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Callida iunctura e series, a ordem da frase (a).

1. UMA POÉTICA DE MOSAICOS?

1.2 Callida iunctura e series, a ordem da frase (a).

Quando se pensa na posição das palavras numa oração latina, por mais que estudemos que o significado pouco muda, é impossível dizer que o sentido geral permanece idêntico. Trata-se, obviamente, de uma questão linguística, e não apenas poética.

Word order is not a subject anyone reading Latin can afford to ignore: apart from anything else, word order is what gets one from disjoint sentences to coherent text. Reading a paragraph of Latin without attention to the word order entails losing access to a whole dimension of meaning, or at best using inferential procedures to guess at what is actually overtly encoded in the syntax (Devine & Stephens, 2006: iii)63.

Nesse sentido, não é exagero de Devine & Stephens dizer que ler latim sem atentar para a ordem das palavras é como tirar uma foto em preto e branco (ibid.: 5): a imagem está lá, mas com um grau muito menor de complexidade, se comparada com o objeto real. O que dizer, portanto, se não atentarmos para a ordem das palavras na literatura, na poesia, ou mais especificamente nas Odes de Horácio? Os dois linguistas       

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“Each individual piece, or tessera, retains its individual identity yet the eye assimilates the pieces into a whole image” (King: 2002: 9).

63 “A ordem das palavras não é um assunto que um leitor de latim possa se dar o luxo de ignorar: antes

de mais nada, a ordem das palavras é o que nos leva de orações soltas a um texto coerente. Ler um parágrafo de latim sem atenção para a ordem das palavras implica perder o acesso a toda uma dimensão de sentido, ou, na melhor das hipóteses, usar de procedimentos inferenciais para imaginar o que de fato está abertamente codificado na sintaxe.”

estão mais preocupados em encontrar um grau zero dos posicionamentos lexicais em latim (coisa que pouco me convence, sobretudo em poesia) para melhor entender os efeitos derivados dos desvios da norma. Mas poderíamos pensar se na poesia (a linguagem de desvios, por excelência) até mesmo a ordem “normal” não implicaria algum sentido. De modo similar, podemos refletir sobre quais os efeitos de um hipérbato alongadíssimo. Sêneca, numa epístola (114.11), comentava esse recurso estilístico:

Sunt qui sensus praecidant et hoc gratiam sperent, si sententia pependerit et audienti suspicionem sui fecerit; sunt qui illos detineant et porrigant; sunt qui non usque ad uitium accedant (necesse est enim hoc facere aliquid grande temptanti) sed qui ipsum uitium ament.

Há aqueles que cortam os sentidos e o fazem com esperança de agradar, caso a sentença se suspenda e crie para o ouvinte uma suspeita; há aqueles que detêm [os sentidos] e os alongam desmedidamente; há aqueles que, sem chegar a cair no vício (pois é inevitável a quem tenta fazer algo grandioso), ainda assim amam esse mesmo vício.

Sêneca está fazendo uma crítica do estilo afetado e assim descreve alguns exemplos. O caso mais central aqui é o de adiamento do sentido, com seus eventuais cortes e suspensões, para criar uma determinada suspeita ou desconfiança no ouvinte que ainda não sabe como a frase se encerra (audienti suspicionem sui fecerit)64. Desse ponto, ele parece desenvolver duas variantes: os que exageram nesse alongamento (porrigant, um verbo que já expressa por si só a demasia); e aqueles que, apesar de realizarem tal empreitada inevitável a quem tenta um feito grandioso (algo que evoca

tenues grandia formulado por Horácio, Odes 3.6.9), não chegam a cair no vício (non usque ad uitium accedant). Isso fica ainda mais claro no trecho seguinte (114.12):

Da mihi quemcumque uis magni nominis uirum: dicam quid illi aetas sua ignouerit, quid in illo sciens dissimulauerit. Multos tibi dabo quibus uitia non nocuerint, quosdam quibus profuerint. Dabo, inquam, maximae famae et inter admiranda propositos, quos si quis corrigit, delet; sic enim uitia virtutibus inmixta sunt ut illas secum tractura sint. Cita-me um homem qualquer, de grande renome; e eu te direi o que sua época lhe perdoou, o que ela dissimulou declaradamente a respeito dele. Citarei muitos cujos vícios não os prejudicaram, e alguns para os quais foram proveitosos. Digo mais, citarei outros, admiráveis e de imensa fama, que se alguém corrigir, há de arruinar; pois de tal modo estão entrelaçados as virtudes e os vícios, que estes as levarão embora consigo.

