CAPÍTULO 5: RESULTADOS E DISCUSSÕES
5.2 Os resultados das entrevistas
5.2.1 Os ex-alunos do ADS
5.2.1.2 Os concluintes
5.2.1.2.2 Caio: o determinado
A origem social de Caio (branco, atualmente com 28 anos) é bastante humilde. Seus avós maternos, hoje aposentados, não estudaram muito. Ele acredita que a avó materna é a que estudou mais, até a 8ª série. Ela trabalhava como merendeira de escola antes de se aposentar. Já seu avô materno teve alguns ofícios, entre eles, motorista de van escolar.
Seus avós paternos faleceram jovens (entre 50 e 63 anos). Caio sabe que trabalhavam na roça e que eram alfabetizados, embora tiveram oportunidades escassas de estudo: “estudo de roça. Estudava um ano, a professora engravidava, não tinha outro professor. Começa de novo noutro ano... São todos alfabetizados, mas diploma escolar...”.
Já seus pais conseguiram se formar no ensino médio na Educação e Jovens e Adultos (EJA). Sua mãe chegou a trabalhar em supermercados, mas hoje é dona de casa. O pai é eletricista e sempre foi o principal responsável pela renda familiar. Suas duas irmãs, mais novas que Caio, são estudantes. A mais velha delas é universitária, estuda um curso de engenharia no Instituto Federal de Confidentes, e a mais nova faz curso técnico integrado ao ensino médio na mesma instituição. Segundo Caio, são “todos filhos do Instituto Federal”.
Caio sempre foi um bom aluno. Contou, com orgulho, o seguinte: “eu sempre tive as melhores notas de todos os cursos que fiz na vida...”. No ensino médio, ele considera que estudou e se formou em uma boa escola pública que tinha em sua cidade, no interior de Minas Gerais.
É, eu tinha boas notas... Eu tive facilidade, mas eu sempre fui dedicado. Então eu não era o melhor aluno, no sentido de que ficava horas estudando, mas eu nunca deixei de fazer o que tinha que fazer e tinha facilidade de aprender.
Sobre atividades extraescolares, Caio lembrou que fez dois cursos em uma escola paga: Informática Básica e Computação gráfica. Segundo ele: “Coisa básica, mas fiz”. Especialmente durante o ensino médio, o ex-aluno contou que sempre fez “bicos” (trabalhou em quitanda, na paróquia do bairro), ajudava os pais em alguns trabalhos, mas sem nunca ter um emprego formal.
Sobre a necessidade de trabalhar, Caio disse que era somente uma forma de complementar a renda familiar, porque, segundo ele, seu pai sempre dizia: “você não precisa trabalhar, mas precisa estudar”. Para o ex-aluno, seu pai buscava dar aos filhos o suporte que nunca teve, para que pudessem estudar mais que ele (que não pôde estudar na idade convencional porque começou a trabalhar com oito anos de idade), demonstrando uma valoração positiva da escolaridade formal.
Quando questionado se as atividades fora da escola atrapalharam seus estudos, Caio relatou que era tranquilo para ele conciliar porque sempre foi um bom aluno. Ir bem na escola era uma exigência do pai:
[...] meu pai sempre foi exigente, nunca foi de, igual eu via, o pessoal tirava boas notas, ganhava parabéns, ganhava presente, eu era mais que obrigação. Se eu não tirasse... meu pai não foi aquele negócio de bater, brigar alguma coisa, mas se eu não tirasse nota boa, ele só perguntava: por que você não tirou mais, o que que aconteceu? Então era mais ou menos esse esquema... Conforme Caio, assim como ir bem na escola durante o ensino fundamental e médio, fazer uma faculdade também era exigência de seu pai. Assim, ele concluiu:
Algumas pessoas são criadas pra ficar, eu fui criado pra sair de casa. Não porque meus pais não gostam de mim, nem nada, eu brinco que eles me expulsaram, mas é brincadeira [risos]. Mas eu, assim, eu fui criado com o intuito de que, quando eu terminar o ensino médio, eu vou procurar alguma coisa melhor, eu vou sair de casa, eu vou ter um emprego. Tanto que eu saí e minha irmã saiu, e a próxima já tá encaminhada. Então, em casa, apesar de no nível, pensando avós, pais, tios e primos de primeiro grau, eu fui o primeiro a ter um diploma de nível superior.
O ex-aluno sempre vislumbrou que, por meio do ingresso no ensino superior, conquistaria uma profissão e construiria sua própria vida, desvinculada diretamente da dos pais. E assim o fez.
