CAPITALISMO DEPENDENTE BRASILEIRO
CAPÍTULO 2: CAPITALISMO DEPENDENTE E A DITADURA DE
2.2 O capitalismo dependente
O capitalismo dependente é uma formação social constituída pela combinação da “dupla articulação” entre a dependência externa e a segregação social. De um lado, essa sociedade é dependente dos dinamismos econômicos, sociais, políticos, técnicos e culturais das nações centrais do sistema capitalista mundial20. A sociedade nacional, carente de forças econômicas, culturais e políticas próprias,
18 De acordo com Fernandes (46), as Revoluções Burguesas atrasadas ou interrompidas, comuns em países latinoamericanos,
“não são ‘interrompidas’ para os estratos privilegiados das classes dominantes (incluindo-se nestas os parceiros externos envolvidos e os interesses imperiais das respectivas nações). O circuito da revolução é interrompido no patamar a partir do qual os seus dividendos seriam compartilhados seja com os ‘menos iguais’ das classes dominantes, seja com os ‘de baixo’. A interrupção só fica evidente por meio de um artifício comparativo: o que se sucedeu em outros casos análogos dos países centrais e o que aconteceria se... De fato, o raio dessas revoluções é tão pequeno que seria uma ‘anomalia’ se elas ocorressem de outra forma” (p. 75).
19“A 'revolução burguesa' e o capitalismo só conduzem a uma verdadeira independência econômica, social e cultural quando,
através da industrialização e do crescimento econômico, exista uma vontade nacional que se afirme coletivamente por meios políticos, e tome seu objetivo supremo a construção de uma sociedade nacional autônoma” (32) (p. 177).
20 Comentando sobre as debilidades econômicas da sociedade brasileira, o autor (32) as toma como parte de uma totalidade
52 torna-se tributária de interesses externos, por imposição ou associação. Para Fernandes (44), a burguesia dependente, assim, teve “de ceder terreno às evoluções externas do capitalismo, de colocar em segundo plano a revolução nacional e de exercer suas funções de liderança ou de dominação como uma plutocracia compósita, minada a partir de dentro pelos interesses, valores e influências das sociedades hegemônicas” (p.63).
Por outro lado, a sociedade é profundamente marcada por um regime de segregação social, herdado do período colonial, em especial da escravidão21, e reformulado permanentemente ao longo de sua História22. Na sociedade dependente, grande parcela da mesma é permanentemente excluída de condições de trabalho mínimas, direitos sociais e políticos e dos benefícios do progresso material capitalista. A integração possível é limitada e heterogênea, e longe de corresponder a um dualismo, é orgânica à reprodução da ordem (44): “são tais padrões de desigualdade estrutural que asseguram não só a existência e continuidade, mas também o crescimento e o desenvolvimento da ordem social competitiva que é possível sob o capitalismo dependente” (p. 75).
A dupla articulação demonstra, em verdade, que a combinação entre moderno e atraso é um traço constitutivo do capitalismo dependente. Nele, coexistem forças produtivas e relações de produção das mais avançadas, similares às dos centros capitalistas, até as pré e extra-capitalistas. Isso se deve a como a origem colonial condicionou a absorção dos mecanismos de mudança social tipicamente
especializada no mercado internacional, os países que, (…) [como o Brasil], não possuem uma 'economia' que possa preencher todas as funções que seriam vitais para a vigência e expansão normais da civilização transplantada. Os fluxos da produção e circulação da riqueza às vezes são suficientes para saturar, historicamente, uma parte das funções dessa civilização. Não obstante, eles se mostram demasiado débeis, seja para servir de base, em dado momento, à atualização simultânea de todas as suas funções econômicas, sociais e políticas; seja para incentivar eficazmente, a longo termo, a manifestação coordenada das potencialidades de mudança inerentes a tais funções. Nesse sentido, o principal efeito sociodinâmico das debilidades econômicas aparece em dois níveis. A 'economia' oferece suportes demasiado fracos para imprimir plena vitalidade às instituições, padrões e ideais de integração da ordem social global e modelos organizatórios herdados. E ela própria sofre o impacto dessa debilidade, esvaziando-se socialmente de modo variável e desgastando-se como um dos focos centrais de coordenação ou de dinamização dos processos civilizatórios. Tudo isso quer dizer que a 'economia' não conta com condições materiais e morais suscetíveis de imprimir às suas influências dinâmicas (integradoras ou diferenciadoras) o caráter de processos organizados e encadeados autonomamente em escala nacional” (pp. 161-162).
21Afirma Prado Júnior (27) “É também certo que a abolição não eliminou, desde logo, pelo menos em alguns lugares,
acentuados traços escravistas que permaneceram de fato e à margem do regime legal de trabalho livre. Mas estas sobrevivências escravistas (…), longe de constituírem obstáculos ao progresso e ao desenvolvimento do capitalismo, lhe tem sido altamente favoráveis (…). O que sobra do escravismo representa assim um elemento de que o capitalismo se apoia, uma vez que o baixo custo da mão de obra torna possível, em muitos casos, a sobrevivência de empreendimentos de outra forma deficitários” (p. 97). Em seguida, o autor descreve como estas persistências se encontram em especial no campo, mas que se desdobram para o mercado de trabalho como um todo.
