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Características do estabelecimento empresarial como objeto de

No documento Arrendamento do estabelecimento empresarial (páginas 43-46)

3 DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS REFERENTES AO ESTABELECIMENTO

3.3 Características do estabelecimento empresarial como objeto de

Conforme afirmado anteriormente, o artigo 1.143 do Código Civil dispõe que o estabelecimento pode ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou constitutivos, desde que sejam compatíveis com a sua natureza.

Conforme referido alhures, o estabelecimento empresarial é um complexo de bens heterogêneos, com naturezas absolutamente distintas.

104 BARRETO FILHO, Oscar. Op. cit., p. 139-140. 105 Ibidem, p. 196.

Tendo em vista essa diversidade de bens que compõem o estabelecimento empresarial, e a possibilidade da azienda de ser objeto unitário de negócios jurídicos, qual norma (ou normas) no ordenamento jurídico brasileiro regulariam tal negócio?

Essa questão poderá ser abordada de duas formas. A primeira é a consideração de cada um dos bens, para fins de verificação da norma que será aplicável. Essa é a ideia proposta por Paula Castello Miguel106, segundo a qual não se pode classificar esse conjunto de bens como móvel ou imóvel, sendo que essa classificação deverá ser feita aos bens individualmente considerados.

Para esclarecer melhor essa questão, mister seja apresentado um exemplo. Suponha-se um estabelecimento empresarial de uma sociedade do setor de tecnologia que é formado por bens móveis corpóreos (ferramentas, hardwares e equipamentos em geral), bens imóveis (edificação e instalações) e bens móveis incorpóreos (softwares).

Imagine-se, então, a celebração de arrendamento de tal estabelecimento. Adotando-se a teoria dos bens individualmente considerados, teríamos a seguinte resposta para a questão: para os bens móveis corpóreos seriam aplicadas as regras referentes às locações de coisas, disciplinadas no Código Civil, nos artigos 565 a 578; para os bens imóveis seriam aplicadas as normas da Lei 8.245/91107 (Lei das Locações); e para os softwares as normas da Lei 9.609/98, (Lei dos Softwares).

A segunda forma de abordar essa questão seria buscar uma caracterização global e unitária a esse complexo de bens. Tal solução, além de estar em consonância com o disposto no artigo 1.143 do Código Civil (o estabelecimento é um objeto unitário de direitos), ainda traz mais simplicidade aos negócios jurídicos, haja vista que a necessidade de utilizar vários regulamentos distintos, de acordo

106 MIGUEL, Paula Castello. O Estabelecimento Comercial. Revista de Direito Mercantil, Industrial,

Econômico e Financeiro, São Paulo, Revista dos Tribunais, v. 118, p. 32, 2000.

107 Lei das Locações - Art. 1º A locação de imóvel urbano regula - se pelo disposto nesta lei:

Parágrafo único. Continuam regulados pelo Código Civil e pelas leis especiais: a) as locações:

1. de imóveis de propriedade da União, dos Estados e dos Municípios, de suas autarquias e fundações públicas;

2. de vagas autônomas de garagem ou de espaços para estacionamento de veículos; 3. de espaços destinados à publicidade;

4. em apart- hotéis, hotéis - residência ou equiparados, assim considerados aqueles que prestam serviços regulares a seus usuários e como tais sejam autorizados a funcionar;

com cada bem singularmente considerado, levaria, certamente, à inviabilização do negócio.

Quando da celebração de um negócio jurídico que tenha por objeto o estabelecimento, o mesmo deve ser considerado de forma unitária. Nesse sentido, assim dispõe Marino Luiz Postiglione: “[...] o direito garante a negociação do estabelecimento como um todo – uma unidade -, preservando seu valor econômico, representado pela unidade econômica, que corresponde a uma unidade jurídica negocial.”108

Assim, admite-se a manutenção do estabelecimento como uma unidade, ensejando ser objeto de negócio jurídico único, que, naturalmente, acarretará uma disciplina única de tal transmissão, haja vista que, o que se objetiva transferir é o todo organizado com seus múltiplos elementos.

Admitir a primeira hipótese, não é realizar negócio com o estabelecimento, mas verdadeiramente com seus bens singularmente considerados.

Ressalte-se, ainda, que admitir a negociação unitária do estabelecimento não significa se furtar à disposições legais que condicionem alguns elementos da

azienda a determinados requisitos de forma ou de consentimento.

Resta saber, ainda, se o estabelecimento deve ser considerado como bem móvel ou imóvel.

Sobre tal caracterização, é importante observar a lição do professor Rubens Requião, segundo o qual o estabelecimento empresarial “pertence à categoria dos bens móveis, transcendendo às unidades de coisas que o compõem e são mantidas unidas pela destinação que lhes dá o empresário, formando em decorrência dessa unidade um patrimônio comercial, que deve ser classificado como incorpóreo” 109.

No ordenamento jurídico pátrio os bens imóveis estão taxativamente enumerados nos artigos 79 e 80 do Código Civil110. As universalidades não foram contempladas no rol legal, razão pela qual consideram-se bens móveis.

108 POSTIGLIONE, Marino Luiz. Direito empresarial: o estabelecimento e seus aspectos contratuais.

Barueri: Manole, 2006. p. 112.

109 REQUIÃO, Rubens. Op. cit., p. 276. Importante observar que o professor Rubens Requião não

considera possível que os bens imóveis integrem o estabelecimento empresarial.

110 Art. 79. São bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente.

Art. 80. Consideram-se imóveis para os efeitos legais:

I - os direitos reais sobre imóveis e as ações que os asseguram; II - o direito à sucessão aberta.

Assim, o estabelecimento empresarial, enquanto universalidade, é um bem móvel e incorpóreo, mesmo que possua entre seus elementos bens corpóreos e bens imóveis.

O contrato que verse sobre negócio jurídico que tenha por objeto o estabelecimento empresarial deve, nos termos do artigo 1.144 do Código Civil111, ser averbado às margens da inscrição do empresário ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis, e ter publicação na imprensa oficial para ter validade perante terceiros. Em virtude da necessidade da averbação do instrumento, entende ser a forma escrita mandatória.

No documento Arrendamento do estabelecimento empresarial (páginas 43-46)