      

64 A crítica parece ser similar à desenvolvida por Aristóteles na Retórica (3.9, 1409a) a respeito da

Em resumo, Sêneca até aponta o vício, mas esse mesmo vício pode fazer parte da virtude da obra; nos casos mais extremos, como ele mesmo afirma, não convém sequer tentar corrigir os defeitos, porque isso arruinaria o todo, já que levaria consigo também todas virtudes do texto; o resultado é que não podemos determinar um estilo absoluto a ser seguido, oratio certam regulam non habet (114.13)65. Quintiliano (Instituição oratória 9.3.27), também vê a mesma potencialidade, depois de citar diversas figuras de linguagem:

Haec schemata aut his similia, quae erunt per mutationem, adiectionem, ordinem, et conuertunt in se auditorem nec languere patiuntur subinde aliqua notabili figuram excitatum, et habent quandam ex illa uitii similitudine gratiam, ut in cibis interim acor ipse iucundus est.

Esses tropos, ou outros similares a eles, que acontecem por meio de mudança, acréscimo, subtração e ordem, chamam para si o ouvinte sem deixá-lo cansado, pois este logo se excita com alguma figura notável, e detêm parte de sua graça por semelhança ao vício, tal como nos alimentos por vezes um sabor azedo é agradável.

O desvio pode ser, portanto, produtivo, e isso se dá exatamente pelo efeito, como nota também Quintiliano ao inserir a figura do ouvinte; nesses casos, o defeito pode ser exatamente o ponto forte da obra. Tentemos, portanto, analisar o que temos no próprio Horácio, para determinarmos um modo possível de leitura desses processos de mosaico a partir de uma ideia de adiamento sintático, sobretudo nos seus efeitos, como atentava Sêneca; mas deixando de lado qualquer avaliação sobre vícios e virtudes.

Em sua Arte poética 46-8, o poeta fez uma formulação hoje clássica e incontornável para todos que tentam entender sua poesia. É por ela que começo:

In uerbis etiam tenuis cautusque serendis dixeris egregie, notum si callida

uerbum reddiderit iunctura nouum.

Nas palavras, sê cauto e tênue a entrelaçar,

e egrégio, se à palavra conhecida astuta

junção transforma em novidade.

(grifos meus)66

      

65 Mais adiante (114.17-18), Sêneca deixa ainda mais clara a sua crítica, quando demonstra que um

determinado efeito do estilo de Salústio, quando passa a ser sistematicamente imitado por Arrúncio, torna-se uma espécie de cacoete (Vides autem quid sequatur ubi alicui vitium pro exemplo est).

66 “Escasso e parco em engendrar palavras,/Fallarás com primor, se remoçares/Com engenhosa liga

usado termo” (trad. de Seabra); “No forjar de palavras peregrinas/Te mostrarás tambem discreto, e parco:/E dirás muito bem, se judicioso/Soldando duas vozes já sabidas/Subtilmente formares uma nova” (trad. de Lusitano). “No arranjo das palavras deverás também ser subtil e cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras mais

Os grifos indicam os dois maiores problemas interpretativos da passagem: afinal, o que podemos entender por uerbis serendis e callida iunctura? Traduzi as duas construções, respectivamente, por “entrelaçar das palavras” (serendis, derivado do verbo sero, “enlaçar, entrelaçar, travar, ajunctar”, segundo o dicionário de Saraiva, mas também de sero “plantar, semear”67; respectivamente como entwine, join in a

series e como to plant, to sow, to procrate, to sow seeds segundo o Oxford Latin Dictionary) e “astuta junção” (de callidus, “versado, exercitado, practico, adestrado,

experimentado, hábil”; mas também “manhoso, astuto”, adjetivos que serviriam tanto a Ulisses como aos escravos malandros da comédia plautina). Mas de que modo devemos entender que o poeta deve ser tênue e cauto no entrelaçar das palavras, e como essa astuta junção transforma um termo conhecido em novidade?

Charles Brink (ad loc.) afirma que a expressão uerbis serendis seria uma inovação horaciana derivada de expressões como sermones/orationes/colloquia serere, mas estas teriam o sentido tradicional de “conversar com uma pessoa” (join speech with a

person), ou “mudar de/inserir um assunto na conversa” (interchange a subject in speech), como podemos ler em Virgílio, Eneida 6.160 (multa inter sese uario sermone serebant). Em Varrão (De lingua Latina 6.64) ainda vemos que o termo sermo seria derivado de series (sermo… a serie); mas nunca a expressão uerba serere,

senão em Sêneca, Medeia 26 (querelas uerbaque in cassum sero), que é posterior a Horácio. Assim, Brink termina por indicar Pseudo-Acrão e a ideia de que sero, nesta passagem, talvez tenha o sentido derivado de “plantar”, ou “posicionar” (talvez o nosso verbo “inserir”68); porém termina retornando à leitura mais comum de que “unir” (join) possa fazer mais sentido, para indicar a ideia de composição. Daí Brink

        correntes” (trad. de Rosado Fernandes). Mauri Furlan (1998: 56-9) apresenta outras traduções em prosa e analisa os principais problemas gramaticais, bem como suas soluções.

