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48 LIMA, Laura, Eu nunca ensaio. In: CAVACANTI, Ana: TAVORA, Maria Luisa (Eds). Arte e Ensaios. N21.

42 Porque as coisas não precisam vencer, até porque nos vamos entrar com sentido histórico de que o mais básico a gente sabe que a história é contada pelo vencedor. Mas eu não to falando exatamente disso, eu to falando sobre o significado das coisas, então a minha pulsão, além de ser uma pulsão poética é uma pulsão filosófica, entendeu? Por causa do meu background de filosofia, a forma como eu trabalho, porque eu estou muito interessada nas pulsões de sentido. O Fracasso como idéia de continuidade; relação com o nível de entendimento de como o homem olha para o mundo49.

A escolha de um homem para puxar a paisagem vem com todo esse sentido da idéia de músculo, de força, porque se fosse, neste caso, uma mulher puxando a paisagem, a obra mudaria completamente o seu sentido. Além da questão do gênero, Puxador também faz referencia com a obra Nômades - que será especificada com maiores detalhes no terceiro capítulo - porque são duas obras que tratam especificamente de pintura, assim como em Nômades, quando a artista nomeia que o homem puxe a paisagem ela já está de fato pintando, ou pelo menos mostrando o ato do pintor, porque o pintor foi ao mundo, pintou a paisagem, levou-a para a galeria, quer dizer, ele também trouxe a paisagem para dentro do lugar onde ele estava.

Não é fortuito considerar que para Lisette Lagnado50 o foco de Laura Lima não seria reavaliar a imagem do nu na história da arte, pois a seu ver as questões sugeridas pela artista estão ligadas à materialidade corpórea, seu pensamento toca o de Merleau Ponty e Camus no sentido de que a curadora acredita que somos iguais quando nos reduzimos ao aspecto de parentesco que temos através da materialidade da carne enquanto corpo, na sua totalidade de natureza comum, inerente a todos. A crítica de arte acrescenta que Laura Lima expõe a melancolia da nossa miséria humana, com uma obra que levanta questões sobre a falta de contato entre os indivíduos, bem como o adiamento incessante da satisfação dos nossos desejos. A relação com o outro é traduzida aqui através da contenção, como uma energia que pode ser reprimida. Sobre Puxador, Lagnado pondera que:

49 Trecho da entrevista feita pela pesquisadora com Laura Lima, gentilmente cedida no dia 16 de fev de 2012 as

16hs45min, p.04.

50 LAGNADO, Lisette. “The Task of Distance”. In Laura Lima Project Rooms. Poster for ARCO - Madrid.

43 Endowed with long back straps that liken it to a humbled Icarus, its task could only belong to the order of monstrosity. Beyond disproportion, bringing the external landscape into the exhibition space suggests wasted effort from the start51.

A busca e a falta na sua condição mais efetiva consistem a idéia da obra Puxador, aspectos ligados aos paradoxos do ser, o que nos falta e ao mesmo tempo nos arrebata, naquilo que estabelecemos como o dever de ser, quando o corpo pede outra coisa. O corpo convoca a paisagem e tenta trazê-la para si, ou para o espaço, compulsivamente no desejo de tê-la, nesse caso, a paisagem que é representada na obra como fora, para justamente mostrar o ato do esforço do homem.

O homem que puxa a paisagem para dentro do espaço, além de seu corpo ser integrado enquanto obra, também convoca a reflexão de que existe outro lugar para além do espaço que a obra opera no momento de sua ação, no âmbito do envolvimento do público nessas duas esferas, ou seja, o ambiente em que a obra está acontecendo e sua expansão para fora do espaço da galeria. Nesse sentido Fernando Cocchiaralle (2004) ao comentar a obra To Age, também de Laura Lima, nos convoca a refletir a partir dos diferentes papéis que o evento atua, no sentido da ampliação do olhar do visitante diante da obra.

These instances are actions that are conceived as strange bodies within the daily routine of cultural institutions. They take place in their conventional spaces (not necessarily exhibition halls) but they can also expand to other places whose circulation may have nothing to do with art. They consequently play multiple roles: they resignify these spaces through wonder, they resensitise a public that is captive to the arts and its consolidated repertories and they challenge the common sense of occasional viewers of art events 52 .

No presente nível de percepção e análise, retomamos a questão do corpo que também pertence ao espaço do mundo, que se move e nunca atinge uma permanência no espaço, sob tal conjunção é lançado o problema de um corpo que também é contaminado por um extenso e profuso mundo que o circunda, ao mesmo tempo em que sou parte desse mundo, permaneço

51 Dotado de correias traseiras longas que o comparam a um Icarus humilhado, sua tarefa só poderia pertencer à

ordem da monstruosidade. Além da desproporção, levando a paisagem externa para o espaço de exposição sugere desperdício de esforços desde o início. (Traduçao Livre).

