CAPÍTULO PRIMEIRO
CAPÍTULO TRIGÉSIMO SEXTO ( 171 )
DO DESCOBRIMENTO DA ILHA DO FAIAL E DE SEUS PRIMEIROS E MAIS ANTIGOS POVOADORES, ANTRE OS QUAIS FOI UM MAIS PRINCIPAL, CHAMADO GUILHERME
SILVEIRA, DE QUE PROCEDEM OS SILVEIRAS
Antre muitos, não se sabe quem fosse o que primeiro descobriu a ilha do Faial e, segundo diz o docto e curioso João de Barros na sua Ásia, no livro terceiro da primeira Década, no capítulo undécimo, em tempo dos requerimentos de Colon a tinha Jos Dutra (172), não sei se quer dizer descoberto o qual era framengo de nação e morador na cidade de Bruges, ducado de Frandes, fidalgo e senhor de certas vilas no mesmo ducado, e vindo ter a Portugal a ver mundo, como os framengos costumam fazer, por serem curiosos os daquela província, que, ainda que sejam muito ricos e homens de qualidade, têm por costume mandarem seus filhos aprender ofícios, ou outras manhas boas de tanger e dançar, falar línguas e outros exercícios, pelo que, chegado Jos Dutra à corte de Portugal não sei em tempo de que rei, uns dizem que dali veio a descobrir a ilha do Faial, a qual achou, e, tornando pera o reino, se casou nele.
Outros dizem que, quando se descobriu a ilha do Faial, estava então em Lisboa um clérigo, framengo de nação, que era capelão do infante, a quem a infanta (173), mulher do dito infante, desejava fazer bem, por ser seu capelão muito tempo e bom homem, pelo que, com este desejo de lhe pagar seu serviço, disse ao infante que o fizessem capitão daquela ilha, o que fizeram, e, passados seus padrões, caíram como não era possível ele (174) ser capitão, sendo clérigo que não podia governar justiça; pelo, que estando disto descontentes, lhe perguntou a infanta se tinha algum parente ou amigo que pusesse em seu nome, e que a renda da igreja seria sua, o que fez o clérigo, e, por ter a este tempo consigo Jos Dutra, mancebo, framengo de nação, criado cavaleiro da casa do dito infante (como mais largo trata o docto e curioso João de Barros no livro que fez, chamado Clarimundo), que se conheciam e pousava com ele, disse o clérigo à infanta que o fizesse capitão e que ele lhe daria a renda, que bem se haveriam; o que a infanta fez fazer ao infante e lhe passaram disso suas cartas e padrões; e, feito capitão, estando pera se partir, disse a infanta a suas criadas que, já que aquele homem era capitão, se queria alguma delas casar com ele, que seria capitoa daquela ilha, ao que lhe responderam que não queriam; somente Isabel (175) de Macedo, vendo que todas diziam que não, disse que ela queria e era contente; então os casaram, e se vieram pera o Faial, onde viveram e tiveram filhos.
Outros afirmam que, por el-rei ser informado que Jos Dutra era fidalgo e pessoa principal em Frandes e vinha a ver o reino de Portugal por sua curiosidade, o casou com uma sua dama, chamada Francisca Corte Real. Outros dizem, o que é mais certo, que havia nome Breatis de Macedo, de que procedem os Macedos desta ilha de São Miguel e Guiomar Botelha, mulher de João Mendes Pereira, irmão de António Mendes Pereira, e filha de Nuno de Macedo (176), que foi filho do dito capitão do Faial; e, por assi casar a Breatis de Macedo com este capitão Jos Dutra, lhe deu o infante em casamento a capitania da ilha do Faial e da ilha do Pico, que ainda então estava por povoar, mas achadas não se sabe por quem, e são vários pareceres, se por Gonçalo Velho, comendador de Almourol, se pelo mesmo Jos Dutra, ou por outrem.
