III.2 Novas e Velhas Propostas
III.3.2 Mecânica Agrícola
Art. 43. O Instituto publicará no seu periódico as memórias e descrições das máquinas e modelos, e além disto fará constar sua existência aos fazendeiros e lavradores da Província por meio das Comissões Municipais.(ESTATUTO DO IIFA)
Para este trabalho, a Mecânica Agrícola englobará tanto as máquinas a vapor,
comumente difundidas após a 1ª Revolução Industrial, quanto os diversos equipamentos,
como arados, extirpadores, etc. A importância da divulgação destes artigos residia no aumento
da produtividade decorrente da “extensão do corpo humano”, seja na atuação direta na terra e
seus cultivos (Máquinas que geram melhorias para o solo), ou no beneficiamento da lavoura
(Máquinas que auxiliam no beneficiamento de produtos). Veremos mais adiante publicações
sobre a utilização dessas máquinas e alguns exemplos.
Noventa e duas máquinas foram apresentadas e/ou analisadas na Revista, destas trinta
e três eram máquinas que geram melhorias para o solo, e as cinquenta e nove restantes eram
do tipo máquinas que auxiliam no beneficiamento de produtos. A explanação sobre as
máquinas teve destaque nas redações de Miguel Antônio e, em particular, na de Nicolau
Moreira que dedicou uma seção fixa para o tema com muitas ilustrações
201. Conforme já
explicitamos, os artigos de química e fisiologia vegetal sofriam influência francesa e alemã, já
a seção de Mecânica da Revista se inspirava nas iniciativas ocorridas nos Estados Unidos das
Américas, apresentando exemplos de iniciativas bem sucedidas de produtividade e de como
utilizar as mesmas.
Apesar da seção fixa e do número de máquinas apresentadas ao público podemos
afirmar pela leitura dos artigos, que a Revista Agrícola acompanhou superficialmente as
201
Mesmo com a seção fixa de Moreira, foram considerados outros artigos que comentassem sobre o tema.
invenções de máquinas voltadas para agricultura no mercado europeu e norte-americano.
Muitos dos artigos aparecem sem discussões aprofundadas sobre a importância e o
funcionamento do equipamento. Os artigos, em geral, eram superficiais, restritos às
informações técnicas e, na maioria das vezes, as informações divulgadas eram apenas
ilustrativas. Porém, nos mais completos, pudemos perceber que os autores contemplavam
diferentes aspectos da mecanização rural, como a estrutura física do solo e a questão do
trabalho escravo na lavoura brasileira.
A partir da análise dos artigos que comentavam sobre o funcionamento do
equipamento, pudemos observar que poucos consideravam a possibilidade de substituição das
suas partes integrantes por outras a serem compradas, adaptadas ou confeccionadas. É
provável que essas informações tenham se baseado nas atividades de Glasl na Oficina do
IIFA. De forma a manter a funcionalidade das máquinas, a Revista divulgava meios de fazer a
sua manutenção.
As peças destas máquinas de um mesmo tamanho são iguais entre si. Esta condição peculiar às ceifadoras “Clipper” lhes é de grande vantagem para a exportação, porque, se alguma destas peças vem a faltar ou quebrar-se, pode ser facilmente substituída por outra (REVISTA AGRÍCOLA, 1872c , p. 31).
Outros artigos que classificamos como de conhecimentos técnicos, ou científicos
202,
complementavam as informações sobre a Mecânica Agrícola, auxiliando na compreensão de
conceitos básicos sobre o manejo do solo e o beneficiamento do produto. Não se sabe ao certo
se a superficialidade dos artigos de Mecânica era de interesse dos redatores, mas podemos
afirmar que esse meio de divulgar as inovações funcionava como uma verdadeira vitrine das
máquinas comercializadas no Brasil, se assemelhando a propagandas comerciais desses
produtos.
Máquinas que geram melhorias para o solo
O discurso inicial da Revista Agrícola girava em torno dos benefícios dos cuidados
com a terra, ressaltando a necessidade e urgência do uso de fertilizantes e da mecânica
agrícola
203para o melhoramento do solo. Mas, no período em que Nicolau Moreira foi
redator, observamos que esse discurso deixa de existir, e a Revista passa a publicar pequenos
artigos com curtos informes sobre os maquinários, muitos apresentando somente figuras sem
explicação alguma.
Dionysio Gonçalves Martins
204comenta que “o mais importante de todos os
instrumentos de trabalho é sem contestação o arado”, responsável pelo revolvimento e
descompactação do solo, viabilizando o crescimento e desenvolvimento das raízes
(MARTINS, 1873, p. 8). Apesar da Revista divulgar outros instrumentos agrícolas mais
específicos, cruciais para a saúde física do solo, o arado, tem sua importância ressaltada, por
ser mais generalista.
Na marcha geral da civilização cabe-lhe [arado] o primeiro lugar entre as aplicações do engenho humano, assim como foi também a primeira arma defensiva do trabalhador nos tempos primitivos. A antiguidade acreditava ser um Deus o inventor de semelhante mecanismo e levava as exagerações do seu culto a ponto de divinizar os próprios animais que se jungiam à Charrua (MARTINS, 1873, p. 8)
O uso de outras ferramentas complementares ao arado proporciona explorar solos
considerados inférteis, pois à medida que se revira a terra, ele revigora a terra com ar, água e
possíveis fertilizantes diluídos. Onde o arado não pudesse intervir por alguma dificuldade,
essas ferramentas atuavam, retirando tocos (extirpadores de tocos) quebrando torrões duros e
203 Talvez isso ocorra devido à influência do diretor da Fazenda Normal, o dr. Carlos Glasl, que também foi responsável pela direção da Oficina da Fazenda e de confeccionar e inventar instrumentos agrícolas.
