6. ABeL ViANA
6.25. Carta manuscrita, 13,2x17,5cm
Viana do Castelo, 17/9/1948. Meu caro Veiga Ferreira:
Cá recebi o número da Revista. O artigo ficou bem. Muito obrigado. Já escrevi para Beja, a fim de lhe envia- rem sem demora o vale do correio. No artigo há umas ligeiras gralhas que facilmente se emendarão à mão na separata. Eu lhe enviarei um exemplar com a indicação dessas emendas. Parece-me que se poderá fazer como da outra vez, quanto à distribuição. Se você tiver por aí dessas cintas da Revista, que sobram, era favor pintar no pacote das separatas, porque servem admiravelmente para a expedição do nosso trabalho. Desta vez se fará a distribuição mais rapidamente. Podemo-nos regular pelas listas que fizemos da outra vez. Se tem mais algum nome a acrescentar, mande dizer. O Dr. Formosinho fará o mesmo. Vou amanhã passar o dia a Ponte de Lima. Domingo, passá-lo-ei em Perre; Terça-feira, na freguesia das Neves, onde há um famoso castro – uma verdadeira citânia, não explorada –. Na Quinta-feira seguinte vou a Guimarães (3 ou 4 dias); depois a Braga (2 dias); depois ao Porto (2 dias), de onde sigo directamente para Beja. Devo lá chegar em 28 ou 29 do corrente. Sigo pelo Setil. Estou, pois, no fim dos meus trabalhos deste ano, aqui no Minho. Levo amigo apontamentos em barda – uma infinidade de apontamentos para novos trabalhos relativos ao Minho. Mas só pegarei nisto depois de arrumar as coisas de Monchique feitas até esta data. Um abraço do dedicado amigo,
Abel Viana (assinatura)
6.26. Bilhete-postal manuscrito, 14,9x10,5cm
Beja, 4/10/1948.
Meu caro: Já estou a trabalhar em cheio nos nossos estudos de Monchique, a saber: o grande, do qual ando a afinar as gravuras e o texto; e o da nossa última campanha (Buço Preto e Eira Cavada), do qual já pus em ordem as figuras e já redigi parte do texto. Claro que neste último só peguei para deixar a coisa bem ordenada e não perder o fio ao discurso. O outro é que é preciso pôr todo em ponto de ser entregue o mais depressa possível. Em todo o caso, quero assentar consigo no seguinte: Eu farei cá os desenhos dos machados, goivas, etc., assim como as plantas dos túmulos. Terei também de enxertar nos seus desenhos de setas, lâminas, trapézios etc., os respectivos cortes e perfis – coisa que lhe esqueceu fazer nos seus magníficos desenhos. O enxerto é fácil, sem prejudicar a arte com que você desenhou. Agora o que convinha é que você fosse tratando da fotografia de todos os objectos do espólio. Eu achava preferível que as fotografias fossem feitas por conjuntos do espólio de cada túmulo. Cumprimentos ao Dr. Zby. Que mande dizer quando quer que eu vá a Lisboa. Os tais dois caixotes ainda não saíram de Viana. Seu grato amigo,
6.27. Carta dactilografada com chancela do “ArQUiVo de BeJA / BoLeTim mUNiCiPAL / AdmiNiSTrAÇão”, 21,6x27,6cm
10/10/1948
Meu caro Veiga Ferreira:
Cheguei de Serpa ontem à noite. Estive lá três dias a ver arquivos antigos (Câmara Municipal, Misericórdia, etc.), colecções particulares de arqueologia, numismática, etc., templos e outras coisas. Fui a acompanhar o Dr. Má- rio Beirão, porque, na verdade, eu não tenho agora tempo para me dispersar mais. Vim encontrar a sua carta, com o resto que enviou. Estas pequices do nosso bom Dr. Formosinho colocam-nos perante um problema muito melindroso, que temos de resolver forçosamente com a máxima habilidade. Não o podemos inquietar, e muito menos maguá-lo. Nem por sombras. Os escrúpulos dele, inflamados ao excesso, fundamentam-se naquela maneira de ser que muito bem lhe conhecemos. Sério, coerente, cheio de carácter, vê deslises e perigos por todos os lados. Pena é que, de facto, não esteja mais amplamente informado e suficientemente actualizado, porque se o fora poupar-se-ia e poupar-nos-ia algumas arreliantes divergências no decurso dos