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Capoeira, política cultural e educação

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Academic year: 2021

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FACULDADE DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

NEUBER LEITE COSTA

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Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, como requisito à obtenção do grau de DOUTOR EM

EDUCAÇÃO.

Orientador: Prof. Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib.

Salvador

2013

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SIBI/UFBA/Faculdade de Educação – Biblioteca Anísio Teixeira

Costa, Neuber Leite.

Capoeira, política cultural e educação / Neuber Leite Costa. – 2013. 350 f. : il.

Orientador: Prof. Dr. Pedro Rodolpho Jungers Abib.

Tese (doutorado) – Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Educação, Salvador, 2013.

1. Capoeira. 2. Política cultural. I. Abib, Pedro Rodolpho Jungers. II. Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Educação. III. Título.

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Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Educação, Universidade Federal da Bahia.

Banca Avaliadora

Pedro Rodolpho Jungers Abib (orientador) ______________________________ Pós-Doutor em Ciências Sociais. Universidade de Lisboa (UL).

Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Luiz Renato Vieira ___________________________________________________ Doutor em Sociologia. Universidade de Brasília (UNB).

Senado Federal (SF).

Augusto César Rios Leiro _____________________________________________ Doutor em Educação. UFBA.

Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Hélio José Bastos Carneiro de Campos__________________________________ Doutor em Educação. UFBA.

Universidade Católica do Salvador (UCsal).

Amélia Vitória de Souza Conrado _______________________________________ Pós-Doutora em Artes. Universidade de Paris VIII

(5)

Dedico esse trabalho:

 A minha filha: Ana Clara

Por você

Eu dançaria tango no teto Eu limparia

Os trilhos do metrô Eu iria a pé

Do Rio à Salvador Eu aceitaria A vida como ela é Viajaria a prazo Pro inferno

Eu tomaria banho gelado No inverno...1.

 As comunidades da capoeira, no intuito que essas reflexões contribuam para o desenvolvimento da cultura.

1

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Aos meus pais Carmen Leite Costa e Nilton Menezes Costa pela dedicação e o amor incondicional.

A Cris

“Ainda bem

Que agora encontrei você Eu realmente não sei O que eu fiz pra merecer Você2”

Ao meu eterno mestre Ministro (Raimundo Mário de Freitas)

“Ô meu mestre muito obrigado Pela capoeira eu poder jogar Pelo aú, pelo S dobrado Pela capoeira eu poder jogar”3

Ao colega de doutorado, de trabalho, de corridas. Parafraseando Roberto Carlos: - O meu amigo: Luiz Carlos Rocha.

A Ubiratan Menezes: “você meu amigo de fé, meu irmão, camarada”4 . A Monalisa e a Djane Reis pela atenção e disposição.

A Fran que muito me amparou: sempre olho de tigre!

A Hermes Furacão, Hernani Jacarandá, Duda Carvalho e Marcelo Gomes pelo auxílio.

A Juracema Silva, minha futura cirurgiã-dentista e Suelen Senna pelo carinho e prontidão.

A meu querido amigo Frederico Abreu sempre disposto a contribuir.

Ao mestre Suíno e família, que desde a década de 90 me acolhe tão bem! A Lobisomem pela atenção dispensada.

Ao mestre Camisa pelos ensinamentos, simpatia e pela carona! A Raphael Cego, Leonardo Viera e Buda: que aventura heim!

2

Ainda Bem, música e letra de Marisa Montes.

3

Muito Obrigado, música DP.

4

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A Mathias Assunção pela presteza, pela companhia e pela pizza! Aos integrantes do sempre doce grupo MEL.

Aos entrevistados pela colaboração e prontidão na construção do trabalho: aprendi muito com vocês.

Aos camaradas da Secretaria da Educação: Kelly Costa, Janete Beanes, Emília Madalena, Alaíde Souza, Patrícia Shettine, Francisco Camarão, Osmar Milazzo, Zé Fernandes, Rosane Claudia, Dôra, Marcelo Rocha, Naynara Moreira, Lara Matos (Larica), Fábio Barbosa.

A Dayana Cristina Garcia, que também viveu essa fase comigo por um tempo.

Natasha, Silas, às irmãs Michele Machado e Milena Machado, Juliana Free Dance, Igor Mandacaru, Neyla Marques, Érica Estevam de Santana, Deyse Martins e Daiara.

A Nívea Cerqueira pelo apoio.

Mi grand y querida profesora Icoos Angie. ¡Muchas gracias!

Ao camarada Vitor Castro Júnior (Vitor de João Pequeno).

À equipe técnica da PPGE da FACED: em especial à Nádia Cerqueira, Eliene Batista, Márcia Moura e Kátia Cunha.

A Augusto César Rios Leiro que me acompanha desde a década de 90, estimulando a minha produção acadêmica, outrora como professor e atualmente como meu camarada e colega de trabalho.

Ao amigo, professor, cineasta, sambista, pesquisador, capoeirista e o meu grande „des‟orientador oficial Pedro Abib.

Ao grande camarada e mestre Luiz Renato, sempre me dispensando atenção e muito me ensinando.

A professora Amélia Conrado pelo cuidado, pela responsabilidade e zelo.

Ao professor e mestre Xaréu – Hélio Campos, que me acompanha desde o meu início na capoeira, quando eu nem sabia que existia universidade.

À UNEB por subsidiar minha pesquisa através da Bolsa PAC.

À Secretaria de Educação do Estado por aprovar o meu afastamento pra estudos. À Biblioteca Amadeu Amaral e sua equipe sempre prestativa.

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À Fundação Gregório de Matos.

Ao IPHAN e sua equipe que me acolheu.

Ao Red Hot Chili Peppers, ao Camisa de Vênus, a Lenny Kravitz, Iron Maiden, Metálica, Titãs e AC/DC que embalaram minha escrita.

Ao escolher uma banca, o fazemos porque possuímos junto a estes afinidades, respeito e acreditamos que seus integrantes são fundamentais não somente para contribuir, mas para qualificar a pesquisa. Dessa forma estes nomes que seguem são imprescindíveis:

À banca formada por Pedro Abib; mestre Luís Renato; César Leiro; mestre Xaréu – Hélio Campos e Amélia Conrado. Estes são em maior ou menor grau: ídolos, amigos, companheiros e exemplos para minha vida, para minha carreira e para a capoeira.

A todos os amigos, conhecidos, companheiros e camaradas que contribuíram diretamente ou indiretamente para a realização desse trabalho.

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“Cada um sabe a dor

E a delícia

De ser o que é...”

Caetano Veloso

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Essa tese que analisa as políticas culturais voltadas para a capoeira se preocupou em investigar através de pesquisa documental, entrevista semi-estruturada, análises e nexos entre as políticas culturais, a educação e a capoeira. O trabalho objetivou compreender as consequências das políticas culturais da capoeira, para suas comunidades, principalmente no que diz respeito a sua formação. A pesquisa destacou a relação histórica da capoeira com a política e os fatores que a levaram, por um momento, a fazer parte de ações prioritárias nas políticas culturais do Governo, culminando no seu reconhecimento como patrimônio imaterial do Brasil. Aponta também os avanços, a estagnação e os retrocessos desse processo que ainda encontra-se em andamento, através dos projetos: Cultura Viva, Capoeira Viva e das ações de reconhecimento e salvaguarda da capoeira. Foram averiguadas contribuições para o processo educacional das iniciativas de fomento, assim como a ausência de estratégias para sua continuidade e democratização das produções. Apontamos que as ferramentas que constituem os processos de editais necessitam adequações para proporcionar autonomia às comunidades que compõe o universo diversificado da capoeira. Ficaram constatadas que o processo de reconhecimento apesar de se originar nas bases dos coletivos de capoeira, não significou ampla participação desta, assim também como precisam ainda ser amplamente divulgados e democratizados as ações de sua salvaguarda. Possibilidades de qualificação e avanços nas políticas culturais voltadas para a capoeira foram indicadas na tese no intuito de contribuir com os novos caminhos que esta manifestação irá trilhar.

