2.2 CAPACIDADES DINÂMICAS
2.2.1 Definições e modelos
A teoria das Capacidades Dinâmicas é um tema recente no meio acadêmico, sendo o termo criado em 1997 por Teece, Pisano e Shuen, a partir da evolução do conceito da Teoria dos Recursos (RBV) (AUGIER; TEECE, 2009; MEIRELLES; CAMARGO, 2014; CARDOSO; KATO, 2015; GUERRA; TONDOLO; CAMARGO, 2016). Os mesmos autores, ainda, estabelecem uma relação entre as capacidades dinâmicas com outros temas, entre eles, a inovação, gestão do conhecimento, aprendizagem e o desempenho organizacional. Por sua vez, Sausen (2012) ressalta que na abordagem da RBV, os recursos e as capacidades são definidos como variáveis de estoque, fixos, estáveis e sem grandes perspectivas de mudanças, enquanto que na abordagem das capacidades dinâmicas o foco está na capacidade de acumular e combinar novos recursos em novas configurações capazes de gerar novas oportunidades de negócios.
Teece, Pisano e Shuen (1997) afirmam que capacidade dinâmica pode ser definida como a habilidade de adquirir novas formas de vantagem competitivas, integrando, construindo e reconfigurando suas competências internas e externas para atender ambientes que mudam rapidamente. Sob uma perspectiva semelhante, Helfat et al. (2007) conceituam capacidade dinâmica como a capacidade de uma empresa criar, estender ou modificar sua base de recursos
intencionalmente. Já Zollo e Winter (2002, p. 340) a definem como um “padrão aprendido e estável de atividade coletiva, através do qual a organização sistematicamente gera e modifica suas rotinas operacionais em busca de maior eficácia”, propondo assim, a abrangência das origens das capacidades dinâmicas e taxas de mudanças ambientais mais baixas no conceito.
Mesmo que o termo tenha sido difundido na década de 1990, os fundamentos conceituais das capacidades dinâmicas remetem às décadas de 1950 e 1960, nos estudos da Escola Carnegie, que foram misturados a idéias contemporâneas sobre inovação tecnológica, a Teoria da Firma e a estratégia de negócios (AUGIER; TEECE, 2009). Alguns elementos que posteriormente integraram-se na abordagem também são encontrados em Nelson e Winter (1982), Hayes, Wheelwright e Clark (1988) e Phahalad e Hamel (1990). Todavia, ainda inúmeros estudiosos buscam desenvolver o conceito, especialmente do ponto de vista dos microfundamentos e operacionalização (ZOLLO; WINTER, 2002; WANG; AHMED, 2007; TEECE, 2009).
Para Eisenhardt e Martin (2000), as capacidades dinâmicas são processos da empresa que usam recursos para corresponder e até mesmo criar mudanças no mercado. Portanto, rotinas organizacionais e estratégicas pelas quais as empresas alcançam novas configurações de recursos, à medida que os mercados emergem, colidem, dividem, evoluem e morrem. Entre outras definições, as capacidades dinâmicas também são vistas como aquelas que habilitam a organização a renovar suas competências-chave conforme ocorrem mudanças no ambiente operacional (ANDREEVA; CHAIKA, 2006); capacitações direcionadas à mudança que ajudam a organização a reconfigurar os seus recursos para enfrentar a crescente exigência do mercado e as estratégias da concorrência (ZAHRA; GEORGE, 2002); como, também, a capacidade em inovar mais rapidamente ou de forma melhor do que a concorrência (COLLIS, 1994).
As capacidades dinâmicas tornaram-se, portanto, um tema de suma importância nos estudos sobre a competitividade, pois abordam a capacidade adaptativa da firma frente ao dinamismo do ambiente, ou seja, como as organizações podem alcançar e sustentar vantagens competitivas em um ambiente em mutação (NELSON, 1991; TEECE; PISANO; SHUEN, 1997; DOSI; NELSON; WINTER, 2000; TEECE, 2009).
Camargo e Meirelles (2012), citam a existência de quatro enfoques nos estudos das capacidades dinâmicas. Destes, destacam: Nelson e Winter (1982) e Collis (1994), que relacionam as capacidades dinâmicas aos aspectos internos da firma, ou seja, os processos estratégicos organizacionais ou na habilidade da firma em formular novas estratégias de uma forma mais rápida que os concorrentes, através do reconhecimento de diferentes recursos de valor. O segundo enfoque, derivado dos estudos de Zollo e Winter (2002); Winter (2003); e
Andreeva e Chaika (2006), refere-se aos mecanismos automáticos e rotineiros que permitem a reconfiguração das capacidades nas organizações. O terceiro enfoque, ligado aos trabalhos de Eisenhardt e Martin (2000); Wang e Ahmed (2006); e Andreeva e Chaika (2006), dão conta da combinação de capacidades, destacando que o constructo de capacidades dinâmicas seria definido a partir de uma hierarquia de capacidades mais simples e rotinas relacionadas. Por fim, uma quarta vertente, proposta por Teece, Pisano e Schuen (1997) e Wang e Ahmed (2007), sugere que as capacidades dinâmicas estão relacionadas às mutações rápidas e constantes do ambiente, ou seja, ao seu dinamismo.