nossos trabalhos. Isto é também consequência do isolamento em que passou o melhor tempo da vida e da estreiteza do meio em que tem vivido, assim como do ambiente mesquinho em que tem decorrido o seu inter-câmbio intelectual. Imagine quanto este nosso Amigo não produziria, se estivesse desde mais tempo em convívio mais arejado. Pois se ele até se preocupa com o que poderá dizer, pensar ou julgar o talentoso... o autorizado... Ludovico de Meneses! Parece impossível mas é assim. Em matéria de crítica, põe os olhos muito perto! Veja as preocupações dele com o que diz o nosso bom Amigo Lyster Franco, que eu tanto estimo como amigo a quem nunca poderei ser suficientemente grato, mas que não posso contar sequer entre as pessoas que tenham o mínimo de competência em matéria de arqueo- logia. Mas o Dr. Formosinho é assim. Depois, como sabe, parou no Cartailhac, no Estácio da Veiga e alguns mais desse tempo. Vi atentamente a resposta que o Veiga Ferreira lhe mandou. Creio estar certa e que ele não terá razão para se melindrar. Só em uma coisa ele tem inteira razão – é naquela errada citação bibliográfica, em que, sem propósito nenhum, aparece um trabalho dele, e ainda por cima com o título adulterado. No mais, o Veiga Ferreira argumentou perfeitamente. Aquela dele querer identificar as ruínas de Budens com as de Laccobriga é de uma puerilidade de que nem parece de pessoa que há tanto ano está em contacto com estudos desta natureza, e que é sobejamente inteligente. Ao Veiga Ferreira, que ainda há pouco era um simples principiante, bastou-lhe um único argumento para invalidar a desastrada hipótese. Sabe de uma coisa? O Dr. Lyster Franco é, acima de tudo, um jornalista. Escreve para uma só ocasião, para um único momento, para um único instante, por vezes. Sacrifica, à literatura de mero efeito palavroso, que é a que melhor sabe, ou a única intelegível, à massa, ao vulgo, à multidão letreada, mas não letrada, ou culta. O Ludovico... esse não é nada. Nem jornalista. É um cavalheiro que leu muito e muito depressa, e que tem passado a vida a escrever de tudo e a fingir de sábio. Não passa de um homem de letras fáceis... O Formosinho, a defini-lo rigorosamente, não é jornalista, nem homem de letras, nem sábio, nem quer ser nada disso, quando podia muito bem sê-lo, se o quisesse. Consumiu e continua a consumir a vida naquela bela obra do Museu de Lagos, e tudo o mais para ele é secundário. E é esse zelo, essa freima de valorizar o Museu, que o leva muitas vezes a erros de visão e a graves faltas de diplomacia, porque, como bom algarvio que é, vai logo às do cabo, por pouca coisa. Não sabe ser arqueólogo sem atrair sobre si a fama de chato e de agressivo, facto que tanto prejudicou Leite de Vasconcelos e alguns mais, com grave prejuizo da arqueologia, pois por meios mais brandos e hábeis poderiam ter obtido mais que o muitíssimo que, de resto, conseguiram. Mas olhe que o Formosinho, como muito bem sabe, faz-nos falta e é-nos muito útil. É preciso que ele veja e reveja todos os nossos originais, antes de serem entregues à tipografia. O pior, sem dúvida, é que ele não tem a noção do tempo. Fica-se com as coisas e nunca mais as larga da mão. Algumas vezes porque fica parado em meio de um acervo de dúvidas; as mais das vezes porque se esquece das coisas, e porque é preguiçoso, defeitos que ele
próprio confessa. Mas quando lhe dá para trabalhar, não é peco. Assim, a respeito do nosso trabalho grande das Caldas de Monchique, enviou-me uma comprida lista de observações, e depois uma outra, que bem demonstram que viu conscienciosamente todo o original. Algumas não tinham razão de ser, e até na segunda lista ele próprio anulou várias; outras, porém, e em avultado número, contribuiram para melhorar a redacção original, e até para uma conveniente ampliação do texto.
