3 O QUE ESTAMOS ENTENDENDO COMO GÊNERO
3.1 Reflexão sobre a esfera de atividade humana
Nesta seção, discutiremos os conceitos relacionados à noção de cultura acadêmica que são os de domínio discursivo e o de comunidade discursiva os quais funcionam como um plano de fundo para a existência do gênero, bem como, sua circulação.
Para Bakhtin (1997 [1979]), os gêneros são produzidos e circulam em esferas de atividade humana; em seus textos não é explicado claramente o que significa esse conceito, mas podemos inferir que se trata de um entendimento sobre a utilização da língua por determinado grupo que escolhe formas, temas e funções para determinados textos; por exemplo, se um juiz decide escrever uma sentença em verso, aqui no Brasil, ele será repreendido pelo grupo de juízes que compõem essa esfera de atividade, pois o texto não está dentro dos padrões determinados pela comunidade de juízes brasileiros.
Marcuschi (2008, p. 155) afirma que as esferas de atividade humana constituem domínios discursivos que, por sua vez, compõem práticas discursivas que revelam conjuntos de “gêneros textuais que às vezes lhe são próprios ou específicos como rotinas comunicativas institucionalizadas e instauradoras de relações de poder” (p. 155). Como em nossa pesquisa pretendemos descrever propósitos comunicativos de um gênero, se faz necessário selecionar um domínio discursivo específico, que no caso é o acadêmico para analisar essas rotinas comunicativas que no caso são os projetos, dentro do ambiente acadêmico da área de Letras que instaura a relação de poder entre a banca e os candidatos à mestre.
Bazerman (2005), para caracterizar esses grupamentos sociais, utiliza sistema de gêneros. Segundo o autor (2005, p. 32), “um sistema de gêneros captura as sequências regulares com que um gênero segue um outro gênero, dentro de um fluxo comunicativo típico de um grupo de pessoas”; ou seja, os gêneros que um grupo de pessoas utiliza dentro de um ambiente discursivo — em um domínio discursivo específico — compõem um sistema de gêneros. Então, ao identificarmos esse sistema, podemos perceber um enquadramento que organiza o trabalho de determinado grupo.
Além do conceito de sistema de gêneros, Bazerman (2006) fala de conjunto de gêneros, o qual seria uma coleção de gêneros “que uma pessoa num determinado papel tende a produzir” (p. 32). Se considerarmos os diversos gêneros que um indivíduo produz, por exemplo, no papel social de estudante, verificaremos que se relacionam entre si, como prova, resumo e anotações de aula, existindo entre esses gêneros relações de consequência e complementaridade que auxiliam na descrição das atividades que cada membro da comunidade estudantil tem nesse domínio discursivo escolar.
247
Por outro lado, se considerarmos um grupo de estudantes, observaremos outro tipo de relação entre os gêneros produzidos por esse grupo que não mais é de complementaridade ou de consequência, mas de relação interpessoal, como as promovidas pelos gêneros bilhete e conversa face a face.
Bazerman (2005) afirma que se for possível catalogar todos os textos que determinado profissional utiliza em seu dia a dia, compreenderemos também uma boa parte do seu trabalho. O autor afirma também que, “ao definir o sistema de gêneros em que as pessoas estão envolvidas, você identifica também um frame que organiza o seu trabalho, sua atenção e suas realizações” (p. 33). Dessa forma, o sistema de gêneros nos permite ter uma visão geral da atuação profissional do indivíduo, possibilitando compreender como se organiza, como é realizado e o que ele pretende atingir com essa atividade.
O sistema de gêneros diz muito sobre um papel social desempenhado pelo indivíduo, e concordamos que é concebível identificar, a partir desse sistema, um frame ou enquadramento para determinada atividade social. No entanto, devemos observar com cuidado a influência dos gêneros sobre a atividade desempenhada por um indivíduo, porque os textos não agem sozinhos; isto é, analisar apenas o gênero materializado não garantirá a observância de grande parte das atividades que um indivíduo desenvolve em sua profissão, pois existem outros fatores que podem influenciar nessa atividade profissional, como a cultura, as necessidades de cada sujeito e os outros gêneros, sejam ancestrais ou contemporâneos.
Ainda sobre essa questão do ambiente de produção e circulação dos gêneros, Swales (1990) o trata como comunidade discursiva, o qual é fundamental para o estudo de gêneros, assim como o de sistema, pois se trata de considerar o gênero sendo utilizado por um grupo de indivíduos que possuem conhecimento compartilhado sobre o uso de um conjunto de texto, bem como cultura, crenças e valores para realizar alguma atividade social.
