4 ANÁLISE DOS DADOS
4.2 ANÁLISE DO MANUAL 2 (M2)
4.2.1 Componente (i) no M2
Fragmento 24
Um curso de Letras é o lugar onde se aprende a refletir sobre os fatos linguísticos e literários, analisando-os, descrevendo-os e explicando-os. A análise, a descrição e a explicação do fato não podem ser feitas de maneira empírica, mas devem pressupor reflexão crítica bem fundamentada teoricamente (FIORIN, 2015, vol. 1, p.7).
Pensamos que um iniciante na Linguística precisa saber o que é a ciência da linguagem, saber que há outras formas de estudar as línguas, que vão além do prescritivismo que hoje invade os meios de comunicação, saber que a Linguística pretende descrever e explicar os fenômenos linguísticos; (...) Em suma, o que se pretende num curso de Introdução à Linguística é que o aluno se aproprie de conceitos, para que possa operar, de maneira científica, com os fatos da língua (FIORIN, 2015, p.8).
O Organizador do M2 demonstra uma preocupação em explicar aos alunos iniciantes de Letras a visão descritiva e explicativa dos fatos linguísticos e literários. Nesse aspecto, podemos perceber notadamente a violação à Máxima da Qualidade, pois o autor não necessitaria incluir as questões referentes aos aspectos literários em razão de sua exposição de que a Literatura faz uso das palavras em seu percurso. Por essa razão, a Máxima de Modo também é violada. Pela construção do trecho, o leitor, logo no início da obra, tende a enxergar uma dicotomia Linguística X Literatura. Já no Prefácio, o organizador conduz a apresentação da obra numa perspectiva racionalista, sem dar espaço para que a postura prescritivista domine as apresentações teóricas. Com isso, ele viola a Máxima de Quantidade por não fornecer maiores detalhes de como sua prática científica se afasta dessa postura, nem o faz ao menos por uma nota de rodapé. Dessa maneira, ele deseja argumentar a favor de um modelo de ciência a partir do uso de um Ato de Fala Indireto a fim de persuadir seu leitor a aderir a sua perspectiva analítica. Assim, o efeito ilocucionário poderá vir a ser satisfeito se os alunos se apropriarem dos conceitos e, diante dos exercícios apresentados, puderem fazer as operações científicas de analisar, descrever e explicar da forma desejada pelo organizador do M2. Essa estratégia poderia possibilitar reconhecer que o manual de uma dada maneira estaria buscando dialogar com os alunos por meio da retomada dos conteúdos insertados nos exercícios constantes no final de cada capítulo.
Quanto a sua afirmação de não considerar os aspectos empíricos na investigação dos fatos linguísticos, isso demonstra parecer existir uma identificação com a perspectiva racionalista da ciência que valoriza os aspectos da abstração em detrimento dos experimentais. Ainda de acordo com sua intenção revelada no Fragmento 24, o autor apenas informa aos leitores que devem abordar os fatos linguísticos a partir de uma postura teórica. Entretanto, ao não citar sob qual direção teórica deveria seguir, ele viola a Máxima da Quantidade por deixar o leitor confuso e sem informações necessárias para compreender o percurso da teoria a ser escolhida. Nesse tópico, percebemos, à luz da pressuposição, uma construção argumentativa que necessitaria de maiores esclarecimentos diante do postulado exposto. Vejamos:
(P) fatos linguísticos e literários são analisados, descritos e explicados sem a perspectiva empírica;
(PP) para serem considerados como ciência os fatos linguísticos e literários devem pressupor reflexão crítica bem fundamentada teoricamente;
CONCLUSÃO: tratar os fatos linguísticos e literários como científicos exige o afastamento da perspectiva empírica e a adoção do Racionalismo como via necessária e suficiente para estudar o fenômeno língua de modo verdadeiramente científico e assim contribuir para o progresso das ciências.
Como a visão assumida do autor parece indicar que a ciência não deva possuir marcas prescritivas, ele faz uma advertência e procura inserir os estudantes nos caminhos de uma nova metodologia de análise, seguindo um modelo de operações conceituais: analisar, descrever, explicar. Com essa perspectiva, o autor viola a Máxima da Quantidade, uma vez que não detalha como os aspectos empíricos ficariam de fora das análises dos fatos linguísticos, considerando que não foi explicitado como se processaria tal dimensão. Essa afirmativa, ainda que, em algumas análises, os aspectos teóricos sejam predominantes, não nos permite afirmar que há uma tentativa clara de excluir a dimensão empírica de observação da linguagem como válida nos estudos da linguagem.
