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O CAMPO NEOLIBERAL E A ESCOLA DO CAMPO

No documento CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO (páginas 171-175)

Dardot e Laval (2017), ao se referirem à compreensão do neoliberalismo, o qual, segundo eles, é o estágio mais recente do capitalismo, indicam que não se trata apenas de pressupostos econômicos. A racionalidade neoliberal atinge todas as esferas da vida:

incide sobre a política, sobre a democracia, sobre o trabalho, sobre as relações sociais e afetivas na sociedade. Ou seja, nada escapa. Desse modo, o campo, a produção rural, as relações de trabalho e a vida camponesa se inserem nesse mesmo contexto.

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Kolling, Nery e Molina (1999), a partir de uma perspectiva marxista, percebem que, no Brasil, o avanço do capitalismo no campo se dá de forma acelerada e baseado em três princípios: a) desenvolvimento desigual; b) processo excludente que expulsa camponeses, extrativistas e povos tradicionais de seus territórios19; e c) modelo agrícola que reproduz relações sociais e produtivas injustas e que convive com a modernização e o atraso sem a intenção de superar tal dicotomia. Vemos aqui elementos que dialogam com aquilo que nos traz Brown (2019) ao versar sobre a centralidade, para a democracia, de se estabelecer a justiça social como fundamento para a igualdade política.

Dentro desse cenário, o agronegócio se constitui como concepção do capitalismo neoliberal capaz de avançar na concentração de riquezas, sobrepondo-se à natureza, desprezando os riscos ecológicos, sem nenhum compromisso com a diversidade étnica, histórica e cultural dos povos que vivem nesses territórios. Nessa lógica, a modernização capitalista se caracteriza como excludente, dilacera as relações de trabalho no campo, explora o trabalho camponês e empurra populações de seus territórios à cidade. Cria-se uma narrativa única, na qual a sujeição e o fatalismo naturalizam as práticas e ações implementadas pelo agronegócio sem questioná-las.

Nesses territórios, o êxodo rural justifica a inanição de estruturas públicas que garantam a justiça social no campo. Portanto, o raciocínio é: como a modernização agrícola, a mecanização, as novas tecnologias de produção e acompanhamento dos processos exigem um contingente bastante reduzido de mão de obra, necessita-se progressivamente de menos gente para trabalhar em tais atividades. Ou seja, há um esvaziamento do campo. Logo, serviços públicos básicos, como

19 A atual política do governo federal de não proteção de terras indígenas e de territórios quilombolas, a ameaça de revisão de demarcações já realizadas e o estímulo à flexibilização da legislação ambiental para privilegiar o aumento da fronteira agrícola, da extração vegetal e de minérios intensificam os danos ambientais no país e colocam em risco a diversidade cultural e a vida de tais populações.

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escolas, postos de atendimento à saúde básica e assistência social, são fechados ou precarizados diante da baixa demanda. Por outro lado, os latifúndios e a ação de grandes proprietários – individuais ou corporativos – esmagam populações que agem em outra perspectiva.

O embate é crescente, e a ameaça se evidencia cada vez mais.

Mariano (2019, p. 180), com um olhar crítico e percebendo a educação como direito fundamental, ao analisar os efeitos do agronegócio sobre a Educação e a Escola do Campo, destaca que:

O modelo de agricultura que massacra e expulsa famílias camponesas de seu território, somado à lógica privatista das políticas educacionais, têm acelerado o fechamento de escolas públicas no campo e dificultado a construção de novas que atendam às diferentes etapas da educação básica, negando às populações o direito de estudar no lugar onde vivem e trabalham.