Acho que não vale a pena estar a emendar na separata a citação bibliográfica que saiu errada. É coisa de pou- ca monta, que em nada altera a doutrina exposta. O leitor inteligente nem fará caso do erro. Os coca-bichinhos tratarão de a assinalar, mas também é preciso dar que entreter a esses pobres diabos, para os quais, aliás, não escrevemos propriamente. Quanto às outras emendas propostas por ele, nem é bom tornar a falar nisso. Nem por sombras elas deverão ser feitas. Em trabalhos futuros mandar-se-lhe-á sempre uma cópia do original, mas o Veiga Ferreira não mandará imprimir sem que eu, consigo e com ele, afinemos absolutamente tudo. É que eu tenho tanto medo da leviandade com que o Veiga Ferreira transcreve os títulos das obras e os nomes dos autores como tenho medo das emendas precipitadas do Formosinho. Fiquemos assentes nisto. Cá fico esperando a sua passagem por Beja. Entretanto, vou continuando a limar os nossos trabalhos. E que notícias me dá do Dr. Zby? Ele quer que eu vá a Lisboa ou não? Tem trabalhado com ele? Diga-me qualquer coisa.
Veja na sua lista quantas são as separatas que devem ser assinadas por nós os 3. Fique já em Lisboa com a sua parte (das não assinadas); leve ao Dr. Formosinho a parte dele; leve também as que devem ser assinadas pelos 3 e, à volta, deixa-me ficar aqui em Beja os exemplares já assinados pelos 2, e que eu enviarei em nome dos três. Combinem préviamente a lista daquelas pessoas a quem vocês os dois, embora em nome dos 3, desejam enviar individualmente. Os meus cumprimentos para Sua Exª Esposa. Um abraço para si.
Abel Viana (assinatura)
6.28. Bilhete-postal manuscrito, 14,9x10,5cm
Beja, 4/11/1948.
Meu caro: Respondo à sua carta de ? Fico ciente de tudo. Acho bem que vá a Espanha. O França deve fazer- lhe boa companhia. Andar sozinho é que é muito aborrecido. Pelo menos é o que me acontece. Estive agora lá 6 dias, dois dos quais em Mérida e o resto em Badajoz. Vi lá imensa coisa romana e visigótica. Mas de viva voz lhe contarei, porque por escrito seria uma série de crónicas e hoje não há tempo para isso. O nosso trabalho grande de Monchique estará pronto em 15 do corrente mês.
O outro estará pronto logo que o meu Amigo me mande as fotografias que está fazendo do material. Quanto ao seu trabalho de “Populações de Monchique”, deixe-me ver aquilo com mais sossego. Levar-lho-ei quando for aí levar o trabalho grande. Salvo se tem grande urgência nele. O orçamento também lho envio. Não vai hoje, por ter começado este postal. Irá na próxima carta que eu lhe escrever. Não estou bem certo de ter mando este último “Arquivo” ao Eng. Acciaiuoli. Acho bom o orçamento da nossa separata. Quanto às Memórias de los Museus, peça-as a J. M. Navascués = Inspección General de Museos Provinciales = Ministério de la Educación Nacional – Madrid. Talvez ele lhas remeta. Do volume VIII, ano de 1947, que é o último, já tenho um exemplar para si. Também lho levarei quando for a Lisboa.
