2.1 Empresas, empresários a e a reformulação de seus papéis
2.2.5 Entre Berlim Ocidental e Oriental: os discursos sobre as Alemanhas
A Alemanha Ocidental era apresentada nas páginas da DE como paradigma da superioridade da “democracia” em detrimento do “comunismo” vigente na Alemanha Oriental. Mostravam os benefícios que a população daquele país possuía e os problemas e privações que a população da Alemanha Oriental enfrentava. Portanto, é possível interpretar que utilizavam a experiência alemã como um laboratório real da experiência “comunista”, comparada à experiência capitalista no mesmo país, para servir de exemplo empírico para o
465 VON MISES, Ludwig. O intervencionismo conduz ao socialismo. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 1,
n. 7, p. 52-60, abr. 1963. p. 60. Transcrito do “Temas Contemporaneos”, I.I.S.E., México.
Brasil. Desta forma, a livre iniciativa seria valorizada em detrimento do “caos comunista” que se vivia na República Democrática Alemã:
Quem quiser confrontar o funcionamento, o êxito e o resultado dos dois sistemas político-econômicos mais em evidência, no momento, basta olhar a Alemanha dividida em duas partes, cada uma governada por um dêsses sistemas. [...]
Ao revés, a Alemanha Oriental Socialista encontra-se em dificuldades, que a obrigou, inclusive, a recorrer ao auxílio da República Federal Alemã. Não produz o suficiente nem para seu próprio sustento. Pessoas que tiveram oportunidade de visitar as duas Alemanhas afirmam que o contraste é maior de que entre o dia e a noite. De um lado, progresso, bem-estar e liberdade; do outro, silêncio, racionamento e falta de bens de consumo.
[...] as duas Alemanhas, comparadas, mostram claramente qual o sistema de govêrno que melhor bem-estar traz ao seu povo.467
A caracterização da Alemanha Oriental converge com a idéia da construção do inimigo “comunista” que abordamos anteriormente. Serve também para lembrar o empresariado brasileiro de que um país ocidental possuía um enclave “comunista” dentro de suas fronteiras, a Berlim Oriental, que teria fracassado sobremaneira em comparação com sua vizinha Berlim Ocidental no esforço de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial. Além disso, um dos motivos do sucesso da Alemanha capitalista teria sido justamente a principal bandeira difundida pelo IPESUL: a “democratização” do capital. Através deste exemplo, pretendiam mostrar ao empresariado que é possível dinamizar o desenvolvimento econômico do país através deste mecanismo, visto que já deu certo em um país sob condições mais adversas que as do Brasil, quais sejam, as referentes a uma situação de pós-guerra. Há uma referência onde se afirma que “a Alemanha, depois da guerra, adotou, por exemplo, um sistema revolucionário, ao abrir à participação do público emprêsas de alta rentabilidade, vendendo, sob determinados critérios, uma parte das ações a preços abaixo do valor real”468.
A Alemanha também era considerada paradigma da não-intervenção do Estado no plano econômico, ou da menor intervenção possível. Esta exemplificação convergia com a visão anti-estatista do IPESUL e servia para reforçar suas idéias. De acordo com outra passagem, é afirmado que o caso da economia da Alemanha Ocidental era um “exemplo clássico de aplicação do NEOLIBERALISMO, pelo qual o povo germânico, eliminando o
467 RENNER, Egon. Estatização e livre iniciativa. Democracia e Emprêsa, Porto Alegre, v. 2, n. 4, p. 31-32, jan.
1964. p. 31-32. Transcrito do jornal “Diário de Notícias”, Porto Alegre, 10/11/1963.
468 DEMOCRACIA E EMPRÊSA. Função social do capital. Porto Alegre, v. 2, n. 7-8, p. 33, abr./mai. 1964. p. 33.
dirigismo e limitando a intervenção estatal ao imprescindível, tornou possível a economia livre do mercado”469.