Estando estas duas ilhas do Faial e Pico descobertas, mas não povoadas, sendo muito ermas, com só algum gado que nelas deitaram os primeiros descobridores, ou os moradores da ilha Terceira e da de São Jorge, que primeiro foram descobertas, antes de haver gente no Faial, veio do reino um homem de boa vida, ermitão, que, pela fazer mais solitária, se foi pera a dita ilha do Faial, onde se pôs de assento pera nela exercitar sua determinação e devação (sic), estando ali só todo o inverno, e no verão iam pessoas da Terceira a suas fazendas e visitar seus gados, onde então comunicavam com este ermitão. Indo lá um verão, lhe acharam que, por seu modo, tinha ordenado uma embarcação; foi perguntado a que fim a fazia.
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Respondeu que da parte da ilha do Pico (que é menos de uma légua de mar em meio, onde se vê o gado andar pascendo) lhe aparecia uma mulher vestida de branco, que o chamava de lá, que se fosse pera ela, e que por ter pera si que era Nossa Senhora, queria fazer aquele barquinho, em o qual, forrado de couro por fora, determinava passar lá, quando ela o chamasse. As pessoas que lho ouviram o tiraram disso o mais que puderam; contudo, ida a gente, como se viu só, acabou a obra do barco que fazia e se meteu no mar, sem nunca mais ser achado, nem visto, pelo que se teve por certo que quem o chamava era o demónio, que o enganava e, persuadindo-o que era a Virgem Nossa Senhora, foi meio e causa esta capa de santidade deste pobre morrer afogado, sem haver mais nova dele, nem do barquinho que fazia. Sendo casado no reino Jos Dutra com Breatis de Macedo e feito capitão das duas ilhas, Faial e Pico, que, ou pelas ele achar ou por assi casar, lhe deram em dote, se foi de Portugal a Frandes, onde tinha seu património, o qual vendeu lá pera vir povoar as ditas ilhas e capitania delas; e, desejando trazer gente pera as povoar, por serem novas e ermas, falou com muitos e informou a muitas pessoas de sua nação framenga e amigos seus pera este efeito, prometendo-lhe dar nas mesmas ilhas quanta terra quisessem e fazer muitos favores, com os quais demoveu a virem alguns dos seus naturais a elas.
Outros dizem que primeiro veio com sua mulher à ilha do Faial e daí, deixando-a na ilha, se foi a Frandes, donde trouxe muitos framengos, parentes e amigos, como foram António Dutra, parente seu e pessoa muito principal, que casou na terra, de que procederam os Dutras que hoje há nela, e outro Jos Dutra, e outro, chamado Arnequim, casado com Beta, sua mulher, framenga, e outro Pitre ou Pita da Rosa, casado com Maya (sic), framenga de nação, e outro Jorge, casado com Margarida Luís, framenga, e outros a que não soube os nomes. Este Arnequim dizem que era um framengo valente e determinado. Conta-se dele que, indo um corregedor ali, ao Faial, fazer sua correição, conforme à lei de el-rei, acabado o derradeiro dia dos trinta dias, que por a ordenação lhe eram dados que estejam em cada ilha daquelas, foi-se este Arnequim ao corregedor com outros framengos e disseram-lhe: «Senhor corregedor, já tua mercê tens acabado teu tempo nas nossas ilhas do Faial; vai-te embora logo, não estejas aqui mais, que não te queremos cá». Respondeu o corregedor que ele não tinha tempo pera se ir, e, quando o houvesse, se iria, como, de efeito, não tinha vento pera isso. Tornaram eles a dizer-lhe que se fosse logo; replicou o corregedor que, se não tinha vento, como havia de ir sem ele. Alevantaram-se eles com grande alvoroço contra o corregedor e começaram a dizer em altas vozes: «Senhor corregedor, quer ventes, quer não ventes, bicha mala fora de nossas terras»; e de tal maneira o puseram por obra, que foi forçado recolher-se o corregedor em uma casa fechado e não parecer mais, até que se foi, e, antes de se ir, na casa donde estava fez seus autos e tirou suas testemunhas o mais calado que pôde, e mandou-os a el-rei, a Lisboa. Vendo-os el-rei, mandou logo ao capitão Jos Dutra que lhe prendesse aqueles homens e lhos mandasse presos, o que o capitão quis