3 PROGRAMA BRASILEIRO E INTERNACIONAL DE CAPOEIRA
1. Mestre Ananias (SP) 2 Mestre Cavaliere (MG) 3 Mestre Carcará (BA) 4 Mestre Zé de Freitas (BA) 5 Mestre Itapoan (BA) 6 Mestre Roque (RJ)
3.3 Capoeira Viva: os projetos e os contemplados
Eu quero fazer com essa gente Uma grande transformação Jogando capoeira pelo mundo A se embolar pelo chão Capoeira do meu corpo amigo Capoeira do coração Capoeira pro resto do mundo E somos todos irmãos.82
Acessando o Caderno Informativo, produzido para a divulgação das políticas culturais do MinC voltadas à capoeira, em especial o PCV, notamos várias instituições envolvidas nesta ação. Ali encontramos a informação de que a sistematização desta primeira experiência envolveu a Associação de Apoio ao Museu da República (APMAR) que: “[...] celebrou convênio com a Fundação José Pelúcio Ferreira [...]” (CADERNO INFORMATIVO CAPOEIRA VIVA, 2006).
Ao pesquisarmos sobre o PCV, nossas questões envolveram desde o acesso a informação sobre os editais e as formas de participação, passando pelo desenvolvimento do projeto, sua finalização e prestação de contas. Sendo assim, tivemos contato com 9 (nove) contemplados, que emitiram seus discursos a respeito desta experiência. Além disso, ouvimos também o coordenador da ação.
Foram 3 (três) entrevistas referentes aos projetos voltados a acervos documentais, 3 (três) relacionados a ações de Incentivo à Produção de Pesquisa, Inventários e Documentação e 1 (um) em cada categoria socioeducativa. Sendo
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que, é bom lembrar mais uma vez, em uma das categorias socioeducativas –
Experiências Governamentais – não houve premiação.83
Apesar da Bahia ser considerada pelo imaginário social e por muitos cultores dessa manifestação, a Meca da Capoeira, não houve projetos aprovados na Categoria Socioeducativos/Entidades Governamentais.84 Dos quinze projetos contemplados, nenhum se encontrava nessa região.
Vale ressaltar que, desde o início da década de 1990, vários projetos que objetivavam estimular o ensino e a prática da capoeira no Estado da Bahia, vêm sendo desenvolvidos, tanto pelo governo estadual quanto pelo governo municipal.85
Houve dificuldades em localizar os proponentes destes projetos, muitos ligados a gestões públicas passadas, e que já não mais faziam parte das equipes atuais. Entretanto, conseguimos conversar com o proponente deste último projeto, desenvolvido na cidade de Colombo, no sul do país, no Estado do Paraná.
Fizemos um contato com Aristeu Oliveira dos Santos, conhecido na região como mestre Mestrinho, idealizador do projeto Capoeira Arte Luta. Mestre Mestrinho, além de tecer elogios a esta ação da política cultural, voltada à capoeira, mostrou-se muito satisfeito com sua participação, nesse momento histórico. Enfim, este mestre confirmou o recebimento do certificado do PCV.86
Como destacamos, nossa primeira preocupação gerou em torno do acesso ao conhecimento referente a essa nova política cultural voltada para a capoeira, implementada pelo MinC, na gestão de Gil. O PCV foi divulgado em vários meios de comunicação, mas principalmente pela internet. Apesar de observarmos um desenvolvimento significativo do acesso à web, no nosso território, ainda notamos
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Para estes, havia apenas a previsão de recebimento de um certificado de qualificação.
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A região onde mais projetos foram selecionados nesta categoria, obtendo o reconhecimento do PCV pelas ações voltadas para a capoeira, foi o Sudeste do país, com 10 (dez) aprovações. Temos, assim, 5 (cinco) em Minas Gerais, 4 (quatro) em São Paulo e 1 (uma) no Espírito Santo. O Centro-oeste foi representado por Goiás, o Nordeste com 1 (um) projeto apenas, do Rio Grande do Norte, e o Sul com 3 (três) projetos, sendo 2 (dois) no Rio Grande do Sul e 1 (um) no Paraná.
