3.2 Problemas econômicos
3.2.2 Capital Estrangeiro
Dentro desta temática, analisaremos críticas referentes à oposição das esquerdas à participação do capital estrangeiro no desenvolvimento econômico do país e também à oposição, por parte do empresariado vanguardista, à modificação da Lei de Remessa de Lucros realizada no governo de João Goulart, que prejudicou as multinacionais.
Em relação ao primeiro tópico, afirma-se que
519 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. A inflação em expansão. op. cit., p. 24.
520 GIMENEZ, Ovídio. A inflação e o caso brasileiro. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 3, n. 11-12, p.
é certo, positivamente claro, irretoquìvelmente provado que o Brasil, se deseja vencer a barreira do subdesenvolvimento, não pode prescindir do concurso de investimentos forâneos, eis que não dispõe de poupanças internas capazes de assegurar novas inversões, que projetem a nação na senda da industrialização e do progresso.521
Coloca-se aqui o auxílio deste tipo de capital como imprescindível para superar o subdesenvolvimento, sem questionar ou oferecer alternativas viáveis. A proposta, portanto, é de um desenvolvimento associado. Além disso, em outro texto, afirma-se: “Queremos lembrar que quando formos governados por homens dignos e capazes, nenhum capital estrangeiro será nocivo; será tratado com altivez e oportunidade”522. A negação do capital
estrangeiro para auxiliar no desenvolvimento econômico do país seria uma atitude digna de governantes incapazes de dirigir o país. Mais uma vez, a sutileza da sugestão de novos governantes que fossem aptos a dar conta de um desenvolvimento econômico adequado, aproveitando as oportunidades que se mostravam para o país. Em transcrição de uma palestra dada por Fábio Araújo Santos, empresário e sócio-fundador do IPESUL, em 1962, este se mostrou favorável à reforma tributária justa, que taxaria as grandes rendas. Sendo nestas que se encontram as maiores poupanças, Santos argumentou que
como para haver desenvolvimento é necessário haver investimento anterior que o preceda e como todo investimento é fruto das poupanças, diminui-las, significa, em contrapartida, restringir o processo desenvolvimentista; não há outra solução para o dilema que se coloca - desenvolvimento ou redistribuiçao - senão o apêlo às poupanças estrangeiras. Daí esta verdade indiscutível a ser proclamada em alto e bom som: restringir a inversão dos capitais estrangeiros no País significa reduzir a possibilidade de uma melhor redistribuição das rendas, ou seja, significa, por equívoco imperdoável, por interêsse inconfessável, por demagogia criminosa ou por ideologia marxista, evitar uma melhoria real das camadas mais pobres da população.523
Novamente, a situação é colocada de modo que não haja alternativa possível para o desenvolvimento econômico do país: recorrer ao capital estrangeiro para dinamizar e financiar a saída do subdesenvolvimento seria imprescindível. Além disso, quem estivesse a favor das restrições ao capital estrangeiro poderia estar agindo de má fé “comunista”, “marxista”, ou ser simplesmente contra o desenvolvimento do Brasil. A idéia do “nacionalismo caolho”, que seria característica dos discursos dos “comunistas”, também foi mobilizada. Significava as pessoas que tinham receio da livre iniciativa e do empreendedorismo individual, porque
521 VIANNA, Carlos Roca. O processo espoliativo. op. cit., p. 45.
522 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. Slogans. op. cit., p. 4. Grifos no original.
poderiam contribuir para a dominação estrangeira no país. Nesse sentido, apoiavam estatizações crescentes para defender a nacionalidade:
Os campos se delineiam na exasperação do individualismo egoista, escorado num conceito desvirtuado de liberdade ampla de ação, no campo econômico, e na antítese desesperada do nacionalismo caolho, temendo a presença do indivíduo na produção de riquezas, não pelo temor do indivíduo, mas pelo mêdo à dominação estrangeira, através dos trustes e dos cartéis, preconizando, por isso mesmo, a estatização crescente dos meios de produção, para a defesa da soberania da nacionalidade.524
Em setembro de 1962, uma lei que foi bastante criticada pelo empresariado vanguardista e aprovada pelas esquerdas em geral foi a Lei de Remessa de Lucros525. O
Projeto de Lei ficou conhecido como “projeto Celso Brant”, por ser de autoria deste senador, e versava sobre o controle do fluxo da remessa de lucros das empresas multinacionais para o exterior. Em relação a este projeto, afirma-se:
No mesmo comentário, afirmamos que o projeto Celso Brant jamais teria sido aprovado pela Câmara do Deputados se não existisse tanta ignorância na opinião pública e no próprio Congresso Nacional, sôbre a significação dos investimentos estrangeiros para a aceleração de nosso desenvolvimento econômico e para a situação social pròpriamente dita.526
Novamente, reiteravam a associação com o este tipo de capital como algo imprescindível e, mais ainda, inevitável para o objetivo de desenvolvimento. Esta idéia é complementada por outra argumentação: “no Rio Grande do Sul, encampados pelo Estado os serviços de energia elétrica para não ser o povo espoliado pelo capital estrangeiro, êsse mesmo povo passou a pagar pela luz e fôrça elétrica que consome, duas ou três vezes mais”527. Trata-se de uma crítica à estatização das filais gaúchas das empresas Bond and
Share e ITT, respectivamente de energia elétrica e de telefonia, no governo de Leonel Brizola, do PTB, em 1959 e 1962. Os serviços prestados pelo Estado seriam muito inferiores aos oferecidos anteriormente pela iniciativa privada, evidenciando, portanto, que as multinacionais, com capital estrangeiro, poderiam auxiliar muito mais o país no caminho para o desenvolvimento.
