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3 O QUE ESTAMOS ENTENDENDO COMO GÊNERO

3.3 Forma e conteúdo

Nesta subseção discutiremos sobre essas duas categorias importantes para nossa pesquisa, salientamos que o estudo da forma dos textos foi algo que mudou ao longo dos anos, que passou de foco principal das pesquisas de algo delimitado e rígido para uma informação dentre as demais, mas não essencial e nem mais delimitado, passando a ser observado com flexível e associado ao conteúdo, sendo entendido como algo que apresenta informações linguísticas e extralinguísticas dos textos.

Assim, o estudo de gêneros, como explica Devitt (2009), recolocou o estudo da forma na agenda de estudos contemporâneos, pois “uma teoria do gênero baseada na ação retorna à forma para o estudo de gênero, exigindo uma reconfiguração da forma como retoricamente, socialmente e culturalmente contextualizada”38 (p. 28). Concordamos com a autora que propõe

estudar a forma como algo que é sensível às variações contextuais e tática para provocar a realização de determinada ação.

Assim, em nosso estudo, consideramos como forma todo o material linguístico e estrutural que compõe o texto que o indivíduo produziu. Esse conceito com o de conteúdo (parte significante do texto - os sentidos veiculados pelo texto) são “a chave para a compreensão da ‘significância’ de um gênero” (CAMPBELL e JAMIESON, 1978 apud MILLER, 2009, p. 34). Com isso, compreender a forma e o conteúdo possibilitará analisar como que o material linguístico produzido pelo indivíduo realiza o propósito comunicativo, o qual representa a

38 No original: “In a action-based theory of genre, returning form to genre study will require reconfiguring form

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cultura acadêmica, permitindo que o texto circule e atenda a finalidade para o qual foi feito em uma determinada esfera de atividade humana.

Segundo Miller (2009, p. 34), a forma de um gênero funciona como “um tipo de meta informação, com valor semântico (como informação) e valor sintático (ou formal)”, ou seja, o material linguístico e a formatação do texto têm um significado essencial para a utilização do gênero em uma determinada situação retórica recorrente, significado que é percebido tanto pelos autores quanto pelos leitores.

Seguindo esses dois pensamentos, a respeito dos conceitos de forma e substância, buscaremos entender como a fusão forma/substância contribuem para que o projeto de pesquisa acadêmico atenda às necessidades dos usuários.

Salientamos que forma e substância estão ligadas aos aspectos linguísticos do gênero, ou seja, a noção de forma está ligada ao estilo do texto, à parte gráfica, aos tipos textuais mais predominantes, ao formato enquanto a de substância é entendida como o conteúdo que esses aspectos formais transmitem, bem como a própria significação do texto.

Definimos como forma a estrutura do gênero, que compreende: o estilo, o meio em que é veiculado, os tipos textuais que ocorrem com mais frequência e o modo de escrita específica, por exemplo, norma padrão, movimentos retóricos. Entretanto, devido a extensão do texto em análise, focaremos nossa descrição nos movimentos retóricos e nas características lexicais como verbo no infinitivo para identificação dos passos retóricos, embora consideremos também esses outros aspectos formais citados, mas não serão enfocados, pois nosso recorte de pesquisa está situado no nível de análise do passo retórico.

Esse conceito é importante para nosso estudo, porque, segundo Miller (2009 [1984]), a forma tem um significado dentro da ação pretendida pelo escritor. Por isso, a estrutura do texto também colabora para a construção de um gênero. Essa parte mais estrutural do texto tem significado, pois se um texto tem linguagem mais formal, se ele é mais objetivo e se é um texto mais argumentativo do que narrativo, essa forma terá uma razão de ser, que pode, por exemplo, tornar esse gênero materializado mais direto e em defesa de um ponto de vista.

