127 Vulnerabilidade e Suporte Social
3.7. Consequências do Stress Profissional
3.7.1. Consequências Individuais
3.7.1.1. Stress e Doença
Como vimos anteriormente, as experiências de stress, quando prolongadas, de forma intensa e/ou frequente, provocam alterações no funcionamento fisiológico do indivíduo que podem favorecer e predispor o indivíduo para a doença.
Tradicionalmente as doenças relacionadas com os factores psicológicos do
stress, eram referidas como as chamadas doenças “psicossomáticas” (também
referidas como as doenças psicofisíologicas). O termo psicossomático sofreu algumas mudanças, aparecendo como desordem psicofisiológica, quando se refere a sintomas físicos ou doenças, que resultam da interface de processos psicológicos e fisiológicos, sendo uma perspectiva biopsicosocial.
A importância dos factores psicológicos tem sido de tal forma importante numa variedade de doenças, que se reflecte no facto do actual Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders of de American Psychiatric Association (D.S.M.-IV; 1996),
os classificar não como doenças psicossomáticas, mas como “Outros factores que podem ter foco de Atenção Médica”.
Segundo a D.S.M.-IV, são definidas como: “A - A presença de um estado físico geral.
B - Factores psicológicos que afectam negativamente o estado físico de uma das seguintes formas:
1) Factores psicológicos influenciaram a evolução do estado físico geral, o que é evidenciado por uma associação temporal entre os factores psicológicos e o aparecimento, exacerbação ou atraso na recuperação do estado físico geral;
2) Os factores psicológicos interferem com o tratamento do estado físico geral; 3) Os factores psicológicos representam para o sujeito riscos adicionais de saúde;
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4) Respostas fisiológicas relacionadas com o stress, precipitam ou exacerbam sintomas do estado físico geral …” (pp 696).
Sendo o stress um fenómeno multidimensional (onde a vertente psicológica é apenas uma das dimensões), todas as doenças, possuem em graus diversos uma natureza “psicossomática”.
Mas a experiência de stress pode precipitar e aumentar a vulnerabilidade à doença de duas formas:
-A forma indirecta, onde os comportamentos adoptados pelo indivíduo e algumas estratégia de coping utilizadas condicionam o aparecimento da doença, e;
-A forma directa, resultante das mudanças fisiológicas que o stress produz no organismo.
Em relação à forma indirecta, diz respeito a situações agudas ou crónicas de
stress, onde o indivíduo adopta ou acentua determinados comportamentos que, sendo
factores de risco, se encontram associados ao desenvolvimento de doenças, como o aumento de consumo de álcool, tabaco, cafeína e drogas. Para além de estes comportamentos aumentarem a probabilidade do aparecimento de uma doença física, eles em si mesmo podem também ser um problema grave que aumenta a probabilidade da ocorrência de acidentes de trabalho, viação e domésticos. Na forma directa dos efeitos de stress, existem diferentes áreas da doença física que são alteradas podendo surgir em diferentes sistemas e sob diferente forma. Vamos apenas abordar as que a literatura refere de forma mais intensa.
Perturbações Gastrointestinais
O sistema digestivo é um dos sistemas mais atingidos pelos efeitos do stress, nomeadamente devido à acumulação dos efeitos nocivos deste. Várias são as perturbações que podem surgir.
As úlceras do estômago e do duodeno, encontram-se associadas ao stress. Podendo existir uma vulnerabilidade genética, alguns autores consideram-nas doenças diferentes. Na úlcera duodenal à uma secreção anormal de elevados níveis de ácido hidroclorídico e pepsina, enquanto na úlcera gástrica, há níveis normais ou reduzidos destas secreções (Bishop, 1994). Devido a elevadas concentrações dos sucos gástricos produzidos e à redução das defesas naturais das paredes do estômago e do intestino, provocam a erosão destas, podendo originar as úlceras.
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Estas úlceras encontram-se muito associadas ao stress profissional, aos maus hábitos alimentares, como por exemplo excessivas horas sem comer e/ou ao excesso de consumo de tabaco.
