2. Revisão da Literatura
2.2 Qualidade da Auditoria: Conceito, Determinantes e Mensuração
2.2.4 Qualidade da Auditoria e Qualidade do Relato Financeiro
A literatura tem procurado demonstrar que a qualidade da auditoria financeira é suscetível de incrementar a qualidade do relato financeiro, o que significa que uma auditoria financeira de elevada qualidade é garante de elevada qualidade do relato financeiro, pela credibilidade que imprime à informação financeira (DeFond & Zhang, 2014).
Estudos/Autores
Dimensão
DeAngelo (1981); Davidson & Neu (1993); Becker et al (1998); Lennox, (1999); Chang et al (2009)
Grau de Especialização Robin & Zhang (2015); Khajavi & Zare (2016) Características da Relação
Contratual Honorários O´Sullivan (2000), Johnstone et al (2014)
AWCA, de De Fond & Park
(2001) Carey & Simnett (2006); Cameran et al (2015)
AWCA, de McNichols (2002) Choi et al (2010); Hossain et al (2017) DACC Jones 1991
Francis & Yu (2009); Francis (2011); Jonhstone et al (2014), Reid et al (2018)
DACC Modified Jones de Kothari 2005
Choi et al (2010); Choi et al (2012); Kwon et al (2014); Qi et al (2016); Hossain et al (2017)
DACC Ball & Shivakumar,
2006
Choi et al (2010); Choi et al (2012); Hossain et al (2017); Alhadab & Clacher (2018)
DACC Modified Jones de
Dechow, 1995 Qi et al (2015); Qi et al (2016); Hossain et al (2017)
Relatórios Auditoria Propensão para emissão de
Relatório Modificado
Carey & Simnett (2006); Chen & Wu (2010); Pucheta- Martinez & Garcia-Meca (2014); Hossain et al (2017)
Restatements
Chin & Chi (2009); Newton et al (2013); Johnstone et
al (2014); Qi et al (2015)
Preço das ações Cameran et al (2015); Ben Ali (2016)
Custo de capital
Pittman & Fortin (2004); Karjalainen (2011); Chen et al (2016) Proxy Input Características do Auditor Output Qualidade do Relato Financeiro Erros Materiais Qualidade percebida
Ao contrário do esperado, o relato financeiro baseado nas IFRS, é considerado mais propenso à gestão de resultados do que o relato financeiro baseado noutras normas contabilísticas, como era o caso das alemãs, não sendo, contudo, esse efeito tão sentido nas entidades auditadas pelas Big 4 (Brown, 2011). Este é um exemplo ilustrativo de que a qualidade da auditoria tem sido enquadrada na literatura como uma componente da qualidade do relato financeiro.
Contudo, há que ter em conta que na base da qualidade do relato financeiro, estão outros fatores e que a qualidade da auditoria é apenas um deles. Daqui resulta a necessidade de controlo dos restantes fatores que estão na sua base, quando se pretende correlacionar as duas variáveis (DeFond & Zhang, 2014).
Com efeito, além da qualidade da auditoria, outros fatores têm sido também elencados como determinantes da qualidade do relato financeiro. O designado sistema de relato financeiro inerente à entidade e que é suscetível de transformar os factos económicos em informação financeira, e que integra o sistema de controlo interno, constitui uma dessas componentes, segundo DeFond & Zhang (2014). Este sistema está na base do desenvolvimento das demonstrações financeiras pré-auditadas, que constituem o input da auditoria financeira. Estes autores advogam, a este respeito, que a qualidade destas demonstrações financeiras que irão ser objeto de análise pelo auditor depende, em qualidade, das características inatas da entidade as quais são suscetíveis de influenciar a sua realidade económica.
Segundo Dechow, Ge & Schrand (2010), é necessário ter em conta a diferença entre o desempenho da entidade e a respetiva medição, quando se avalia a qualidade do relato financeiro, sustentando que a literatura deve desenvolver esta temática, no sentido de
determinar a contribuição do anteriormente referenciado sistema de relato financeiro, no que respeita, em particular, à qualidade da performance relatada.
