III.1 A Revista
III.1.2 Caracterização
A Revista Agrícola publicou centenas de artigos
145em seus 90 números entre os anos
de 1869 e 1891, a publicação tinha em média de 55 páginas. A ausência de autoria
146, bastante
presente, tornou-se um obstáculo na análise dos artigos
147. Algumas matérias extensas eram
encontradas em diversos números, enquanto que outras se estendiam integralmente numa
edição exclusiva. De uma forma geral, os textos eram em coluna única com grande parte das
ilustrações dispostas em páginas inteiras, os textos se encontravam distribuído sem seções. As
diferentes redações não buscaram uniformizar o uso de seção e a proporção de temas.
A ideia inicial era que a Revista tivesse uma freqüência de publicação temporária de
três em três meses, para depois atingir uma meta mensal ou quinzenal, no entanto as
impressões se mantiveram trimensais, com exceção de um número extra no ano de 1872.
A insuficiência de dados técnicos sobre a Revista, assim como do próprio Instituto,
inviabilizou uma abordagem mais detalhada da tiragem dos exemplares. Sobre a distribuição
entre instituições internacionais, foi encontrada uma matéria, em 1888, intitulada Associações
a que é remetida a Revista Agrícola (REVISTA AGRÍCOLA, 1888, p. 101-120), que cita 324
instituições voltadas para a agricultura (Ver Anexo IV), como sociedades, departamentos
governamentais e universitários, institutos e periódicos, de 22 países de todos os continentes.
Entre os países listados, a maior ocorrência acontece na França (97), Alemanha (68) e Estados
Unidos (53). Mesmo que esse dado não demonstre a frequência com que eram enviados os
exemplares, isso ressalta que a Revista Agrícola tinha um alcance mundial.
145 Alguns artigos não são devidamente separados, tornando confuso o que seria sua continuação através de um novo assunto, ou um novo artigo. Como muitos não são assinados, essa confusão torna-se mais severa. Outro aspecto foi considerar cada notícia como um artigo, dessa forma, o presente trabalho reconhece 1081, enquanto que Martins encontrou 467.
146 Ressalto a possibilidade da inexistência de algumas autorias estar relacionado com aspectos característicos da vulgarização científica no século XIX.
Dessa forma o Instituto, que dispunha de muitos intelectuais, trocava ideias com
grande parte do mundo. Mesmo que muitos artigos sejam traduções e/ou adaptações de textos
estrangeiros
148, a Revista Agrícola mantém sua identidade pessoal, já que mais da metade dos
artigos (57,5% ver tabela abaixo) eram escritos pelos próprios sócios (MARTINS, 1995).
Nesse estudo, a autora divide os artigos da Revista de acordo com a Tabela 3.
Tabela
3
: Levantamento de Artigos por AssuntoAno Café Cana Mão- de-obra Colo nizaç ão Gênero Alimen . Gênero Industr. Ensino Agrícola Agricultura Nacional Crédito Agrícola Técnica Agrícola Total de Artigos
1869 0 3 0 0 2 1 1 1 0 4 12
1870 1 10 0 0 0 1 2 0 0 19 33
1871 1 3 0 0 2 2 0 1 0 10 19
1872 6 3 1 0 8 1 1 2 0 15 37
1873 0 1 0 0 2 1 1 0 0 9 14
1874 4 1 1 0 2 1 0 1 1 12 23
1875 0 1 1 0 1 0 1 1 0 14 19
1876 3 3 0 0 2 8 0 0 0 1 17
1877 3 1 0 0 0 4 0 1 0 1 10
1878 1 1 4 1 1 0 0 5 1 6 20
1879 1 2 4 4 0 0 0 2 0 4 17
1880 1 0 10 5 1 0 0 6 5 8 36
1881 0 0 0 0 0 2 0 0 0 7 9
1882 4 10 1 0 1 4 0 4 1 14 39
1883 5 3 2 1 2 1 3 1 0 10 28
1884 3 3 1 1 1 0 5 3 1 10 28
1885 1 9 0 0 1 0 1 0 0 18 30
1886 0 2 2 1 0 0 1 1 0 9 16
1887 0 3 1 0 5 0 6 0 0 10 25
1888 2 0 0 0 0 2 0 0 0 5 9
1889 1 2 0 0 0 1 0 0 0 4 8
1890 1 2 0 0 0 3 0 0 0 2 8
1891 1 0 2 2 0 0 0 2 0 3 10
Total 39 63 30 15 31 32 22 31 9 195 467
% 08 13 06 03 07 07 05 07 02 42 100%
Fonte: adaptado de MARTINS, 1995, p. 87
148 Esses artigos tinham autoria devidamente reconhecida geralmente no final do texto, no canto inferior direito. Porém, dos poucos artigos assinados por estrangeiros, existem poucas menções sobre de onde foi retirado.
De acordo com a análise dos artigos destacados no trabalho de Martins (1995,
p.87-88), o item mais freqüente pela Revista foi o de Técnicas Agrícolas, o qual inclui temas como
“mecânica agrícola, adubação e técnicas de recuperação de solos cansados, análises químicas
referentes a sementes, solos e qualidade da água, sistemas de rotação de cultura, etc.”. A
autora afirma que essa quantidade de artigos técnicos “demonstra a força salvadora que se
reconhecia no desenvolvimento técnico para recuperar a lavoura fluminense”, no entanto, os
gastos necessários não estavam ainda reconhecidos como investimento do fazendeiro. Na
realidade, observaremos na seção sobre Conhecimentos Técnicos a ocorrência de dezenas de
equipamentos e máquinas.
De um modo geral, Martins (1995, p. 86) defende que a Revista Agrícola apostou na
“ênfase à questão técnica” para “resolver os impasses criados pela escravidão e a destruição
dos solos causada pela falta de informação e ignorância”. Isso se verifica não somente na
divulgação dessas técnicas, mas também de artigos que auxiliam e sustentam a necessidade de
cuidados com o solo, como análises químicas de solos e vegetais.
Ao examinarmos o segundo tema mais freqüente, cana-de-açúcar, em conjunto com o
terceiro, café
149podemos inferir que o empenho do IIFA estava diretamente vinculado ao
interesse dos grandes fazendeiros. Mas não podemos deixar de contemplar os interesses gerais
do IIFA em “animar, facilitar e dirigir os progressos e desenvolvimento de nossa agricultura”
(MELLO, 1861, p. 11). Ou seja, ao considerarmos a mentalidade de grande parte dos
fazendeiros brasileiros da época, parece ser mais válido, do ponto de vista econômico, investir
em culturas já existentes do que propor novas.
149 Observou-se, mesmo que o número de artigos sobre a cana (63) seja superior aos de café (39), ao contabilizarmos o número de páginas verificamos que não houve prioridade, com 395 e 343 páginas, respectivamente.