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CAPÍTULO 5: RESULTADOS E DISCUSSÕES

5.2 Os resultados das entrevistas

5.2.1 Os ex-alunos do ADS

5.2.1.2 Os concluintes

5.2.1.2.3 Luana: a resiliente

Luana (branca, hoje com 34 anos) não teve muito contato com seus avós. Chegou a conhecer a avó paterna, mas o pouco que sabe sobre ela é o que lembra que o pai lhe contou: “[...] trabalhava na roça e foi dona de casa a maior parte do tempo”.

A mãe de Luana, nascida em São Paulo e falecida a poucos anos, concluiu o ensino fundamental e trabalhava como secretária, sendo aposentada com cerca de 30 anos por invalidez. Já seu pai, que não concluiu o ensino fundamental, nasceu em Bragança Paulista, e foi para capital com cerca de 20 anos. Lá casou-se com sua mãe. Ele trabalhou como porteiro e depois zelador em um prédio de alto padrão (morava neste emprego em casa cedida pela

empresa, onde Luana cresceu) por muitos anos até se aposentar (antes dos 60 anos). Com a aposentadoria do pai, a família voltou para o interior (Bragança Paulista) em 2001.

Luana tem dois irmãos (é a filha do meio). O mais velho abandonou o ensino fundamental devido ao envolvimento com entorpecentes ilícitos, tendo dificuldade em arrumar e se manter em empregos. Chegou a frequentar a EJA, mas hoje não tem mais contato com a família. O irmão mais novo fez graduação em logística na modalidade EAD, e trabalha na área de administração, em empresa que gerencia um grupo de restaurantes.

Luana contou que, durante sua escolarização básica (ensino fundamental e médio), fez cursos de Inglês e de Informática, além de cursos profissionalizantes como Secretariado e Rotinas Administrativas, dedicando-se totalmente aos estudos.

Com bastante facilidade para aprender, a ex-aluna sempre foi elogiada por seus professores. Segundo relatou: “me considerava boa aluna, sempre curiosa e ávida em aprender. Às vezes, conversava muito na sala e levava uns pitacos, mas era raro, eu era educadinha”. Disse que era da turma dos “descolados/nerds”, que não andava muito com os “descolados/populares”. Fazia parte do grêmio estudantil da escola, e foi representante de turma durante todo o ensino fundamental e parte do médio.

Luana contou que foi expressivamente apoiada por seus pais durante toda a sua escolarização básica. Em tom de brincadeira, mas com uma base muito verdadeira, comentou: “se eu pensava que precisava de um lápis, aparecia um lápis”.

Sobre a perspectiva de ingressar no nível superior de ensino, relatou: “na minha cabeça, sempre era tipo normal tudo mundo estudar”. Seus pais e a maioria de seus tios não cursaram faculdades, mas todos os seus primos sim.

Porém, não foi fácil para Luana ingressar na faculdade. Ela tentou por anos o curso de Ciências da Computação em uma cidade diferente de onde morava, mas nunca conseguiu, mesmo participando de programas como FIES27 e Prouni, porque sua família não conseguiria arcar com os custos com moradia, ainda que não precisasse pagar as mensalidades. Sempre indo bem no Enem, Luana lamenta: “... as contas nunca batiam...”.

Assim como Caio, ao terminar o ensino médio, a ex-aluna também não conseguiu ingressar na faculdade. Porém, seu pai ouviu na rádio que um, na época, CEFET estava se instalando na cidade (Bragança Paulista) e que tinha curso técnico gratuito de Informática. Era o curso de PDS, que Benjamin e Caio também fizeram.

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Fundo de Financiamento Estudantil é um programa do Ministério da Educação (MEC), instituído pela Lei nº 10.260/2001, cujo objetivo é conceder financiamento a estudantes em cursos superiores não gratuitos.

Luana, que sempre gostou muito da área, realizou o vestibulindo e ingressou na instituição, segundo ela, “... por oportunidade e afinidade”.

A ex-aluna disse que o PDS “foi ótimo, super puxado”. Mesmo com um nível de exigência alto, ela não teve dificuldades porque “sabia o que tinha que fazer para tirar nota”. Mostrava que, à época, já havia se adaptado bem às exigências escolares. Quando estava terminando o curso técnico, Luana decidiu fazer o vestibular para o ADS, mas revelou:

Eu prestei o vestibular por prestar, estava em dúvida se fazia ADS ou não. Queria descansar um pouco, sabe? Mas quando eu prestei, fiquei em 41º... Daí estava ficando cada vez mais concorrido o ADS. Daí eu achei melhor fazer logo já que tinha sido chamada pra matrícula... Vários colegas meus do técnico na época, não conseguiram passar no vestibular do ADS.