Por conseguinte, de uma maneira mais simplificada, Camargo e Meirelles (2012) constataram a existência de duas linhas de abordagens sobre o tema. Na primeira, em que destacam-se os estudos de Collis (1994), Andreeva e Chaika (2006), Helfat et al (2007) e Davidson (2009), as capacidades dinâmicas são identificadas como sendo um conjunto de habilidades, comportamentos e capacidades organizacionais; já na segunda, com destaque de Eisenhardt e Martin (2000), Winter (2003), Zollo e Winter (2002), Bygdas (2006), Dosie, Faillo e Marengo (2008); Teece, Pisano e Shuen (1997) e Teece (2009), elas são vistas como um conjunto de rotinas e processos.
No presente estudo, adotou-se como base teórica o modelo de Wang e Ahmed (2007), que corresponde à primeira linha de abordagem citada por Camargo e Meirelles (2012). Wang e Ahmed (2007) definem capacidades dinâmicas como sendo o comportamento organizacional constantemente orientado a integrar, reconfigurar, renovar e recriar seus recursos e capacidades e, mais importante, melhorar e reconstruir suas capacidades chave em resposta às mutações do ambiente para atingir e sustentar vantagem competitiva. Estes autores propõem que, para as organizações obterem capacidades dinâmicas, elas precisam alcançar o terceiro nível de uma hierarquia de capacidades organizacionais, conforme é exposto na Figura 3.
Figura 3 - Hierarquia das capacidades e recursos proposta por Wang e Ahmed (2007)
Fonte: Camargo e Meirelles (2012)
No Nível 0, o qual integram-se os recursos e capacidades, indica-se que estes constituem os fundamentos da firma e são os elementos de nível inicial na hierarquia. Embora recursos valiosos, raros, inimitáveis e não substituíveis possam constituir elementos de vantagem competitiva, em mercados dinâmicos, essa vantagem não persiste por muito tempo. Consequentemente, estes recursos não podem constituir uma fonte de vantagem competitiva sustentável. No Nível 1, constam as capacidades comuns, que permitem que a organização seja capaz de produzir seus produtos ou executar seus serviços combinando seus recursos e capacidades. O Nível 2 corresponde às capacidades-chaves - um conjunto de recursos e capacidades organizacionais que permitem que a organização apresente vantagem competitiva num dado momento. Contudo, sempre existe a possibilidade destas tornarem-se obsoletas. Por fim, no Nível 3, estão as capacidades dinâmicas: a capacidade de uma organização perseguir a renovação, reconfigurar e recriar seus recursos, suas capacidades comuns e suas capacidades chave, de forma a endereçar as mudanças ambientais (CAMARGO; MEIRELLES, 2012).
Wang e Ahmed (2007) propõem três componentes que, juntos, compõem as capacidades dinâmicas. A integração delas está relacionada com a combinação da vantagem dos recursos internos com a vantagem competitiva baseada no mercado externo. São eles:
a) Capacidade adaptativa: a habilidade da empresa em identificar e capitalizar as oportunidades emergentes do mercado;
b) Capacidade absortiva: a habilidade da empresa em reconhecer o valor de novas informações externas, assimilá-las e aplica-las comercialmente;
c) Capacidade de inovação (ou inovativa): a habilidade da empresa em desenvolver produtos novos e mercados.
Em relação ao desenvolvimento das capacidades dinâmicas, Wang e Ahmed (2007) desenvolvem um modelo, representado na Figura 4, baseado em duas premissas: (1) as capacidades são construídas durante longo período de tempo, e (2) o crescimento da organização ocorre de modo tradicional, através do acúmulo e desenvolvimento de recursos internos e capacidades.
Figura 4 – Modelo de pesquisa das capacidades dinâmicas
Fonte: Wang e Ahmed (2007)
O modelo é baseado nas proposições de que: o dinamismo do ambiente é anterior ao desenvolvimento das capacidades dinâmicas (quanto mais dinâmico é o mercado, maior a probabilidade das organizações exibirem capacidades dinâmicas devido às mudanças externas); quanto mais capacidades dinâmicas uma empresa demonstra, mais provável é o desenvolvimento de uma capacidade particular ao longo do tempo; por fim, as capacidades dinâmicas são condutoras de desempenho a longo prazo da empresa, sendo essa relação mediada pelo desenvolvimento de capacidades, e este mediado pela estratégia organizacional.
Das três capacidades propostas por Wang e Ahmed (2007), o presente estudo tem como enfoque a inovativa. Correio et al (2013) afirmam que a capacidade de inovar implica que os esforços para isso são internos à empresa, porém necessitam de informações de fontes externas também. Um exemplo deste aproveitamento é a utilização de mídias digitais para desenvolver produto, serviços e relacionamentos. Por sua vez, Porter e Heppelmann (2014) afirmam que
produtos inovadores e interconectados estão transformando a concorrência, bem como as cadeias de valores das empresas. Na sequência, portanto, será discorrido sobre as bases teóricas relativas a esta dimensão.