O pedagogo e especialista em Educação do Campo20 salienta ainda que, entre 2003 e 2014, tal modelo produtivo excludente encontrou sintonia política em gestões públicas municipais e estaduais no país, fazendo com que mais de 37 mil Escolas fossem fechadas, negando às populações camponesas a efetivação do direito à Educação e à Escola (MARIANO, 2019). Isso nos parece estar inserido no raciocínio de análise de Brown (2019) ao examinar os efeitos e consequências do neoliberalismo na sociedade e em sua defesa da necessidade de o Estado garantir a justiça social, indispensável à igualdade política para o fortalecimento da democracia. Isto é, aos camponeses, dentro da lógica do agronegócio que se institui como face do capitalismo

20 Silva (2020, p. 55-56) conceitua Educação do Campo como a modalidade de educação

“[...] fruto da demanda de movimentos sociais camponeses no país que compreendem que o Estado brasileiro precisava implementar políticas públicas aos trabalhadores do campo e que a Educação possui uma centralidade nesse processo. Isto é, os trabalhadores e trabalhadoras do campo têm o direito de viver no campo com dignidade, reforçar sua identidade e ter o reconhecimento de suas práticas sociais, culturais e produtivas passadas de geração a geração. Difere-se da Educação Rural por levar em consideração os aspectos culturais, os interesses e as necessidades dos camponeses. Enquanto a Educação Rural é feita para os camponeses, a Educação do Campo é feita com os camponeses, caracterizando, assim, um processo de participação efetiva, de respeito aos seus saberes e inclusão de suas práticas culturais, reforçando a identidade camponesa”.

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neoliberal no campo, aniquilam-se as estruturas públicas – no caso específico, a Escola do Campo21 –, impedindo o acesso à Educação (um direito fundamental), capaz de fomentar a dignidade humana, corrigir o distanciamento social e garantir a igualdade política.

Diante desse quadro, no qual a hegemonia do agronegócio se sobrepõe à cultura camponesa, a formas produtivas tradicionais, a organizações comunitárias e a cooperativas, utilizando-se de uma narrativa pretensamente mais produtiva, eficaz e lucrativa, ataca-se o meio ambiente, interfere-se e põe-se em risco a própria vida de comunidades tradicionais e de camponeses que resistem a tal lógica. É no cenário em que o Estado reduz suas estruturas públicas de garantia de direitos às comunidades camponesas através de suas Escolas ainda presentes no campo brasileiro que se desenvolveu a recente investigação Práticas curriculares democráticas em Escolas do Campo no Brasil (SILVA, 2020). Nela, buscou-se identificar práticas curriculares que, para além de um movimento de resistência à racionalidade do capitalismo neoliberal no campo, nos mostram o vigor, a vitalidade e a criatividade de atores sociais e de educadoras e educadores nesses territórios. Procuraram-se práticas que percebem a importância do conhecimento contextualizado, da produção agroecológica e de formas políticas e pedagógicas de se relacionar com os saberes e a ciência

21 Molina e Sá (2012) entendem a Escola do Campo como aquela capaz de superar as contradições do capitalismo no campo. Assim enfatizam: “A partir do projeto formativo redesenhado, outras dimensões importantes e que precisam ser alteradas, para garantir que as escolas tradicionais do meio rural possam vir a se transformar em escolas do campo, referem-se às relações sociais vividas na escola, cujas mudanças devem ser dirigidas a: 1) cultivar formas e estratégias de trabalho que sejam capazes de reunir a comunidade em torno da escola para seu interior, enxergando nela uma aliada para enfrentar seus problemas e construir soluções; 2) promover a superação da prioridade dada aos indivíduos isoladamente, tanto no próprio percurso formativo relacionado à construção de conhecimentos quanto nos valores e estratégias de trabalho, cultivando, no lugar do individualismo, a experiência e a vivência da realização de práticas e estudos coletivos, bem como instituindo a experiência da gestão coletiva da escola; 3) superar a separação entre trabalho intelectual e manual, entre teoria e prática, buscando construir estratégias de inserir o trabalho concretamente nos processos formativos vivenciados na escola” (MOLINA; SÁ, 2012, p. 330).

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para minimizar os efeitos sociais nas comunidades camponesas, criar relações de trabalho com dignidade, fomentar a justiça social, permitir a emancipação e consolidar a democracia.

Na seção seguinte, apresentaremos alguns dos elementos constatados na investigação e que nos indicam modos novos de se fortalecer a democracia através do currículo escolar em Escolas do Campo, mesmo diante do falacioso fatalismo da racionalidade neoliberal.

PRÁTICAS CURRICULARES, EXPERIÊNCIAS

No documento CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO (páginas 171-175)