A primeira opção de curso superior de Caio era Engenharia da Computação, em uma faculdade privada de prestígio na área. Chegou a se inscrever no vestibular, mas desistiu do
processo seletivo porque sua família não conseguiria pagar alta mensalidade e arcar com os demais gastos, especialmente a moradia.
Assim, ao terminar o ensino médio, Caio não conseguiu ingressar no ensino superior como pretendia. Diante de suas delimitações, o IFSP surgiu como uma possibilidade de continuar os estudos através da indicação de um amigo que estava terminando o primeiro semestre da primeira turma do curso técnico em PDS do Campus Bragança Paulista. Conforme relatou:
Não tinha nenhum curso superior no IF, na verdade, era CEFET, aí eu com outro amigo meu fizemos o vestibulinho e a gente passou e falou: ah, o Enem não foi muito bom, a gente não procurou uma faculdade, esse é um curso técnico, uma formação, aí a gente veio, falamos: “vamos ver qual é que é”. Meio sem conhecer o que era CEFET. Veio morar só nós dois numa casa, sem saber direito o que era Bragança.
Quando estava ainda no terceiro semestre do PDS (eram 4), Caio fez o vestibular para ingressar na segunda turma do ADS ofertada pelo campus (a mesma turma de Benjamin). Sobre isso, disse, achando graça da coincidência: “Eu sou da segunda turma do PDS, da segunda turma do ADS e da segunda turma da GETI” (Gestão Estratégica de Tecnologia da Informação – a primeira e única especialização implantada no campus, na área de TI).
Sobre a oportunidade de cursar o PDS, Caio revelou que “[...] era tudo muito meio que uma loteria...”, que não sabia bem o que estava fazendo. Mas, no curso de ADS, disse que já estava bem consciente de que poderia avançar muito, principalmente porque percebia que alguns alunos, enquanto ainda estudavam, conseguiam estágios em vários lugares, em São Paulo, em startups, então sentia que ia sair empregado do curso.
Durante o primeiro semestre de ADS, Caio cursava o último semestre do curso de PDS no período da manhã, fazia estágio à tarde na prefeitura de Atibaia (cidade vizinha à Bragança), na área de TI, e, à noite fazia o curso superior. No estágio, foi efetivado após 11 meses, sendo convidado a assumir um cargo em comissão, mas em menos de dois anos prestou concurso e foi nomeado.
Sem saber o que era dedicar-se integralmente aos estudos, quando questionado sobre ser difícil conciliar com o trabalho, Caio respondeu: “ah, é relativo. Tinha dias que estava menos cansado, outros um pouco mais. Mas eu só precisava me dedicar um pouco mais, dormir umas horas a menos, deixar de passear no final de semana, mas nunca... um não atrapalhou o outro”. Assim, Caio concluiu os dois cursos e ainda destacou: “...com boas notas”.
O trabalho na prefeitura de Atibaia era algo que gostava muito. Segundo ele, não fosse a questão financeira, estaria nele até hoje. Caio foi aprovado em outro concurso e atualmente trabalha como Técnico de Informática, sendo chefe de seu setor, em um órgão público federal. Quando questionado sobre ter um trabalho dos sonhos, ele respondeu: “Não tenho. Trabalho é trabalho. Preciso de um salário... não tive uma utopia de trabalho ideal... é ta bem a onde ta e ganhando o máximo possível”.
Quando questionado sobre porque teria terminado o técnico e não apenas se dedicado ao ADS, Caio disse que já tinha feito 3 semestres, tinha boas notas e, em suas palavras: “... geralmente o que eu começo, eu termino”.
Caio contou que nunca teve um grande projeto de vida, que se preocupava com “o básico de „eu preciso estudar e ter um bom emprego‟”. Relatou que veio de uma cidade pequena e que, embora não tenha passado dificuldade, vinha de uma família pobre, então:
Não é que você limita seus sonhos, mas você é realista. Eu sou muito realista. Então eu nunca tive esse negócio “ah, eu tenho um sonho disso”, não. A questão é, uma coisa de cada vez, nas etapas, eu preciso estudar e ter um bom emprego... eu nunca penso muito a longo prazo, o resto é meio medio/curto prazo.
Caio sentia as fronteiras que delimitavam seu olhar sobre o futuro. Como lembra Souza (2012) ele não pertence mesmo às classes populares.
Batalhador, oriundo de uma família organizada (SOUZA, 2009), com alto grau de exigência do pai em relação ao seu desempenho escolar, Caio enfrentou com “naturalidade” todas as dificuldades que encontrou. As disposições incorporadas (habitus) por Caio durante sua trajetória de vida elucidam suas tomadas de decisão.