3 O QUE ESTAMOS ENTENDENDO COMO GÊNERO
3.6 Caracterização do gênero projeto de pesquisa
Nesta seção vamos delinear as bases teórica que caracterizam o nosso objeto de estudo. Desse modo, o gênero projeto de pesquisa, assim como outros gêneros acadêmicos necessitam de um determinante e até especificador para esclarecer de qual gênero se trata, pois existem diversos textos que recebem o mesmo nome de projeto, mas são gêneros diferentes, como projeto que serve para solicitar financiamento a uma agência de fomento ou projeto que serve para orientar alunos da Iniciação Científica ou Projeto de Desenvolvimento Educacional.
Vejamos algumas definições para projetos em alguns manuais de produção de projeto, Gil (2002) afirma que o projeto “é o documento explicitador das ações a serem desenvolvidas ao longo do processo de pesquisa”; Ciribeli (2000, p. 10), por sua vez, diz que “nada mais é que o planejamento, ou melhor, o primeiro passo da pesquisa. A própria palavra projetar aponta para esta direção, significa antever etapas para operacionalização de um trabalho”; Barros (2005) explica que projeto é um “instrumento de planejamento, que, neste caso, também será um
40 No original: “The identification of moves in a text depends on two things. First, it is important to start from the
rhetorical objectives of the texts, and to relate any aspects of analytical interest to these. Second, the text must be divided up into meaningful units, essentially on the basis of linguistic clues”.
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instrumento de elaboração dos próprios materiais de que se servirá o viajante na sua aventura em busca da construção do conhecimento”.
Primeiramente, vejamos que a semelhança entre os conceitos, está em tratar esse gênero como um planejamento para a realização do trabalho científico; então, todos concordam que esse é um gênero que serve de ponto de partida para a realização de outros textos, isto é, a partir dele surgem outros gêneros, como Artigo, Trabalho de Conclusão de Curso, Tese e Dissertação. Indica que é um texto muito mais voltado para o pesquisador, apesar de não está explicito nessas falas, na prática observamos que é necessária essa escrita voltada para o pesquisador para depois escrever o texto que é voltado para comunidade os quais citamos anteriormente. Desse modo, a banca que é composta por pesquisadores, talvez até o provável orientador, é um público alvo previsto na elaboração desse gênero.
Nesses breves trechos, também nos ajuda a refletir sobre como cada autor entende a produção do projeto. Desse modo, podemos destacar, no primeiro conceito, a ideia de documento, ao utilizar esse termo. Para se referir ao projeto, o autor suscita uma carga formal e institucional a essa prática, tal interpretação pode ser comprovada na leitura do manual. No sentido de ilustrar, verifiquemos alguns itens do Sumário: Estruturação do texto: introdução, metodologia, cronograma de execução, suprimentos e equipamentos e custo do projeto; Estilo do texto: impessoalidade, objetividade, clareza e precisão.
Como se observa nesse sumário, o aspecto formal é listado conforme a utilização da estrutura do projeto e a partir das características linguísticas para orientar a produção textual em detrimento de orientações mais conceituais sobre o fazer acadêmico, tais como função do projeto e reflexões sobre o porquê de o projeto possuir essa estrutura. O aspecto institucional fica claro pelas seções: cronograma de execução, suprimentos, equipamentos e custo do projeto, os quais estão menos ligados ao fazer acadêmico e mais dependentes das instituições de ensino e/ou financiadoras.
Na segunda citação, o foco recai sobre a prática de pesquisar, principalmente, no que se refere à cultura acadêmica de hipotetizar e prever o que será utilizado na pesquisa; ou seja, evidencia a atividade de pesquisar, destacando que o pesquisador deve projetar o seu trabalho. Apesar do sumário desse livro também observarmos tópicos parecidos com os do anterior, há subtópicos abordando itens como: escolha do tema, hipóteses e teorias de metodológicas do séc. XX, plano provisório de análises dentre outros. Essa lista de seções contribui para essa conceituação do gênero de Ciribeli (2000) que é voltada para a pesquisa científica, isto é, para o conteúdo científico que deve apresentar essa classe de textos.
