2. Revisão da Literatura
2.5 Supervisão e Qualidade da Auditoria
2.5.1 Características da Supervisão e Qualidade da Auditoria
A qualidade da supervisão da auditoria é percecionada como o primeiro veículo para a eficácia das medidas de regulação da atividade dos auditores (Carcello, Hollingsworth, & Mastrolia, 2011b; Lohlein, 2016).
Se qualidade da auditoria, no âmbito da relação auditor-empresa, se define como a competência para detetar distorções e a independência para as relatar (DeAngelo, 1981), também na relação auditor-supervisor, a qualidade da supervisão assentará em vetores similares (Gao, Guo, Kusuma, Malik & Wang, 2017).
Contudo, tal como sucede no âmbito da regulação, muitas vezes as medidas que objetivam potenciar a competência, têm um impacto adverso na independência e vice-versa. No
âmbito da supervisão da atividade dos auditores, a literatura salienta que tem prevalecido, nos últimos anos, o fator independência, em resultado dos escândalos que afetaram o início do milénio e que geraram a perceção generalizada de pouca confiabilidade na informação financeira das empresas e na opinião emitida pelos auditores (Leuz et al, 2015; Lohlein, 2015, 2017).
Taylor & Quintyn (2002) estabeleceram quatro dimensões da independência na relação auditor-supervisor: institucional, financeira, de regulação e de supervisão. A independência institucional relaciona-se com o grau de relação entre o organismo de supervisão e o organismo profissional ao nível do respetivo órgão de gestão, considerando-se um maior nível de independência, quando este não integre profissionais em atividade. Este vetor da independência considera também o grau de relação com as entidades governamentais. A independência financeira relaciona-se com a origem dos fundos de financiamento do organismo de supervisão que podem advir, na sua totalidade, da profissão, ou ter uma componente do estado e/ou do mercado de capitais. O vetor da regulação relaciona-se com a emissão de normativos que regem a profissão, os quais poderão estar totalmente na esfera do organismo de supervisão, quer no que respeita à respetiva emissão, quer no que respeita à possibilidade de decisão sobre a adoção de normativos internacionais. Por fim, a independência de supervisão respeita à responsabilidade pelo exercício do controlo de qualidade e, bem assim, da imposição de medidas disciplinares.
O PCAOB nos EUA assumiu um papel central na modelação dos sistemas de supervisão no panorama global, ao configurar uma alteração no paradigma da supervisão a partir de 2002, substituindo a autosupervisão da profissão, pela supervisão por entidade independente (Lohlein, 2015), como forma de reação à perceção generalizada de que os
principais casos onde se verificaram falhas dos auditores, correspondiam a firmas de auditoria que tinham rececionado relatórios “limpos”, no âmbito do controlo de qualidade efetuado pelos seus pares (Casterella, Jensen & Knechel, 2009).
De facto, as designadas peer reviews foram sendo objeto de críticas, pela falta de independência entre supervisores e supervisionados (Anantharaman, 2007), o que estaria na base da evidência de que, na maioria dos casos, não eram reportados aspetos negativos relativamente às entidades auditadas (Hilary & Lennox, 2005).
No entanto, encontramos também na literatura evidência de que as peer reviews constituíam um contributo positivo no âmbito da qualidade efetiva da auditoria (Casterella et al, 2009) e que a generalidade dos estudos que apontavam no sentido da ineficácia das peer reviews faziam-no, essencialmente, na sua dimensão percebida (Hilary & Lennox, 2005). É também de salientar que uma parte significativa da evidência acerca da ineficácia de revisão por pares, advinha das situações em que a firma de auditoria supervisionada escolhia o supervisor (Lohlein, 2016).
Neste contexto, é de notar que se esta alteração de paradigma teve como objetivo um incremento da qualidade da auditoria, em particular na sua dimensão percebida, não está demonstrado que, na prática, tal tenha sucedido e, em particular nos EUA, onde o histórico deste novo paradigma é mais longo, existem alguns indicadores de efeitos inesperados, como é o caso da perceção generalizada de que o custo da auditoria é elevado e a qualidade é reduzida (Knechel, 2016).
Este novo enquadramento de supervisão criou um novo ambiente de tensão entre supervisor e entidade supervisionada, uma vez que as firmas de auditoria percecionaram esta alteração como menos colaborativa e mais hostil (Knechel, 2018). De facto, as peer
no âmbito dos processos de auditoria, visando a introdução de melhorias, ao invés do estabelecimento de sanções aos auditores (Casterella et al, 2009).
