Acontecimento de Vida Valor médio
3.5.1.7. Características do Trabalho
Em todos os trabalhos existem características inerentes à estrutura organizacional e ao seu conteúdo em particular. Algumas dessas características são comuns a múltiplos trabalhos e estudadas como potencialmente geradoras de stress, outras são inerentes e específicas a algumas actividades, como é o exemplo da actividade policial.
Segundo Hackman e Oldman (1980, in Vaz Serra, 2002), para as pessoas se sentirem satisfeitas e motivadas com o trabalho, devem ser criadas várias condições psicológicas: (1) o sentido de responsabilidade que permite alguma autonomia face ao exercício da actividade; (2) sentir que o trabalho é significativo e que possibilita ao indivíduo identificar-se com as tarefas e acreditar que o seu trabalho marca a diferença; (3) e por último, ter feed back do seu desempenho, dos colegas, supervisor e instituição.
Existem ainda, outras variáveis relacionadas com as características do trabalho que devem ser consideradas.
Sobrecarga de Trabalho, é uma variável clássica geradora de stress, que diz
respeito ao excesso de trabalho e às tarefas a realizar em função do tempo disponível. Normalmente o tempo de trabalho, não é suficiente para a realização da actividade obrigando o indivíduo a prolongar as horas de trabalho para além do seu horário.
Esta sobrecarga pode ser quantitativa e diz respeito ao indivíduo ter demasiado trabalho para um período fixo de tempo limitado. Mas pode também ser qualitativa quanto à tarefa a realizar, que excede a competência técnica e intelectual em termos de competências do trabalhador. A sobrecarga de trabalho poderá também ser mista, onde os indivíduos têm excesso de trabalho em determinado limite de tempo, tendo de tomar decisões rápidas, complexas e de grande relevância.
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O excesso de horas de trabalho está associado a maior morbilidade e mortalidade por doenças cardiovasculares, nomeadamente a trabalhos com mais de 48 horas semanais.
Os agentes policiais trabalham 35 horas semanais, em trabalho por turnos, fazendo por vezes horas em trabalho extraordinário, ou os chamados “remunerados” que é trabalho policial pago de forma extra e por vezes tem o trabalho duplo, com os chamados “biscates”.
Roberts e Levenson (2001), abordaram o impacto das exigências físicas do trabalho policial, também associado ao trabalho por turnos, e o risco de exaustão e conflito familiar, tendo verificado relações significativas, nomeadamente em dias que, os agentes policiais tinham maiores exigências a nível físico.
Vários têm sido os autores que verificaram relação entre as exigências do trabalho e o conflito em casa com a família, nomeadamente das exigências quantitativas (Peeters, et al., 2005; Youngcourt e Huffman, 2005).
A sub-carga de trabalho e o trabalho rotineiro são também agentes de
stress. A sub-carga diz respeito à reduzida utilização das capacidades do trabalhador,
não o envolvendo a nível intelectual e/ou emocional com progressiva perda de competências e de aprendizagens. O trabalho rotineiro, com repetição contínua das tarefas, não coloca exigências ou novos desafios ao indivíduo, tornando o trabalho monótono.
As novas tecnologias podem também colocar novas exigências e criar novas fontes de stress, com novas aprendizagens, muitas vezes sem formação prévia da sua utilização e sem material informático adequado às necessidades dos trabalhadores. Na realização do nosso estudo e no contacto com os agentes, verificamos que todo o processo administrativo associado a realização das ocorrências e queixas na P.S.P. é realizado em material informático. Em determinadas esquadras existe apenas um ou dois computadores para vários agentes, o equipamento bloqueia muitas vezes apagando o trabalho realizado e realiza o trabalho de forma muito lenta devido a sobrecarga de servidores.
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O trabalho por turnos é uma característica do trabalho cuja existência se torna imprescindível a determinadas actividades de laboração contínua, como os transportes, determinado tipo de indústria e a segurança (hospitais e polícias).
