I.1 Problemas da Lavoura
I.1.1 Falta de mão-de-obra
O país aceitou a cessação do tráfico movido por altas considerações morais e políticas, que melhor que eu sabeis [sic]. A força foi impotente para conseguir esse resultado. A maior nação marítima do mundo cobriu o oceano de seus vasos, bloqueou as costas d’África, coalhou nossos mares territoriais de seus cruzadores, atacou nossas costas e fortalezas, praticou atos de jurisdição em nosso território, sem nada conseguir (SOUZA, 1866, p. 18).
A falta de mão-de-obra se amplia com a pressão abolicionista ao governo brasileiro de
origem interna ou externa. A Inglaterra, país com o qual o Brasil tinha uma grande relação de
dependência comercial e política, foi um dos que pressionava pela abolição do trabalho
escravo influenciando a iniciativa brasileira. Na segunda metade do século XIX, as idéias
contra a escravidão já estavam em pleno funcionamento. As leis abolicionistas como a Lei
Eusébio de Queiros de 1850 e da Lei do Ventre Livre de 1871, mostraram o compromisso de
se fazer uma transição do regime escravo para o livre em diversas fazendas pelo Brasil
(Figura 1). Claro que o tráfico interprovincial, das províncias do norte do país para os cultivos
lucrativos como o café na região sudeste, ainda mantiveram-se como atividade lucrativa e
compensatória ao tráfico africano em grande parte do território brasileiro, apresentando mais
de 26 mil importações de escravos pela província do Rio de Janeiro nos oito anos após 1850
(SOARES, 1860). Engerman (1983) demonstra que os países que usam escravos na produção
de açúcar, como o Brasil, tiveram sua produtividade comprometida no final do século XIX,
em especial após os anos 70. Em contrapartida, os países que possuíam outro regime de
trabalho, como o de contrato, tiveram sua produtividade incrementada.
Fig. 1 Casamento de negros de uma família rica de Debret (FONTE: people.ufpr.br)
Silva (1985) defende que “os gastos com a manutenção da escravaria são constantes e
pesados demais para serem desconhecidos pelo fazendeiro” (SILVA, 1985, p. 23). O autor
cita um artigo d’O Auxiliador
15que faz uma série de comentários e cálculos entre o trabalho
escravo em comparação com o trabalho livre. Nesse artigo avalia-se uma diferença em favor
do trabalho livre de mais de 700 mil réis, considerando 600 mil réis o preço do escravo que
possui um custo de manutenção diária de aproximadamente 200 réis, e o trabalhador livre
recebendo uma diária de 800 réis em 12 anos de trabalho. “O que os intelectuais da SAIN
16não levaram em conta (...) era a inexistência, no Brasil, de um mercado de trabalho livre”
(SILVA, 1985, p. 25), pois os colonos tinham acesso a terra para cultivar seus próprios
produtos agrícolas, e fora da agricultura existia salários melhores sendo pagos.
15 O Auxiliador (1833-1892) foi o periódico mensal da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN). “Comparação entre o Custo do Trabalho Escravo e do Trabalho Livre”, O Auxiliador da Indústria
Nacional, Rio de Janeiro, 5 (9) p. 324-326, fevereiro de 1851.
16 A Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (1825) foi responsável pelos melhoramentos da agricultura e na indústria, além de possuir seu periódico mensal, realizava distribuição de máquinas, mudas e sementes para diversas províncias do Império.
No Congresso Agrícola de 1878
17foi proposto para suprir a demanda de “braços” o
incentivo à colonização européia, a importação de trabalhadores chineses (“chins”), a
mecanização da mão-de-obra
18(CONGRESSO AGRÍCOLA, 1878). A colonização européia
não era novidade no Brasil, sendo feita desde o início do século XIX. Os colonos muitas
vezes se prejudicavam, seja durante o percurso para o país ou até mesmo nas fazendas. Eles
realizavam contratos de importação através de companhias que ganhavam por indivíduo
migrado, e, que visando um aumento no lucro, colaboram para a péssima situação do colono
no Brasil, com transporte precário e alimentação ruim. Nas fazendas muitos se viam numa
situação servil derivada de dívidas e juros altos. As colônias, antes nas mãos de terceiros,
foram incorporadas ao poder imperial que tentou centralizar e regulamentar essa atividade
(LOBO, 1980).
A importação de trabalhadores asiáticos, também bastante conhecida através da
experiência de cultivo de chá no Jardim Botânico, não parecia ser uma situação diferente dos
escravos negros explorados aqui. Sua vantagem em relação aos europeus se baseava nas
condições inferiores à que se submetiam, com menores salários e nenhum vínculo com a terra.
Dócil, paciente, submisso, por demais sóbrio, o chim contenta-se com pequeno salário, que não pode satisfazer as necessidades mais imediatas do europeu, a quem portanto oferece temerosa competência. (...) O chim é unicamente trabalhador a salário; não se liga à terra estranha, não adota segunda pátria, não funda família; tornar ao seu país, cumprido o seu mais ou menos prolongado contrato, é o ponto de mira das suas ambições. (itálicos meus) (SILVA, 1879, p. 5)
Apesar da importação dos chins ser um assunto valorizado no Congresso Agrícola de
1878, ela não teve uma repercussão em território nacional devido à oposição de diversos
grupos que viam tal submissão com maus olhos.
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Evento organizado pelo governo imperial, o primeiro do gênero e que obteve repercussão nacional, foi realizado na cidade do Rio de Janeiro em julho de 1878 e reuniu agricultores das principais regiões brasileiras produtoras de café: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. A razão da convocação de um Congresso Agrícola a realizar-se na sede do Império foi, segundo representantes do governo, encontrar formas de auxiliar a lavoura “do país” e impulsionar seu desenvolvimento. Isto seria feito através de um questionário a ser respondido pelo conjunto dos participantes (SIMÃO, 2001).
18 Embora tais ideias surgissem bem antes da existência do Congresso, este as apresenta de forma a considerar as características regionais das províncias participantes (RJ, SP, MG e ES).