52 Essas instãncias são ações que são concebidas como corpos estranhos dentro da rotina diária das instituições

culturais. Elas ocorrem em seus espaços convencionais (não necessariamente salas de exposição), mas também podem se expandir para outros lugares cuja circulação pode não ter nada a ver com arte. Consequentemente, podem desempenhar papéis múltiplos como: ressignificar esses espaços, através da admiraçao, no convite a um público cativo para as artes e seus repertórios já consolidados, bem como o desafio ao senso comum dos espectadores ocasionais dos eventos de arte. Traduçao livre. In: COCCHIARALLE, Fernando. “To Age”. In Chapter Arts Centre Folder – Cardiff, Wales. UK.2004/2005. Texto generosamente enviado pela galeria A Gentil Carioca, a pedido da pesquisadora.

44 em luta com ele, pois há falta de uma identificação, por suas infinitas diferenças e possibilidades. Assim é o lugar da obra, ou a experiência que a obra faculta, um momento nesse emaranhado de sensaçoes. O lugar que faz parte do que Puxador nos sugere, a consciência de uma percepção na duraçao desse complexo de sensações que não pode mais ser visto, e sim sentido por alguém, assim como o pintor transforma suas sensações em cor. No mesmo ano em que Puxador foi apresentada, Laura Lima apresenta uma exposição cujo título era Fuga, tratava-se de uma galeria repleta de pássaros, que ficavam retidos nesse espaço sem poder sair. A galeria foi transformada em um viveiro de pássaros vivos 53 que se projetava sobre a rua, fazendo com que as aves olhassem a paisagem externa e quem estivesse passando na calçada também pudesse ver as aves, que ficaram confinadas na galeria por dois meses. Ao todo se somava cinqüenta pássaros pequenos, todos com o acompanhamento do IBAMA e de profissionais especializados para o bem estar dos animais e do público. Em um texto sobre a exposição, à crítica de arte Marisa Flórido, disse que a ação em Puxador pode agir de forma contrária, porque enquanto em Fuga, a intenção era reter a natureza dentro do espaço da galeria até transbordar, Puxador tinha como preocupação trazer a natureza, o mundo para dentro da galeria. Nota-se que as duas ações fazem lembrar, por semelhante lógica, o ato do pintor, que num gesto preocupa-se em aprisionar em sua tela um fragmento da paisagem que vê diante de seus olhos.

O puxador, de Laura Lima, nos confrontava a questões da pintura: ser a janela rasgando o mundo e o espelho onde esse mundo se refletia. Aquelas cordas, como linhas de fuga convergindo para um ponto ilusório no infinito, ensaiavam inutilmente emoldurar a dispersão da paisagem. No ponto de fuga da perspectiva linear, os horizontes sonhavam ancorar-se no olhar e na medida do homem. Derrisória presunção54.

Problematizando a imagem do corpo entrelaçado ao mundo do conceito merleau- pontyano e as possíveis relações entre a imagem retida da pintura, Marisa Flórido, propõe um olhar ampliado para as fugas do mundo, o ponto de fuga dos pássaros que se abrem para o vôo, o ponto de fuga do pintor, que possibilita a abertura para o interior da pintura e o ponto de fuga de Laura Lima, no papel de propositora de desvios diversos e diferentes rumos através

53 Segundo o Site da Galeria A Gentil Carioca. Disponível em:

<http://agentilcarioca.com.br/indexpor.html>acesso em 02 out de 2011.

54 Marisa Flórido Cesar, num texto Crítico, A possível Revoada, ao aludir tal obra à exposição Fuga, 2009.

Segundo o site Canal Contemporâneo disponível em:

45 da ação da obra, nesse caso, desvios híbridos, absortos em possibilidades, trocas e ressignificações.

O corpo tratado por Laura Lima no presente capítulo é superfície e profundidade ao mesmo tempo. Superfície porque a matéria utilizada pela artista é a mesma carne do corpo que é contado no mundo como coisa do mundo. É também profundidade porque existe um cruzamento ou uma sinergia entre aquele que vê o corpo, uma vez que esse corpo que é coisa, também é um corpo vidente. Então as obras apresentadas evocam o meio que é dado de estar com meu corpo que é interioridade e que se exterioriza e fulgura sentidos, significações na própria estrutura ausente ou invisível quando olhamos o visível existente na mesma matéria do meu corpo, a carne como obra.

Desse modo é pertinente entender as obras do conceito Homem=Carne/Mulher=Carne, como uma integração entre obra e mundo, porque a paisagem do vidente é impregnada de memórias e experiências do mundo, tais paisagens se cruzam ativamente através das paixões que se unificam perfeitamente como uma sinergia que se unifica na obra, quando isso acontece tudo está interligado, porque não há mais separação entre o que vemos e somos. Merleau-Ponty chamou de massa do sensível, ou de dois lábios essa união, e não poderia ter outra denominação porque só existe a fala quando os lábios se tocam, e dela se pronuncia um discurso sensibilíssimo, que só existe em lábios que pertencem à mesma boca e que entendem a mesma língua.