Nesse aspecto, a condução do manual se apresenta como um instrumento para que os estudantes compreendam a língua a partir da visão de cientificidade compartilhada pelo organizador da obra. Portanto, a estratégia de convidar um grupo de autores e/ou autoras para escrever os capítulos pode representar uma característica a mais para a aceitação na comunidade acadêmica no sentido de mostrar uma heterogeneidade de abordagens. Tal estratégia, por outro lado, pode camuflar uma visão proselitista, pois, em sua maioria, como assinalamos, os pesquisadores e pesquisadoras comungam de uma mesma linha teórica e são em grande número de uma mesma instituição, a Universidade de São Paulo.
O autor, ao afirmar a necessidade de os alunos conhecerem os conceitos para saberem operar com os fatos linguísticos, apresenta um recurso inferencial em que se reconhece a vertente heterogênea para se estudar a ciência da linguagem e, ao mesmo tempo, indica, através das múltiplas formas de estudo, que não há uma exclusividade teórico-metodológica responsável por essa questão.
Dessa forma, o modo pelo qual é apresentada a ciência Linguística demonstra uma preocupação com os aspectos das línguas naturais a partir de uma visão descritivista, sem se DWHUDRVDVSHFWRVGHYDORUHV³>@$/LQJXtVWLFDSRUWDnto, como qualquer ciência, descreve VHX REMHWR FRPR HOH p QmR HVSHFXOD QHP ID] DILUPDo}HV VREUH FRPR D OtQJXD GHYHULD VHU´
(FIORIN, 2016, vol. I p. 21). Assim, a sua postura acadêmica permite que lhe seja concedida a possibilidade teoricamente de circunscrever seu objeto de análise, sem procurar apresentar modificações em sua manifestação.
Aplicando ao trecho a seguir, ainda do Fragmento 26, a categoria da pressuposição: ³Pensamos que um iniciante na Linguística precisa saber o que é a ciência da linguagem, saber que há outras formas de estudar as línguas, que vão além do prescritivismo que hoje LQYDGHRVPHLRVGHFRPXQLFDomR´HQFRQWUDPRVDVVHJXLQWHVDILUPDo}HVSUHVVXSRVWDVDOpP da posta:
(P) o iniciante em linguística precisa saber o que é ciência da linguagem;
(PP1) o iniciante em linguística não tinha conhecimento do que seria a ciência da linguagem;
(PP2) o iniciante não sabe o que é a ciência da linguagem;
(PP3) o iniciante só estuda a língua por estudos prescritivos;
(PP4) que o predominante hoje é o ensino prescritivo da Ciência da Linguagem. Na sequência do fragmento, identificamos ainda um novo pressuposto: que o aluno necessita se apropriar dos conceitos antes de trabalhar com os fatos da língua.
CONCLUSÃO: uma das formas mais eficientes de apresentar a Ciência da Linguagem está nos espaços onde ela é tratada seletivamente por XPJUXSRGHSHVVRDV³LOXPLQDGDV´TXHGHVYHQGDPRVVHJUHGRVGRV fatos linguísticos para os neófitos e, dessa forma, possibilitam-lhes o privilégio de conhecerem os mistérios da língua da forma mais científica possível.
Nesse entendimento, o que é posto corrobora os objetivos do autor do M2 no sentido de apresentar aos estudantes de Letras a Ciência da Linguagem que lhes é tão desconhecida. O que ratifica sua atitude de preparação para os neófitos na área está presente no pressuposto do trecho, ou seja, aos leitores da obra introdutória o conhecimento teórico que lhes credencia a operar os conceitos da Ciência da Linguagem necessita serem apresentados e estudados pelos demais estudantes.
Portanto, caberia aos neófitos irem além da visão dominante na época que era o prescritivismo. Esses aspectos de abertura aos estudos da linguagem revelariam a multiplicidade de abordagens a que o fenômeno linguístico poderia ser submetido para abarcar a variedade de manifestação fenomenológica própria do objeto de estudo, além de
possibilitar ao aluno a compreensão de que as teorias se situam numa perspectiva de debate permanente na busca de compreensão de parte da realidade dos fatos linguísticos.
No circuito da progressão científica, caberia ao estudante conhecer o ponto de vista alheio a fim de erigir sua fundamentação e estabelecer um debate no interior dos pressupostos teóricos e entender como o problema foi abordado, sem, com isso, rotular o outro ponto de vista como distorção do real. Assim, os estudantes são inseridos na atmosfera de permanente discussão teórica, a além de fortalecerem o entendimento que o contraditório não é um aspecto secundário para o progresso científico. Essa característica representa uma das maiores potencialidades para transformar o mundo acadêmico num espaço permanente de construção e reconstrução de saberes.
