TENDÊNciAS TEcNoLÓGicAS Do SETor ELÉTrico *
2.1 características gerais do setor – internacional
A formação do setor elétrico teve início no fim do século XIX, quando o uso da eletricidade para fins de iluminação tornou-se tão popular que causou um impacto econômico sem precedentes. A evidente difusão do uso da eletricidade como fator energético desde seu início está ligada a duas de suas características essenciais: a primeira é a flexibilidade, ou seja, a possibilidade de conversão de eletricidade em outras formas de energia, como calor e luz; a segunda é a trans- missibilidade, que se refere à possibilidade de a eletricidade ser transportada por meio do espaço, sem que isso implique perdas significativas de energia.
A combinação dessas qualidades trouxe duas consequências que marcaram a trajetória tecnológica da indústria elétrica. A primeira delas é a distância geográ- fica entre o ponto de geração e o de consumo da energia. Já que não havia perdas importantes em seu transporte do primeiro para o segundo ponto, foi possível aumentar o porte das unidades geradoras, produzindo ganhos de escala acompa- nhados de maior eficiência e menores custos de geração. E a segunda é a grande disseminação da energia elétrica, em que diversos consumidores estão integrados em rede. Isso se deu como consequência da dificuldade de se armazenar a energia, uma vez que existe um ganho na ligação dos usuários em uma rede unificada.
Por esses motivos, o setor elétrico tendeu a uma estrutura de mercado mo- nopolística de geração e transmissão, além de uma verticalização entre geração, transmissão e distribuição de energia. Esta tendência trouxe crescentes preocupa- ções ao governo, levando a uma posterior intervenção a fim de regulamentar as atividades do setor.
Pode-se dividir em dois os modelos de regulação do setor elétrico: o ame- ricano e o europeu. O modelo desenvolvido pelos Estados Unidos procurava, sobretudo, respeitar a concorrência sempre que possível e proteger os consumido- res de práticas abusivas. Para tanto, suas agências reguladoras foram criadas para administrar as concessões e as tarifas. O modelo europeu, por outro lado, tem uma participação bem mais intensa por parte do governo. Ao Estado se atribuía o planejamento, a operação, a coordenação e a gerência da infraestrutura ener- gética. O setor era caracterizado por grandes empresas estatais, responsáveis por produzir, transportar e distribuir a energia nacionalmente.
A partir dos anos 1970, com a crise energética, essa regulação monopolista passa por uma reformulação. Os aumentos dos custos e as dificuldades crescentes de expansão fazem que as grandes empresas estatais comecem a perder espaço. Seguindo o modelo americano, os governos implementaram as agências regulado- ras, que diminuiriam as barreiras institucionais criando concorrência e atenden- do, a princípio, com maior eficiência aos usuários. Esta mudança institucional consistia em dividir a função de oferta de eletricidade da de garantia do serviço, em que se poderia fornecer o serviço público sem discriminação e a um preço justo, sem necessidade de se pagar o preço de um monopólio.
O pioneiro na mudança institucional do setor elétrico foi o Reino Unido, que, ao privatizar suas empresas de distribuição de energia, transformou seu mer- cado monopolista em um concorrencial, no qual seus consumidores podiam optar pelo melhor prestador de serviços. Em seguida, a empresa de geração e transporte, que era uma só, foi dividida e privatizada. O sistema abriu-se também aos produ- tores de eletricidade independentes, cuja participação aumentou progressivamente no fornecimento de energia. Esta descentralização da oferta foi ainda potencializa-
da pelo contínuo aumento do uso do gás natural em detrimento do carvão mineral como fonte de geração de energia elétrica. A energia de origem nuclear, todavia, não foi privatizada. Embora houvesse vontade por parte do governo, os elevados custos e os altos riscos desta fonte não atraíam as empresas privadas.
Os países desenvolvidos foram, aos poucos, adotando esse modelo concor- rencial, favorecido por diversos fatores. O surgimento de tecnologias para o uso de gás como fonte de eletricidade foi uma delas, permitindo a entrada de peque- nos produtores e aumentando a concorrência. Outro elemento decisivo para a mudança do setor elétrico foi a constituição de sistemas elétricos maduros, em que grande parte da infraestrutura já estava construída e amortizada, permitindo investimentos menos interdependentes entre si.
Embora as reformas do setor elétrico tenham sido positivas em aspectos como a diminuição dos custos de produção e de baixa das tarifas aos consumido- res, elas trouxeram também alguns problemas. O sistema de geração de energia passou a ser dependente do gás natural, que se tornou cada vez mais insuficiente e caro, trazendo problemas para a oferta de eletricidade. Além disso, o setor privado diminuiu os investimentos no setor, potencializando o risco de escassez e criando forte instabilidade de preço no mercado.
Atualmente, o setor elétrico vem investindo fortemente em pesquisa e de- senvolvimento, com o objetivo de aumentar a oferta de energia de baixo custo e que seja sustentável. Nesse sentido, tem se procurado diminuir a utilização de combustíveis fósseis, desenvolvendo-se fontes renováveis que sejam economica- mente viáveis.
Acerca disso, a tabela 1 apresenta dados sobre a oferta interna de energia elétrica no mundo.
TABELA 1
oferta interna de energia elétrica no mundo (Em %) Fonte 1973 2008 Petróleo 24,7 5,5 Gás 12,1 21,3 Carvão 38,3 40,9 Nuclear 3,3 13,5 Hidráulica 21 15,9 Biomassa/Eólica/outras 0,6 2,8 Total (em TWh)1 6.116 20.181 Fonte: Brasil (2011). Nota: 1 Tera watt hora.
Nos últimos 35 anos, a matriz energética sofreu algumas mudanças. A pri- meira delas foi a diminuição da participação dos combustíveis fósseis na oferta de energia, que caiu de 75,1% do total para 67,7%. O destaque está no uso do petróleo, que após a crise dos anos 1970 teve sua participação reduzida drastica- mente. Outro fato interessante foi o aumento do uso do gás natural, combinado com o surgimento de tecnologias para sua utilização.
Para compensar a queda na utilização de combustíveis fósseis, a energia nu- clear teve um grande avanço, passando 3,3% para 13,5%. Seguindo na mesma direção está a utilização de energias alternativas (biomassa, eólica e solar) que aumentou de 0,6% para 2,8%.