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O que notamos é a falta de manutenção e de continuidade dessas iniciativas que se constituem em projetos de governo e automaticamente, com o fim dos mandatos, as mesmas se esvaem também
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Trata-se de um trabalho educacional com crianças e adolescentes portadores de necessidades especiais, que vem sendo desenvolvido pelo Mestre há algum tempo, nas dependências da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) da região. No site Capoeira Arte e Luta, podemos encontrar mais informações sobre os trabalhos desenvolvidos pelo capoeira
paranaense. Para maior informações, acesse:
bolsões de miséria e consequentemente carência, dentre outras coisas, de acesso à educação, à cultura digital e a informações dessa natureza.
No primeiro edital, por exemplo, os contemplados das regiões norte e nordeste, região onde se encontram os maiores bolsões de miséria do país, o número de projetos aprovados foi menor que nas regiões Sul e Sudeste. Foram vinte e três projetos aprovados na região Nordeste, quatro no Centro-Oeste e no Norte apenas três, contra trinta e cinco da região Sudeste e oito no Sul do país.
Gráfico 01: Projetos aprovados por regiões
Se juntarmos o Sul e o Sudeste do país e compararmos aos resultados do Nordeste, Norte e Centro-oeste, percebemos que ainda persistiu, nesse primeiro edital do PCV, a velha questão referente ao direcionamento das verbas destinadas à cultura, no que diz respeito à concentração destas no eixo Sul e Sudeste.
Gráfico 02: Comparação entre regiões.
Todos os nossos respondentes, indubitavelmente confirmam que acessaram notícias sobre o PCV, em vários meios de comunicação, inclusive
através do Jornal Nagô.87 Todavia, estes enfatizam também que, de fato, o acesso às informações do edital, chegou até eles, principalmente por uma das ferramentas mais contemporâneas de comunicação – a Internet. “Eu fiquei sabendo do edital na própria internet” (MESTRE GIL VELHO, Informação verbal, 2012).
Provavelmente, os indivíduos que residem no extremo norte do país, principalmente em determinadas regiões, onde temos conhecimento que o acesso à comunicação digital ainda se encontra em desenvolvimento, tenham encontrado alguma dificuldade em realizar essa ação, mas isto é somente uma especulação. Até mesmo os que se localizam nos grandes centros urbanos expressam a dificuldade de uso dessa ferramenta:
[...] eu particularmente não sou muito bom nessa história de computador, como acabei constatando com vários amigos meus de capoeira, também, que tinham essa dificuldade. A gente pensa assim: – Ah todo mundo acessa a internet! Ainda não é todo mundo. Ainda tem muita gente que não está completamente familiarizada com esse tipo de linguagem. (MESTRE TONY VARGAS, Informação verbal, 2012)
Todavia, mesmo sem o domínio da ferramenta, muitos não se intimidaram e se utilizaram do expediente de familiares, amigos, e de apoio, inclusive, de algumas instituições, para produzirem um projeto, na esperança de finalmente receber apoio em suas iniciativas: “[...] mais minha esposa, felizmente é uma pessoa que lida com isso. As pessoas foram se comunicando [...]. Tenho muitos amigos que também jogam [...]. A galera que já lida melhor com isso. Esse povo falou: - Vai, lá [...]” (MESTRE TONY VARGAS, Informação verbal, 2012).