6.29. Bilhete-postal manuscrito, 14,9x10,5cm
Beja, 11/11/1948.
Meu caro: Recebi hoje a sua carta… não sei de quando, porque você ???? o costume de as não datar, e sem datas não há maneira prática de pôr nem a correspondência nem seja o que for, em ordem conveniente. O V. Ferreira não calcula a confusão que me faz e o trabalho que me dá, quando tenho de consultar a sua correspondência, a fim de verificar o que está feito e o que está por fazer. Bem. O nosso trabalho grande ficou concluído ontem à noite. Agora, levo-o eu a Lisboa, mas preciso de que o Dr. Zby me diga quando é que eu posso ir. Por minha parte, também não pode ser antes de 1 de Dezembro, porque tenho de acabar de entregar os meus artigos para o n.º próximo do “Arquivo de Beja” que já recomeçou a compor. De modo que, se não vier daí contra-ordem, sigo para Lisboa no dia 1 ou no dia 2 de Dezembro. A uma ida a Monchique, este ano, estava bem lá para meados de Dezembro, se o meu Amigo não estiver impedido nessa ocasião. Em Lisboa falaremos. Cá espero as fotografias, para ir redigindo o nosso novo trabalho. Não lhe mando nada do que lhe disse no postal, para não provocar con- fusão. Levo em 1 de Dezembro, falo consigo e com o Dr. Zby, e o Veiga Ferreira tem depois até o Natal tempo suficiente para reformar alguns bonecos do trabalho grande. Escrevo hoje ao Dr. Formosinho, a falar no trabalho de que sai a grossa separata. Oxalá não o mandem a Espanha este ano. Os dias são muito pequenos para trabalho no campo. Saúde. Um abraço do dedicado amigo,
Abel Viana (assinatura)
6.30. Bilhete-postal manuscrito, 14,9x10,5cm
Beja, 5/12/1948.
Meu caro: recebi a sua carta assim como o seu trabalho respeitante às moedas visigóticas. Estou bem aborre- cido por essas moedas não terem aparecido em qualquer ponto do Baixo Alentejo. O facto de terem aparecido em Alcoutim impede-me de publicar esse estudo no “Arquivo de Beja”. Foi pena não terem aparecido um pouco mais ao norte. Você dava um alegrão ao Dr. Lyster Franco se publicasse isto no “Correio do Sul”. Quer que eu lhe escreva a tal respeito? Ele se encarregaria de lhe tirar uma separatazinha, que seria coisa barata. Se quer, eu trato disso e depois lhe mando dizer, mas é preciso que me avise se quer ou não. Entretanto, vou dar volta aos meus livrecos, aver se encontro qualquer coisa a respeito das variantes destas moedas: Catalogo do Museu de Soares dos Reis, Catálogo do Museu Nacional de Madride, etc. Do que porventura encontrar lhe mandarei dizer, para o meu Amigo acrescentar ao artigo, se assim o entender. Viu a minha carta, a respeito do Dr. Formosinho, que o Dr. Lyster Franco publicou no último número do “Correio do Sul”? Já antes o jornal tinha falado de si e de mim, a propósito do Formosinho. Veja lá isso. Creio que você recebe o jornal. Recebi carta do Dr. Zby. Mando- -lhe dizer que devo estar em Lisboa no dia 18 do corrente. É um sábado. Ainda na tarde desse dia estarei nos Serviços Geológicos. Antes de lá chegar avisá-lo-ei.
Descansarei aí alguns dias, os precisos para combinar com ele e consigo algumas coisas. Conte, pois, lá comigo. Temos muito de que falar e que combinar. Oxalá o meu Amigo se encontre aí em Lisboa nessa ocasião e o tempo esteja razoável. Quando quer que lhe mande o dinheiro da separata? Responda-me a isto e diga-me se posso falar ao Dr. Lyster Franco no seu artigo. Um abraço do dedicado amigo,