2.2 CAPACIDADES DINÂMICAS
2.2.2 Capacidade inovativa
O processo de pensar o novo, de considerar ideias e soluções que ainda não são conhecidas, assume um papel importante em termos de aquisição de vantagem competitiva (ROMAN et al., 2012). Porter (1990) explica que a vantagem competitiva é obtida pelas organizações por meio de ações inovadoras em seu sentido mais amplo, incluindo tanto novas tecnologias como novas maneiras de produzir. Com o rápido aumento da saturação da procura no mercado, Becattini (1999) aponta que a competitividade das empresas passa a ser determinada mais pela capacidade inovadora do que pela produtividade.
A ideia de inovação está sempre relacionada às mudanças e novas combinações de fatores que impactam no equilíbrio existente (SCHUMPETER, 1988), o que a torna, deste modo, uma ferramenta utlizada para influenciar um ambiente ou como resposta à mudança de ambientes, sejam eles interno ou externo (Damanpour, 1991). Sobretudo, a inovação pode envolver uma ampla gama de diferentes tipos de mudança, dependendo dos recursos, capacidades, estratégias e requisitos da organização (BAREGHEH et al., 2009).
Embora existam várias definições sobre o conceito de inovação, ainda não existe uma definição clara e majoritária (ADAMS et al., 2006; BAREGHEH et al., 2009). Uma definição inicial e objetiva de inovação é proposta por Thompson (1965, p. 2), como sendo “geração, aceitação e implementação de novas ideias, processos, produtos ou serviços”. No entanto, inovação é mais do que simplesmente ter boas ideias; é o processo de fazê-las evoluir a ponto de terem uso prático (TIDD; BESSANT, 2015), transformando-as em um produto, serviço, empresa ou tecnologia através de esforços (SCHUMPETER, 1988) e beneficiando as partes interessadas (WEST; ANDERSON, 1996). Por conseguinte, ela envolve o longo desenvolvimento e aplicação de novos conhecimentos e habilidades, para empresas ou governos utilizarem (HOBDAY et al. 2011; QURESHI, 2007). Baregheh et al. (2009) em uma síntese de definições anteriores e buscando um conceito integrativo de inovação, a definem como sendo:
O processo em várias etapas em que as organizações transformam ideias em produtos, serviços ou processos novos/aprimorados, a fim de avançar, competir e diferenciar-se com sucesso em seu mercado. (BAREGHEH et al., 2009, p. 1334)
Instituir uma cultura de inovação induz às estratégias que viabilizem geri-la dentro da organização, sendo que os benefícios com a inovação ultrapassam as fronteiras da empresa, beneficiando a sociedade (CARVALHO et al, 2015). Neste sentido, o nível de suporte gerencial dado aos colaboradores capacitados influencia na capacidade de inovação das organizações, ou seja, devem eles sentirem-se apoiados (KNIGHT, 1987; TANG, 1999; MOSTAFA, 2005; SMITH et al., 2008).
A inovação pode ser entendida sob as seguintes perspectivas: da estratégia, de padrões, do processo e dos seus tipos (LOPES; BARBOSA, 2008). Na estratégia, entre outros aspectos, ela está relacionada à obtenção de vantagem competitiva sustentável, ao posicionamento competitivo, à capacidade de inovação e à aprendizagem organizacional. Sob a perspectiva dos padrões, refere-se à inovação incremental, à inovação radical, aos novos sistemas tecnológicos e mudanças de paradigmas tecno-econômicos. Quanto ao processo, busca-se entender como a forma como as organizações inovam - as atividades criativas e inventivas ou de descoberta de novas tecnologias, como também as atividades de gestão, de difusão e adoção das novidades. Por fim, os tipos de inovação referem-se às suas aplicabilidades, podendo ser em produtos e serviços, processos e operações, marketing, estratégia, inovação organizacional e inovação gerencial.
Sobre o grau de novidade, Van de Ven et al. (1986) ressaltam que, enquanto uma ideia é percebida como nova para as pessoas envolvidas, é uma 'inovação' mesmo que possa parecer aos outros uma 'imitação' de algo em direção a uma definição de inovação que existe em outro lugar”. Quanto ao potencial inovador de uma empresa, Hii e Neely (2000) afirmam que ele não é derivado de uma única habilidade específica, mas sim de um conjunto de habilidades denominadas capacidade inovadora, que é definida como o potencial interno para gerar novas idéias, identificar novas oportunidades de mercado e implementar inovações comercializáveis através da exploração dos recursos e capacidades existentes da empresa.