pôr por obra, e, indo correndo após o Anequim, se virou a ele com uma besta que levava, por o capitão o acossar muito com o cavalo, e. virando de além de uma grota, lhe disse: «Senhor capitão, vai-te embora, deixa-me, senão hei te de matar com esta besta». Vendo o capitão isto e que eles andavam todos alvoraçados, temeu e deixou-o. Escreveu a el-rei tudo, a quem el-rei respondeu que os não prendesse; somente de sua parte lhes dissesse que fossem ao reino, o que eles, aconselhados de outros, fizeram; e, sendo lá, lhe disse el-rei que não se espantava do que eles fizeram ao seu corregedor, que era português e eles framengos, que se não entenderiam com ele, mas que se maravilhava do que fizeram ao seu capitão, com quem eles vieram, e seu natural, framengo como eles, como o quiseram matar, não lhe obedecendo, nem tendo dever com ele; ao que respondeu Arnequim: «Ques (sic) que te diga? Cães com raiva seus dono (sic) morda (sic)». Ao que el-rei, que poucas vezes ria (segundo dele se diz), não se pôde ter sem se mover a riso, virando o rosto pera outro cabo, e, passado isto, tornou a virar pera eles, dizendo-lhes que se fossem muito embora pera suas casas, mas que outrora (177) não fizessem mais aquilo. Foram-se, então, com suas provisões de el-rei pera se não falar no caso; e por isso dizem agora os do Faial que são da terra onde dizem: «Bichos mala fora de nossa terra».
Antre as pessoas que vieram àquelas ilhas naquele princípio foi um homem principal, fidalgo naquelas partes e rico, também morador na cidade de Bruges, onde o capitão Jos Dutra naquele tempo morava, com que tinha grande comunicação e amizade, o qual havia nome Guilherme da Silveira na língua portuguesa, que em linguagem framenga quer dizer Wuyllen Van Der Agem ou Vuvellen Van Der Agam, ao qual demoveu pera vir povoar as duas ilhas, fazendo-lhe favoráveis partidos e aventagens (sic) de dadas de terras e de tudo o que ele quisesse, e, porque Guilherme da Silveira era homem muito católico e temente a Deus, deu
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palavra ao capitão Jos Dutra de vir viver às ditas ilhas, e a principal coisa que o moveu foi porque naquele tempo havia grandes guerras em Frandes, cristãos com cristãos, onde se matava muita gente, e como lhe pareciam mal aquelas dissenções e por lhe pedirem, como homem poderoso e neto de conde, que era, ajuda pera a guerra que ele tinha por injusta, por não intervir nela, deu a palavra que disse ao capitão Jos Dutra, com a qual se veio a residir em sua capitania com sua mulher e família, ficando Guilherme da Silveira na cidade de Bruges fazendo-se prestes.
Dali a um ano, pouco mais ou menos, depois de partido o capitão, se preparou Guilherme SiIveira pera cumprir a palavra que ao capitão tinha dada, desbaratando e vendendo tudo o que na cidade de Bruges tinha, e, como era homem muito rico, mandou deitar pregão que todos aqueles que quisessem vir pera a ilha do Faial se fizessem prestes e ele lhe daria embarcação e todo o mais necessário, à sua própria custa, pera mulheres e filhos e criados, sem gastarem coisa alguma do seu, deles, até chegar a ela.
Com este pregão e largo partido que fazia, ajuntou muita cópia de gente de todos os ofícios, ferreiros, pedreiros, tecelões, alfaiates, sapateiros e outros doutros ofícios mecânicos, e homens trabalhadores, nos quais entraram pasteleiros, quero dizer, homens que sabiam fazer pastel, garaná-lo (sic) e beneficiá-lo, como agora se beneficia nestas ilhas, que naquele tempo nelas se não fazia. E este Guilherme da Silveira foi o primeiro homem que fez pastel nestas ilhas e o semeou, porque trouxe, quando veio, a semente de Frandes, donde se fazia, e ainda agora se faz; e, antre outros homens que sabiam o negócio do pastel, que com ele vieram, foram um que havia nome Pero Pasteleiro, e seu irmão, e outro homem casado, framengo, chamado Govarte (178) Luís, ao qual Govarte Luís Guilherme da Silveira teve em sua casa certos anos, com sua mulher e filhos, porque lhe semeavam e beneficiavam o pastel.