22Segundo Fernandes (44): “À medida que as condições favorecem a expansão do capitalismo dependente, o 'progresso'
(econômico, cultural ou político) não elimina distinções e barreiras sociais aberrantes, consolida-as ou as renova sob novas aparências. (…) a diferenciação estrutural e a emergência de novos dinamismos sociais de classe alteram a ordem social competitiva, em sua morfologia e em seu funcionamento, sem imprimir-lhe as potencialidades econômicas, socioculturais e políticas, que seriam necessárias para que a sociedade de classes se convertesse em fator de revolucionamento da economia existente e superação do capitalismo dependente” (pp. 70 – 71).
53 capitalistas de forma negativa23 (32). A diferenciação em nação independente não teve correspondente na revolução econômica e social típica da revolução burguesa. O ponto de partida precário, a sociedade cindida e a defesa ultra-egoística dos interesses materiais e políticos das classes proprietárias levaram à constituição de uma dominação externa e à perpetuação da segregação que são, ao mesmo tempo, sua força e sua fraqueza24.
A combinação pode ser entendida olhando como a sociedade absorve as instituições, valores e técnicas tipicamente capitalistas por dois aspectos. O pleno funcionamento da competição como motor da mudança econômica é aqui obstaculizado, pois as classes dominantes locais se aferram aos seus privilégios e propriedades, resistindo politicamente à monopolização plena do capital25. Já o pleno funcionamento da luta de classes como meio para socializar a renda e a riqueza e garantir os direitos coletivos é travada pela intolerância de suas classes dominantes à mudança social, incapaz permitir o protagonismo autônomo das classes subordinadas26.
Diante da inevitabilidade do processo de modernização capitalista, que seria acessado através dos centros, surge a necessidade de se criar condições para viabilizar sua incorporação – e remuneração – na periferia. Esta mesma modernização, ao desencadear transformações na sociedade dependente27 (por
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Segundo Florestan Fernandes (32), este mecanismo repousa na necessidade da persistência de formas arcaicas de organização da produção, combinadas com a modernização induzida de fora: “a articulação de formas heterogêneas e anacrônicas entre si preenche a função de calibrar o emprego dos fatores econômicos segundo uma linha de rendimento máximo, explorando-se em limites extremos o único fator constantemente abundante que é o trabalho (…). Por isso, estruturas econômicas em diferentes estágios de desenvolvimento não só podem ser combinadas organicamente e articuladas no sistema econômico global. O próprio padrão de equilíbrio deste sistema, como um todo, e sua capacidade de crescimento definem-se e são perseguidos por estes meios, sem os quais o esvaziamento histórico dos ciclos econômicos conduziria, fatalmente, da estagnação à decadência” (p. 65).
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De acordo com Fernandes (31), “não há como fugir à constatação de que o capitalismo dependente é, por sua natureza e em
geral, um capitalismo difícil, o qual deixa poucas alternativas efetivas às burguesias que lhe servem, a um tempo, de parteiras e amas-secas. Desse ângulo, a redução do campo de atuação histórica da burguesia exprime uma realidade específica, a partir da qual a dominação aparece como conexão histórica não da 'revolução nacional e democrática', mas do capitalismo dependente e do tipo de transformação econômica que ele supõe. Ao fechar o espaço político aberto à mudança social construtiva, a burguesia garante-se o único caminho que permite conciliar sua existência e o florescimento com a continuidade e expansão do capitalismo dependente” (p. 251).
25 Fernandes (44) afirma que “Na América Latina, a intensidade da incorporação ao espaço econômico do “mundo avançado”
propriamente dito tem sido limitada, seja por motivos puramente econômicos ('as razões de negócio', que tem contribuído para restringir o envolvimento dos parceiros mais fortes ou para animar o apetite dos sócios menores), seja porque os ritmos históricos de absorção da 'civilização ocidental moderna' repousam, também em massa, em fatores não econômicos” (p. 61).
26 É o caráter “insuficiente e incompleto” com que se objetiva o regime de classes no Brasil que determina o padrão da luta de
classes. Aquele caráter “impede ou bloqueia a formação e o desenvolvimento de controles sociais democráticos. A riqueza, o prestígio social, e o poder ficam concentrados em alguns círculos sociais, principalmente no que se refere ao uso do conflito e do planejamento como recursos de mudança sociocultural. Assim, ao atingir um objetivo puramente particular e egoísta, estes círculos assumem, de fato, o controle político da mudança sociocultural e se convertem nos verdadeiros fatores de perpetuação no estado de dependência cultural em relação ao exterior” (32) (p. 57).