Como pode ser visto, discussões sobre a capacidade inovativa vêm ocorrendo desde a década de 1980, porém, ainda não há um consenso entre os pesquisadores sobre sua definição (BARBIEUX, 2011; CORREIO et al., 2013). As capacidades inovativas não se restringem apenas aos aspectos tecnológicos, visto que vantagens competitivas englobam, além do desenvolvimento de inovações tecnológicas, a comercialização dessas tecnologias em uma velocidade mais rápida do que a dos competidores (DECAROLIS; DEEDS, 1999). No Quadro 1, apresenta-se as principais definições relativas ao conceito de capacidade inovativa.
Quadro 1 – Conceitos e definições de capacidade inovativa
Autores Conceitos Adler e Shenbar
(1990)
Capacidade de desenvolver novos produtos satisfazendo as necessidades do mercado; aplicar tecnologias de processo apropriadas para produzir esses novos produtos; desenvolver e adotar novas tecnologias de processamento e produtos para satisfazer as necessidades futuras; e responder a acidentes atividades tecnológicas e oportunidades inesperadas criadas pelos concorrentes.
Neely e Hii (1999) Potencial interno para a geração de ideias, identificação de novas oportunidades no mercado e o desenvolvimento de uma inovação com fins comerciais a partir dos recursos da organização.
Lawson e Samson (2001)
Habilidade de transformar conhecimentos e ideias em novos produtos, processos e sistemas de forma a beneficiar tanto a empresa como os seus stakeholders. Guan e Ma (2003) Habilidade que tem a firma de introduzir rapidamente novos produtos e adotar
novos processos, o que é fundamental no contexto de competição das firmas. Wang e Ahmed
(2004)
Capacidade geral de uma empresa em introduzir novos produtos no mercado, ou abrir novos mercados através da combinação da orientação estratégica com comportamentos e processos inovadores.
Hult et al. (2004) Capacidade de a empresa direcionar seus esforços em inovação. Akman e Yilmaz
(2008)
Componente das capacidades da empresa que pode favorecer o desenvolvimento de uma cultura organizacional que valoriza a inovação e que habilita a empresa a aperfeiçoar suas competências para responder ao ambiente externo.
Cetindamar, Phaal e Probert (2009)
Habilidade de moldar e gerenciar capacidades múltiplas, pois o esforço na busca pela inovação exige da empresa habilidades e competências para lidar com atividades diversas.
Fonte: Elaborado pelo autor (2018)
Conforme Teece, Pisano e Shuen (1997), a importância da capacidade de inovação tem sido amplamente discutida na literatura, tendo-se feito importantes avanços no sentido de compreender algumas das capacidades que contribuem para um maior potencial inovador nas empresas.
Zawislak et al. (2013) sintetiza os estudos relativos à capacidade de inovação em três enfoques: ativos (CHRISTENSEN, 1995), processos (CHIESA, et al., 1996; BURGELMAN, 2004) e capacidades complementares (GUAN; MA, 2003; YAM et al., 2004). De acordo com o autor, a última tem apresentado maiores avanços. Nesta linha de abordagem, Zawislak et al. (2012; 2013) propõe um modelo de quatro elementos – cada um deles sendo um conjunto de habilidades, conhecimentos, experiências e rotinas – que compõem a capacidade de inovação das organizações. São eles:
a) Capacidade tecnológica, responsável pelo desenvolvimento de novos produtos (bens e/ou serviços), monitoramento dos avanços tecnológicos, assimilação das novas tecnologias e oferecer novas soluções de valor para os consumidores;
b) Capacidade operacional, responsável pela produção de bens e serviços de forma flexível, com qualidade e ao menor custo possível, além da concretização de ideias (de produtos e processos) que se originam por meio da capacidade tecnológica.
c) Capacidade gerencial, responsável pela coordenação de forma eficiente das atividades correspondentes às demais capacidades da firma, além de minimizar os atritos internos nas diferentes áreas da organização.
d) Capacidade transacional, responsável por minimizar os custos de transação da organização, seja em suas compras, com os fornecedores, como em suas vendas, com os clientes.