Este Govarte Luís teve na ilha do Faial muitos filhos e filhas, e daí a anos, como se veio a semear pastel por estoutras ilhas, e nesta de São Miguel, e por ser coisa rica e de muito proveito, lançou el-rei de Portugal mão disso pera que se viesse a fazer quantidade dele, pera o que se consertou daí a alguns anos com os moradores desta ilha de São Miguel, onde se fazia mais, e das outras ilhas dos Açores, que lhe daria a semente necessária pera semearem e casas de engenhos, moentes e correntes pera o moerem e o beneficiarem, com condição que lhe haviam de pagar os lavradores, que o fizessem, dízimo e vintena, sc., de cada dez um, e, depois, de cada vinte um em bolos, que vem a ser a catorze e meio por cento. Os moradores foram contentes e pagaram sempre estes direitos, como até hoje pagam, mas el-rei não cumpriu o que com eles assentou, senão nos primeiros princípios e anos, de que os lavradores foram causa por se resfriarem de o moer nos engenhos de el-rei; porque, com a muita azafima (sic) que havia e poucos engenhos de el-rei e mau aviamento, se lhe perdia o pastel, pelo que queria antes cada um fazer engenho próprio, em que moesse o seu, o qual foro de moer se ficou até agora; e, quanto à semente, tão pouco a dá el-rei, de modo que tudo ficou às costas dos lavradores e el-rei recebe todos os seus direitos por enchêo. Como pouco tempo há que um Bastião Coelho, morador que foi nestas ilhas, informando a el-rei, fez que se não tomassem, como dantes, dos lavradores e mercadores direitos em pastel, senão que lhos hão-de pagar os que o carregam a dinheiro, e indo Bartolomeu Nogueira por provedor da ilha de São Miguel, trouxe provisões de el-rei que se pagasse somente o dízimo da saída do pastel a dinheiro.
Por ser Govarte Luís tão entendido nos negócios do pastel, como tenho dito, vivendo ele na ilha do Faial, o mandou el-rei vir a esta de São Miguel com cargo de visitar todos pastéis que nela se faziam, e por sobrerrolda dos lealdadores, com o qual cargo e ofício de lealdador-mor viveu depois nesta ilha muitos anos, até que aqui faleceu.
Antre os filhos que teve Govarte Luís, foi um, chamado Bastião Luís, o qual, sendo moço, se foi pera Lisboa, onde serviu a um homem honrado que el-rei mandou por seu feitor a Frandes, e depois de estar lá alguns anos, acabando o tempo de sua feitoria, veio a Lisboa dar sua conta, como é costume, em que o alcançou el-rei em dívida de muita soma de dinheiro, de modo que não tinha com que lhe pagar tanta quantidade e andava mui agastado, dizendo que ele não gastara a fazenda de el-rei, nem lha tomara, e que sempre fizera seu ofício inteiramente, com muita verdade, e não sabia aquele erro onde estava. Andando assi agastado, sem ter remédio, nem se saber determinar, ia à casa dos contos, onde dava sua conta, e com ele Bastião Luís, seu criado, que, como era moço esperto e de bom juízo, vendo as contas que os contadores tomavam a seu amo, disse que não iam certas e, se ele quisesse deixar-lhas fazer com os contadores, esperava em Deus de o livrar, que nada ficasse devendo;
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porfiando o amo com ele como podia fazer aquilo, pois ele mesmo e outros lhe não podiam dar cabo, como o poderia ele dar, sendo moço? Todavia lhe deixou fazer as contas, com as quais se houve tão bem Bastião Luís e teve tanta habilidade, que as veio acabar sem seu amo ficar devendo coisa alguma a el-rei, com que o amo ficou muito honrado e galardoado com mercês que Sua Alteza lhe fez. E, por el-rei ver a habilidade de Bastião Luís, lhe deu uma feitoria pera a cidade de Goa, onde o serviu muitos anos, na Índia, e, depois que veio ao reino dar suas contas, foram tais e tão boas, que o tornou el-rei a mandar à Índia com cargo de contador-mor, onde esteve muito tempo, até que lá faleceu mui honrado e rico, deixando sua fazenda a parentes seus, a que também em vida fazia bem, por não ser casado.