204 Dionysio (1837-?), membro do Imperial Instituto Bahiano de Agricultura, foi deputado da província da Bahia (1868-1872), um dos que votaram a lei da abolição da escravidão e o “primeiro que no parlamento fez sentir a necessidade do ensino agrícola, iniciando o projeto que concedia uma subvenção à Escola Agrícola da Bahia” (BLAKE, 1893, p. 185)
ressecados (máquinas de destorroar), retirando raízes (arrancador de raiz, ver Fig. 26) e
uniformizando o solo (grades).
Fig. 26 Arrancador de raízes de Delahaye (1886)
Como resultado desse sistema de preparo do solo, a Revista vinculava algumas
consequências do bom uso dessas ferramentas, como um solo sadio que resultava num melhor
aproveitamento das terras e maiores lucros. A. M. Rodrigues ao comparar o uso desse sistema
em outras civilizações, reconhece algumas vantagens.
Com o sistema aratório a terra é sempre cultivada de pais a filhos e netos: a uma laboriosa geração sucede outra que aumenta a riqueza do campo herdado com a inteligência, economia, e trabalho: as boas ideias, os úteis inventos, as bem sucedidas experiências trocam-se de próximo em próximo, analisam-se, discutem-se, espalham-discutem-se, abraçam-se e transmitem-se com rapidez admirável: os hábitos pacíficos, os bons costumes, as honradas tradições e os puros afetos de família crescem, medram, e enraízam a vontade no lar doméstico (RODRIGUES, 1880, p. 174).
Quanto à questão da escravidão, a divulgação da mecanização rural não somente é
incompatível, como também é um importante argumento para seu fim. O lavrador brasileiro,
que já presenciava problemas monetários e de gestão, deveria arcar com novos custos e
demandas da obtenção e manutenção de novas máquinas. E, ao considerar as atrocidades do
decadente regime servil, tornava pouco provável o escravo buscar conhecimentos para o
manejo dessas máquinas. Ou seja, inviável manter um paralelo com a antiga gestão.
Como era de se esperar, alguns artigos tocaram nesse ponto. O que se constitui uma
particularidade bem específica, já que a abolição da escravatura é pouco mencionada nos
artigos da Revista, o que pode indicar a sua ligação com os grandes proprietários rurais.
Será mais um poderoso elemento de progresso (Máquina de arar Thompson) para um país essencialmente agrícola, como é o nosso. Meio poderoso de substituir os braços na lavra dos campos, esse melhoramento deve ser aceito na época em que se trata no Brasil de abolir a escravatura nacional (SILVA, 1871, p. 46)
O braço livre, cuja substituição ao braço servil é a primeira condição a observar no progresso agrícola, necessita ser devidamente estimulado para que possa preencher espontanea e judiciosamente a tarefa até aqui confiada a indivíduos sem reflexão nem vontade, colocados sob a pressão do servilismo de nossa instituição colonial. É preciso reabilitar em nossos campos o trabalho manual, (...). A força brutal, diz Blanqui, pode conquistar, mas só a verdadeira liberdade pode conservar e civilizar. (MARTINS, 1873, p. 5).
Máquinas que auxiliam no beneficiamento de produtos
Mesmo que o Brasil fosse considerado um país essencialmente agrícola, e com
produção abundante, temos de ponderar sobre a aceitação do produto no mercado exterior e a
importância do beneficiamento nessa questão. Para tal, a Revista divulgava uma série de
máquinas que aceleravam e auxiliavam em diferentes processos, da colheita ao porto
exportador.
Numa sobreposição com as máquinas do solo discutidas anteriormente, temos toda
uma gama de equipamentos para a colheita de diversos produtos agrícolas. Ceifadeiras a
vapor, ou puxadas por cavalos, cortavam o vegetal (basicamente cereais como o trigo e o
milho) rente ao chão; máquinas de colher batata revolvem o solo de modo “a projetar os
tubérculos para ambos os lados do sulco traçado pela charrua” sem machucá-los (REVISTA
AGRÍCOLA, 1880, p. 42).
Após a colheita é que começa o princípio do beneficiamento, onde o vegetal deverá
ser preparado para as etapas mais elaboradas, associando produtividade e integridade do
produto. Nota-se que a medida que o tempo passa, os inventos se tornavam cada vez mais
específicos. “Desgranadores” (Fig. 27) retiram os grãos das espigas de milho (3);
descascadores especiais para mandioca, arroz e café; “Joeiradores” separam os diferentes
grãos de aveia (2), cevada e trigo, de partes não comerciáveis; Limpadores de sementes (1);
“Descaroçadores” de algodão (4).
Fig. 27 Desgranador de Milho (1885)
O tipo de beneficiamento a ser adotado dependeria da espécie vegetal e do mercado
em questão. A Revista publicou artigos sobre a secagem (2) e o preparo do café (2); moagem
de cana (3) e de cereais (3); evaporadores e extratores do caldo da cana para o fabrico do
açúcar (4); Máquina para peneirar tabaco (1), preparar o talo das folhas (1), e cortar fumo em
rolo (1); Esmagador de bolos alimentícios para alimentação animal (2); Aparelhos de cozinhar
a vapor (2).
Temos um destaque em particular, a publicação da descrição de engenhos completos
do café e da cana, por serem os produtos mais estudados e com um forte mercado
consumidor. Miguel Antônio da Silva descreve brevemente um Engenho completo para o
preparo do café do Sr. Eduardo Batista Roquette Franco
205(1876) que descasca, despolpa,
separa e cata os grãos do café (Fig. 28).
Fig. 28 Engenho completo para o preparo do café do Sr. Eduardo Franco (1876)