4 ANÁLISE DOS DADOS
4.1 ANÁLISE DO MANUAL 1(M1)
4.1.2 Componente (ii) no M1
4.1.2.3 Características das teorias (C)
Fragmento 7
³2 IXQFLRQDOLVPR p XPD FRUUHQWH OLQJXtVWLFD TXH HP RSRVLomR DR HVWUXWXUDOLVPR H DR gerativismo, se preocupa em estudar a relação entre a estrutura gramatical das línguas e os diferentes FRQWH[WRVFRPXQLFDWLYRVHPTXHHODVVmRXVDGDV´0$57(/277$S
Em se tratando do funcionalismo, a autora do Fragmento 7 parece querer sustentar três informações importantes que coloca essa corrente teórica em um lugar privilegiado em relação a duas outras. Então vejamos:
O funcionalismo está em oposição ao Estruturalismo e ao Gerativismo;
As três teorias são concorrentes entre si;
O funcionalismo é uma teoria mais ampla que as duas citadas no fragmento, porque acolhe o estudo da estrutura e do uso da língua, enquanto as outras os separa. Ainda que esse lugar privilegiado do funcionalismo enquanto teoria de estudo da linguagem não esteja explicitado sistematicamente, é possível enxergá-lo nas entrelinhas do fragmento. Ao afirmar que os usos da linguagem devem conduzir a análise dos fatos OLQJXtVWLFRVDDXWRUDSDUHFHTXHUHUID]HUROHLWRUFUHUTXHQDWHVHGD³SULPD]LDGRVXVRV´D virtude da teoria pela grande força explicativa, posto que os dados são coletados da fala real dos usuários e suas análises seriam as mais próximas da realidade. Por conseguinte, as teorias ou paradigmas que não defendem essa primazia, analisando dados imaginários ou colhidos em situações ideais, como fazem o Gerativismo e o Estruturalismo, não teriam o mesmo rigor científico que o funcionalismo. Para nós, fica clara a pretensão velada, por isso a produção de um Ato de Fala Indireto, de atribuir superioridade explicativa de fenômenos linguísticos importantes, ao modo funcionalista de fazer ciência oposição ao que fariam teorias linguísticas como Estruturalismo e Gerativismo que se focam na estrutura da língua ou na competência inata de seu usuário respectivamente. Embora com poucas leituras na área, o estudante que acessa o Fragmento 7 pode chegar a essa conclusão e acolher o Ato de Fala Indireto presente ao trecho em tela.
Fragmento 8
³>IXQGDPHQWRV IXQFLRQDOLVWDV@ FRQFHEHP D OLQJXDJHP FRPR XP instrumento de interação social, alinhando-VHDVVLPjWHQGrQFLDTXHDQDOLVDDUHODomRHQWUHOLQJXDJHPHVRFLHGDGH´ (MARTELOTTA, 2012, p.157).
Neste fragmento, direcionamos nossa atenção ao seu último trecho, que afirma estar a WHRULDIXQFLRQDOLVWDDOLQKDGD³jWHQGrQFLDTXHDQDOLVDDUHODomRHQWUHOLQJXDJHPHVRFLHGDGH´ Estar alinhado a tendências tem sido sem dúvida uma vantagem comparativa, pois confere ao alinhado um caráter de modernidade, atualização e inovação, características muito valorizadas e desejadas no mundo contemporâneo. Consequentemente, as teorias que não estejam alinhadas a tendências hodiernas estariam, por exclusão, obsoletas e desabilitadas a explicar os fenômenos que pretendem.
Fragmento 9
³eDXQLYHUVDOLGade dos usos a que a linguagem serve nas sociedades humanas que explica a existência dos universais linguísticos, em contraposição à postura gerativista, que considera TXH RV XQLYHUVDLV GHULYDP GH XPD KHUDQoD OLQJXtVWLFD JHQpWLFD FRPXP j HVSpFLH KXPDQD´ (MARTELOTTA, 2012, p.158).
O manual como um todo dedica um espaço significativo à teoria funcionalista, constituindo o maior número de páginas dedicadas à exposição desta teoria17, além de a maioria dos autores e autoras dos capítulos serem praticantes dos postulados da corrente que é voltada para a análise da linguagem em seus variados usos. Esse grande espaço reservado a tal teoria nos deixa imaginar a existência de um direcionamento, somada à ênfase que os autores e organizador do manual dão ao funcionalismo é apresentado como uma teoria que contempla vários aspectos das demais teorias concorrentes, fato este que a tornaria uma superteoria. Ao número de páginas maior dedicado ao Funcionalismo, poderíamos até mesmo classificar essa decisão como uma violação à Máxima Conversacional da Quantidade. Esta classificação só pode ser feita se compararmos o número de páginas dedicadas às outras teorias em um Manual de Introdução a um campo do saber, que, por definição, deveria apresentar um panorama do maior número possível das teorias que fazem parte de um dado campo de conhecimento. Em nosso caso, da Linguística.
As teorias, em sua essência, possuem a intenção de ter seus métodos validados pela comunidade científica em que está inserida. No caso do manual em tela, há notadamente uma intenção de destacar o Funcionalismo em detrimento das demais teorias. Numa perspectiva mais ampla, poderíamos classificar essa intenção como um macro Ato de Fala, cuja força
17 A média das páginas dedicadas a cada teoria é de 14,5 páginas. À Teoria Funcionalista foram concedidas 17 páginas para a exposição e comentários.
ilocucional é dar relevo à teoria que o organizador e a maior parte de seus colaboradores de produção do Manual comungam.
Fragmento 10
³>@ IULVDPRV PDLV XPD LPSRUWDQWH FDUDFWHUtVWLFD GR IXQFLRQDOLVPR D YLVmR GH TXH D linguagem não constitui um conhecimento específico, como propõem os gerativistas, mas um conjunto complexo de atividades comunicativas, sociais e cognitivas integradas ao resto da psicologia humana. Assim, a visão funcionalista de cognição assume que a linguagem reflete processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados, adaptando-os a diferentes situações de interação com outros indivíduos. Ou seja, os conceitos humanos associam-se à época, à cultura e até mesmo a inclinações individuais caracterizadas QRXVRGDOLQJXDJHP´0$57(/277$S
Nota-se, no capítulo dedicado ao Funcionalismo, uma ruptura radical com o Gerativismo, mas também uma busca de incorporar alguns conceitos da cognição e da psicologia humana. A complexidade do fenômeno linguístico na visão do Funcionalismo constitui um aspecto da linguagem a ser considerado nas análises. Com isso, o autor do Fragmento 10 assume indiretamente que uma teoria não pode prescindir de uma abordagem heterogênea no trato com a linguagem. Nesse sentido, ao ampliar a análise linguística para os usos no interior das sociedades, os funcionalistas possibilitariam a criação de canais de diálogos com outras áreas do saber, pois buscam integrar vários aspectos envolvidos na produção da linguagem humana. Essas interfaces com diferentes áreas do saber reforçam a imagem que se deseja construir sobre o Funcionalismo como uma ³VXSHUWHRULD´. Repete-se aqui o fenômeno pragmático apontado nos Fragmentos 8 e 9, qual seja, a produção do Ato de Fala Indireto, que perspicazmente argumenta em favor do poder explicativo do Funcionalismo.