“A fragilidade vivida conscientemente pelo homem, sua individualidade e seu relacionamento com os demais fazem da experiência da dor, da doença e da morte uma parte integrante de sua vida. A habilidade de lidar com essa trinca é de fundamental importância para sua saúde”. ILLICH 50
A principal inovação oferecida pela internet é a capacidade de realizar pesquisas eletrônicas e localização das fontes de informação de forma muito rápida. E quando se fala em produção científica na área de saúde, diz-se da informação que é difundida nos mais diversos suportes e nas mais variadas vertentes.
Em um primeiro aspecto, a rede serve simplesmente como um veículo de acesso mais rápido e conveniente à informação médica disponível. Mas, de uma maneira geral, os sites sobre saúde visam informar o internauta sobre a prevenção das mais variadas enfermidades, muitas vezes antes mesmo que seja consultado um médico. A ideia é funcionar como uma base informativa, um suporte teórico fundamentado em bibliografia médica oficialmente aprovada e reconhecida.
Portanto, “existe um enunciador que precisa manipular um enunciatário, para que se estabeleça um laço, uma convivência, que acaba por garantir a própria sobrevivência do serviço” (HERNANDES, 2006. p. 236).
Sabbatini ([R] 2004, apud KENSKI, 2004), argumenta que o uso desses recursos pelo público leigo em busca de informações sobre saúde, “revolucionou a relação entre médico e 7paciente. Muitas pessoas passaram a ‘discutir’ os pareceres, trocar ideias e se envolver mais
com seus problemas de saúde, depois de se informar sobre doença e saúde na internet” (grifos
da autora).
No tocante ao panorama das estruturas dos Portais da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade Brasileira de Diabetes, observa-se que eles são desenvolvidos pelas instituições ligadas diretamente ao campo médico e científico. Acredita-se, portanto, que têm como característica a divulgação de informações pertinentes ao campo específico de
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ILLICH, Ivan. (1975). A expropriação da saúde: nêmeses da medicina. (Trad. de José K. de Cavalcanti). 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 19[?].
cada um deles, bem como “adquirem legitimidade” para assim o fazer. Pode-se afirmar que o discurso instaurado, já por si só se legitima. Remete-se, aqui, às considerações de Guerrero, quando diz que “a presença do nome da entidade, com palavras como ‘centro de estudos’, ‘instituto’” (2003, s/r - tradução da autora), ou sociedade vinculada a uma determinada instituição, servem para dar uma certa credibilidade e validade, - embora não só. Competem, também, para isso, dentre outros fatores: a procedência das fontes, “conduta ética; o respeito à dignidade e à liberdade; a solidariedade intelectual e moral, que permite que os benefícios do progresso beneficiem a humanidade” (GUERRERO, 2003 s/r – tradução da autora). Estes princípios são aplicáveis aos investigadores e aos organismos e instituições, em âmbito local, regional, nacional ou internacional.
Em ambos os Portais são vários os enunciatários, mas eles “adquirem autoridade e credibilidade para falar do assunto específico” – partem de especialistas ou “falam em nome de” Instituições. É por meio deles que “pessoas autorizadas”, tais como médicos e especialistas, podem colaborar e tirar as dúvidas dos ciberleitores, por meio de diversos meios digitais, como gravações de áudio e vídeo, desenhos animados, imagens e textos interativos, etc. e, assim, “falar com fidelidade” e com “base científica mais sólida” (GUERRERO, 2003 s/r).
Em princípio, os procedimentos e as tarefas são organizados de acordo com as expectativas e costumes dos usuários. Ferrari (2004, p. 30) acredita que as soluções apresentadas para os indivíduos “ajuda a formar comunidades de leitores digitais, reunidas em torno de um determinado tema e interessados no detalhamento do conteúdo e seus respectivos hiperlinks, que surgem em novas janelas do browser” (navegador).
De uma maneira geral, em suas arquiteturas, os sites analisados apresentam manifestações gráficas e plásticas que podem valorizar ou “silenciar” determinados aspectos. E, portanto, direciona para diferentes efeitos de sentido. O sujeito é uma posição e um efeito do discurso, ou seja, não “é o indivíduo, sujeito empírico, mas o sujeito do discurso que carrega consigo marcas do social, do ideológico, do histórico e tem a ilusão de ser a fonte do sentido” (GRIGOLETO, 2005. p. 1). Assim, “o sujeito é, desde sempre, afetado pelo inconsciente e interpelado pela ideologia” (GRIGOLETO, 2005. p. 1).
O caminho hipertextual a ser realizado pelo internauta pode ser visto como estratégia enunciativa, que tenta organizar ou dirigir a passagem do usuário pelas páginas (HERNANDES, 2006. p. 244). Ressalta-se que o discurso gráfico difere do discurso verbal por operar basicamente com o nível visual dos elementos na página impressa. Como discurso,
ele possui a qualidade de significação. Existem, portanto, pelo menos duas leituras possíveis de uma página: uma gráfica e outra textua l.
Segundo princípios do design de sistemas hipermídias, o layout de uma página proporciona uma espécie de primeira impressão. Por isso, a página deve ser agradável de ver, com efeitos visuais adequados à transmissão do conteúdo. Na internet, “persuadir é fazer” - de uma forma não muito evidente, por um apelo às sensações e à emotividade humanas.