Para além do comportamento adoptado (por exemplo, o tabagismo, a cafeína, alimentar), segundo alguns autores, a úlcera encontra-se associada a factores emocionais, nomeadamente, a hostilidade e a ansiedade, uma vez que estas aumentam as secreções digestivas (Sarafino, 1990; Bishop, 1994; Vaz Serra, 2005).
Uma outra área, são as doenças inflamatórias do intestino, como por exemplo a colite e o cólon irritável.
Doenças Cardiovasculares
As doenças cardio vasculares são a primeira causa de morte nos países industrializados. Pode existir em algumas situações vulnerabilidade genética, mas também se encontram associadas ao estilo de vida adoptado pelo indivíduo, nomeadamente sob situações agudas ou crónicas de stress e através da activação biológica desencadeada nessas situações. Pensa-se que o padrão de comportamento tipo A, se encontra associado a estas doenças.
Hipertensão – Em 15% é conhecida a causa orgânica da hipertensão, como por exemplo problemas renais e hormonais, que podem ser controlados medicamente. Os restantes 85%, são de origem desconhecida, sendo chamada de “hipertensão
essencial”. Normalmente, sem a identificação de uma causa física, o desenvolvimento
da hipertensão encontra-se associada a uma maior reactividade cardiovascular (frequência cardíaca, tensão arterial, debito cardíaco e resistência periférica total) e a uma variedade de factores de risco, que incluem entre outros, a obesidade, o abuso de álcool, tabaco, cafeína e sal, inactividade física e os chamados factores psicossociais.
Dentro dos factores psico-sociais, a atenção da investigação tem-se debruçado sobre o comportamento emocional, nomeadamente o stress, a agressividade e a hostilidade (Miller, et al. 1982; Sarafino, 1990; Vaz Serra, 2005).
As actividades profissionais associadas a elevados níveis de stress e tensão, têm impacto na pressão arterial, predispondo o indivíduo para as doenças cardiovasculares. Encontram-se associadas a elevados níveis de exigência profissional e a um baixo controlo pessoal sobre as situações de trabalho. A
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hostilidade e a agressividade parecem também ser variáveis importantes em comparação com amostras de normotensos (pessoas com tensão arterial normal).
Em muitas outras áreas de doença, existe a relação com os efeitos do stress, como a asma, a dor de cabeça crónica, as doenças auto-imunes (como a psoríase, determinados tipos de eczema), doenças do foro reumático (artrite reumatóide), diabetes, entre outras.
No caso dos agentes das forças policiais, vários estudos têm verificado, tanto a nível da mortalidade como da morbilidade, a relação entre o stress profissional e as doenças físicas.
Norvell e Belles (1993) foram avaliar os efeitos do treino físico e emocional em agentes da autoridade, e a sua relação com a percepção do stress, a satisfação profissional e os sintomas físicos. Nestes programas de treino, durante 4 meses, utilizaram o fitness cardiovascular e verificaram relação significativa dos níveis do humor (ansiedade, depressão e hostilidade) e da sintomatologia física.
Gershon, et al., (2002) verificaram relação entre a percepção de stress no trabalho, sintomas negativos de saúde (dor crónica) e factores de risco (consumo excessivo de álcool e comportamento agressivo), mas não encontraram relações significativas com a elevada pressão arterial e as doenças cardíacas. No entanto detectaram elevado risco de desenvolvimento de doença física.
Bishop, et al., (2003) testaram o modelo de exigências – controlo do stress profissional, especificamente nas doenças cardíacas, monitorizando a pressão arterial, em agentes patrulheiros do sexo masculino. Na avaliação da pressão arterial, controlaram algumas variáveis, como a temperatura, o consumo de substâncias e drogas, e de alguns factores de risco, como o tabaco, a cafeína e a alimentação. Os resultados foram significativos a nível do modelo de exigências – controlo, ou seja, elevados níveis de exigência no trabalho e baixo controlo pelo indivíduo afectam negativamente a pressão arterial e está também associado com a hipertensão.
Como verificamos, por diferentes vias o stress aumenta a vulnerabilidade biopsicosocial do indivíduo colaborando no aparecimento e desenvolvimento da doença física. Mas as consequências do stress a nível do indivíduo, ultrapassam a doença física.