Fragmento 25
Nosso propósito é levar os estudantes a entrar no universo de uma análise com vocação científica, mostrando a eles que a ciência não é a verdade, mas é uma explicação provisória da realidade, e que o debate, a contradição e o conflito são inerentes ao fazer científico (FIORIN, 2015, p. 8).
[...] No primeiro volume, vimos que a Pragmática é a ciência do uso linguístico, estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística (FIORIN, 2016, p. 161).
[...] Já a eliminação das marcas de enunciação do texto, ou seja, da enunciação enunciada, produz efeitos de sentido de objetividade. Como o ideal de ciência que se constitui a partir do positivismo é a objetividade, o discurso científico tem como uma de suas regras constitutivas a eliminação de marcas enunciativas (FIORIN, 2016,179).
Com essa estrutura argumentativa, percebemos uma violação à Máxima da Qualidade no aspecto contraditório em se tratando do papel atribuído às atividades de caráter empírico as quais possuem uma estreita relação com os aspectos de análise da linguagem que possibilitariam sua falseabilidade, no sentido proposto por Kuhn. Todavia, o autor não explica aos leitores que a dimensão explicativa provisória dos achados científicos é corroborada pelas experiências práticas que os usuários desempenham ao longo da vida.
,QWHQWDQGRFRQGX]LURVHVWXGDQWHVDVHUHP³YRFDFLRQDGRVjVDQiOLVHVFLHQWtILFDV´R autor pratica um Ato de Fala Ilocucionário com efeito de convencimento dos neófitos a assumirem determinada uma postura epistêmica flexível por ser o conhecimento científico provisório e não fixo.
Ainda nesse fragmento 25, o autor faz questão de ratificar o que ele defendeu no vol. I de sua obra, ao explicitar o aspecto científico como elemento guia de inserção dos estudantes
no campo das pesquisas linguísticas. Reforça a ideia da presença do contraditório, da disputa como fator identificador da cientificidade do objeto pesquisado. Para exemplificar, ele cita o modos de análise de fenômenos da linguagem feita pela Pragmática. Já em relação à enunciação, o autor faz ressalvas quanto a sua inclusão nos ramos de pesquisa científica, em face da ausência de uma objetividade mais explícita, já que a enunciação mostra os vestígios do contexto que são elementos ameaçadores da universalidade e previsibilidade de fatos. Assim, ele viola a Máxima da Quantidade por não aprofundar a afirmação, o que pode gerar dúvidas nos leitores que desconhecem ainda os meandros dos termos e concepções enunciativas.
A Inferência permite a criação de um movimento de produção de sentidos entre o autor/falante e o leitor/ouvinte a partir de uma troca cooperativa de ações linguísticas. Nesse aspecto, o autor assume uma visão de ciência onde há espaço para o debate e a contradição. Provavelmente, para o organizador da obra as teorias Enunciativas não possuem uma relevância para a efetivação da objetividade científica por não possibilitarem uma linguagem o mais imparcial possível, pois o seu objeto de análise possui um destaque quanto à dimensão das subjetividades das pessoas que, pela linguagem, enunciam.
Em se tratando dos aspectos que são discutidos pela teoria da pressuposição, tendo como base nosso fragmento, podemos afirmar que:
(P) o ideal de ciência que se constitui a partir do positivismo é a objetividade;
(PP) será considerada teoria científica aquela que apresentar marcas de objetividade;
(P1) o discurso científico tem como uma de suas regras constitutivas a eliminação de marcas subjetivas e, por conseguinte, enunciativas;
(PP1) quanto mais o discurso científico eliminar as marcas subjetivas/enunciativas, mais se aproximará da cientificidade desejada.
CONCLUSÃO: possivelmente, o autor do manual não atribuirá, conforme veremos mais adiante, uma perspectiva científica às Teorias Enunciativas, em virtude de não possuírem os traços de objetividade requeridos à ciência. Como os aspectos das relações entre as pessoas da enunciação conduzem as discussões dos princípios da teoria, eliminando, por esse motivo, uma visão mais neutra da interação, não correspondem aos requisitos para a manifestação da
objetividade científica. Entre outros motivos de natureza organizacional, os organizadores de manuais procuram em seus textos anatematizar outras posturas teóricas com os mesmos argumentos utilizados para as credenciarem como objetivas.