você não vai ser nada na vida seu lixo, Nunca!”
Adriano chegou a pensar que talvez não fosse seu rebento legítimo. Mas logo se convenceu de que Zé simplesmente era ruim mesmo.
Fera escolhe o melhor terno e coloca seus dois pares de sapatos no meio da sala. Após alguns minutos, opta pelo preto e descarta o marrom.
Enquanto ajeita a gravata, se lembra que Zé já teve problemas com piolhos.
“Ainda bem que não puxei o sangue de porco dele.”
Adriano sorri ao se lembrar de Zé passando remédios na cabeça, bem como, ingerindo antídotos e, até mesmo, chás amargos receitados por umas velhas do bairro. Não houve jeito e seu pai raspou os cabelos.
No entanto, os piolhos migraram para seu saco. Zé passou a coçar o bicão a todo momento. Sem perceber, já estava com a mão nas coisas em plena rua.
— Liga não Donana. É piolho. — Disse Zilda numa ocasião em que estava andando com seu esposo e com Adriano pelas ruas da vila.
retorno, passariam no local da premiação. Daria uns calmantes ao velho, a fim de que o mesmo não surtasse. Apesar deste ter se tornado inofensivo, nunca se sabe.
“Você não escapa. Vai ver que consegui vencer apesar de sempre torcer contra mim.”
Nesse instante, Adriano sente vontade de coçar a cabeça e é o que faz. O comichão não passa e ele percebe que há um piolho em sua cabeleira. Aproxima-se do espelho tentando achar o infeliz Aproxima-sem sucesso.
A coceira aumenta e passa a perturbá-lo em diferentes pontos da cabeça. Ele se vira, pega uma escova e a esfrega no cocuruto pra aliviar o incômodo.
No punho em que segura a escova, vê inúmeros piolhos e Adriano, num sobressalto, atira o objeto pra longe. Se vira novamente ao espelho e vê uma espécie de carapaça onde os infelizes cobrem sua cabeça. Eles começam a invadir sua testa e olhos. Já não consegue raciocinar com clareza.
Adriano, em desespero total, procura passar a mão no cabelo com força a fim de atirar os desgraçados para longe. No entanto, em poucos segundos, já não se vê mais sua cabeça. Sobre seu pescoço, há uma grande bola de piolhos.
Desferindo pancadas com sua mão na cabeça, Adriano tropeça numa mesa de centro e cai. No chão, Fera vê a imagem de seu pai o agredindo em sua infância. Este, baba, tem os olhos arregalados e demonstra prazer. “Desgraçado.
Você é um bosta, uma bichinha. Nunca vai ser nada na vida!”
Essa lembrança o impulsiona a levantar. Adriano decide tatear as paredes, procurar a porta e pedir ajuda a algum morador do prédio.
O incômodo da coceira é insuportável. Já de pé, começa a sentir que a carne de seu rosto está sendo ingerida pelos piolhos.
Nesse momento, novamente tropeça, agora no sapato marrom do qual decidira não usar. Suas costas batem no parapeito da janela que está aberta.
Fera cai do décimo andar e morre.
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