A pretensa interatividade, no caso do CARDIOL (na rede desde 1996: <www.cardiol.br>), simula ambientes de abordagem individualizada, com pouca diversidade de escolhas (quantidade de alternativas). “A interatividade permite ações participativas e ativas por parte do utilizador entre diferentes cenários possíveis” (GALVÃO, 1999 s/r). Essas constatações corroboram as observações de Orlandi (2001, apud HERNANDES, 2006, p. 252), que diz tratar-se de tática de dissimulação do caráter massivo.
O conteúdo tende a ser pouco variado – a atualização é feita em um período mais longo, não identificado pela pesquisadora. E, mesmo com email enviado na sessão “contatos”, a informação sobre esse dado não foi obtida.
No DIABETES, que tem a homepage lançada desde 1997, (<www.diabetes.org.br>) as opções são mais concretas. A interação é mais direta e clara. O ciberleitor tem vez e voz, até porque há a possibilidade de “blogar”.51 O conteúdo, apesar de segmentado, é diferenciado - para instigar a curiosidade dos diversos segmentos do público-alvo. Há detalhamento de matérias, que se abrem para outras jane las. De acordo com uma das editoras, a atualização é diária.
Ambos disponibilizam informações do ponto de vista do médico e do paciente. Embora, o Cardiol estabeleça um limite bem nítido, já no acesso à página, como que uma pré- página. Este fato pode configurar discurso de poder – da comunidade científica primária para o público/sujeito.
51 Considerando blog como forma de relacionamento, o ato de “blogar”. é um “desejo manifesto” de sentir-se
parte de uma “comunidade” de pessoas que se interessam pelo mesmo assunto que o seu (PEREIRA, 2006). Postado em: <http://webinsider.uol.com.br/index.php/2006/03/07/sobre-o-ato-de-blogar-e-a-etica-invisivel-dos- blogs>). Apontado por Marcuschi como um dos gêneros digitais emergentes, o blog tem como característica uma conversação aberta e multi participativa (MARCUSHI, 2005. p. 29).
Figura 19
Figura 20
A partir de outubro de 2008, a home do CARDIOL mudou o layout de abertura e assim se apresenta, na atualidade:
Figura 21
Estipula, claramente, os objetivos para o público do Portal: “área destinada à
promoção e melhoria na qualidade de vida e da saúde cardiovascular”.
A distinção entre conhecimento técnico ou especializado e leigo legitima a autonomia dos cientistas/especialistas, na tomada de decisões no discurso, sobre assuntos considerados “de especialidade”. Ao mesmo tempo, remete os cidadãos para um espaço de silêncio, ao atribuir- lhe o estatuto de mero observador e consumidor da ciência e da saúde - ou de
informações/conhecimentos pertencentes ao campo (KLEINMAN & KLOBENBURG, 1991;
GIERYN, 1999; IRWIN & WYNNE, 1996; IRWIN, 1995; IRWIN & MICHAEL, 2003; STENGERS, 1997 apud SANTOS, 2005. p. 21-121- grifos da autora).
O Portal da CARDIOL é dividido em quatro partes:
- Banner - Apresenta o site. Contém a identificação da SBC,
o nome do site e uma barra de navegação, na qual se encontrará as informações da home, “quem somos”, “teste o seu coração”, “bate
papo”, “intranet” (só para membros cadastrados), “canais Funcor”.
- Coluna da esquerda - Aonde se pode navegar através de todo o conteúdo do site,
conhecer as outras seções e ver os links da rede. Apresenta o logo da SBC/FUNCOR. A barra de rolagem, portanto, aí está situada, abaixo da identificação da SBC/FUNCOR e da possibilidade de interação, oferecida pelo “Coração online”: “Pergunte a um dos nossos
cardiologistas” – a mensagem que passa é de confiabilidade (se é um dos nossos, você pode
confiar).
- Coluna do meio – dividida em partes, dispostas na horizontal e com elementos
piscantes. A 1ª delas direciona para “Boletim do coração”, “informações úteis”, “enquetes”, “selos de aprovação” (produtos), “teste o seu coração”, “receitas saudáveis”, “o selo na mídia”. É nela também aonde aparecem todas as notícias publicadas no site e o link para o arquivo de notícias. Mais abaixo, “campanhas temáticas”, “selo de aprovação” (“certfique-se
de consumir produtos com o selo de aprovação da SBC”), qualidade de vida (“alimentação saudável e exercícios físicos são essenciais para sua qualidade de vida”).
- Coluna da direita - as sessões “canal em forma” (destaques sobre atividade físicas e
esportivas), nutrição (legitimada, por exemplo, em “Estudo da Associação Médica Americana
revela [...]”), prevenção de doenças cardiovasculares (“confira os artigos do Dr. [...]”;
“aprenda a cuidar de seu coração brincando” (brincadeira de forca).
Exibe um selo de certificação que garante a revisão do site e das informações, segundo os princípios do Código de Conduta da Health on the Net Foundation (HON).
Na “sala de imprensa”, há comunicado sobre as normas para entrevistas a serem concedidas pela Sociedade: “O assessor de comunicação tomará as providências necessárias
para que o departamento e/ou especialista indicado responda, de forma oficial e de acordo com as diretrizes e normas da SBC, [...]. - uma manifestação do “poder do discurso” do