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Na prática da leitura e da convivência de ambiguidades num texto, sero também pode ser entendido com o significado de “plantar”, ou mais especificamente de “enxertar” (proposta de Rostagni e Dacier), pode realizar também um efeito produtivo – por meio do enxerto de palavras comuns, surgiria a palavra nova. Fedeli, entendo o sentido de “entrelaçar”, afirma que o sentido de uerbum serere teria de ser o de associar palavras, e não o de criar palavras, nisso tendo a seguir sua opinião (Fedeli & Carena, 1997: vol. 4, ad loc.), embora continue acreditando que a ambiguidade só vai se resolver plenamente no contraste com a outra passagem, onde o termo series aponta para a etimologia de sero.

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Creio que Brink se confunde um pouco, pois Pseudo-Acrão não se detém tanto no ponto por ele marcado: Si noto uerbo conpositio artifex instruatur […] Callida iuncutra uerborum elegans et noua elocutio uel cohaerens sermo (ad loc.). Porfirião parece ir num caminho parecido: Nam licet aliqua uulgaria sint, ait tamen illa cum aliqua conpositione splendescere (ad loc.).

chega à conclusão de que series e iunctura mais adiante69 tenham um sentido quase idêntico, que representariam vagamente conceitos aristotélicos70 e de outros teóricos gregos, como Dionísio de Halicarnasso: ὀνοµάτων σύνθεσις (Aristóteles, Poética 22, 1458a.25; em latim, uerba continuata ou coniuncta, composição de palavras) e ὀνοµάτων ἐκλογή (Dioniso de Halicarnasso, Isócrates 3; em latim, delectus

uerborum, a escolha das palavras)71. Tal conclusão me parece, no mínimo, simplista72; porém antes temos de analisar nosso outro problema interpretativo. Para tanto, farei uma digressão sobre as poucas aparições de iunctura na literatura latina, para tentarmos determinar qual era o seu uso.

O termo aparece em Lucrécio uma única vez, numa passagem de Da natureza das

coisas, 6.1078-86:

Denique non auro res aurum copulat una Aerique aes plumbo fit uti iungatur ab albo? Cetera iam quam multa licet reperire! Quid ergo? Nec tibi tam longis opus est ambagibus usquam, nec me tam multam hic operam comsumere par est, sed breuiter paucis praestat comprendere multa. quorum ita texturae ceciderunt mutua contra, ut cava conveniant plenis haec illius illa huiusque inter se, iunctura haec optima constat. Então, não une uma só coisa o ouro ao ouro, E o bronze, com o estanho, não se junta ao bronze ? Há muitos outros casos mais. Mas para quê? Tu não precisas labutar por tantas voltas, e eu em tanto labor não devo me deter, mas encerrar o máximo num parco espaço. Corpos cujas texturas mútuas se debatem, pra que o vazio englobe o pleno, este daquele e aquele deste, assim faz-se a junção perfeita. (grifos meus)

Neste passo, Lucrécio está tratando de atração e união dos corpos, como fundir ouro com ouro e bronze com bronze, fazendo uso de uma segunda matéria que possa realizar a solda dos metais (como o estanho, no caso do bronze, ou, no caso do ouro, provavelmente o bórax), de modo que o termo parece ser o simples “junção”, sem aplicação técnica específica para a escrita. Assim ele faz a figura etimológica de

      

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Arte poética 240-3, que analisarei mais adiante.

70 A quem se interessa pela relação entre a formulação horaciana e o pensamento aristotélico, é bom

contrastar as passagens da Arte poética com os caps. 21-2 da Poética e com a Retórica 3.1-12.

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Em Cícero, Do Orador 3.150 e ss. e no Orador 79-80, vemos uma gama de termos ligados a usitata, inusitata, nouata e translata, para a escolha de palavras na oratória.