(11)

This thesis examines the cultural policies aimed at poultry bother to investigate through desk research, semi-structured interviews, analyzes and connections between cultural policies, education and capoeira. The study aimed to understand the consequences of cultural policies of capoeira, to their communities, especially with regard to their training. The research highlighted the historical relationship of capoeira with the policy and the factors that led, for a time, part of the priority actions in the cultural policies of the government, culminating in their recognition as intangible heritage of Brazil. It also points to the progress, stagnation and setbacks in this process is still ongoing, through the projects: Cultura Viva, Capoeira Viva and actions recognition and safeguarding of capoeira. We investigated contributions to the educational process of development initiatives, as well as the absence of strategies for its continuity and democratization of productions. We point out that the tools that constitute the processes of edicts adjustments need to provide autonomy to the communities that make up the diverse universe of capoeira. Were found that the process of recognition despite originate at the bases of collective capoeira, not meant broad participation, so as still need to be widely disseminated and democratized the actions of its safeguarding. Possibilities qualification and advancements in cultural policies aimed at poultry were indicated in the thesis in order to contribute to the new ways that this manifestation will follow.

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Esta tesis que analiza las políticas culturales enfocadas en la capoeira se preocupó en pesquisar através de la investigación documental, entrevistas semiestructuradas, análisis y vínculos entre las políticas culturales, la educación y la capoeira. El estudio tuvo como objetivo comprender el impacto de las políticas culturales de la capoeira, a sus comunidades, sobre todo en lo que respecta a su formación. La investigación destacó la relación histórica de la capoeira con la política y los factores que llevaron, durante un tiempo, a ser parte de las acciones prioritarias en las políticas culturales del gobierno, que culminó con su reconocimiento como patrimonio inmaterial de Brasil. También señala los avances, estancamientos y retrocesos en este proceso sigue en curso, a través de los proyectos: Cultura Viva, Viva Capoeira y el reconocimiento de las acciones y la salvaguardia de la capoeira. Se investigaron las contribuciones al proceso educativo de las iniciativas de fomento, así como la ausencia de estrategias para su continuidad y la democratización de la producción. Señalamos que las herramientas que constituyen los procesos de notificaciones requieren ajustes para proporcionar autonomía a las comunidades que conforman el universo diversificado de la capoeira. Se constató que a pesar de que dicho proceso de reconocimiento de las raíces de la capoeira se originó basado en las mismas, no tuvo una gran participación, de este modo, se tiene que llevar a cabo amplias acciones de difusión y democratización para salvaguardarla. Las posibilidades de calificación y los avances políticas culturales enfocada a la capoeira se indicaron en esta tesis con el objetivo de contribuir a las nuevas formas y caminos que esta manifestación trazará.

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Imagem 1 Mapa da pesquisa 88

Gráfico 1 Projetos aprovados por regiões 130

Gráfico 2 Comparação entre regiões 130

Imagem 2 Cartaz PCV 2007 146

Imagem 3 Convite Lançamento da Coleção de Cd´s do PCV 173

Gráfico 3 Comparativo entre anuência e praticantes 210

Imagem 4 Material de divulgação dos Encontros 213

Imagem 5 Declarações preconceituosas do ex-diretor da Famed 256

Imagem 6 Titulações do Oficio dos Mestres de Capoeira e da Roda de

Capoeira. 257

Imagem 7 Capoeiras reunidos no Hotel Jangadeiro 267

Imagem 8 Reunião da comunidade no Forte da Capoeira 268

Imagem 9 Capoeiristas protestam contra programa do IPHAN – A

TARDE 269

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TABELA 1 Relação da Academia de Mestres do Capoeira Viva 122

TABELA 2 Oficinas do PCV 148

TABELA 3 Ranking Nacional da Presença da Capoeira nos

Estados 149

TABELA 4 A Presença da Capoeira nas Regiões Brasileiras 150

TABELA 5 Situação do PCV 2007 165

TABELA 6 Gestores da FGM durante o PCV 170

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1 Abracap Associação Brasileira de Capoeira

2 ABPC Associação Brasileira dos Professores de Capoeira

3 AD Análise do Discurso

4 ANRJ Arquivo Nacional do Rio de Janeiro

5 APAE Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais 6 APAMR Associação de Apoio ao Museu da Republica 7 APLB Associação de Professores Licenciados da Bahia

8 BA Bahia

9 BB Banco do Brasil

10 BIRD Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento 11 CBC Confederação Brasileira de Capoeira

12 CBCE Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte 13 CBP Confederação Brasileira de Pugilismo 14 CESE Coordenadoria Ecumênica de Serviços

15 CFC Conselho Federal de Cultura

16 CFE Coordenação de Educação Física e Esporte Escolar 17 CIDOCA Centro de Documentação e Informação sobre a Capoeira

18 CNC Congresso Nacional de Capoeira

19 CND Conselho Nacional de Desportos

20 COB Comitê Olímpico Brasileiro

21 Conbrace Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte 22 CONFEF Conselho Federal de Educação Física

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24 CREF Conselho Regional de Educação Física

25 DA Diretório Acadêmico

26 DEFER Departamento de Educação Física, Esportes e Recreação

27 DEM Democratas

28 DF Distrito Federal

29 DIREC Diretoria Regional de Educação

30 DOM Diário Oficial do Município

31 DOU Diário Oficial da União

32 DP Domínio Público

33 DPI Departamento de Patrimônio Imaterial

DUDH Declaração Universal dos Direitos Humanos 34 ENECULT Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura

35 ES Espírito Santo

36 EUA Estados Unidos da América

37 FACED Faculdade de Educação

38 Famed Faculdade de Medicina

39 FCB Federação Carioca de Boxe

40 FCP Fundação Cultural Palmares

41 FBP Federação Brasileira de Pugilismo

42 FGM Fundação Gregório de Matos

43 FHC Fernando Henrique Cardoso

44 Fica Federação Internacional de Capoeira FICART Fundo de Investimento em Cultura e Arte

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47 FSBA Faculdade Social da Bahia

48 GO Goiás

49 HBO Home Box Office

50 IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 51 Ideb Índice de Desenvolvimento da Educação Básica 52 INCE Instituto Nacional do Cinema Educativo

53 Inep Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira

54 INL Instituto Nacional do Livro

55 Ipac Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia 56 IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

57 JJ José Joaquim

58 LDB Lei de Diretrizes e Bases

59 Libac Liga Baiana de Capoeira

60 MD Método Dialético

61 ME Ministério do Esporte

62 MEC Ministério da Educação

63 Mel Mídia/Memória, Educação e Lazer

64 MG Minas Gerais

65 MinC Ministério da Cultura

66 MNCR Movimento Nacional Contra a Regulamentação do

Profissional de Educação Física

67 MP Ministério Público

68 MUNIC Pesquisa de Informações Básicas Municipais

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71 ONG Organização Não Governamental