Apesar de ser a primeira experiência para muitos, todos consideram ter sido um processo de inscrição muito tranquilo, sem maiores complicações. Um destes pontos positivos, que foi evidenciado pelos pleiteantes:
O site era muito intuitivo, a interface muito boa, tranquilo. Projeto muito simples, eu acho que, pelo menos e, na primeira edição, eu acho que na segunda também, porque foi o mesmo site, porque mudou pouco! Tinha essa preocupação de facilitar o acesso, até pra pessoas que não entendessem é, muito, de informática, não era nada complicado fazer o projeto! (RAQUEL SILVA, Informação verbal, 2012)
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Alguns proponentes tentaram realizar a inscrição no último dia do prazo estabelecido. Como a quantidade destes retardatários foi significativa, o sistema travou e impossibilitou as inscrições. “[...] Eu perdi o primeiro! [...] aquela coisa de brasileiro mesmo [...], coisa de última hora, então acho que teve problema com a plataforma de receber as informações do primeiro, ficava travando, eu fui fazer no último dia e é claro, não consegui!” (LILU, Informação verbal, 2011).
Mas nossa entrevistada se equivocou, ao estereotipar os brasileiros. Nosso outro depoente, que tem nacionalidade inglesa, também deixou de inscrever seu projeto no primeiro edital, por fazê-lo apenas no último dia.
[...] eu tentei entrar. Teve um problema com web porque ele ficou fora do ar no último dia. [...] Ficou muito chato, porque você preparou aquilo, queria entrar e o website não tava funcionando. Depois, a gente reclamou, mas o pessoal responsável do primeiro edital disse que não podia fazer nada. [...] eu acho que não foi justo, porque foi um problema do website, isso tá comprovado. Não é uma coisa de uma só pessoa. Teve um monte de gente, eu inclusive estava em contato com outras pessoas que experimentaram o mesmo problema. Acho que não foi muito justo não aceitar essas propostas sabendo as dificuldades com o site. (MATTHIAS ASSUNÇÃO, Informação verbal, 2012)
A coordenação do PCV, com consciência de que o problema foi demandado pelo próprio web site do Projeto, poderia ter optado por esticar o prazo de inscrição, mas não o fez, postergando, dessa forma, a participação dos nossos dois depoentes (acima). Ambos tiveram os seus projetos contemplados na segunda experiência da ação.
Não houve maiores problemas para o desenvolvimento do projeto, após aprovado. O depoimento do mestre, a seguir, exprime com gratidão a oportunidade de oferecer um curso gratuito para seus pares, através do PCV. “[...] pra gente foi supergratificante, o fato de poder abrir pra um número maior de pessoas. Uma coisa que muita gente já vinha indicando que precisava. Quer dizer [...], na verdade foi um curso. É intensivo pra quem trabalha com criança Capoeira Infantil. [...]” (MESTRE TONY VARGAS, Informação verbal, 2012).
No ensejo, conversarmos com os autores da Coleção Capoeira Viva. Ambos demonstraram grande satisfação e realização por publicarem seus trabalhos acadêmicos através do PCV.
[...] eu não tive dificuldade [...] na verdade, o trabalho que foi aprovado foi o da Raquel, [...] eu tava incluído nele. Era rever rapidamente a dissertação de mestrado e tentar preparar ela da melhor maneira para ser lida por um público não acadêmico. Ainda assim, não consegui fazer isso muito bem. Ela ainda tá muito acadêmica, porque não deu muito tempo entre o resultado do edital e a produção do livro. (BERNARDO CONDE, Informação verbal, 2011)
Para a contemplada a seguir, importante foi o fato de que sua contribuição para o universo da capoeira está registrada de forma mais ampla, em um livro, fruto de uma política pública que valorizou as produções desta área. [...] O livro fica, entendeu? Mesmo que eu morra amanhã, meu livro tá aí! Mas isso é muito pouco, não é? Eu acho assim, que, de alguma maneira, eu contribuí pra capoeira, pra legitimação da capoeira [...] (IZABEL FERREIRA, Informação verbal, 2012).