Houve, portanto, uma mobilização do fenômeno das duas Alemanhas para demonizar o “comunismo” e positivar a Alemanha Ocidental em função da sua suposta superioridade e pujança no desenvolvimento econômico e social, o que serviu para reforçar idéias já citadas como a adaptação da “democracia” e do capitalismo às demandas sociais em um novo contexto, a “democratização” do capital e a “humanização do trabalho”.
2.3 Considerações parciais
Ao longo do capítulo pudemos identificar as concepções difundidas nas páginas da revista DE a respeito do empresariado e a reformulação de sua “mentalidade”, da “democracia” e sua evolução e também do “comunismo” e suas ameaças. A necessidade de reformar a “democracia” e o capitalismo para que uma possível revolução “comunista” não estourasse foi uma constante, bem como a construção detalhada de um inimigo que deveria ser combatido a todo custo. Além disso, vimos as fontes da argumentação do empresariado vanguardista, através das argumentações ligadas à DSI que apareciam nas revistas DE. As formas simbólicas deste capítulo são ideológicas na medida em que tinham como objetivos explícitos aumentar a produtividade dos trabalhadores enquanto estes tinham suas demandas contidas pela oferta da “democratização” do capital e de outros mecanismos da modernização empresarial preconizada no início dos anos 1960 pelos empresários vanguardistas. Este aumento da produtividade e a nova relação do empresariado com seus empregados auxiliariam no desenvolvimento econômico do Brasil, pois só assim, superando o subdesenvolvimento, o país deixaria de ser alvo dos “comunistas”, que explorariam a fome para tomar o poder.
Se houve uma convergência destas argumentações com a DSN no período do pré- golpe, foi possível identificar algumas críticas à política econômica criada logo no primeiro governo militar, o PAEG. A necessidade de conter lucros para que a estabilização da inflação fosse concretizada revoltou muitos empresários vanguardistas. Além disso, houve críticas ao aumento da intervenção estatal no campo econômico, com a questão das estatizações no governo militar, cada vez mais crescentes. Portanto, se houve convergência entre
469 TIEMANN, W. G.. Economia alemã e o auxílio ao seu desenvolvimento. Democracia e Emprêsa, Porto
empresariado vanguardista e militares na defesa da “democracia”, os mecanismos pelos quais o subdesenvolvimento seria rompido têm uma série de matizes e de pontos de discordância entre os dois que devem ser melhor analisados para que se possa compreender a relação entre empresa privada, militares e Estado na ditadura civil-militar.
No capítulo seguinte, analisaremos formas simbólicas a respeito dos problemas brasileiros no campo político e no campo econômico, abordando questões como a demagogia, a estrutura do Estado, a inflação e o capital estrangeiro nas páginas da revista DE. Nesse sentido, elencaremos os diagnósticos e propostas do empresariado vanguardista para a solução dos problemas referidos.
3 PROBLEMAS BRASILEIROS E AS PROPOSTAS DA FRAÇÃO DE VANGUARDA DO EMPRESARIADO
Neste capítulo, temos como objetivo analisar os discursos da revista DE a respeito dos diversos problemas que identificavam no Brasil, os diagnósticos que faziam a respeito destes e suas propostas para solucioná-los. Para fins metodológicos, dividimos este tema em dois: problemas políticos e problemas econômicos. Embora alguns de seus subtemas possam ser relativamente intercambiáveis entre os temas principais, consideramos aqui a compreensão de tais problemas pelo empresariado vanguardista através da revista DE. Isto explica, portanto, o fato de o subtema “Reforma Agrária e os problemas do campo” estar no tema “problemas econômicos”, e não políticos, visto que os artigos difundidos na revista tratavam, em grande parte, dos aspectos econômicos da questão. Os problemas destacados na revista DE se referem, principalmente, à inaptidão do Estado para conduzir o país rumo ao desenvolvimento e para solucionar as desigualdades sociais do país. Ao invés da ineficiência do Estado, o empresariado de vanguarda propunha que a livre iniciativa poderia ajudar a resolver tais problemas, redistribuindo renda através do cumprimento da “função social” do capital, como vimos no capítulo anterior em relação à “humanização do trabalho” e à “democratização” do capital.