Tornando a Guilherme da Silveira, que outros chamam Cosmacra, ele se fez prestes, como tenho dito, com sua mulher e toda sua família pera se vir à ilha do Faial, e fretou duas naus framengas, que carregou de sua fazenda e da gente que com ele quis vir, com mulheres e filhos (179), por assi o ter assentado com o capitão Jos Dutra em Lisboa quando se dele espediu, e, seguindo sua viagem, foi ter à ilha da Madeira, que, então, também era ilha nova, como estas dos Açores, onde, saindo em terra mui próspero e acompanhado, informados os moradores de quem ele era, lhe fizeram muita honra e gasalhado, mandando-lhe à pousada que lhe deram muitos presentes e serviços, com que se deteve alguns dias até se fazer prestes pera seguir a viagem começada do Faial. E, vendo os moradores da ilha da Madeira que ele se queria ir, lhe pediram e rogaram muito que se não fosse e ficasse com eles na terra, onde lhe dariam casas, em que vivesse, e pera toda a gente que trazia, e muitas terras, com outros largos partidos e abundâncias; o que lhe agradeceu Guilherme da Silveira, escusando-se de não poder aceitar nenhuma coisa das que lhe ofereciam, por ter dado sua palavra ao capitão da ilha do Faial de ir viver nela. E, assi, se partiu pera lá, levando consigo toda a gente que trouxera de Frandes nas suas naus e alguns parentes do capitão Jos Dutra, que também trazia em sua companhia.
Chegando à ilha do Faial com sua gente, o capitão o recebeu, como era rezão; aposentado na ilha, era mui acompanhado dos framengos que ele trouxera e mantinha, assi no mar e viagem, como, depois, na terra; e o mesmo faziam outros framengos que com o capitão vieram, por conhecerem quem ele era. Passados alguns dias, pediu ao capitão lhe desse certas terras, conforme ao que lhe prometera em Frandes, e, cada vez que pedia algumas, sempre lhe respondia que já aquelas terras eram dadas, no que suspeitou, e se dizia, que o capitão não desejava dele estar na terra, porquanto o acompanhava mais a gente e faziam mais conta dele. Vendo Guilherme da Silveira o pouco benefício e graça que recebia do capitão Jos Dutra, determinou de se ir da ilha do Faial com sua casa e família, como, de feito, foi, passando-se pera a ilha Terceira, onde viveu alguns anos, na parte onde chamam as Quatro Ribeiras, da banda do sul, e ali fazia sua habitação e lavoura de pão e pastel, de que carregava navios pera Frandes, e aonde fez uma viagem; e da tornada veio ter a Lisboa, onde estando uma Dona Maria de Vilhana (sic), que era senhora da ilha do Corvo, tendo notícia dele, lhe disse que fosse pera a sua ilha do Corvo e lá lhe faria largos partidos e daria quantas terras quisesse, onde seria como capitão, e o fazia senhor dela, somente com lhe pagar seus direitos; e tanto o persuadiu, que, vendo Guilherme da Silveira os muitos cumprimentos, rogos e abundâncias que lhe fazia, aceitou o partido, cuidando ser de muito proveito e honra. E, tanto que veio à ilha Terceira, se passou logo à do Corvo e, antes de partir, estando nas Quatro Ribeiras, lhe saltou fogo em suas casas e queimou muita parte de sua fazenda, onde se lhe queimaram seus papéis e liberdades que trazia de sua pessoa e abonação, sem lhe poder valer, que foi a maior perda que ele mais sentiu.
Chegando à ilha do Corvo com próspero tempo, residiu nela sete ou oito anos e, como aquela terra é estéril e muito tormentosa e combatida de ventos quotidianamente, e não ia lá navio nem barca (180) senão algum de ano em ano por maravilha, padecia ele e sua família