Conforme já mencionado, Wang e Ahmed (2004) relacionam a capacidade de inovação com a habilidade da empresa de introduzir novos produtos no mercado, ou abertura de novos mercados, por meio de combinações de orientações estratégicas aliado a um processo e comportamento inovador. À vista disso, estes autores propõem um modelo de cinco tipos de inovação: (1) inovação comportamental, (2) inovação de produto, (3) inovação de processo, (4) inovação de mercado e (5) inovação estratégica.
A inovação comportamental pode variar em três níveis: nos indivíduos, na equipe e no gerenciamento organizacional. Ao nível individual, ela pode ser entendida como uma construção de personalidade subjacente normalmente distribuída que pode ser interpretado como uma vontade de mudar, ou seja, ela pode ser atribuída a indivíduos capazes de mudar de acordo com aspectos de sua personalidade. Ao nível de equipe, a inovação comportamental é a capacidade de mudança do grupo. Ao nível gerencial, pode ser entendida como a disposição dos gestores à mudança e promoção de novas ideias e incentivos.
A inovação de produto refere-se às novidades, singularidades e originalidades atribuídas aos novos produtos em tempo hábil. Os produtos inovadores apresentam grandes oportunidades para as organizações em termos de crescimento e expansão em novas áreas, o que permite o estabelecimento de uma posição dominante no mercado competitivo.
A inovação de processo, segundo os autores, geralmente não é explicitamente discutida na literatura. Ela captura a introdução de novos métodos de produção, novas abordagens de gerenciamento e novas tecnologias que poderão ser utilizadas para melhorar os processos de produção e gerenciamento.
Em relação à inovação de mercado, Wang e Ahmed (2004) apontam que está relacionada em muitas abordagens com a inovação do produto. Na visão dos autores, ela pode ser vista como a novidade de abordagens que as organizações adotam para entrar e explorar um
mercado alvo. Por exemplo, a identificação de novos nichos de mercado ou a inclusão de novos programas de marketing para promover produtos e serviços.
A última dimensão, inovação estratégica, refere-se à capacidade da organização em reconhecer a necessidade de mudar o seu negócio. Inclui, portanto, a identificação de lacunas no posicionamento da indústia e o desenvolvimento de novas estratégias competitivas orientadas a criar valor à organização.
O presente estudo terá como suporte o modelo teórico de Tidd e Bessant (2015) que, por sua vez, atribuem quatro dimensões da inovação, denominados os “4Ps”. São eles: (1) inovação de produto, (2) inovação de processo, (3) inovação de posição e (4) inovação de paradigma. Nesta abordagem, a inovação é vista como o processo de transformar ideias em realidade, e a partir disso, capturar valor.
A inovação de produto refere-se às mudanças no produto ou serviço oferecidas pela organização, como por exemplo, melhor desempenho em uma lâmpada incandescente, um eletrodoméstico ou um plano de telefonia. A inovação de processo está relacionada às mudanças na forma como os produtos ou serviços são criados e entregues, podendo ser uma mudança nos métodos de produção do eletrodoméstico, como também um aumento de eficiência de produção das fábricas por meio de equipamentos melhores. Já a inovação de posição implica as mudanças no contexto em que produtos/serviços são introduzidos, como, no caso, um reposicionamento no mercado ou uma melhoria na logística de varejo. Por fim, a inovação de paradigma refere- se às mudanças nos modelos mentais subjacentes que orientam as atividades organizacionais, como por exemplo, redefinir setores de varejo para plataformas online.
Cada tipo de inovação possui um grau de novidade envolvido, podendo ser descrito como uma melhora incremental, ou seja, o aprimoramento de produtos, processos, posições e paradigmas já existentes, ou uma mudança radical, que transforma completamente estes elementos.
O Quadro 2, na sequência, sintetiza as características de cada atributo do modelo de Tidd e Bessant (2015).
Quadro 2 – Definições dos tipos de inovações de Tidd e Bessant (2015)
Tipo de
inovação
Definição Exemplo de incremental (fazer o que sabemos, mas melhor)
Exemplo de radical (fazer algo diferente) Inovação de produto O que oferecemos ao mundo • Windows 7 e 8 substituindo o Vista e o XP – aprimoração de uma ideia até então inexistente. • Novas versões de modelos de carros já estabelecidos. • Lâmpadas incandescentes de melhor desempenho. • CDs, substituindo os discos de vinil – essencialmente aprimorando a tecnologia de armazenamento.
• Software até então inexistente – por exemplo, o primeiro programa de reconhecimento de voz.