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Na conceituação proposta por Barros (2005), o foco é dado à autorreflexão que o pesquisador deve realizar para desenvolver sua pesquisa, isso fica evidente quando o autor afirma que é “instrumento de elaboração dos próprios materiais”. Nessa citação, também o foco é na cultura acadêmica, pois evoca essa prática comum na realização do trabalho científico que é a elaboração e construção de materiais, os quais podem ser interpretados como métodos e um aporte teórico que muitas vezes já existem, mas são reorganizados pelo pesquisador que acrescenta o seu ponto de vista, embora seja influenciado pela comunidade da qual faz parte.
Sinteticamente, o projeto é um texto que serve para planejar a escrita de outro texto, por exemplo, Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Dissertação e Tese. Além disso, serve como uma prova de que o produtor desse texto conhece a área de pesquisa e justifica que é relevante a realização do estudo, isto é, demonstrar para outros pesquisadores que seu trabalho poderá ser executado dentro da área de estudos indicada em seu projeto.
Desse modo, como destacamos anteriormente, existem vários gêneros que recebem o nome de projeto, por isso é necessário delimitar e esclarecer qual tipo de projeto, dentre os vários existentes, será pesquisado em nosso trabalho. O tipo de projeto que estudaremos é o Projeto de Pesquisa Acadêmico (doravante PPA), o qual é exigido pelos Programas de Pós- Graduação41 para seus candidatos. Esse projeto pode ser tanto para adentrar por uma
Especialização como para um Doutorado.
O PPA tem como contexto social a situação de seleção, na qual candidatos são avaliados em uma série de etapas, que são geralmente, a prova escrita, as provas de línguas estrangeiras, o projeto, a entrevista e os títulos. Desta forma, em primeiro plano, em uma ação social prática, esse gênero tem como função possibilitar que o indivíduo entre em um programa de Pós- Graduação.
Contudo, para que o PPA cumpra essa função, se faz necessário convencer a Banca de que o produtor desse PPA é capacitado academicamente (possui conhecimentos acadêmicos suficientes) para realizar uma Pós-Graduação. Além disso, o PPA deve demonstrar que o indivíduo tem conhecimento das pesquisas que são possíveis de realizar em uma determinada instituição de ensino, ou seja, as linhas de pesquisa disponíveis para a cultura disciplina à qual pretende entrar na Pós-Graduação. Então, funciona como possibilidade de acesso a esse nível de ensino, demonstrar para uma Banca de professores o conhecimento que o indivíduo tem
41 É importante salientar que nos referimos aos programas de Pós-Graduação do tipo acadêmico, já que existem os profissionais que são os voltados para o desenvolvimento técnico e profissional que é diferente do primeiro, o qual prepara um professor-pesquisador para possivelmente desenvolver um Doutorado e continuar desenvolvendo trabalho científico.
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sobre determinada área também funciona como um planejamento de estudo a ser desenvolvido após o ingresso em uma Pós-Graduação.
Sobre a composição das seções, Motta-Roth e Hendges (2010) explicam que o gênero projeto de pesquisa acadêmico possui: “identificação ou dados do projeto, problemas, hipóteses e perguntas, justificativa, objetivo geral e específicos, síntese da literatura relevante, metodologia, resultados e ou impactos esperados, cronograma e orçamento” (p. 52-53).
Essa estrutura apresentada pelas autoras abrange a estrutura composicional de projetos em diversas disciplinas, então, apresenta as seções “resultados e ou impactos esperados e orçamento” as quais não são comuns em projetos das disciplinas de Linguística ou de Literatura. É importante salientar que essa estrutura sugerida pelas autoras não é rígida nem imutável, pois dependerá da instituição e da banca.
Ainda segundo as autoras, para se formular um projeto de pesquisa é preciso que se conheçam as práticas de pesquisa da área, saber reconstruir essa prática textualmente, propor um estudo inovador e definir um tema e problemas que serão desenvolvidos (MOTTA-ROTH; HENDGES, 2010) em um segundo momento, geralmente, após a conclusão das disciplinas de uma Pós-Graduação.
Por fim, em nossa pesquisa, analisaremos como se materializa a estrutura de todas as seções do pré-projeto nesse corpus e como os mestrandos representam as práticas de pesquisa da área, além de verificar se fatores como cada uma das áreas: Linguística e Literatura, influenciam na construção do texto.
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