Seward (1997), estimava que só nos Estados Unidos da América, 15 a 20% da capacidade de trabalho existia sob a forma de trabalho por turnos. Classicamente o trabalho por turnos diz respeito a um arranjo de horas utilizando duas ou mais equipas (turnos) de trabalhadores, de forma a estender as horas de trabalho para além dos horários convencionais (Gomes, 1998; in Ramos, 2001, p80).
A legislação portuguesa prevê regimes temporais diferentes, legislando no trabalho por turnos a sua organização, de modo que em 7 dias de trabalho por turnos, os trabalhadores tenham um de descanso.
É também conhecido que o trabalho por turnos é um factor de stress, que pode dificultar a vida dos indivíduos em diferentes níveis e domínios:
-A nível da sociedade com dificuldades ao nível do convívio social e acessibilidade a determinados bens;
-Ao nível da família, com dificuldades na educação e participação no desenvolvimento dos filhos;
-Na vida conjugal com o desencanto com o(a) companheiro(a), dificuldades de comunicação e sexuais;
-Na saúde, com consequências a nível físico e mental.
A nível das organizações existe relação entre o trabalho por turnos e os acidentes de trabalho, a produtividade, o absentismo e o bem-estar do trabalhador (Seward, 1997; Ramos, 2001; Vaz Serra, 2002; Pisarski, et al., V. 2002).
As consequências ao nível da saúde, surgem devido ao trabalho por turnos colidir com o relógio interno e os ritmos circadianos do indivíduo. Segundo Seward (1997), o ritmo circadiano regular orienta-se pelas horas, luz solar e o padrão regular da actividade diária do indivíduo, a maioria dos ritmos circadianos dos humanos acompanha 25 horas. As usuais 24 horas do dia, requerem um ajustamento, de uma hora no sentido inverso, ao nosso ritmo “natural”. Quando se trabalha por turnos existe uma progressiva alteração que requer adaptação constante do “turno” e do relógio interno (no sentido contrário às horas), exemplo disto é o “Jet Lag”, quando se viaja no sentido Oeste-Este.
Assim, podem existir efeitos a nível da saúde, física e mental, com alteração do ciclo sono / vigília; doenças cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais, que podem
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desenvolver graves problemas de saúde. Pode ainda, apresentar cansaço (devido ao sono durante o dia não ser tão repousante), alterações da temperatura e dos hábitos alimentares, com o desenvolvimento de úlceras pépticas, devido a se beber mais café e fumar mais durante a noite. A nível psiquiátrico, existem alterações do humor e a nível das secreções hormonais, que podem alterar o comportamento e a disponibilidade para os aspectos sociais, familiares e conjugais.
As forças policiais, são também uma actividade profissional que trabalha por turnos, nomeadamente os agentes policiais patrulheiros e que é reconhecido como um factor de stress na actividade, surgindo como a sexta fonte de maior stress da actividade policial (Violanti, 1983a). No Comando Metropolitano de Lisboa a organização do trabalho por turnos varia de Divisão para Divisão, sendo em todos eles, turnos de 6 horas (7h-13h; 13h-19h; 19h-1h; 1h-7h), podendo variar entre 5 ou 2 dias em cada turno com mudança intervalada de folga. De salientar que muitos agentes fazem trocas consecutivas de turnos para poder ter acesso a uma semana de folgas e visitarem a família, normalmente a viver longe.
Trata-se de uma variável, que os estudos demonstram ser mediadora, nomeadamente no conflito trabalho-casa e satisfação marital (Roberts e Levenson, 2001; Pisarski, et al., 2002; Youngcourt & Huffman, 2005), e na percepção do stress e da satisfação com a actividade policial (Burke e Mikkelsen, 2006), ou seja, os agentes que trabalhavam com horário fixo, apresentavam mais satisfação no trabalho, enquanto que os agentes que trabalhavam regularmente em trabalho por turnos, apresentavam níveis mais elevados de conflito trabalho-família. Garcia, et al., (2004), Confirmaram que os agentes que trabalhavam nos turnos nocturnos, apresentavam mais stress associado às exigências profissionais relacionadas com o trabalho nocturno no exterior.
Verificamos que a variável de trabalho por turnos, apresenta implicações a diferentes níveis, nomeadamente a nível da saúde em geral.