A simplicidade do primeiro edital configurou-se, para nossos entrevistados, no ponto forte desta primeira etapa de desenvolvimentos dos projetos contemplados. Essa compreensão aparece em todos os depoimentos, principalmente naqueles que foram contemplados tanto no primeiro edital quanto no segundo edital:
Eu não encontrei dificuldade nenhuma [...] Eles repassaram o dinheiro numa velocidade muito grande [...] eu acho que eles foram mais realistas com relação à coisa do projeto mesmo, não é? [...] Então, você faria uma prestação de contas intermediária. Eles tinham certa velocidade nisso e depois [...] escreveria um documento [...] se comprometendo a prestar conta, desde quando fosse solicitado pelos órgãos competentes. Então, o primeiro foi assim [...]. (FREDE ABREU, Informação verbal, 2011)
Para muitos, a oportunidade de ser contemplado foi o credenciamento para dominar as ferramentas de concorrência em editais, modalidade muito utilizada nas atuais políticas culturais do MinC. O que possibilitou know-how para a participação em outras experiências que seguem o mesmo modelo.
Foi meu primeiro edital [...]; se eu for parar pra pensar botando a mão nos dedos, na gratidão, foi meu primeiro passo. Me estimulou a buscar outros, que eu já conquistei. Então, ali me abriu [...], foi o primeiro passo mesmo e, como era de capoeira, ficou mais fácil concorrer. (RODRIGO BRUNO, Informação verbal, 2012)
De acordo com o Blog Casa Mestre Ananias, os projetos desenvolvidos foram contemplados em outros editais, como o Edital ProAC de Culturas
Selo Cultura Viva e o Prêmio Itaú Unicef. Além de outros prêmios e bolsas recebidos pelo próprio Mestre Ananias, pelas suas contribuições no âmbito da capoeiragem. Enfim, uma trajetória de sucessos e reconhecimento de anos de trabalho e dedicação foi traduzida em todos esses prêmios e editais selecionados. Mas é importante ressaltar que tudo se inicia com o PCV.
Nosso depoente, discípulo do mestre Ananias,88 inscreveu vários projetos, nas duas oportunidades em que houve o PCV. Seus projetos, que sempre envolveram ações voltadas para o trabalho desenvolvido pelo Centro Paulistano
de Capoeira e Tradições Baianas e o experiente Mestre Ananias, foram um dos
mais contemplados.
Ele foi selecionado no primeiro edital com o projeto Mestre Ananias e, no segundo, com os projetos Casa Mestre Ananias – Centro Paulistano de Capoeira
Tradicional, Convivência e Cidadania, na Categoria Socioeducativa, e Casa Mestre Ananias – Centro Paulistano de Capoeira e Tradições Baianas, na
categoria acervos. O depoente destaca a simplicidade do primeiro edital, o que possibilitou o desenvolvimento do trabalho, assim como a sua prestação de contas, em sua visão, bastante adequada para esse universo.
Eu lembro que foi muito bom o primeiro, foi simples e feito para quem era realmente iniciante. Capoeirista é muito iniciante nessa questão de política pública, de escrever projeto e se articular dessa forma, então, foi excelente, a prestação de contas simples, então, foi tudo tranquilo. [...]. (RODRIGO BRUNO, Informação verbal, 2012)
O projeto Centro de Referência da Capoeira Carioca foi contemplado na categoria Acervos documentais. Estava previsto um orçamento de R$ 75.000,00 (setenta e cinco mil reais), R$ 15.000,00 (quinze mil reais) a mais do que o projeto havia proposto.89
[...] em sua primeira fase, deu início à implantação do acervo da capoeira carioca através da edificação de um Memorial Digital. Nesta segunda fase, a proposta é criar o espaço físico do Centro e torná-lo pessoa jurídica. A partir deste centro, que será um Ponto de Cultura, pretende-se dar continuidade à pesquisa e ao ordenamento deste material, tanto em nível do acervo digital como na estruturação do espaço físico. (MESTRE GIL VELHO, Informação verbal, 2012)
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Um dos percursores da capoeira baiana em São Paulo.
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Segundo os planos, a proposta englobava o trato da memória da capoeira e, assim, se tornar um local de pesquisa.