A substância do gênero é definida por Miller (2009 [1984]) como sendo o valor semântico do discurso, ou seja, substância é tanto o conteúdo do texto como o significado que ele possui. A substância, apesar de também conter aspectos extralinguísticos como a cultura acadêmica, crenças e valores, os próprios indivíduos e as intenções dos discursos estão ligados aos fatos linguísticos, visto que é possível perceber a representação de determinada cultura acadêmica e as intenções através do texto.

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Segundo Campbell e Jamieson (1978 apud MILLER, 2009 [1984], p. 24)), “as formas retóricas que estabelecem gêneros são respostas estilísticas e substantivas às demandas situacionais percebidas”; portanto, um gênero compreende a fusão entre forma e substância, enquanto a demanda situacional faz com que essa fusão exista, tornando-se pragmático, pois o indivíduo utiliza o texto que, por sua vez, pertence a um determinado gênero para realizar algo.

Assim, é importante dizer que as formas não determinam o gênero, mas contribuem para que seu(s) propósito(s) seja(m) atendido(s) por meio de uma fusão entre forma e substância típicos, dentro de uma situação retórica que permita ao indivíduo compreender essa fusão como fazendo parte dessa situação retórica e possibilitando a realização do(s) propósito(s) exigido(s) por essa situação específica.

Nossa tese tem como hipótese principal, a de que a forma do projeto se modifique, dependendo de fatores extralinguísticos, tais como área científica, maior ou menor tradição da instituição em pesquisas, subáreas e maior ou menor experiência do candidato ao Mestrado em produzir o pré-projeto.

Essa hipótese, segue o pensamento de Devit (2009, p. 27) que propõe ser o exame da forma dos gêneros como incorporado a análise, então para a autora:

É definida como os resultados visíveis e ausências notáveis do uso da linguagem em contextos genéricos. Um tratamento contextualizado da forma genérica incorpora a forma individual, social e em contextos culturais; reconhece forma genérica como variável individualmente, sincronicamente, e diacronicamente; equilibra o tratamento das formas genéricas como a única e compartilhada; e vê formas genéricas como intergenéricas, interagindo com outros gêneros.39

Baseando-se nessa perspectiva, analisaremos a forma do pré-projeto como sendo algo individual, social e cultural, que deve ser entendido dentro de um contexto específico; e essa forma varia, dependendo desses fatores como também dos já citados, como idade do Programa de Pós-Graduação e orientações do edital. Essa forma do gênero é ao mesmo tempo individual e compartilhada, além disso há uma inter-relação entre os outros gêneros, por exemplo, edital e arguição pela Banca.

Como formas principais do pré-projeto, temos a construção do texto baseada em seções, as quais, geralmente, possuem títulos autoexplicativos, como Metodologia, Objetivos e Referencial Teórico. Esse aspecto do projeto de pesquisa acadêmico é a parte mais veiculada,

39 No original: “is defined as the visible results and notable absences of language-use in generic contexts, A

contextualized treatment of generic form embeds form into its individual, social, and cultural contexts; recognizes generic form as variable individually, synchronically, and diachronically; balances treatment of generic forms as both unique and shared; and views generic forms as inter-genre-al, interacting with other genres”.

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assim como difundida na comunidade, pois, na maioria das vezes, está no edital e sempre é possível encontrar essa informação na Internet e nos manuais de redação acadêmica.

Outro aspecto ligado à forma dos projetos está nas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a qual normatiza tanto a estruturação das seções como as citações, elementos pré-textuais e as gráficas.

Desse modo, como explicamos, nossa pesquisa tratará a forma do gênero como sensível aos diversos contextos e tática para realizar uma determinada ação. Por isso, não analisaremos apenas a forma pela forma, mas a função de uso de determinado formato pelo autor, além de indagarmos aos professores sobre que aspectos formais são mais decisivos para a aprovação ou não de um projeto.

Com base nisso, na seção a seguir, explicitamos as bases que utilizaremos em nossa pesquisa para a descrição do propósito comunicativo do gênero projeto de pesquisa acadêmico.

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