72 ONU Organizações das Nações Unidas

73 Oscip Organização da Sociedade Civil de Interesse Público

74 PA Pará

75 PCB Partido Comunista Brasileiro

76 PCN Parâmetros Curriculares Nacionais

77 PCV Projeto Capoeira Viva

78 PC do B Partido Comunista do Brasil

79 PE Pernambuco

80 PFL Partido da Frente Liberal

81 PL Projeto de Lei

82 PL Partido Liberal

83 PMN Partido da Mobilização Nacional

84 PNC Programa Nacional de Capoeira

85 PP Partido Progressista

86 PPA Plano Plurianual

87 ProAC Programa de Ação Cultural

88 ProUni Programa Universidade para Todos

89 PT Partido dos Trabalhadores

90 PTB Partido Trabalhista Brasileiro

91 RJ Rio de Janeiro

92 SC Santa Catarina

93 SEC Secretaria da Educação

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96 Seneca Seminário Nacional de Capoeira

97 Sesc Serviço Social do Comércio

98 Sesi Serviço Social da Indústria

99 SID Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural

100 SNT Serviço Nacional de Teatro

101 SP São Paulo

102 SPC Secretaria de Políticas Culturais

103 SPHAN Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 104 SPPC Secretaria de Programas e Projetos Culturais

105 STF Supremo Tribunal Federal

106 TCE Tribunal de Contas do Estado

107 UCSal Universidade Católica do Salvador

108 UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro 109 UFBA Universidade Federal da Bahia

110 UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro 111 UNEB Universidade do Estado da Bahia

112 UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

(20)

1

INTRODUÇÃO 22

1.1 “Quem é Você que Acaba de Chegar” 22

1.2 “No Brasil tem uma luta, pouca gente dá valor” 26

1.3 “Pega o berimbau e começa a tocar” 29

2 DE DESORDENS NO IMPÉRIO A POLÍTICA ESTATAL:

CAPOEIRA É PATRIMÔNIO IMATERIAL

32

2.1 As tradições negras como possibilidade de formação da cultura nacional

40

2.2 A Capoeira Fora da Marginalidade: políticas para uma Educação Física (ginástica, esporte e luta) e cultura.

49

2.3 Capoeira e Políticas Culturais: ‘volta que o mundo deu’

65

2.4 O Caminho faz-se caminhando

80

3 PROGRAMA BRASILEIRO E INTERNACIONAL DE CAPOEIRA 91

3.1 Cultura Viva: a capoeira como uma experiência 101

3.2 Primeiras ações desenvolvidas no Capoeira Viva 112

3.3 Capoeira Viva: os projetos e os contemplados 128

(21)

4 PROGRAMA BRASILEIRO E INTERNACIONAL DE CAPOEIRA:

PATRIMONIALIZAÇÃO E AÇÕES DE INCENTIVO 184

4.1 A capoeira na pauta das políticas culturais: o patrimônio 192

4.2 Os Internexos entre a Gênese e a Produção do Dossiê para o Reconhecimento da Capoeira como Patrimônio Imaterial

212

4.3 Análise do Dossiê do Inventário: reflexões e contribuições 225

4.4 Dossiê do Inventário: ponderações finais 241

4.5 Reconhecimento e Salvaguarda: o dia depois de amanhã 254

4.6 Encontros e Desencontros do Pró-Capoeria 265

4.7 Balanço, proposições e perspectivas 283

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS: Capoeira é Patrimônio, e daí? 303

REFERÊNCIAS 312

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1 INTRODUÇÃO

1.1 “Quem é Você que Acaba de Chegar?”

Quem é você que acaba de chegar? Quem é você que acaba de chegar? Eu sou o Besouro preto Besouro de mangangá Trago o meu corpo fechado Carrego meu patuá1

A pesquisa que ora apresentamos expressa ansiedades, compromissos, ideais e desejos que, embrionariamente, se iniciam no final da década de 1980, mais especificamente em 1988, quando iniciamos os primeiros contatos oficiais na capoeira, em um espaço onde se localiza, hoje, a Biblioteca Central da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), circunscrita ao bairro do Cabula.

Orientado por Raimundo Mário Ribeiro de Freitas – mestre Ministro –, na ocasião iniciando sua docência na capoeira, tive a oportunidade de acessar, de forma consubstancial, a história, meu passado e minha herança cultural. Foi Ministro,2 regido com mestria por Ailton Fiúza da Conceição – mestre Dedé – que me ensinou uma cultura, de base educacional diferente da cultura europeia/norte-americana, esta que até hoje dá o tom, em geral, do ensino nas escolas.

Mas, de acordo com as culturas de origens africanas e tribais, os mais velhos ensinam os mais jovens e, na minha caminhada, contei com o amparo de personalidades como Benivaldo Santos Possidônio (mestre Benivaldo), Raimundo Silva Oliveira (mestre Raimundo Kilombolas), Manoel do Carmo Neto (mestre Manoel Mentira), Everildo da Silva Bandeira (mais conhecido como Jó – in memoriam) e Carlito Santos (mestre Carlito do Morro), somente para citar aqueles que mais diretamente colaboraram no início da minha jornada capoerística. Estes mestres não poderiam deixar de ser registrados nesse momento, pois foram

1 Música: Quem é você que acaba de chegar. Domínio Público (DP). 2

(23)

importantes, tanto pelo estímulo quanto pela atenção e confiança em mim depositadas.

Entretanto, como dar continuidade às práticas sem o apoio, no primeiro momento, dos pais e sem o dinheiro para a manutenção das mensalidades? Mestre Ministro não se fez de rogado e, automaticamente, deu continuidade aos meus ensinamentos, de forma gratuita e deliberada. Não fosse isso, com toda a certeza e convicção não estaríamos escrevendo estas linhas e, bem provavelmente, não chegaríamos à metade desse caminho que agora trilhamos.

Apelidado de Soldado, por estudar no Colégio da Polícia Militar (CPM), continuei meus ensinamentos com o mestre. A dedicação e a paixão à Associação

Cultural de Capoeira Maré e à capoeira geraram, consequentemente, o

reconhecimento necessário à graduação de mestre, conquistada em 2006, após 18 anos de dedicação, em um evento do grupo realizado no teatro Caetano Veloso, na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Mas como um negro, suburbano, capoeirista, surfista e cantor de uma banda de percussão (Batkum), que tinha tudo para não passar do Ensino Médio, consegue, sem cotas, chegar até o doutoramento? Certamente, as condições objetivas e os ensinamentos da capoeira – perseverança, respeito, dedicação e humildade – foram os elementos que me oportunizaram, principalmente, o salto qualitativo, do Colégio Estadual da Bahia (Colégio Central), direto para o décimo segundo lugar no vestibular para Licenciatura em Educação Física na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1994.