Luana ingressou no curso em 2009, na mesma turma de Benjamin e Caio, concluindo- o no tempo regular, assim como seus colegas, três anos depois.

A ex-aluna se considerava uma das mais estudiosas da sala e apresentava facilidade em compreender os assuntos mais complexos do curso.

Ela conta que trabalhou durante a maior parte da graduação em uma agência que produzia conteúdo digital (sites/mídias sociais) e impressos (folder/banner/outdoor/etc). Embora gostasse de seu trabalho na época, Luana ganhava pouco e gastava tudo com a faculdade (transporte, comida, xerox, livros, prestação de notebook) e contas pessoais. Ela morava com os pais que, em suas palavras; “...não pediam e não precisavam da minha ajuda nas contas da casa”.

Quando questionada sobre ter dificuldades em conciliar trabalho e estudo, comentou:

Era puxado, mas ok. Tinha apoio dos meus pais. E o trabalho tinham algumas flexibilizações, por exemplo: deixavam sair mais cedo nos dias de prova. Eu percebia que alguns alunos só estudavam e iam mal no curso, é isso me aborrecia um pouco, porque eu não compreendia como eles conseguiam ir mal tendo tempo para estudar. Hoje sei que ter tempo é apenas um dos fatores.

No último semestre da faculdade saiu do emprego para participar de um projeto de pesquisa que envolvia o desenvolvimento de um software para o instituto. Luana disse que “a bolsa era um valor legal... na época era 600 reais por 20 horas semanais. 4 horas por dia”. Para a ex-aluna, participar desse projeto: “foi ótimo porque... era enorme e tinham pessoas de todo o país e aprendíamos bastante coisa, principalmente sobre o fluxo de trabalho colaborativo com pessoas de diferentes pontos”.

Quando questionada sobre porque acreditava que tinha conhecido se formar, Luana citou questões como ambiente doméstico minimamente estável (“não era o paraíso, mas tinha recursos...”) e “esforço próprio, capacidade de superar desafios e resiliência... saber o que precisava ser feito, ter paciência de esperar o resultado”.

Ela lembra que eram poucas mulheres na sua turma, calculou por volta de ¼. Quando questionada por que isso acontecia, comentou o seguinte: “acredito que nos últimos anos os cursos de tecnologia foram „dominados‟ pelos homens. E a carreia acabou tento uma conotação masculina, mesmo que seja uma conotação completamente deturpada”. Sobre homens e mulheres serem diferentes ou iguais, comentou que “a possibilidade de executar essa ou aquela atividade não deveria ser determinada por gênero, mas sim pela aptidão de cada um”.

Especialmente no ADS, Luana contou que “...existiam até piadas por partes de alguns professores”. Por conta disso, ela, que se disse bastante competitiva, gostava de ser boa aluna porque provava seu valor com as notas que tirava, “... e dando respostas certas a todo momento”. Porém, a ex-aluna relatou:

Na época da graduação eu não pensava sobre as questões de gênero, por que sempre consegui fazer tudo que queria e me dava bem nos processos seletivos, então nunca tive muito a impressão de que algum espaço me era negado. Mas refletindo um tempo depois vejo que alguns momentos revelaram preconceitos devido ao fato de eu ser mulher.

Como aluna acima da média, que sabia jogar o jogo escolar, Luana conseguia se posicionar em um lugar privilegiado no espaço social em disputa.

A ex-aluna considera que a instituição ajudou-a a alcançar degraus mais altos na carreira. Também acredita que “[...] ter ensino superior é um diferencial na nossa sociedade, e ajuda a abrir portas, a conhecer possibilidades diferentes que não existiam antes de estudar”.

Ao final da faculdade, prestou concurso para um órgão público federal, sendo aprovada e nomeada para o cargo de técnica em tecnologia da informação, no qual trabalha até os dias atuais. Recentemente, ingressou na pós-graduação lato sensu oferecida no próprio IFSP em GETI, a qual está em vias de concluir.

Um projeto de vida que sempre teve em mente foi se “...manter por conta própria”. Hoje mora com o pai, mas planeja comprar sua própria casa. Ela acredita que ter se formado no IFSP a ajudará na realização desse projeto.

As histórias que Luana nos contou sobre alguns aspectos de sua vida, mostram alguém que ascendeu socialmente em relação aos pais.

Colocando em paralelo sua trajetória com a de Caio, percebemos que mesmo com uma condição financeira menos favorecida, ter uma família padrão, que incentivava a dedicação nos estudos, foi um fator chave para a formação desses ex-alunos.

Se compararmos os três concluintes do curso de ADS, veremos que todos indicam uma característica comum que teria sido o diferencial para sua formação no IFSP-BRA: Benjamin disse que foi persistente, Caio que sempre terminava tudo que começava (mesmo na dificuldade) e Luana, por fim, se descreveu resiliente.