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Caracterização

No documento RIO DE JANEIRO 2010 (páginas 118-122)

III.1 A Revista

III.1.2 Caracterização

A Revista Agrícola publicou centenas de artigos

145

em seus 90 números entre os anos

de 1869 e 1891, a publicação tinha em média de 55 páginas. A ausência de autoria

146

, bastante

presente, tornou-se um obstáculo na análise dos artigos

147

. Algumas matérias extensas eram

encontradas em diversos números, enquanto que outras se estendiam integralmente numa

edição exclusiva. De uma forma geral, os textos eram em coluna única com grande parte das

ilustrações dispostas em páginas inteiras, os textos se encontravam distribuído sem seções. As

diferentes redações não buscaram uniformizar o uso de seção e a proporção de temas.

A ideia inicial era que a Revista tivesse uma freqüência de publicação temporária de

três em três meses, para depois atingir uma meta mensal ou quinzenal, no entanto as

impressões se mantiveram trimensais, com exceção de um número extra no ano de 1872.

A insuficiência de dados técnicos sobre a Revista, assim como do próprio Instituto,

inviabilizou uma abordagem mais detalhada da tiragem dos exemplares. Sobre a distribuição

entre instituições internacionais, foi encontrada uma matéria, em 1888, intitulada Associações

a que é remetida a Revista Agrícola (REVISTA AGRÍCOLA, 1888, p. 101-120), que cita 324

instituições voltadas para a agricultura (Ver Anexo IV), como sociedades, departamentos

governamentais e universitários, institutos e periódicos, de 22 países de todos os continentes.

Entre os países listados, a maior ocorrência acontece na França (97), Alemanha (68) e Estados

Unidos (53). Mesmo que esse dado não demonstre a frequência com que eram enviados os

exemplares, isso ressalta que a Revista Agrícola tinha um alcance mundial.

145 Alguns artigos não são devidamente separados, tornando confuso o que seria sua continuação através de um novo assunto, ou um novo artigo. Como muitos não são assinados, essa confusão torna-se mais severa. Outro aspecto foi considerar cada notícia como um artigo, dessa forma, o presente trabalho reconhece 1081, enquanto que Martins encontrou 467.

146 Ressalto a possibilidade da inexistência de algumas autorias estar relacionado com aspectos característicos da vulgarização científica no século XIX.

Dessa forma o Instituto, que dispunha de muitos intelectuais, trocava ideias com

grande parte do mundo. Mesmo que muitos artigos sejam traduções e/ou adaptações de textos

estrangeiros

148

, a Revista Agrícola mantém sua identidade pessoal, já que mais da metade dos

artigos (57,5% ver tabela abaixo) eram escritos pelos próprios sócios (MARTINS, 1995).

Nesse estudo, a autora divide os artigos da Revista de acordo com a Tabela 3.

Tabela

3

: Levantamento de Artigos por Assunto

Ano Café Cana Mão- de-obra Colo nizaç ão Gênero Alimen . Gênero Industr. Ensino Agrícola Agricultura Nacional Crédito Agrícola Técnica Agrícola Total de Artigos

