Você foi a primeira capital do Brasil, lugar onde todos começamos. Nascemos as duas no mesmo mês.
Aquele único mês que carrega o mar em seu nome, o mês das águas e das profundezas. Talvez por isso minhas estradas tenham me levado a fazer morada em suas terras. Não queria, mas fui ficando, reclamando, enlouquecendo com suas loucuras tão arianas e me apaixonando pelo seu jeito tão delicioso de convidar meus sentimentos a passear por suas curvas. Quando vi meu sorriso naquela primeira fotografia que tiramos juntas, eu soube. Era amor. Sua cara de pau dizia não achar nenhuma novidade toda a minha descoberta, aí eu fui lá e te amei mais um pouco.
Pode ter sido pelo som que suas ruas fazem, um sotaque que parece um concerto ao qual sempre
quis assistir. Pode ter sido ali no Rio Vermelho, descendo aquela avenida, tomando uma cerveja e olhando o mar agitado de uma praia chamada Paci-ência. Pode ter sido por não importar se o largo era de Santana ou da Mariquita, a gente escolheu tatuar Cira ou Dinha e quem não entender que prove os acarajés.
Pode ter sido pelo cheiro de alfazema da Casa de Iemanjá ali do outro lado da rua, pelo calor que senti enquanto fazia uma reza, pela certeza de que perto da água minha alma fica acesa o tempo todo.
Pode ter sido porque um dia, quando quiseram me salvar de mim, me levaram na Casa de Jorge Amado e tudo fez sentido. Porque senti a sinergia imersa naquele ambiente de amor e livros e árvores e muitas plantas verdes. Porque na cozinha de Zélia, meus olhos encheram d’água tocando em presenças potentes do que não mais está. Pensei no poder que a literatura tem e senti um real privilégio enquanto seguia imersa naquele enredo, sentada naquele jardim da Rua Alagoinhas, olhando a mangueira onde as cinzas do casal se abraçam e lembrando que é também debaixo de uma mangueira que meu avô descansa. Fiz uma prece.
Pode ter sido pela paisagem da orla da Ribeira, que parece uma pintura antiga que vi um dia num museu. Pode ter sido porque quando o metrô foi
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finalmente inaugurado, num vagão ainda meio vazio, me apaixonei por um cabeludo tocando Alceu Valença e não liguei de descer na última estação, só para acompanhá-lo e ter para mim uma história clichê no metrô. Pode ter sido porque você tem um dialeto absurdamente único, me levando a descobrir que não sabia falar o baianês, mesmo tendo nascido e morado a vida quase toda na Bahia. Pode ter sido porque aprendi, além de me comunicar já diplo-mada, a traduzir-te para os amigos de fora que iam me visitar — em você, cidade, a Bahia é outra onda.
Pode ter sido porque no dia em que subi no Farol da Barra pela primeira vez, te olhei de lá de cima e tive uma epifania pronta sobre esse negócio de todo mundo ser d’Oxum. E somos.
Pode ter sido porque no Mercado Modelo me vi entrando num portal onde o sincretismo jogava capoeira muito à vontade. Pode ter sido porque subi incontáveis vezes o Elevador Lacerda, mesmo quando a fila rodava a praça quase toda, só para pular um carnaval de um tempo antigo que só existe no Pelourinho. Pode ter sido porque na primeira vez que pisei naquelas ruas de pedra do pelô, ninguém precisou me avisar: eu senti. Estava em seu coração, Salvador. Ali eu pertencia como poucas vezes consegui pertencer a um lugar. E por isso, um dia
cheguei lá de manhã cedo e fiquei até anoitecer, interagindo, ouvindo histórias, decorando risadas, olhando ao redor e me esbaldando de felicidade enquanto uma mulher negra muito cheia de Bahia trançava os cabelos da minha irmã. Pode ter sido porque quando o Olodum saiu de casa com seus tambores naquele fim de tarde, trovejou cantos do meu corpo que eu nem sabia existir. Pode ter sido porque em todos os anos vivendo você, bastava que algo fosse vivido ali e eu saía arrebatada.
Pode ter sido porque caminhar pelo Campo Grande fazia minha alma cantar Novos Baianos o tempo todo, atravessando a praça Castro Alves, levando o sol na cabeça pela Avenida Sete e pensando em como era massa finalmente ver a cara das músicas do meu berço. Assim ali como também na Lagoa do Abaeté e em Itapuã, com Caymmi, Vinicius e suas ruas de nomes bucólicos. Por onde a gente passa você canta, Salvador. Do Santo Antônio Além do Carmo até a Baixa dos Sapateiros. Tão irre-sistivelmente afinada que eu sempre cedo.
Pode ter sido ainda por não conseguir nunca caminhar da Ondina até a Barra. Pode ter sido porque me perdi algumas vezes na Pituba e porque, apesar de nunca entender onde acaba Brotas e começa o Candeal, imediatamente passei a chamar
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a Luís Viana de Paralela e a Mário Leal Ferreira de Bonocô. Pode ter sido porque quando descobri as sessões improvisadas de jazz no Museu de Arte Moderna, tudo em mim alucinou. Aquela paisagem é um desaforo e nunca mais vi o sol se pondo com tanta vontade de acertar igual ali, naquele mirante.
Pode ter sido pelo tanto de mar adentrando suas f(r)estas, pelos tantos shows na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, onde me arrepiei exatamente todas as vezes e voltei para casa sempre rouca e transtornada de felicidade.
Pode ter sido porque foi com você que descobri que assumir-se torcedor do Bahia ou do Vitória é assinar um atestado seríssimo. Pode ter sido, Salvador, porque em quase toda esquina do centro existe uma Igreja e porque a sensação de estar rodeada pelo sagrado me faz sentir imersa numa redoma invisível de proteção. Pode ter sido porque ajoelhei na Igreja do Bonfim depois de amarrar as fitinhas na grade e fiz uma longa oração. Ou ainda porque no Dois de Fevereiro vi pela primeira vez um mar de rosas e agradeci à Sereia por melhorar sempre o meu olhar.
Entretanto, não te conheci do avesso, Salvador, mesmo atravessando seus espaços forrados de miséria e quase nenhum acesso. Por anos morei
numa de suas divisas taxadas como perigosas, exigindo que estivéssemos atentos a ponto de ante-ciparmos nossos passos e possibilidades. Entrei algumas vezes em transportes que acabavam de ser assaltados. Vivenciei a expressão cotidiana daqueles que não te vivem por inteiro e quase não te conhecem porque a condição é a de não haver mesmo condição:
a desigualdade grita, é ofensiva. Você, apesar de ser a capital negra da América Latina, é desproporcio-nalmente racista dentro de uma estrutura que não descobrimos ainda por onde começar a desmontar.
Sua memória é também triste, Salvador, mesmo que vendamos apenas sua imagem feliz.
No fim das contas, nosso flerte engloba tudo:
a perícia com a qual seus cenários acariciam meus olhos e a dor de sentir as mazelas da sua alma.
Você me recebeu e me guardou do jeito que deu.
Fui embora, mas os acasos continuam soltos e uma hora dessas, quem sabe acabemos virando um caso sério retado? Você é barril, cidade! (Em todos os sentidos possíveis.)
É com amor, mesmo quando não é.
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