72 Ainda mais simplista seria a de K-H, ad loc., quando propõem que a passagem trate da construção de

iungatur (v. 1079) e iunctura (v. 1086), relacionando verbo e resultado, do mesmo

modo que amplia o conceito: iungatur é usado para descrever um caso específico de junção do outro com outro, enquanto a iunctura, em sua maior abstração, descreve o que acontece no geral, quando qualquer corpo se une pelo encontro de espaços vazios com sobressalências. Em Júlio César, também temos um aparecimento do termo, De

bello Gallico 4.17.3 e 4.17.6:

rationem pontis hanc instituit: tigna bina sesquipedalia paulum ab imo praeacuta dimensa ad altitudinem fluminis intervallo pedum duorum inter se iungebat. [...] haec utraque insuper bipedalibus trabibus immissis, quantum eorum tignorum iunctura distabat, binis utrimque fibulis ab extrema parte distinebantur.

Determinou a seguinte medida da ponte: vigas duplas e sesquipedais com a parte de baixo afiada e medida na fundura do rio se juntavam num intervalo de dois pés. [...] ambas vinha sobre traves bipedais predispostas, e tanto quanto distasse a junção de suas vigas, em cada lado com fivelas duplas eram presas pela ponta.

(grifo meus)

César descreve a construção de uma ponte. Novamente, o termo não assume uma acepção retórica, mas se restringe ao uso mais comum; só que podemos ver, também aqui uma retomada do verbo iungebat com o seu resultado iunctura, mas aqui a união está determinando a ligação necessária para se fazer uma construção73. Cícero também usa o termo, na sua forma composta, apenas uma vez, numa carta a Pompeu (Ad fam. 5.7.2):

illud non dubito, quin, si te mea summa erga te studia parum mihi adiunxerint, res publica nos inter nos conciliatura coniuncturaque sit. Não duvido que, se meus grandes esforços para contigo pouco te ajuntaram a mim, a república será entre nós a conciliação e conjunção.

O termo aqui parece assimilar-se a iunctura, porém é mais provável que seja utilizado neste trecho como um particípio futuro derivado do verbo coniungo, tal como

      

73 Columela, De re rustica (1.16.12-13) usa o termo em acepção similar, com contexto de construção

de adegas e armazéns de grãos: Neque me praeterit sedem frumentis optimam quibusdam uideri horreum camara contectum, cuius solum terrenum, prius quam consternatur, perfossum et amurga recenti non salsa madefactum uelut Signinum opus pilis condensatur. tum deinde cum exaruit, simili modo pauimenta testacia, quae pro aqua receperint amurgam mixtam calci et harenae, supersternuntur et magna ui pauiculis inculcantur atque expoliuntur, omnesque parietum et soli iuncturae testaceis puluinis fibulantur, quoniam fere cum in his partibus aedificia rimas egerunt, caua praebent et latebras subterraneis animalibus (grifo meu). Em 2.2.22, ele ensina como atrelar corretamente os bois ao jugo, com um jogo etimológico entre iunctos, iuncturae e iugum: Igitur in opere boues arte iunctos habere conuenit, quo speciosius ingrediantur sublimes et elatis capitibus ac minus colla eorum labefactentur iugumque melius aptum ceruicibus insidat. hoc enim genus iuncturae maxime probatum est (grifos meus).

conciliatura deriva do verbo concilio74. Mais curioso é perceber, como também nessa passagem, há uma recorrência etimológica entre adiunxerit e coniunctura, que parece ressaltar o caráter menos técnico dos termos75, que estão mais ligados à ideia de união em sociedade (aliás, a acepção mais recorrente para o verbo coniungo, segundo o dicionário Saraiva e o Oxford Latin Dictionary). Na poesia, o termo também aparece antes em Virgílio, Eneida 2.463-4, para descrever as junções da construção civil:

qua summa labantis iuncturas tabulata dabant

onde os altos forros mostravam bambas suas junções (grifo meu)

E também em 12.273-4, na descrição das roupas de guerra: teritur qua sutilis aluo balteus et laterum iuncturas fibula mordet,

roça o ventre um talim leve E a fivela já morde as junções dos seus flancos. (grifo meu)

em acepções bastante similares às de César, com a ideia de ligação e amarra. Há também cinco exemplos em Ovídio, pelos quais podemos passar brevemente: um em

Amores 3.14.9,

ignoto meretrix corpus iunctura Quiriti Meretriz juntará o corpo ao Quirite ignoto

Com um particípio futuro de iungo, como em Cícero, para demonstrar a união sexual. Há também um em Heroides (4.135-6)

Illa coit firma generis iunctura catena Inposuit nodos cui Venus ipsa suos. Tal junção forma a firme corrente da raça À qual Vênus impôs seus próprios laços.