Infelizmente, não foi isso que aconteceu, a segunda etapa do Centro de
Referência da Capoeira Carioca, de acordo com o planejamento do projeto, não
foi à frente. Apesar de algumas ações, acabou se resumindo a um site da internet que, desde 2012, não se encontra mais acessível. Além disso, nem mesmo estava concluído, pois se podiam verificar várias páginas ainda em construção.90
Em compensação, o Acervo Frede Abreu desenvolveu atividades diversas, prestando serviços aos integrantes da capoeira e ao público em geral, com grupos de estudos, palestras, encontros e oficinas, dentre outras atividades. Em verdade, no que diz respeito ao acesso público dos acervos do pesquisador, isso já vinha ocorrendo sem apoio algum.
[...] pode se ver isso pelos agradecimentos que são feitos nas teses, em várias partes do mundo. Teve um determinado momento que a gente tinha a liderança nisso aí, não é? [...] a gente tinha um acervo e esse acervo já era aberto [...], ele já funcionava antes do edital, [...] como um alvo de consulta pública, entendeu? [...] já prestava o serviço público [...], tinha um quarto em minha casa, aonde as pessoas iam lá e eu atendia gente até de madrugada [...]. (FREDE ABREU, Informação verbal, 2011)
Contudo, de acordo com o pesquisador, o repasse auxiliou a organização do trabalho, uma vez que, com o incentivo, se pode qualificar melhor um trabalho desta natureza, pelo desenvolvimento das ações necessárias de forma muito mais profissional: “Foi muito, muito, aí eu tive estante pra colocar, tive equipe, eu pude catalogar entendeu? Arrumar direitinho não é? [...] Muito, muito! Qualificou bastante, entendeu? Ajudou muito mesmo, andou mais rápido as consultas, entendeu?” (FREDE ABEU, Informação verbal, 2011).
Mas assim como o Centro de Referência da Capoeira Carioca o acervo de Frede Abreu também sucumbiu, fechando suas portas em 2011 e retornando para a sua residência. Uma quantidade significativa de material sobre a nossa cultura foi novamente amontoada em um quarto de seu apartamento. Sem a devida
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O Memorial Digital perdeu-se. A fase número um, conforme previsto no projeto não foi completamente implantada e não houve continuidade, após o término do primeiro edital do PCV, assim como em várias outras ações contempladas.
valorização e o apoio dos órgãos públicos, Frede Abreu não vislumbrou outra opção.91
O depoente a seguir lembra que, apesar de algumas dificuldades no desenvolvimento das ações do PCV, houve a tentativa de viabilizar diversos projetos, com a interiorização das ações. Tudo foi feito para preparar as comunidades da capoeira para essa forma de se fazer política cultural.
[...] se nós quisermos, se o governo quiser, nós podemos fazer muitas coisas boas. O que ficou foi a experiência de ter sido contemplado, quando a gente não via essa possibilidade. Acho que ela deve continuar. No Brasil, tem uma dificuldade, que é de cobrar, de supervisionar. E há pessoas também com interesses de burlar todo tipo de lei, mas a gente não tem que pensar nessas pessoas, a gente tem que pensar naquilo que facilitou. Vários mestres, pessoas longe, do interior, pessoas que teriam dificuldade de fazer um projeto mais ampliado, conseguiram. (MESTRE SUÍNO, Informação verbal, 2012)
É bem possível que todos os contemplados na categoria relacionada a projetos sociais já estivessem desenvolvendo suas atividades, educando através da capoeira, antes do PCV. Um dos nossos entrevistados confirma essa conjetura:
[...] tava com esse trabalho, sempre com esse foco, e o que eu tava esperando era oportunidade [...]. A partir do Capoeira Viva, que foi a vivência pro trabalho aqui de Arraias [...], acredito que foi uma coisa muito positiva, que aconteceu com a capoeira, pra gente. (MESTRE FUMAÇA, Informação verbal, 2012)
Neste caso em especial, o PCV serviu para estimular a participação da comunidade de Arraias, interior de Tocantins, em outros editais, credenciando-os para o pleito e qualificando o trabalho que já vinha sendo executado. Com isso renovou as esperanças de continuidade das ações no município. “[...] Então, essa verba veio assim pra atender as dificuldades que naquele momento tava sendo primordial e necessário” (MESTRE FUMAÇA, Informação verbal, 2012).