O conceito inicial apresentado pelo autor sofreu diversas críticas e foi revisto, acrescentado ao conceito a ideia de instabilidade, já que as comunidades são dinâmicas e mal definidas. Outro acréscimo importante ao conceito foi a de comunidade local e comunidade global, em que a global seria aquele grupo que utiliza os mesmos gêneros, mas está em locais diferentes, por exemplo, cidades distintas. O local seria aquele que trabalha em um mesmo setor de uma universidade.
O conceito de comunidade de Swales (1990) apesar de muitos avanços é limitado para dar conta da complexidade de relações que um grupo de pessoas pode realizar ao utilizarem os gêneros em uma determinada situação, pois essa noção leva em conta questões materiais e físicas, como o lugar, por exemplo, aspectos que, na conjuntura atual de globalização, de
248
compartilhamento e colaboração na produção de textos, não se restringem a um lugar, pois pessoas em lugares distintos do Planeta podem compartilhar uma prática genérica sem partilhar, por exemplo, crenças, valores ou até mesmo práticas de escrita, como na Internet em que pessoas do mundo inteiro utilizam o Facebook de forma semelhante. Mas nesse caso, o elo mais recorrente entre todos os praticantes é a escrita nessa rede social (geralmente para se relacionar com pessoas próximas, como, amigos(as), namorados(as) e parentes) diferente, por exemplo, de quem escreve um artigo, que, mesmo sendo em lugares distintos do mundo, compartilham muito mais práticas, por exemplo, se pensarmos na área de Letras, há uma cultura acadêmica de produção de artigos nessa área, existindo, assim, mais do que uma comunidade física ou local, mas um conhecimento abstrato responsável por fazer parte dos membros que fazem parte ou irão dos produtores de artigo da área de Letras.
Após refletirmos sobre como entendemos o conceito de esfera de atividade humana, o de sistema de gêneros e o de comunidade discursiva, discutiremos a relação desses conceitos com o de cultura disciplinar de Hyland (2013, p. 11), para quem “a escrita que as disciplinas produzem, apoiam e autorizam, portanto, podem ser vistas como ligadas a formas de poder nessas organizações”.30 Assim, o conhecimento compartilhado sobre as produções escritas em
uma área serão de extrema importância para um mestrando quando ele for redigir o seu projeto, por exemplo, pois se ele não dominar essa escrita poderá ser excluído do processo de Seleção. Então, quem domina essa escrita, no caso a Banca, é autorizada e empoderada socialmente para dizer se o mestrando domina ou não a prática escrita da cultura acadêmica da sua área.
Hyland (2009, p. 11-12) ainda explica que os:
Textos são escritos para serem entendidos dentro de certos contextos culturais, a análise de gêneros fundamentais pode fornecer insights sobre o que está implícito nestas culturas acadêmicas, suas operações retóricas de rotina revelando percepções individuais do escritor dos valores e crenças do grupo.31
Semelhante ao que diz Bakhtin (1997 [1979]), Hyland (2009) também concorda com a imersão dos textos em contextos específicos, ou seja, os textos precisam de um contexto específico para serem entendidos. Esse contexto envolve as instituições, as relações sociais, a forma como o texto está estruturado, a área do conhecimento, os valores e crenças de grupos
30 No original: “The writing that disciplines produce, support and authorize can therefore be seen as linked to
forms of power in those organizations”.
31 No original: “texts are written to be understood within certain cultural contexts, the analysis of key genres can
provide insights into what is implicit in these academic cultures, their routine rhetorical operations revealing individual writer’s perceptions of group values and beliefs”.
249
sociais. Sendo por meio dessa citação que podemos constatar a ligação entre esses autores citados sobre o entendimento do contexto de produção e circulação de um gênero.
Percebemos que o fato de considerar a utilização do gênero em um contexto comunitário é algo semelhante, nos conceitos de sistema de gêneros, comunidade discursiva, domínio discursivo e esfera de atividade humana; ou seja, em um ambiente no qual há grupos de indivíduos usando os mesmos gêneros, e geralmente com os mesmos propósitos que apesar de esses grupos não serem homogêneos nem estáveis, existem características que são compartilhadas e recorrentes, as quais contribuem para conseguirmos diferenciar grupos de indivíduos dentre os diversos meios sociais e institucionais.
Nesse sentido, nossa pesquisa pretende descrever essas informações implícitas nos projetos desses mestrandos dentro da cultura acadêmica da Linguística e da Literatura, bem como analisar as operações retóricas, as crenças e os valores desses grupos.
Portanto, na seção a seguir, trataremos de uma concepção de análise que investiga não apenas a materialidade do gênero, mas também os atores envolvidos nessa produção, os valores e as crenças do domínio discursivo, bem como os outros gêneros pertencentes ao sistema de gêneros ao redor do PPA.