Levamos, de forma pioneira, as discussões da capoeira para o mundo acadêmico, nas disciplinas e nos encontros, estaduais e nacionais, de estudantes de

Educação Física. Seguimos as orientações dos grandes mestres da

Educação/Educação Física, que nos conduziram, estimularam e contribuíram para fortalecer a discussão da nossa cultura na Faculdade de Educação (FACED)

Para fins de registro, elencamos: Hélio José Bastos Carneiro Campos, Fernando Reis do Espírito Santo, Pedro Rodolpho Jungers Abib, Augusto César Rios Leiro, Romilson Augusto dos Santos, Antônio Luiz Ferreira Bahia e Edva Barreto, somente para citar aqueles que mais diretamente me influenciaram.

A oportunidade de angariar mais experiência no campo científico veio, mais uma vez, com os professores Augusto César Rios Leiro e Luiz Carlos Rocha, no curso de Metodologia da Educação Física e Esporte, na UNEB, onde tivemos a

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oportunidade de dialogar mais diretamente com o professor Luiz Cerqueira Falcão (mestre Falcão).3 Na oportunidade, o objeto de estudo foi O Trato com o

Conhecimento da Capoeira e pesquisamos as contradições do ensino da capoeira,

na contemporaneidade.

Em 2007, nossa dissertação – Capoeira, Trabalho e Educação – apresentou como objetivo analisar as consequências sociais da regulamentação da profissão de Educação Física para a cultura capoeirana. Investigamos também a criação do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) e dos Conselhos Regionais de Educação Física (CREFs). Bem como, a especificidade da formação educacional do trabalhador da capoeira.

Na oportunidade, demonstramos que a tentativa de ingerência da Educação Física sobre a capoeira decorre de um processo histórico, oriundo do desenvolvimento da ginástica na sociedade. Posteriormente, com o surgimento do fenômeno esporte, ambos passam a influenciar a capoeira, moldando-a e reduzindo-a à lógicreduzindo-a de merreduzindo-a reduzindo-atividreduzindo-ade físicreduzindo-a. Em consequêncireduzindo-a, preduzindo-artiu-se preduzindo-arreduzindo-a reduzindo-a sureduzindo-a regulamentação, através de entidades esportivas, e sua configuração como tal.

Defendemos que esse processo engessa a manifestação, enquadrando-a numa lógica antagônica a uma práxis emancipatória. Demonstramos os movimentos, favoráveis e resistentes, gerais e particulares, e as ações que foram empreendidas para demonstrar à sociedade brasileira que a cultura da capoeira não quer ser regulamentada através de sua suposta profissionalização em outra área de conhecimento.4

Ademais, deflagramos mais uma ação, que se materializava naquele momento. Tratava-se das discussões sobre a profissionalização da capoeira, através do Projeto de Lei (PL) 7150, que já tramitava no Congresso Nacional, sem que a sociedade tomasse ciência do que tratava tal matéria, sem maiores discussões e reflexões junto aos grupos, atropelando o processo democrático.

Propomos, então, a não regulamentação da capoeira nestes moldes. Esta não precisa desse tipo de organização, e nossa avaliação assim o demonstrou. Todavia, o estudo conclamou a participação ativa das comunidades nos processos, para compreender a sociedade tal como está posta e as consequências desse

3

Orientador do Trabalho Final de Curso.

4

Desse modo, foi possível provar que existe resistência às investidas do sistema CONFEF/CREF e que a capoeira não deveria aceitar essa condição.

(25)

modelo, a fim de não permitir que essa cultura, em seus aspectos mais profundos, seja transformada por completo.

Foi apontada a necessidade de uma organização, em moldes mais democráticos, acolhedores e amplos, respeitando-se a liberdade, a diversidade, a ludicidade e as contradições geradas no seio da prática capoeirística. Assim também a necessidade de um acompanhamento das políticas que estavam envolvendo esta manifestação.

Naquele momento, a capoeira sofria as implicações das modificações do mundo do trabalho e da regulamentação da Educação Física, que, baseadas em políticas de profissionalização, por meio de reserva de mercado e monocultura da formação acadêmica, pleiteavam que o ensino desta prática, em determinados momentos, fosse de responsabilidade exclusiva do profissional5 regulamentado.

As perseguições, impetradas por este conselho profissional, somadas ao medo de perderem seus espaços de trabalho levaram os capoeiras a abrir várias frentes alternativas de solução para o problema. Uma delas foi uma regulamentação profissional específica e a criação de um conselho próprio, nos mesmos moldes do CONFEF/CREF,6 a outra pregava a não filiação, em hipótese nenhuma, e o enfrentamento deliberado contra a fiscalização, além da luta pelo reconhecimento da capoeira como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

Não que esta busca por reconhecimento tenha surgido apenas nesse momento, pois há muito que as comunidades de capoeiristas vêm reivindicando tal afirmação, por parte dos poderes públicos. Porém, no nosso entendimento, essa cobrança, ganhava força com as investidas dos conselhos sobre a capoeira. Essa agitação corroborará o reconhecimento da capoeira, como uma manifestação importante e que deve ser salvaguardada, valorizada, estimulada e democratizada.

O primeiro passo, no sentido do reconhecimento oficial da capoeira pelo Estado, em termos de ações nacionais, que tivemos a oportunidade de testemunhar, concretamente falando, acontece já na primeira gestão do presidente Luís Inácio Lula da Silva, inicialmente no mandato do Ministro da Cultura (MinC), Gilberto Passos Gil Moreira (Gilberto Gil).

5

Esse termo, que é utilizado pelos defensores dessas ideias, somente está sendo utilizado aqui para manter a fidedignidade aos pensamentos.

6

(26)

Verificamos várias ações, envolvendo iniciativas interministeriais, abarcando diversos aspectos, desde discussões e demandas deste universo, até ações de cunho mais prático e de produção de conhecimento, em distintas linguagens, culminando no reconhecimento da capoeira como patrimônio imaterial do Brasil.

Esse momento era diferente, nunca antes uma política cultural voltava-se efetivamente para as culturas que envolviam diretamente as populações menos favorecidas da sociedade. A capoeira jamais teve tanta visibilidade e oportunidade como nesse momento. Surgem, então, várias preocupações com a sistematização dessas políticas, sobre seu alcance, relevância, utilização, democratização, continuidade e consequências político-econômicas, sociais e educacionais.

Este marco histórico necessita ser estudado, ponderado e refletido. Por isso propomos a análise desse fenômeno. Mas, como nexo central, não analisamos unicamente a política cultural. Para compreendê-la melhor, dialogamos com a história e a educação, entendendo-as como meios de perpetuar a cultura. Dialeticamente faz-se importante a discussão da educação e da cultura.

Uma política cultural somente tem sentido se a educação, através da formação humana, estiver alicerçando essa ação. Mais do que o ato de pensar e de planejar são imprescindíveis as condições concretas de seu desenvolvimento e sua perpetuação e democratização. Sendo assim, é importante pensarmos políticas culturais para a capoeira, mas também refletirmos como fazer para que as pessoas acessem e se posicionem criticamente quanto ao produto desses esforços.

1.2 “No Brasil tem uma luta, pouca gente dá valor”

No Brasil tem uma luta Pouca gente dá valor Vamos todos praticar Capoeira com amor7

O desenvolvimento da capoeira faz parte da história do nosso povo e do país. Se hoje o ensino da capoeira fosse inserido em nossas escolas, provavelmente

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estaríamos testemunhando, a médio/longo prazo, uma mudança expressiva do sentido e significado dessa cultura para a nossa população. Aparentemente, esse pensamento se produz na lógica utópica, todavia sua possibilidade não se torna assim tão distante.