27 “No mesmo contexto em que o crescimento econômico contribui indiretamente para acelerar e agravar a instabilidade
54 exemplo, induz a formação de uma classe trabalhadora que emerge como sujeito político), ameaça à estabilidade da ordem e precisa ser defendida. Daí, segundo Fernandes (44), o recurso ao padrão de segregação social, constituinte e estruturante dos privilégios internos:
A tentativa de conciliar o irreconciliável [isto é, o superprivilegiamento de classe e as formas típicas – e construtivas, próprias dos elementos dinâmicos do 'espírito capitalista' – de dominação burguesa] criou certas tendências, que são típicas da América Latina (…). Provocou, em primeiro lugar, persistentes e fortes pressões das classes 'baixas' (e por vezes das classes 'médias') contra os privilégios econômicos, socioculturais e políticos (ou contra sua fruição em circuito fechado). E levou, em segundo lugar, as classes 'altas' e 'médias' a enrijecer os controles políticos, numa reação de extrema autodefesa, que acabou se institucionalizando (p. 103).
Este padrão autocrático de dominação de classes – expressão de uma estrutura social segregadora – é o que garante a remuneração dual do excedente (dos negócios internos e externos) e a estabilidade da ordem diante da fragilidade econômica intrínseca do capitalismo dependente e do acirramento do conflito de classes no plano internacional e nacional28. A dinâmica de absorção e defesa dos dinamismos externos e de diferenciação social com permanência da segregação é permanente ao longo da história da sociedade dependente, entre os momentos de mudança mais lenta aos mais acelerados (31).
Tais condicionantes gerais são influenciados e, acima de tudo, influenciam a formação das
classes e o padrão de luta de classes que aqui emerge. Do lado das classes despossuídas, bloqueios à
formação de uma classe trabalhadora em si e para si decorrem, em primeiro lugar, do fato de que apenas frações dessas classes são classificadas socialmente reforça tais debilidades, dado que a classificação na ordem (a proletarização) passa a ser enxergada como um privilégio29; e em segundo lugar, as heterogeneidades materiais e culturais impedem a constituição de consciência e solidariedade de classes, daí a fraqueza de suas organizações30. Do lado da burguesia, constitui-se uma classe paradoxalmente
28 De acordo com Fernandes (31), “As vantagens e os privilégios estão na raiz de tudo, pois se as classes burguesas [nacionais
e internacionais] realmente 'abrissem' a ordem econômica, social e política perderiam, de uma vez, qualquer possibilidade de manter o capitalismo e preservar a íntima associação existente entre dominação burguesa e monopolização do poder estatal pelos estratos hegemônicos da burguesia” (p. 422)
29 Este aspecto, fundado na existência do enorme contingente populacional que estruturalmente “não cabe” no processo de
industrialização (44). Os dinamismos que determinam a configuração da ordem social competitiva sob o capitalismo dependente “convertem a classificação pelo trabalho (e suas implicações socioeconômicas, culturais e políticas) em uma espécie de privilégio degradado, de 'segunda grandeza', que induz os assalariados reais ou potenciais a absorver as ilusões e algumas das expectativas de existência social inerentes à 'condição burguesa'. A proletarização, a mobilidade ocupacional horizontal ou vertical e a profissionalização assumem a aparência de alternativas 'viáveis' e 'eficientes' de solução, em escala individual ou de pequenos grupos, de problemas que a ordem social competitiva não pode resolver em escala coletiva” (pp. 84).
30“tal padrão de mercantilização do trabalho bloqueia ou dificulta a consciência social de interesses de classe similares,
55 frágil para enfrentar e afirmar-se frente ao capital estrangeiro e ao imperialismo31, mas, ao mesmo tempo, forte para impor seus interesses ao conjunto das classes dominadas e manejar os parâmetros e recursos internos de acordo com seus interesses32 (31,44).
Dessa profunda assimetria decorre o funcionamento de um padrão de luta de classes marcado pela intolerância ao conflito, onde uma burguesia unida em torno de interesses comuns utiliza diversos expedientes, da cooptação à repressão aberta, para impedir a emergência dos dominados como força autônoma (31):
Impotentes para compor e superar suas divergências, elas deslocam o foco da unidade de ação, transferindo-o das grandes opções históricas para o da autodefesa coletiva dos interesses materiais comuns, que compartilhavam como e enquanto classes possuidoras. Por isso, pode-se qualificar o padrão de hegemonia burguesa resultante como sendo de uma hegemonia agregada, de simples aglutinação mecânica dos interesses de classe (p. 390).
Daí que o regime político no capitalismo dependente seja sobrecarregado – meio para dirimir conflitos de ordem econômica e social. Sob tais condicionantes, só pode emergir um padrão de dominação burguesa marcada pela unidade de uma classe dominante heterogênea sobre os dominados em torno dos interesses comuns – o “padrão compósito de dominação” 33. Essa verdadeira “onipotência” da burguesia aparece como necessidade histórica, condição para estabilizar uma ordem na qual se pretende preservar o passado ao mesmo tempo em ocorre à mudança.