      

74 Parece ser o mesmo caso de Tito Lívio (27.39.2): “octo milia Ligurum conscripta armataque

coniunctura se transgresso in Italiam esse” (grifo meu).

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Em outro contexto, vemos o mesmo jogo também em Celso, acerca da anatomia das partes internas (De medicina 4.1.7): Suntque etiam membranulae tenues, per quas inter se tria ista conectuntur, iungunturque ei saepto, quod transuersum esse supra posui. Inde ima uentriculi pars paulum in dexteriorem partem conuersa, in summum intestinum coartatur. Hanc iuncturam ΠΥΛΩΡΟΝ Graeci uocant, quoniam portae modo in inferiores partes ea, quae excreturi sumus, emittit. Cf. também 8.1.25. Plínio também usa iunctura para expressar as juntas do corpo (Nat. Hist. 12.214): “ut medicatus umor alat teneatque iuncturas”; ou para determinar a junção de pedras (36.98).

Nesse trecho, o termo parece hesitar entre a união sexual (já ovidiana) e a reunião social ou familiar (de Cícero), donde podemos concluir pela ideia de consanguinidade. Por fim, temos 3 aparições nas Metamorfoses:

digitosque ligat iunctura rubentis e uma junção liga os dedos vermelhos

(2.375) sed genuum iunctura riget

mas a junção dos joelhos se enrigece (2.823)

terque quaterque gravi iuncturas verticis ictu rupit

com três ou quatro golpes as junções da cabeça estoura

(12.288-9)

Porém, em todos os casos, designa a ligação de partes do corpo (dedos, joelhos, cabeça). Gostaria de citar ainda o uso de Porfirião nos seus comentários a Horácio.

Iunctura aparece duas vezes. Numa, ele comenta Sátiras 1.5.32-3, a expressão ad unguem factus homo, e assim afirma:

Translatio a marmorariis, qui iuncturas marmorum tum demum perfectas dicunt, si unguis superductus non offendat.

Metáfora dos marmoreiros, quando dizem que suas junções estão perfeitas apenas quando não mais agride à unha que passa por cima.

Onde a acepção está claramente ligada à junção de partes da peça de mármore, usadas para fazer o todo da composição, mas que devem ser limadas até que se atinja um grau de perfeição sem aspereza que não seja mais notável ao passar a unha. Em outro comentário, dessa vez à Arte poética, 232-3, quando Horácio explica que o trímetro jâmbico tem seis pés, eis o que ele afirma:

Quoniam scilicet tanta breuitas est pedum, ut iuncturae binos complectantur pedes.

Pois por certo tamanha é a brevidade dos pés, que as junções são completadas por pés duplos.

Porfirião, portanto, tenta explicar por que Horácio fala da velocidade dos pés para explicar que o jambo seja um trímetro (três metros), mas formados de seis pés. A explicação, para ele, é simples: o jambo (constituído de uma sílaba breve e outra longa) é muito breve, então é possível formar uma junção de pés duplos (dois jambos)

num só metro. Não temos nenhuma acepção excessivamente técnica, mas apenas o uso comum76 de iunctura aplicado tropicamente ao campo da métrica77. A conclusão a que se pode chegar é que nenhum dos escritores anteriores ou contemporâneos de Horácio supérstites usavam iunctura numa acepção técnica específica da retórica ou da poética; mas que o termo tinha um uso comum com o sentido de “junção”, “união”, “ligação” de materiais (ou do corpo)78, que se desdobrava metaforicamente para o campo social e erótico (cf. Adams, 1982: 103-4, a respeito dos sentidos sexuais do verbo iungo).

É basicamente em quatro autores que podemos encontrar uma formulação mais próxima à de Horácio, e todos lhe são posteriores: Sêneca, Aulo Gélio, Quintiliano e Pérsio. Analisarei nessa ordem para tentar dar conta das variedades de gênero em que cada um escreve. Com isso, deixo Pérsio por último, por se tratar de uma formulação escrita em versos, para primeiro vermos como ela acontece na retórica. Sêneca, numa epístola (102.6) comenta os modos de composição dos corpos:

quaedam continua corpora esse, ut hominem; quaedam esse composita, ut navem, domum, omnia denique quorum diversae partes iunctura in unum coactae sunt; quaedam ex distantibus, quorum adhuc membra separata sunt, tamquam exercitus, populus, senatus.

[...] que alguns corpos são contínuos, como o homem; outros são compostos, tal como o barco, a casa, e todas as coisas cujas diversas