Empiricamente, analisando certos comportamentos, por vezes constatamos que existem integrantes de outras comunidades que valorizam mais a nossa cultura (além da própria) do que muitos de nós. Uma das explicações para isso está na própria sociedade brasileira, que ainda carrega o estigma de cultura dominada, processo histórico retratado nesta pesquisa.

Nesse sentido, nossa tese é que essa subvalorização de nossas tradições e identidades está na educação. Somos educados, na família e nas nossas escolas, a valorizar a cultura do colonizador. Assim como a escola, a mídia também nos educa para esse comportamento, que se constitui como um círculo vicioso, impregnado em nossa história, desde épocas remotas.

Folheando alguns livros de geografia, literatura, português, dentre outras disciplinas escolares da atualidade, ainda percebemos a supervalorização de alguns assuntos, em vez de outros e a valorização de algumas histórias. Apesar de existir, no Brasil, uma lei que incentiva, através da obrigatoriedade, o ensino da história e das culturas afro-brasileira e indígena, desde 2003, a sua concreta execução ainda não se tornou possível nas escolas brasileiras.

Gostamos do Batman, do Capitão América e do Homem Aranha, porque não existem políticas de valorização e democratização dos nossos mitos e heróis. De um modo geral, não conhecemos a vida e a história de Zumbi, Dandara, Príncipe Obá, João Cândido, Tia Ciata, Joana Angélica, Antônio Conselheiro, Pastinha, Maria Quitéria e Bimba, dentre outros. Todos esses são verdadeiros heróis, com histórias interessantes e testemunhos de vida que nos podem ensinar muita coisa e elevar a nossa autoestima como brasileiros.

Manoel Henrique Pereira, o Besouro, defendia os fracos e os oprimidos. Era capaz, para proteger os explorados e discriminados, de acabar com um batalhão inteiro... e sem o cinto de utilidades.8 Tem sua existência comprovada, apesar de toda mitologia que envolve suas histórias. Os heróis brasileiros não possuem

8

Cinto usado pelo herói de quadrinhos Batman. O cinto é carregado de dispositivos que ajudam este paladino da justiça a combater os bandidos e, principalmente, seus inimigos.

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identidades secretas, somente foram apagados da nossa história e da nossa cultura. Os nossos “super-heróis”, ao invés de identidades, possuem invisibilidades.

Dessa forma, em nossos estudos, abordamos as políticas culturais voltadas para a capoeira. Mas, para estabelecermos as nossas análises sobre esse objeto de estudo, foi imprescindível falar sobre identidade, formação, trabalho, cultura e educação. Uma tarefa nada fácil, mas também gratificante, que fez com que mergulhássemos com maior atenção em nossa própria história, no nosso próprio passado, para entendermos o contexto contemporâneo.

O termo política cultural é relativamente novo no Brasil, fazendo parte das ações de políticas públicas relacionadas à cultura. Todavia, a política cultural também pode ser desenvolvida por empresas privadas, de forma independente ou em parceria com a esfera pública. Entendemos que é da responsabilidade do Estado brasileiro, em sua atual constituição, promover a cultura9 como um direito. Mas esta é dinâmica, constante, e independe dele para existir, ser fomentada e/ou consumida pela população.

Nossa tese, cujo tema é Capoeira, Política Cultural e Educação, suscita o seguinte problema: quais as consequências das políticas culturais da capoeira para suas comunidades?10 Chegamos a esse questionamento observando a realidade concreta de seus representantes – os mestres, seus praticantes e admiradores.11

A partir das condições reais, objetivas, e do problema estabelecido, nosso interesse no estudo, e a intenção em entender e colaborar com esse processo, configuramos a análise das políticas culturais da capoeira, de sua proposição a seu desenvolvimento, e seu impacto nas comunidades. Com isto organizado, partimos para especificar como alcançamos essas metas.

Ao decidirmos que precisaríamos estabelecer a análise das políticas culturais no Brasil e especificamente para a capoeira, avaliamos duas ações de políticas culturais da capoeira: a) o Projeto Capoeira Viva (PCV) e b) as políticas de patrimônio. Analisamos suas consequências, junto aos capoeiras e pesquisadores contemplados em editais, avaliamos os materiais produzidos pelo seu

9

Levando em consideração o contexto atual da sociedade, no sentido de acessibilidade, promoção, divulgação e salvaguarda.

10

Entendemos que existem na capoeira vários grupos e entidades que disputam diferentes projetos, por isso utilizamos esse termo no plural.

11

Estes partiparam das concorrências públicas dos editais, a fim de disputar prêmios para dar continuidade ao que, em grande parte, já proporcionavam à sociedade, sem a devida ajuda do Estado.

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reconhecimento como patrimônio e os impactos educacionais junto a comunidades de capoeira.

Metodologicamente falando, tentamos estabelecer um pensamento crítico para guiar nossas cogitações, a fim de entendermos o contexto em que as políticas culturais para a capoeira se configuraram, de forma concreta, na sociedade, e como se estabeleceu a relação entre Estado, cultura e capoeiras. O recolhimento de informações obedeceu às seguintes ações: 1 – levantamento do referencial teórico necessário; 2 – recolhimento de discursos, textos e documentos oficiais; 3 – identificação dos processos e materiais gerados em decorrência de tais ações.

Quanto à análise destes materiais, optamos por técnicas que avaliamos mais coerentes e necessárias à conjuntura. Por isso, empregamos a análise documental, para os discursos oficiais, editais e dossiês e, para extrair as ideias incutidas de forma extralinguística, recorremos a aspectos técnicos da Análise do Discurso (AD), procurando não negligenciar as reflexões geradas, naturalmente, a partir da realidade concreta e da práxis social.

Organizamos o nosso produto final em cinco etapas, sendo uma de apresentação, outra de contextualização do objeto, onde também detalhamos com mais evidência a metodologia da tese (apesar desta permear todo o seu corpo), dois capítulos de análise da pesquisa e nossas considerações finais, estabelecendo ponderações, levantando possibilidades e indicando caminhos.

1.3 “Pega o berimbau e começa a tocar”

Pega o berimbau E começa a tocar Capoeira no Cabula Eu agora vou jogar Olha que axé Olha que axé Capoeira do grupo Maré12

Iniciamos o nosso trabalho tentando relacionar e estabelecer nexos entre a capoeira e as políticas, de uma forma geral. Sua relação e os primeiros contatos

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com estas, no intuito de criar condições para entendermos como a capoeira, uma manifestação de origem popular e amplamente discriminada na sociedade, trilhou caminhos inundados de percalços até ser, atualmente, reconhecida legalmente como uma prática cultural nacional.

Buscamos na história o respaldo concreto para contextualizar a sua prática na sociedade, desde o seu aparecimento, enquanto atividade cultural marginalizada, de rua e de origem negra, afro-brasileira e popular, até seu enquadramento em uma política de segurança pública, sendo perseguida e mitificada, passando a ser requisitada, posteriormente, para defender a pátria em conflitos regionais e guerras.