1869 0 3 0 0 2 1 1 1 0 4 12

1870 1 10 0 0 0 1 2 0 0 19 33

1871 1 3 0 0 2 2 0 1 0 10 19

1872 6 3 1 0 8 1 1 2 0 15 37

1873 0 1 0 0 2 1 1 0 0 9 14

1874 4 1 1 0 2 1 0 1 1 12 23

1875 0 1 1 0 1 0 1 1 0 14 19

1876 3 3 0 0 2 8 0 0 0 1 17

1877 3 1 0 0 0 4 0 1 0 1 10

1878 1 1 4 1 1 0 0 5 1 6 20

1879 1 2 4 4 0 0 0 2 0 4 17

1880 1 0 10 5 1 0 0 6 5 8 36

1881 0 0 0 0 0 2 0 0 0 7 9

1882 4 10 1 0 1 4 0 4 1 14 39

1883 5 3 2 1 2 1 3 1 0 10 28

1884 3 3 1 1 1 0 5 3 1 10 28

1885 1 9 0 0 1 0 1 0 0 18 30

1886 0 2 2 1 0 0 1 1 0 9 16

1887 0 3 1 0 5 0 6 0 0 10 25

1888 2 0 0 0 0 2 0 0 0 5 9

1889 1 2 0 0 0 1 0 0 0 4 8

1890 1 2 0 0 0 3 0 0 0 2 8

1891 1 0 2 2 0 0 0 2 0 3 10

Total 39 63 30 15 31 32 22 31 9 195 467

% 08 13 06 03 07 07 05 07 02 42 100%

Fonte: adaptado de MARTINS, 1995, p. 87

148 Esses artigos tinham autoria devidamente reconhecida geralmente no final do texto, no canto inferior direito. Porém, dos poucos artigos assinados por estrangeiros, existem poucas menções sobre de onde foi retirado.

De acordo com a análise dos artigos destacados no trabalho de Martins (1995,

p.87-88), o item mais freqüente pela Revista foi o de Técnicas Agrícolas, o qual inclui temas como

“mecânica agrícola, adubação e técnicas de recuperação de solos cansados, análises químicas

referentes a sementes, solos e qualidade da água, sistemas de rotação de cultura, etc.”. A

autora afirma que essa quantidade de artigos técnicos “demonstra a força salvadora que se

reconhecia no desenvolvimento técnico para recuperar a lavoura fluminense”, no entanto, os

gastos necessários não estavam ainda reconhecidos como investimento do fazendeiro. Na

realidade, observaremos na seção sobre Conhecimentos Técnicos a ocorrência de dezenas de

equipamentos e máquinas.

De um modo geral, Martins (1995, p. 86) defende que a Revista Agrícola apostou na

“ênfase à questão técnica” para “resolver os impasses criados pela escravidão e a destruição

dos solos causada pela falta de informação e ignorância”. Isso se verifica não somente na

divulgação dessas técnicas, mas também de artigos que auxiliam e sustentam a necessidade de

cuidados com o solo, como análises químicas de solos e vegetais.

Ao examinarmos o segundo tema mais freqüente, cana-de-açúcar, em conjunto com o

terceiro, café

149

podemos inferir que o empenho do IIFA estava diretamente vinculado ao

interesse dos grandes fazendeiros. Mas não podemos deixar de contemplar os interesses gerais

do IIFA em “animar, facilitar e dirigir os progressos e desenvolvimento de nossa agricultura”

(MELLO, 1861, p. 11). Ou seja, ao considerarmos a mentalidade de grande parte dos

fazendeiros brasileiros da época, parece ser mais válido, do ponto de vista econômico, investir

em culturas já existentes do que propor novas.

149 Observou-se, mesmo que o número de artigos sobre a cana (63) seja superior aos de café (39), ao contabilizarmos o número de páginas verificamos que não houve prioridade, com 395 e 343 páginas, respectivamente.

Na realidade, a grande concentração de artigos de café e cana foi acompanhada pela

recorrência de pragas agrícolas em ambas as espécies em quase todo o território nacional. O

IIFA que já vinha exercendo pesquisas de campo e de análises químicas, através das

comissões e do laboratório do Instituto, acumulou grande quantidade de dados a serem

divulgados.

No entanto, isso não exclui a atenção da Revista em defender uma diversificação na

produção agrícola. Pois conforme agrupamos os itens gêneros alimentícios e industriais,

vemos que a soma dos percentuais é quase o dobro do café.

Com menor ênfase nas análises quantitativas, o presente trabalho se focou no modo da

divulgação dos conhecimentos voltados para o desenvolvimento agrícola. Utilizando a

seguinte divisão, que será analisada pormenorizadamente nas seções subsequentes:

1. Divulgação de Novas e Velhas Propostas de Cultivos Agrícolas: Com pouco

mais de cem artigos, tais publicações eram a principal fonte de informação

para o leitor agrícola, oferecendo informações sobre o preparo do solo, o modo

de preparar o produto para a venda, etc.

2. Conhecimentos Científicos voltados para o desenvolvimento agrícola: Esses

artigos forneciam o embasamento teórico para entender melhor as propostas e

as técnicas voltadas para agricultura. Possuíam pouco mais de 150 textos,

muitos desses sem autoria reconhecida.

3. Conhecimentos Técnicos: Essa categoria engloba, dentre outras informações

sobre atividades agrícolas, a divulgação da mecânica agrícola.

No documento RIO DE JANEIRO 2010 (páginas 118-122)