524 SCHMITT, Lio Cezar. O Brasil e a encruzilhada. op. cit., p. 23.
525 CONGRESSO NACIONAL. Lei n. 4.131, de 3 de setembro de 1962. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4131.htm>. Acesso em 20 out. 2011.
526 Ignorância sôbre inversões: são culpadas as emprêsas nacionais e estrangeiras. Democracia e Emprêsa, Porto
Alegre, v. 1, n. 1, p. 25-26, out. 1962. p. 25. Transcrito do jornal “Estado de São Paulo”, s/d.
Em relação ao período após o golpe, foi criticado o desenvolvimento associado realizado sem uma transferência tecnológica que compensasse os incentivos para a instalação das multinacionais no país:
Todavia, o desenvolvimento industrial do Brasil encontra um dos seus postos de estrangulamento na tecnologia; sabemos que a grandeza industrial de um país começa na retorta de seus laboratórios e nos seus institutos de pesquisas de tôda ordem; no entanto, o Brasil está expandindo seu parque fabril principalmente à base de tecnologia estrangeira com dois graves inconvenientes:
a) sobrecarga em nosso balanço de pagamentos com as despesas de royalties, assistência técnica, assistência científica, etc;
b) subordinação crescente dos mais importantes setores industriais brasileiros a poderosos grupos internacionais.
É claro que devemos aproveitar as conquistas técnicas e científicas já alcançadas pelas nações pioneiras e não procurarmos repetir seus longos esforços de ensaios e pesquisas; mas precisamos nos equipar com os nossos próprios meios materiais e recursos humanos exigidos por uma Nação que realmente aspire a tornar- se potência industrial.528
Estas afirmações ocorreram no governo de Castelo Branco, onde a limitação de 10% para remessa de lucros para o exterior da Lei de Remessa de Lucros foi revogada, facilitando a fuga do capital para as sedes das multinacionais.529 Além disso, houve um processo de
desnacionalização neste governo, o que nos ajuda a entender as preocupações explicitadas acima. Conforme Eduardo Cruz:
Durante o biênio 1965-1966, diversas companhias autóctones sucumbiram à concorrência, vendendo total ou parcialmente seus acervos acionários a similares forâneas. Esse processo de desnacionalização ganhou as páginas dos jornais, tornou- se objeto de uma CPI e de reclamações públicas de entidades patronais, às quais se somaram militares da linha-dura e inclusive alguns generais e almirantes do próprio gabinete governamental, como Peri Constant Bevilaqua, chefe do EMFA, Ernesto Geisel, Secretário-Geral do CSN [Conselho de Segurança Nacional], e Ernesto de Mello Baptista, Ministro da Marinha.530
O argumento anterior foi apresentado pelo General Anápio Gomes, o que nos oferece mais evidências em relação às diferentes matizes do pensamento militar e dos tipos de críticas direcionadas às políticas econômicas do próprio governo civil-militar.
De modo geral, as referências sobre a questão do capital estrangeiro no país criticavam as “mistificações” da oposição e os caracterizavam como incapazes de perceber a única
528 GOMES, Gen. Anápio. A estrutura industrial em face do desenvolvimento econômico. Democracia e
Emprêsa, Porto Alegre, v. 4, n. 7-8-9, p. 4-10, abr./jun. 1966. p. 5-6. Grifos no original.
529 ALVES, Maria Helena Moreira. op. cit., p. 75-76.
530 CRUZ, Eduardo Lucas de Vasconcelos. A política externa brasileira no período 1964-1979: o papel do
Itamaraty, das Forças Armadas e do Ministério da Fazenda. Dissertação de Mestrado. 2009. 531 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2009. p. 27-28.
alternativa viável de desenvolvimento econômico. Para a superação do subdesenvolvimento, era imprescindível a participação do capital estrangeiro em um tipo de desenvolvimento associado, longe das estatizações e do nacionalismo “retrógrado” e “slogâmico” que impedia o pensamento racional para uma política econômica mais eficaz para o país. No pós-golpe, como vimos, houve críticas em relação à ameaça das multinacionais a setores estratégicos da economia. É possível interpretar que o empresariado vanguardista apoiava o desenvolvimento associado, mas com ressalvas em relação às atitudes permissivas com as multinacionais em detrimento de um desenvolvimento independente.