Abordamos a transformação da capoeira como uma possibilidade de se constituir como uma tradição da cultura nacional. Seu percurso oficialmente fora da marginalidade e sua inserção social, cheia de acolhimentos e conflitos, com momentos de aparente reconhecimento e de tentativas de controle e formatação pelo Estado.

Ainda criminalizada, registramos seu processo de ginasticalização, a tentativa de seu enquadramento social e nacionalização. Sua esportivização (com forte influência militarista e da Educação Física), sua marcialização, folclorização (com uma forte intervenção pública, em ações voltadas para o turismo, principalmente em Salvador) e pedagogização, que culminou em sua inserção nas escolas, sua introdução como disciplina em cursos de formação acadêmica e a institucionalização de algumas políticas públicas de Educação e Cultura.

Estabelecemos compreensões e análise a respeito dos aspectos que delinearam o entendimento e o desenvolvimento das políticas culturais no Brasil, sempre estabelecendo seus nexos com a capoeira. Exploramos conceitos, como cultura, patrimônio, salvaguarda e memória, principalmente no âmbito legal.

Discutimos ainda as políticas culturais, a cultura e as relações geradas a partir da relação com a capoeira, em uma análise que parte da história e de suas consequências reais e concretas. Expomos nossa trajetória metodológica, bem como elencamos também nossas estratégias de análise bibliográfica, documental e dos discursos.

Em seguida, nos concentramos em aprofundar nossas reflexões sobre o Programa Brasileiro e Internacional de Capoeira (PBIC). Optamos por realizar nossas considerações sobre esse assunto, em duas partes, sendo que, na primeira:

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Programa Brasileiro e Internacional de Capoeira, dicutimos a capoeira na pauta das

políticas culturais, tendo como pano de fundo a iniciativa dos Pontos de Cultura. Tentamos aprofundar nossas observações das políticas culturais do Governo Lula, nas gestões Gilberto Gil/Juca Ferreira no Ministério da Cultura (MinC), especificamente voltadas para a capoeira, com ênfase, nos editais (primeiro e segundo) do Projeto Capoeira Viva (PCV). Analisamos documentos, eventos e os discursos e textos dos contemplados que protagonizaram uma das principais ações para o fomento desta manifestação cultural.

Posteriormente, sob o título Programa Brasileiro e Internacional de Capoeira:

patrimonialização e ações de incentivo, discutimos o processo que levou ao efetivo

reconhecimento dessa manifestação da cultura corporal como patrimônio imaterial do Brasil. Realizamos ainda ponderações acerca do documento produzido para tal reconhecimento.

Avançamos um pouco para dialogar com os acontecimentos que antecederam as ações de salvaguarda, bem como a tentativa de desenvolvimento dessas mesmas ações. Apontamos avanços, inércia e retrocesso nos caminhos de implementação das políticas voltadas para essa problemática.

Na tentativa de ampliar nosso olhar, e ao final dessa fase do trabalho, imprimimos em nossa escrita um balanço dessas políticas culturais, enfatizando as iniciativas dos editais do PCV e das políticas de patrimônio voltadas para esse bem, assim como levantamos proposições e perspectivas para as mesmas. Por fim, arrematamos nossa pesquisa de doutoramento, recuperando todas as nossas discussões e imputando-as enquanto avaliações momentâneas, no intuito de ponderar e contribuir para uma análise desses episódios que ainda se encontram em percurso, desenhando sua trajetória.

Destacamos, assim, a dificuldade de imprimir, nesse momento, uma análise de cunho mais conclusivo a este estudo. Todavia, não podíamos nos furtar à tentativa de atuar como coadjuvantes dessa história. Era preciso escolher e assumir o ônus de analisar um processo em andamento, expondo-o (e a nós mesmos) a futuras críticas ou abstermo-nos e também assumir o ônus de omitirmos tais reflexões políticas, uma vez que, se optassemos pelo silêncio, já estaríamos posicionados.

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2 DE DESORDENS NO IMPÉRIO À POLÍTICA ESTATAL: CAPOEIRA É PATRIMÔNIO IMATERIAL

Quebra, quebra a gereba Quebra tudo hoje Amanhã nada quebra Vamos quebrar um pouquinho Enquanto a polícia não vem Quando a polícia chegar Quebra a polícia também1

Iniciaremos nossas cogitações, a partir de fatos históricos da capoeira e seus cultores2 no mundo da política brasileira. Está claro para nós que, nesse primeiro momento, esse envolvimento se consubstancia a partir de uma práxis cotidiana, que se materializa na época e vai dar o tom da implicação desta manifestação e destes personagens aos diversos fatos políticos.

Contudo, entendemos que a participação político-social, através da construção de uma cultura, irá fazer com que os negros africanos e seus descendentes, levando consigo suas manifestações culturais, dentre elas a capoeira, se constituam como um corpus ativo na sociedade, influenciando-a e sendo influenciado por ela.

Antes de focarmos nossas ponderações na temática central desta tese, que são as políticas culturais voltadas para a capoeira, nos valeremos da história – o passado – para entender a contemporaneidade – o presente. Mészáros (2002), no clássico Para além do capital, escreveu que a consciência3 se formula em três bases. A primeira diz respeito à determinação da ação histórica; em seguida, à percepção da mudança como um movimento de caráter cumulativo e, por fim, à oposição entre universalidade e particularidade.

O ser humano, a partir da realidade concreta em que se encontra, estabelece relações com a natureza e com seus pares. Nesse processo, cria-se a cultura. Para Vygotski (1996), as características humanas emergem de um grupo cultural, consequentemente a cultura altera a natureza. Na nossa compreensão, a partir do momento que a capoeira passa a interferir, direta e ativamente, na construção

1 Música de capoeira Domínio Público – DP. 2

Aqueles que cultuavam a prática da capoeira.

3

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histórica do país, seus interlocutores passam a fazer parte da política. Esta primeira fase culminará em uma política de segurança pública.

Quando a cultura é produzida e democratizada, tem-se a educação, que é responsável pela disseminação da cultura. A forma como entendemos o mundo, as relações sociais; como nos relacionamos com a natureza, produzimos trabalho e nos tornamos seres humanos, tudo isso perpassa tanto a cultura quanto a educação.

A produção cultural oriunda das relações estabelecidas pelos africanos, escravizados e ex-escravizados, formará, em um primeiro momento, determinados comportamentos relacionados à capoeira, que será passada através da educação, de geração em geração, inserindo-se socialmente, a partir de várias possibilidades.

Tanto essa manifestação, como os seus cultores irão se modificar, a partir de suas relações sociais. Na Bahia, de uma determinada forma, no Pará, distintamente, em Recife, de outra maneira, no Rio de Janeiro, de um jeito diferente, e assim sucessivamente, em todas as regiões onde encontramos registros da capoeira.4

A política não é apenas a atividade de políticos (pessoas que possuem cargos públicos, tais como vereadores, governadores, senadores etc.). Conforme o

Dicionário de política, o termo significa tudo o que se refere à cidade. Esse é o

conceito clássico de política. Nesta obra, Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Giafranco Pasquino (1998) destacam o conceito de política como atividade humana, mais especificamente como práxis humana.