Este novo contexto potenciou também o desenvolvimento dos processos de auditoria com base em checklists, com o objetivo de demonstração de cumprimento, o que não potenciou a qualidade da auditoria, considerando que este enfoque é suscetível de ocasionar a negligência de aspetos considerados fundamentais no que respeita à competência dos auditores na deteção de distorções materiais (Asare & Wright, 2004; Knechel, 2018). Esta circunstância é particular nas Big 4, e um estudo recente realizado por Chiu, Chien & Lin (2017) conclui ainda que a alteração para o paradigma da autosupervisão tornou insignificantes as diferenças na qualidade da auditoria entre estas entidades e as restantes, não estando demonstrado que tal se ficasse a dever a um incremento de qualidade das não
Big 4.
Não obstante e apesar da falta de unanimidade, a conclusão dominante na literatura é de que a independência organizacional e funcional dos organismos de supervisão está associada a uma maior qualidade da auditoria (Lohlein, 2015; 2017), pelo que se espera que quanto mais autónoma à profissão for a supervisão, maior será a qualidade efetiva do trabalho dos auditores, medida através da gestão dos resultados.
Para o estabelecimento das hipóteses em investigação e no que respeita ao perfil organizacional foram considerados os aspetos relativos à composição do órgão de gestão e ao financiamento do organismo de supervisão, esperando-se, respetivamente, que a não inclusão de auditores e a inexistência de um financiamento exclusivo pela profissão possam estar positivamente associados a uma maior qualidade da auditoria (Eldaly, 2012; Lohlein 2015):
Hipótese 6: Existe uma associação positiva entre a qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, e uma maior independência organizacional do organismo de supervisão, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Hipótese 6 (a): A inexistência de auditores no organismo de supervisão está positivamente associada à qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Hipótese 6 (b): O financiamento do organismo de supervisão exclusivamente pela profissão está negativamente associado à qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Considerando o perfil funcional do organismo de supervisão e tendo em conta a teoria dominante na literatura, que antes se descreveu, considera-se existir maior autonomia nos casos em que a responsabilidade pela execução do controlo de qualidade e a atribuição de medidas disciplinares, não envolva profissionais em atividade (Eldaly, 2012; Lohlein 2015). Em consequência, estabeleceram-se as seguintes hipóteses:
Hipótese 7: Existe uma associação positiva entre a qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, e uma maior independência funcional do organismo de supervisão, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Hipótese 7 (a): A responsabilidade e execução do controlo de qualidade pelo organismo de supervisão, sem a intervenção de auditores, está positivamente associada à qualidade efetiva da auditoria, medida através
da gestão dos resultados, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Hipótese 7 (b): A responsabilidade pela atribuição de medidas disciplinares e sanções pelo organismo de supervisão, sem a intervenção de auditores, está positivamente associada à qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
A transparência associada ao processo de supervisão, consubstanciada na divulgação dos respetivos resultados, é também um aspeto importante no âmbito da tomada de decisão acerca da escolha de um auditor (Casterella et al, 2009). Existe evidência de que em estados onde a divulgação dos resultados dos controlos de qualidade aos auditores incluía a identificação das entidades supervisionadas, as firmas de auditoria a quem foram atribuídas sanções registaram diminuição de clientes e, inversamente, as que não registaram nenhuma incidência aumentaram a sua carteira de clientes (Hilary & Lennox, 2005). Com efeito, os investidores no mercado de capitais valorizam as entidades cuja informação financeira é auditada por auditores com elevada reputação, no que respeita à qualidade do seu trabalho (Barton, 2005; Knechel et al, 2013). A transparência relativamente ao resultado do processo de controlo de qualidade, em particular no que respeita á divulgação de sanções, constitui um importante incentivo à independência dos auditores, na medida em que representa uma perda potencial de clientes (Quick & Warming-Rasmussen, 2009), sobretudo no contexto atual de total intolerância por parte da sociedade em geral, relativamente à inadequação dos relatórios dos auditores (Bouwens, 2016).
Hipótese 8: Existe uma associação positiva entre a qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, e uma maior transparência nos resultados do controlo de qualidade e ação disciplinar, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Hipótese 8 (a): A divulgação de sanções está positivamente associada à qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Hipótese 8 (b): A divulgação de sanções com identificação das entidades a quem foram atribuídas está positivamente associada à qualidade efetiva da auditoria, medida através da gestão dos resultados, no âmbito da auditoria às EIP, no contexto da Europa dos 15.
Em síntese, a evolução da supervisão da auditoria nos EUA e na UE, faz supor que a conclusão dominante será a de que a independência organizacional e funcional dos organismos de supervisão face à profissão se encontre associada a maior qualidade da auditoria, pelo que as hipóteses a desenvolvidas no âmbito desta temática basearam-se nesse pressuposto. Contudo, é de salientar que a literatura não é unânime quanto a este pressuposto (Lohlein, 2016).
Por tudo isto e de forma semelhante ao descrito no que respeita à relação qualidade da auditoria percebida e às características da regulação da atividade do auditor, também no domínio da supervisão, se analisará a respetiva associação.
No ponto seguinte, caracterizam-se os sistemas de supervisão vigentes nos 15 EM da EU incluídos no estudo, no âmbito do período em análise.