• Tesla – carro elétrico de alta performance.
• Lâmpadas de LED, utilizando princípios completamente diferentes e energicamente eficientes.
• Spotfy e outros serviços de streaming de músicas, mudando o modelo de consumo. Inovação de processo Como criamos e disponibilizamos a oferta
• Serviços de aprimoramento para telefonia fixa
• Ampliada gama de serviços de corretagem de ações.
• Melhoria das operações de leilões tradicionais.
• Aumento da eficiência das operações de fábrica por meio de equipamento atualizados.
• Aumento na gama de serviços bancários oferecidos pelas agências.
• Melhorias da logística de varejo.
• Skype e outros sistemas de VoIP • Compra e venda de ações online • eBay
• Sistema Toyota de produção e outras abordagens “enxutas” • Internet banking e mobile banking. • Compras pela internet
Inovação de posição
Onde focamos a oferta e o que dizemos sobre ela
• Häagen-Dasz, ao mudar o foco do mercado de sorvetes de crianças para adultos.
• Companhias aéreas, ao segmentar a oferta de serviços para diferentes grupos de passageiros (primeira classe da Virgin, classe econômica da British Airlines, etc.).
• Dell e outras, ao segmentar e personalizar a configuração dos computadores para usuários individuais.
• Suporte online para cursos de ensino superior tradicionais. • Serviços bancários focados em segmentos-chave (estudantes, aposentados, etc.).
• Abordar mercados subexplorados – por exemplo, o Tata Nono, carro focado no emergente – mas relativamente pobre – mercado indiano, custando em torno de 2 mil dólares.
• Companhias aéreas de baixo custo, que tornaram viagens aéreas acessívais para aqueles que antes não tinham condições de pagar – criando, assim, um novo mercado, e ao mesmo tempo, perturbando o já existente.
• Variações do projeto “um laptop por criança” – por exemplo, os computadores escolares de 20 dólares do governo indiano. Universidade de Phoenix e outras ao construírem amplos negócios de educação pela internet para alcançar diferentes mercados.
• Abordagens na “base da pirâmide”, usando um princípio similar, mas estabelecendo-se em grandes e distintos mercados de margem baixa e alto volume – Aravind, sistema de saúde ocular, Cemex materiais de construção.
Inovação de paradigma
Como definimos o que fazemos
• Bausch & Lomb – mudaram seu modelo de negócios de “óculos” para “saúde ocular”, deixando para trás a velha produção de óculos, óculos de sol, e lentes de contato, todos os quais estavam se tornando commodities. Ao invés disso, migraram para áreas mais recentes de alta tecnologia, como equipamentos para cirurgia a laser, dispositivos óticos especializados e pesquisa em visão artificial. • Dyson, ao redefinir o mercado de eletrodomésticos em termos de produtos de engenharia de alta performance.
• Rolls-Royce – de fabricante de motores aeronáuticos de alta qualidade a empresa prestadores de serviços que oferece “Power by the hour”.
• IBM, de fabricante de máquinas a empresa de serviços e soluções – vendendo sua ala de fabricação de computadores e edificando a de consultoria de serviços.
• Banco Grameen e outros modelos de microfinanças – ao repensar as suposições sobre o crédito e as pessoas pobres.
• Plataforma iTunes – um sistema completo de entretenimento personalizado.
• Cirque de Soleil – redefinindo a experiência circense.
• Amazon, Google, Skype – redefinindo setores como varejo, publicidade e telecomunicações por meio de modelos online.
• Linux, Mozilla e Apache – ao passar de usuários passivos a comunidades ativas de usuários criando em conjunto novos produtos e serviços.
Fonte: Adaptado de Tidd e Bessant (2015)
É relevante ressaltar que os autores apontam alguns casos em que algumas inovações são acompanhadas por outras. Por exemplo, uma nova balsa marítima movida a jato seria tanto uma inovação no produto quanto no processo, assim como o caso da mudança drástica no transporte, planejada por Henry Ford. Sua contribuição residiu em mudar o modelo de um padrão que oferecia um produto artesanal feito por encomenda a poucos clientes para outro que disponibilizava os automóveis para qualquer consumidor por um preço possível de ser pago. Isto também implicou uma inovação tanto no processo quanto no produto, na medida em que houve um redesenho nos componentes, remodelagem de novas fábricas, desenvolvimento de novas fábricas e no sistema social em torno do qual a mão de obra estava inserida e organizada.