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2. Revisão da Literatura

2.2 Qualidade da Auditoria: Conceito, Determinantes e Mensuração

2.2.2 Determinantes da Oferta e da Procura de Qualidade da Auditoria

A literatura tem elencado os vários determinantes à execução de uma auditoria de qualidade, ligando-os à independência e competência dos auditores mas, também, elencando os motivos que levam a que as entidades auditadas procurem qualidade da auditoria e, bem assim, os incentivos a que auditores prestem serviços de qualidade efetiva e reconhecida.

A investigação tem privilegiado o estudo da independência e dos seus vetores de base (Schwartz, 1997; Pae & Yoo, 2001; Seetharaman, Gul & Lynn, 2002; Liu & Wang, 2006; Honigsberg, Rajgopal & Srinivasan, 2017), mas, mais recentemente, também se tem assistido ao incremento de estudos que procuram relacionar aspetos ligados à competência com a qualidade da auditoria (Lennox, 1999; Francis & Yu, 2009; Chen, Sun & Wu, 2010; Choi et al, 2010; Choi et al, 2012; Johnstone et al, 2014; Kim; Lee & Park, 2015; Qi et al, 2015; Robin & Zhang, 2015; Hossain et al, 2017; Qi et al, 2016). Os incentivos relativos à independência dos auditores são, normalmente, impostos pelo mercado, e consubstanciam-se em fatores, tais como a reputação, o risco de litigação e também o risco associado às sanções pelo organismo regulador (DeFond & Zhang, 2014). No que respeita ao risco de litigação, que envolve também o risco de sanções pelo organismo regulador, a evidência empírica tem demonstrado uma maior propensão para a litigação quando em causa estão entidades auditadas de maior dimensão, assim como

Jensen & Knechel, 2010). A dimensão do auditor está também positivamente relacionada com uma maior propensão para o risco de litigação, mas esta probabilidade encontra-se inversamente relacionada com o período do mandato.

No que respeita à relação com a qualidade da auditoria, o risco de litigação tem sido enquadrado como suscetível de poder afetar a continuidade do auditor na atividade de auditoria e, neste sentido, é tido como um importante incentivo na mitigação do risco de auditoria. Na década de 90, a firma de auditoria Laventhol & Horwath, considerada a 7ª maior nos Eestados Unidos da América (EUA), declarou falência em virtude das indemnizações a que foi condenada em processos de litigação movidos pelas partes interessadas (Honigsberg et al, 2017). A literatura tem identificado algumas das estratégias levadas a cabo pelos auditores com respeito ao risco de litigação e que se baseiam, principalmente, no estabelecimento de prémios de risco aquando da fixação dos honorários, no excessivo conservantismo na emissão da opinião, bem como num esforço para incrementar a qualidade do trabalho efetuado (Schwartz, 1997; Pae & Yoo, 2001; Kaplan & Williams, 2013), minimizando a probabilidade de uma opinião inapropriada quando as demonstrações financeiras estão materialmente distorcidas o que, de acordo com a ISA 200, Objetivos Gerais do Auditor Independente e Condução de uma Auditoria

de Acordo com as Normas Internacionais de Auditoria (IFAC, 2009), corresponde ao

conceito de risco de auditoria. Sobre este aspeto, importa ainda salientar que a literatura destaca que, ainda que o auditor realize o seu trabalho no estrito cumprimento das normas técnicas que regem o trabalho de auditoria, o risco de litigação não se considera totalmente mitigado, porquanto ainda assim poderá ser objeto de contencioso legal. Com efeito, estabelece a referida ISA 200 (IFAC, 2009) que não se espera, nem é possível, que o auditor reduza o risco de auditoria a zero, pelo que este nunca pode obter segurança

absoluta de que a informação financeira está isenta de distorção material devido a fraude ou a erro. A razão respeita às limitações inerentes a uma auditoria decorrentes do facto de a maior parte da prova de auditoria sobre a qual o auditor tira conclusões e baseia a sua opinião, ser essencialmente persuasiva e não conclusiva. Deste modo, dispõe ainda o referido normativo, que sendo a base para a opinião do auditor, as ISA exigem que se obtenha garantia razoável de fiabilidade sobre se as demonstrações financeiras como um todo estão isentas de distorções materiais, quer devido a fraude quer a erro. A garantia razoável de fiabilidade é já considerada um nível elevado de garantia e é conseguida quando o auditor tiver obtido prova de auditoria suficiente e apropriada para reduzir o risco de auditoria (i.e., o risco de o auditor expressar uma opinião não apropriada quando as demonstrações financeiras estão materialmente distorcidas) para um nível aceitavelmente baixo. Porém, a garantia razoável de fiabilidade não é uma garantia de fiabilidade absoluta, pelas limitações inerentes e já referidas.