Muitos projetos não foram contemplados. Para um dos nossos entrevistados, fica a dúvida sobre os critérios de avaliação, bem como o por quê
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O pesquisador destaca que a execução do projeto já havia acabado e sua saída do espaço que ocupava anteriormente se deu pela dissolução de sua sociedade, e não necessariamente por atrasos ou ausência de verbas públicas.
do trabalho não ter sido aprovado, pois, segundo ele, seria uma oportunidade de aprendizado para poder participar e concorrer, novamente, de uma forma mais qualificada.
[...] eu tava fazendo a minha pesquisa, que era a difusão da capoeira na Europa. [...] eu tinha resolvido que eu ia documentar tudo, com gravação de vídeo, [...] mas eu precisava de um apoio pra poder contratar um pessoal especializado, profissionais pra edição [...]. Então, eu fiz um projeto, solicitando uma verba pra fazer o ensaio videográfico [...] saiu o resultado do projeto e eu não vi o meu aprovado. (BERNARDO CONDE, Informação verbal, 2011)
Seria realmente importante um retorno, ainda que de forma simples, apontando os motivos dos projetos não terem sido selecionados e, em que, se fosse o caso, seria possível melhorar para, nos próximos editais, enfrentar a concorrência de forma mais adequada. Contudo seria uma tarefa muito mais complicada para os avaliadores do processo. Se houve algo desta natureza, não contemplou o nosso entrevistado que, quando questionado sobre isso, negou que tivesse ocorrido com ele:
Não. Eu tinha curiosidade [...], porque eu documentei tudo. [...] Fiz uma edição caseira, mas com alguma qualidade [...]. Enviei junto com toda a documentação da minha pesquisa, da qualificação, tudo! Mandei pelo correio, além da inscrição na internet, e não recebi nenhuma resposta com relação a isso. (BERNARDO CONDE, Informação verbal, 2011)
Nem todos os projetos do primeiro edital do PCV foram finalizados. Alguns não conseguiram, por um motivo ou outro, concluir seus cronogramas, inviabilizando o acesso ao produto final, pelo menos é o que se verificou até o momento. Assim, foi o que aconteceu com o Projeto Rucungo: pesquisa sobre
elementos ancestrais da capoeira em manifestações da cultura popular do Maranhão africano:
[...] o material ficou todo na mão do produtor, porque eu não sabia fazer esse negócio de edição, eu tinha que passar pra pessoa que sabia [...]; ele já é premiado a nível nacional, até no Doc TV, só que ele [...] foi embora pra Alcântara e abandonou o processo, a gente passou o material, pagamos [...] e ele não terminou, tá tudo na mão dele [...], tá tudo com ele! (RAIMUNDO CARVALHO, Informação verbal, 2012)
Essa situação, ocorrida no projeto do Maranhão, acabou inviabilizando o acesso a uma manifestação riquíssima da nossa cultura ancestral. Nosso entrevistado demonstra a disposição de retomar o processo, futuramente, reconhecendo a importância de recuperar as informações sobre a presença dos saberes africanos e afro-brasileiros na região:
[...] é um débito que eu tenho com o negócio.92 Mas se for pra repetir, eu vou e pego todas as informações, por que as comunidades existem, as pessoas me conhecem, me respeitam. Então, sabem que não é brincadeira. Dá pra se refazer tudo de novo. [...] Aliás, eu vou refazer, eu preciso refazer. (RAIMUNDO CARVALHO, Informação verbal, 2012)
Para a vice-presidente da Associação de Capoeira Chapada dos Negros, um dos fatores negativos do PCV está relacionado à seleção das propostas. Ela