Ao contrário do imaginário social, política não se constitui somente como uma atividade das instituições sociais, dos palácios de governo, das câmaras de vereadores, dos partidos. Ela se origina da própria essência da sociedade e independe de institucionalização. É esse movimento que surge na rua, na praça, no cais, conseguinte ao processo de escravidão, de discriminação, de preconceito e falsos conceitos e do trabalho explorado, que levará a capoeira e seus cultores a emergirem na história do Brasil, de forma incrivelmente política.5

A cultura, por exemplo, é responsável também por materializar, a partir da realidade concreta, a subjetividade dos indivíduos, ou seja, os fatores sociais

4

Ela se constituirá de forma semelhante, contudo diferenciada, com movimentos específicos, rituais diversos, objetivos e fins divergentes. Configura-se a partir do sentido e do significado que se lhe atribuía.

5

A escravidão não foi invenção dos portugueses, Grécia e Roma também figuram como os principais adeptos deste modo de produção, na história mundial. A sujeição negro-africana foi justificada por fatores biológicos, alicerçada em pensamentos de superioridade da raça branca e determinismo, alimentados pelas teorias positivistas, assim como pela religião e sua necessidade de catequizar os pagãos. Entretanto, a vida social não é determinada somente dessa maneira.

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também irão dar o tom da práxis humana.6

Países como Gâmbia, Senegal, Costa do Ouro, Congo e Angola, dentre outros, foram os principais locais de exportação de escravos, nos séculos XVII e XVIII. Os africanos escravizados chegaram ao Brasil nos portos de Salvador, São Luís do Maranhão, Recife e Rio de Janeiro. De acordo com os autores Danton e Matheus (2008), no artigo O tráfico negreiro, os primeiros negros que aportaram no Brasil, chegaram em Pernambuco, no ano de 1539.7

Com o desenvolvimento dos grandes centros urbanos, vamos ter os primeiros registros, até este instante, envolvendo os capoeiras. Não somente na capital, mas quase que simultaneamente em outras cidades do país. A capoeira era uma manifestação da cultura corporal que era utilizada em determinado momento, para resolver as diferenças políticas, sociais e econômicas, através de um determinado recurso – a violência.

A estratégia de sobrevivência de uma classe completamente discriminada, e desprovida de qualquer participação na vida pública, alicerça-se com base em sua corporeidade, que irá servir, em primeira instância, para o enfrentamento e a sobrevida nas cidades. Vale destacar que a formação de grupos se configura também em uma tática que garantia a vida na colônia.

A opressão desses seres humanos os levou a criar formas de emancipação. Uma dessas foi a capoeira, que vem ratificar a humanidade desses escravizados, que eram tratados como mercadorias e, posteriormente, como seres subdesenvolvidos, sendo discriminados, renegados e envolvidos por preconceitos e estereótipos, pela própria sociedade que os havia criado.

Em seguida, a capoeira serve ao regime que está no poder, e, posteriormente é colocada na clandestinidade, como um ato ilegal. Algum tempo depois, ainda na ilegalidade, aparecem as primeiras defesas e tentativas de torná-la uma prática cultural brasileira: primeiro, como ginástica, depois como arte marcial e luta; em

6

O modo de produção escravocrata gerou no Brasil um processo de tráfico de seres humanos e um bom negócio para os traficantes. Foi outro modo de produção, o mercantilismo, praticado pelos europeus, que também propiciou essa prática nefasta, onde o dominador tenta destruir a cultura do dominado e impor a sua. Esse procedimento de comercializar pessoas, trazidas de várias partes da África para o território brasileiro, surge como algo lucrativo para uns e desumano para outros.

7

Até então, os explorados não tinham direitos, somente deveres. Deveriam trabalhar, seguindo ordens, sem questionar, abdicando de suas crenças e produzindo riqueza, sem o mínimo acesso ao que produziam, além de não participarem de forma direta da vida social e política da colônia. Na relação tensa entre dominador e dominados, algumas das manifestações culturais desses últimos eram permitidas, todavia somente serão desenvolvidas em outro contexto, sob outras necessidades.

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seguida, como esporte, como um ato folclórico e, por fim, na contemporaneidade, como uma verdadeira manifestação cultural brasileira. Tais defesas não acontecem distintas uma das outras, muito menos de forma hierárquica. Elas surgem simultaneamente, mas sempre seguidas de um projeto de bases nacionalistas.

Até chegar aqui, historicamente falando, não decorreu tanto tempo assim.8 Este percurso cotidiano foi, no entanto, intenso, sofrido e cheio de percalços. A capoeira e seus praticantes enfrentaram discriminações, perseguições, prisões, banimentos, torturas, preconceitos e a própria morte, tanto nos enfrentamentos civis como nos militares. Se não foi, cronologicamente falando, muito tempo, é a práxis que irá contradizê-lo.9

Nota-se que a sua conduta como criminal é rapidamente enquadrada nos termos de repressão da época. O Brasil adotou, como uma das primeiras formas de represália à alteração da ordem social – o castigo público. Myrian Sepúlveda dos Santos (2009), no livro Os porões da república: a barbárie nas prisões da Ilha

grande: 1894-1945, enfatiza que as primeiras penas se caracterizavam pela simples

punição e não almejavam a recuperação ou a reintegração do indivíduo à sociedade. O encarceramento era pouco utilizado na época. Os castigos dominavam o ambiente repressor. Estes eram, em sua esmagadora maioria, sentenciados aos escravizados e ex-escravizados, conforme Holloway (apud SANTOS, 2009), e isso continuou assim, quando as punições migraram para a implantação de penas que tomavam do indivíduo a sua liberdade,10 privando-o do seu cotidiano em carceragens.

Com a chegada da corte, em 1808,11 houve uma demanda pelo aumento da mão de obra escravizada. De acordo com Karasch (2000), a instalação de D. João VI e de seus conterrâneos na cidade somou-se ao número da população branca,

8

É bastante provável que a capoeira já existisse entre nós no século XVII, porém não há comprovação científica disso. O que podemos fazer são reflexões em busca de coerência histórica, que nos levam a essa assertiva. Cavalcanti (2004) informa-nos que, em 1789, o senhor Manoel Cardoso Fontes teve um pedido de perdão homologado. Manoel solicitara ao rei a suspensão do resto da pena sentenciada ao seu escravizado, que fora condenado por prática de capoeiragem e cumpria a pena de 500 açoites e dois anos de trabalho em obras públicas, já há alguns meses. Esse será o primeiro registro realmente documentado que diz visivelmente que alguém estava envolvido com a capoeira e de forma clara. Reconhece o acusado como um de seus praticantes e por isso o condena com uma pena muito pesada, deixando evidente o fato de que a sociedade da época não estava a brincar com aqueles que fossem flagrados em tal prática. Caso se envolvessem com a capoeiragem, estes não deveriam sair ilesos dos braços da lei que se estruturava

9 A construção, a soberania e a história desse país devem muito à capoeira. 10

No caso dos escravizados que já não tinham liberdade, seria mais correto dizer isolamento social.

11

Oliveira (2008) informa-nos que eram cerca de 15 mil pessoas, desencadeando profundas transformações na cidade.

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exigindo um aumento da servidão escrava, pois tal necessidade se materializava nas exigências de construção da própria capital e para atuar em serviços domésticos.

Com um maior efetivo de negros escravizados na cidade, houve também um acréscimo dos problemas oriundos desse modo de produção e das relações dele advindas. Não obstante, o número de problemas com os típicos tipos de rua teve significativa ascensão nos registros policiais.