Esta circunstância, permite concluir que o esforço do auditor na deteção de todas as distorções materiais que possam afetar as demonstrações financeiras, não elimina totalmente o risco de litigação pelo que, ainda que residual, os honorários estabelecidos contemplarão, tendencialmente, um prémio de risco de auditoria (DeFond & Zhang, 2014). Deste modo, a um elevado risco de litigação estarão associados honorários elevados, que refletem o esforço, o prémio de risco ou ambos (Simunic & Stein, 1996; Francis, 2011).

Para além destes dois aspetos com impacto direto ao nível dos honorários fixados, a literatura identifica também, como estratégias para mitigar o risco de litigação, a criteriosa aceitação de clientes, evitando os que representarão maior risco e, julga-se também, no

litigação configura um potencial passivo, o risco associado à reputação configura um potencial ativo em imparidade (DeFond & Zhang, 2014).

O caso mais emblemático, no que se refere à questão da reputação, respeita ao colapso da Arthur Andersen em 2002, na sequência do escândalo Enron. Esta firma de auditoria, integrante das então Big 6, perdeu a licença para a prática da atividade, em consequência de uma decisão judicial criminal, a qual foi três anos mais tarde revertida. Nesta altura, a entidade há muito já tinha “fechado portas” e, ainda que a primeira decisão não tivesse sido desfavorável à Arthur Andersen, o mercado já teria ocasionado a falência desta firma de auditoria (Ball, 2009). Com efeito, muito antes da decisão judicial desfavorável em Agosto de 2002, já várias entidades auditadas pela Andersen tinham substituído esta entidade por outra firma de auditoria, em virtude das avultadas perdas que registaram no mercado de capitais, devido às questões reputacionais relacionadas com a litigação criminal em curso (Chen & Zhou, 2007). Esta circunstância foi particularmente observada nas entidades com maior visibilidade no mercado de capitais (Barton, 2005).

A questão reputacional também pode ser visualizada do lado da procura de qualidade da auditoria, no que respeita às consequências para os membros dos órgãos de gestão e dos comités de auditoria, de situações referentes a restatements e a relato financeiro considerado fraudulento. Considerado como uma nova linha de investigação neste domínio, o estudo deste impacto tem permitido concluir que os gestores são penalizados pela sua associação a problemas de natureza contabilística ao nível da reputação e que tal, poderá significar a perda de cargos não só na entidade afetada, mas noutras entidades também, funcionando estas sanções reputacionais como complemento ao enforcement regulamentar relativo ao relato financeiro (Desai, Hogan & Wilkins, 2006; Carcello, Hermanson & Zhongxia, 2011a).

A temática dos incentivos à procura de uma auditoria de qualidade estará inequivocamente ligada à capacidade do relatório do auditor em gerar valor para os utilizadores da informação financeira. Só com base no pressuposto de que a auditoria é suscetível de gerar valor e, portanto, é considerada útil no contexto da tomada de decisão com base na informação financeira das entidades, fará sentido a abordagem subsequente relativa aos incentivos à procura de uma auditoria de qualidade. Com efeito, a importância do trabalho dos auditores, redunda na relevância que os utilizadores da informação financeira atribuem ao conteúdo da sua opinião no que respeita à completude e exatidão da informação financeira das entidades que, historicamente, suporta as suas decisões económicas (Kane, 2004; Vrentzou & Daskalakis, 2012).

Em síntese ao que anteriormente se descreveu, na Figura 2.1, sintetizam-se os fatores que funcionam como incentivos à procura e à oferta de qualidade da auditoria e, relativamente aos quais, seguirá a presente revisão da literatura:

Figura 2.1: Incentivos à Qualidade da Auditoria

Fonte: Elaboração Própria.