Segundo Maines & Whalen (2006), a fiabilidade da informação financeira resulta da interação entre o conjunto de normas contabilísticas que baseia o relato financeiro e os incentivos relativos aos preparadores. Pelo que, a fiabilidade da informação financeira, dependerá, conjuntamente, das características das normas que o baseiam, no que respeita à respetiva suscetibilidade para, de forma apropriada, captar a realidade económica e traduzi-la na informação financeira, bem como da capacidade e vontade dos preparadores para aplicar estas normas. Os autores, no âmbito da fiabilidade como uma característica da informação financeira, desenvolvem um âmbito de análise que retrata a informação financeira como uma representação da realidade económica que determina os cash flows futuros da entidade. Em concreto, há que ter em conta que a realidade económica, ainda que adequadamente percebida, não permite prever com total certeza os cash flows futuros da entidade, uma vez que fatores inesperados os podem afetar. E, porque a realidade económica não é observável de forma perfeita, utilizam-se constructos, os quais são representados através da contabilidade em forma de relato financeiro. Esta relação incorpora a característica da fiabilidade, a qual respeita ao grau de representatividade objetiva de uma realidade económica pela contabilidade. A fiabilidade da informação financeira é, consequentemente, inerente à própria informação, independentemente do seu uso. O potencial para influenciar as decisões dos utilizadores, desencadeia a procura da fiabilidade, embora esta seja apenas condição necessária e não suficiente. Esta relação descreve o potencial da informação financeira para ser fiável e relevante, de modo a capacitar os utilizadores a prever cash flows futuros. Esta relação indica que a utilidade da informação financeira depende do grau com que representa fiavelmente os constructos
económicos que determinam os cash flows futuros da empresa. E, segundo estes autores, estes aspetos estão na base da qualidade do relato financeiro.
Tomando em linha de conta estes fatores, DeFond & Zhang (2014, pg.3), definem o conceito de auditoria de elevada qualidade como “a elevada segurança de que as demonstrações financeiras refletem, com fiabilidade, os aspetos económicos subjacentes, o que é condicionado pelo seu sistema interno de informação financeira e pelas suas características inatas”. Contudo, e pelo exposto, a qualidade do relato financeiro, está inequivocamente ligada à qualidade da auditoria financeira, como causa, mas também como consequência, o que é fonte potencial de endogeneidade. Em síntese, a qualidade do relato financeiro é influenciada pela qualidade da auditoria e esta é também um dos determinantes da qualidade do relato financeiro. Estes aspetos devem ser acautelados na relação variável explicada e variável explicativa, nomeadamente, pela inclusão de fatores de controlo.
Por norma, a aferição da qualidade da informação financeira é efetuada com recurso à análise do nível de gestão dos resultados. Dechow et al (2010), elencam algumas das
proxies mais commumente utilizadas na investigação para a mensuração da gestão dos
resultados: earnings persistence, earnings smoothness, timely loss recognition, abnormal
accruals e investor responsiveness to earnings.
Contudo, de forma similar ao que sucede com a qualidade da auditoria, não se considera existir uma definição de gestão dos resultados unanimemente aceite. Healy & Wahlen (1999), que constituem dos autores mais citados no âmbito deste conceito, definem a gestão dos resultados numa perspetiva oportunista, que se consubstancia na construção do resultado desejado através da manipulação das regras contabilísticas vigentes. Esta definição, insere-se no âmbito da gestão dos resultados efetuada apenas ao nível da
informação financeira, existindo uma outra conceção, designada de real earnings
management, que respeita à estruturação das próprias operações da empresa com o
propósito de reduzir ou aumentar os resultados (Nelson, Elliott & Tarpley, 2003). Com efeito, o envolvimento dos gestores em atividades de gestão dos resultados, não constitui uma operação isenta de riscos e o balanceamento com os respetivos ganhos associados envolve a sua reputação e o risco de litigação e, bem assim, as vantagens decorrentes. O impacto desejado no mercado de capitais, a demonstração de cumprimento de regras impostas pelos governos, como é o caso de determinados rácios no âmbito da atividade bancária ou seguradora e, bem assim, a própria imagem de sucesso que o gestor poderá desejar demonstrar, constituem alguns dos fatores que representam incentivos a estas práticas (Verbruggen, Christaens & Milis, 2008).
Uma auditoria de qualidade tenderá a condicionar os gestores no âmbito destas ações, isto é, nas escolhas que fazem, no que respeita à apresentação da informação financeira e os
accruals têm sido largamente utilizados com o objetivo de identificar estas práticas
(Kwon et al, 2014).
2.2.5 Qualidade da Auditoria e Impacto da Opinião Qualificada nos Custos de