Na busca pela manutenção da ordem e na tentativa de implantar o respeito pela força bruta, os escravizados e ex-escravizados tornaram-se o alvo principal da política de justiça do Império. Nesse processo histórico, encontramos a figura do major Miguel Nunes Vidigal. “Na ofensiva desfechada contra os capoeiras que infestavam a cidade do Rio, Vidigal celebrizou-se pela energia, utilizando com eficácia um instrumento contundente: o chicote” (MOURA, 2001, p. 10).

Inicialmente, a capoeira estabeleceu-se no cenário brasileiro como transgressora da ordem pública (foram as condições reais e subjetivas que a levaram a isso) e desse jeito sempre se configurou, dialeticamente falando, sua característica de infratora social, como a combatente da ordem e da moral. Esses registros estão formalizados, desde processos penais e até na literatura da época.

Em dois anos, na sua nova morada, o primeiro Imperador depara-se com o crescimento constante, nas ruas, da atuação dos famigerados capoeiras. Aumentavam os problemas do país, ainda que em detrimento das ações geradas por estes, mas se ampliava a sua perseguição. Soares (2002) destaca que a capoeira já se configurava, não somente em um incômodo social, mas em um grave problema de segurança pública, que mobilizou a sociedade para combatê-la.

O termo política cultural é relativamente novo, mas registramos, ao longo da nossa história, a relação entre cultura e Estado, principalmente com a vinda de D. João VI para as terras tupiniquins. Antes desse evento, reinava certa inércia no território, fato que se constitui por ser o Brasil uma colônia. “É vastamente conhecida a proibição da metrópole portuguesa no que diz respeito à criação de instituições de ensino, seja qual for o nível, de editoras, de jornais, enfim, de toda instituição produtora de bens simbólicos na sua colônia americana” (BARBALHO, 2007, p. 38).

Com o Imperador veio também o desenvolvimento da cidade.12 Inúmeras

12

A vinda da corte, sem dúvida, inaugura uma nova realidade na colônia. Estrangeiros e seus hábitos, produtos, uso de utensílios, formas de consumir as coisas, enfim, e suas culturas desencadeiam novas relações que irão incidir em novas formas de relacionamento e comportamento social.

(37)

instituições foram inauguradas na metrópole, conforme destaca a autora do livro

Cultura é patrimônio: “[...] a Imprensa Nacional Régia (1810), a Academia Real

Militar (1810), o Banco do Brasil, o Arsenal da Marinha, a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, o Museu Nacional (1818)” (OLIVEIRA, 2008, p. 26).

Essas novas transformações iriam se relacionar a pensamentos advindos da Europa, como o naturalismo, o evolucionismo, o criacionismo, o romantismo e o positivismo. Mais tarde, esses pensamentos irão influenciar a forma de entender a sociedade, as coisas e as pessoas, no nosso território, assim como “[...] a mudança nos projetos políticos da monarquia portuguesa, a volta de D. João para Portugal e a permanência de D. Pedro na ex-colônia desencadearam o movimento político que deu origem à nação brasileira” (OLIVEIRA, 2008, p. 31).

Vale destacar que apesar da comunidade senhorial e do Estado temerem os capoeiras e a capoeira, seu descontrole e alastramento, os primeiros tinham seus interesses, muitas vezes diferentes dos segundos. Na visão dos donos das

mercadorias (os escravizados capoeiras), perdê-las era ter prejuízo. Todavia, o

Estado preocupava-se em manter a ordem e muitas vezes conferia uma pena ao condenado que chocava com os interesses do escravocrata

Na segunda metade do século XIX, o medo toma conta ainda mais da população, principalmente dos senhores de escravizados, que ficam inseguros com os progressos e o desenvolvimento das ações e da política abolicionista. Estes senhores exigem do Estado uma postura mais contundente a respeito da problemática estabelecida. A nobreza e comerciantes incomodados com a capoeira, em 1872, exigem seu enquadramento no código penal, pois até o momento as punições efetivadas não estavam abolindo o problema.

Em abril de 1821, D. João VI retorna com a corte para Portugal e deixa seu filho aqui no Brasil, como regente. Enquanto isso, o movimento a favor da independência cresce e toma corpo. Em 1822, D. Pedro I13 resolve permanecer em terras brasileiras, e tem início o processo de independência do Brasil, culminando na conhecida proclamação de 7 de setembro deste mesmo ano.

Barbalho chama a atenção para o grande impulso, no campo cultural, que aconteceu com D. Pedro II. O autor destaca: “a vinda da Missão Artística Francesa,

13

D. Pedro I tinha pensamentos divergentes da sociedade da época sobre a escravidão e o negro. Todavia, o movimento abolicionista no seu reinado não avançou muito, as perseguições e punições à cultura africana e afro-brasileira continuaram.

(38)

as bolsas de estudos concedidas aos artistas, a criação do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, da Academia de Belas-Artes, da Biblioteca e do Museu Nacional” (2007, p. 38).

“No Brasil a relação entre o Estado e a cultura tem uma longa história. Entretanto a elaboração de ações de políticas para o setor, ou seja, a preocupação na preparação e realização de ações de maior alcance, com um caráter perene datam do século XX” (CALABRE, 2007, p. 87). No que diz respeito à capoeira, como vimos, no momento em que o Imperador estimulava a cultura, de uma forma geral, a manifestação, que se tornaria uma das maiores divulgadoras da nossa língua portuguesa no mundo, caminhava para um momento histórico como algo a ser perseguido, proibido e odiado (de um modo geral), pela sociedade da época.

Mas, nesse mesmo período, um fato colocará momentaneamente os capoeiras na posição de aliados. Tudo se inicia com a necessidade do Brasil importar soldados, em decorrência da guerra do Rio da Prata,14 que tem início em 1825 e dura até 1828. Esse fato trouxe, para o Império do Brasil, soldados de procedência irlandesa e alemã.

Após a batalha, alguns combatentes decidiram ficar no Rio Grande do Sul e outros no Rio de Janeiro. Nesta cidade, ficaram aquartelados, segundo Rego (1968), no Campo de Santana, no Campo de São Cristóvão e na Praia Vermelha, mais ou menos dois mil praças, o que modificou consequentemente o cotidiano da cidade Estes fortaleceram as tropas brasileiras, que saíram vitoriosas naquele embate.

Há registros de tumultos entre os negros e esses militares. A tensão entre eles explodiu em violência, em 1828, quando mercenários irlandeses e alemães se revoltaram por causa do mau tratamento que vinham recebendo. Essa insurreição, conhecida, como a Revolta dos Mercenários, foi desencadeada pela crescente insatisfação desses militares, inconformados com o governo.15

Com o avanço do capitalismo na Europa, durante o século XIX, o escravismo começa a perder força, a Inglaterra proíbe o tráfico negreiro em seu país e inicia uma cobrança a outras nações, que também fizessem o mesmo, com o objetivo de ampliar seu comércio. Inclusive, “[...] tentou condicionar o reconhecimento da independência do Brasil à cessação do tráfico negreiro, compromisso já estabelecido nos tratados de 1810” (SCHNEEBERGER, 2006, p. 179).

14

O Brasil já se envolvia com mercenários desde a assunção de D. Pedro I ao cargo de imperador.

15

Referências

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