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Bahia 2021

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Academic year: 2022

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Revisão Morgana Poiesis Capa e ilustrações Carolina Frandsen Pereira da Costa

Diagramação Alexandre Lúcio Fernandes

© Jaya Magalhães

© Maria Midlej 2021

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Índices para catálogo sistemático:

1. Cartas : Literatura brasileira B869.65 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964 Magalhães, Jaya

Bem ditas cartas [livro eletrônico] / Jaya Magalhães, Maria Midlej. -- 1. ed. -- Vitória da Conquista, BA : Ed. das Autoras, 2021.

PDF

ISBN 978-65-00-19972-7.

1. Cartas brasileiras 2. Poesia brasileira 3. Prosa poética I. Midlej, Maria. II. Título.

21-60911 CDD-B869.65

Todos os Direitos Reservados.

A reprodução de qualquer parte desta obra só é permitida mediante autorização expressa das autoras.

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Carta para apresentar minha escrita 21

Carta para fechar a porta 25

Carta para o moço do violão 29

Carta de alento durante a pandemia 32

Carta para o Instinto Materno 37

Carta para o que não foi 43

Carta para acordar miudezas 47

Carta para a ausência que está 50

Carta para depois do amanhecer 56

Carta para Salvador 60

Carta para quando o Ilê passar 66

Carta para o amor que mata 69

Carta para o sentimento míope 73

Carta para romper as grades 76

Carta para você dar o nome 78

Carta para algum João 83

Carta para quem chegar 87

Carta de autodeclaração 91

Jaya Magalhães

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Carta para você 97 Carta com notícias da “quarentena” 101

Carta para uma saudade 106

Carta para um passarinho 112

Carta para uma mulher intensa 117

Carta para a minha mãe 123

Carta para uma futura pérola 126

Carta para a(s) minha(s) amiga(s) 131

Carta de despedida 136

A carta que eu enviaria se te escrevesse todos os dias 141

Esta carta é uma catarse 145

Carta para uma mulher vulnerável 150

Carta para o meu melhor amigo 155

Carta para quando tudo isso passar 158

Agora eu gosto do amor 162

Carta para um caso perdido 167

Esta carta é uma pergunta 171

Carta para um (quase) amor 174

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Querido leitor,

Às vezes acontecem umas coisas bonitas no mundo. Vê só: enquanto estou aqui, a te escrever esta carta, o vento de março que anuncia a chegada do outono, sacode o cabelo das árvores lá fora, num movimento bonito de ir e vir. Ao mesmo tempo, do outro lado do mundo, a primavera começa a despontar as primeiras flores, perfumando e colo- rindo outras ruas. Tem as nuvens criando persona- gens no céu, tem o cheiro do pão assado pelo vizinho nas manhãs de segunda, tem palavra-encanto capaz de derramar mel da boca quando as dizemos:

açucena, gerânio, sonho, mar.

Percebe? Não é preciso muito para enxergar o redor com os olhos do coração. Há, no entanto, que se treinar todos os dias para não perder o jeito de delicadeza, diante da pressa e do correr do tempo.

E como ele pode ser veloz! Penso que escrever uma carta, como esta, também seja um pouco de exercício:

de vagareza e de manter aberto o coração. Porque só escreve correspondências quem tem coragem de despir os próprios sentimentos para ir de encontro ao outro sem defesas ou armaduras, apenas com as

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mentamos um pouco de sombra. E só o por escrito é capaz de apartar um pouco da mágoa de quem pouco sabe ser voz alta, mas tanto aprendeu a ser palavra em papel.

Aqui, pelas benditas páginas que tenho a alegria de ser a porta de entrada para te receber, adianto já que não se encontrará nenhum coração vestido dos pés até a cabeça. A Jaya e a Maria despem cada senti- mento e os colocam assim: puros aos olhos da gente. E nos entregam um baú de cartas nas quais nos encon- tramos porque, também já aprendi, ninguém está solitário naquilo que sente: somos todos uma soma das dores e dos amores do mundo. E como é vasto esse caminho da palavra encorajada pela voz engasgada das nossas emoções! E como é bonito esse encontro proporcionado pela disposição de uma alma aberta a se dividir para se multiplicar em laços.

Não há como sair daqui, do meio dessas correspondências escritas com todo o sentimento pelas próximas páginas, sem desejar comprar papel e envelope. E começar a escrever. Escrever para o amor da nossa vida, escrever para o amigo distante, para os familiares que não vimos, para nós mesmos

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escrita. Ser do outro a partir da palavra comparti- lhada. Ser mais leveza esvaziando nossas gavetas guardadas, derramando de tanto silêncio.

Daqui por diante, te deixo nas mãos doces e tão gentis de Jaya e de Maria. Para que elas, com o maior encanto, te conduzam aos caminhos de dentro de seus próprios corações e sejam companhia, quando tudo se fizer de ausência. Foi assim comigo ao ler cada carta: senti quanta cura pode existir no encontro. E como a presença não precisa ser física:

passamos a ser parte uns dos outros no instante em que ultrapassamos os limites impostos pela travessia e entendemos o valor de cada saudade. É assim que acontece quando nos permitimos sentir. E acreditar.

Te desejo luz, sorte, sonho e encontro.

Com todo amor, Débora Gomes.

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Estas páginas não seriam possíveis, desta forma, caso não houvesse acontecido, há mais de dez anos, um encontro de palavras meu com três pessoas solares:

Brenda Matos, Maria Midlej e Pâmela Marques. Vocês são motivos pelos quais este livro aconteceu. Agradeço sobretudo à Maria, que seguiu junto a mim nessa costura de poesia e acreditou, mesmo quando parecia que não dava mais para continuar acreditando. Em especial, agradeço de coração cheio à Gleize, Ana, Jad, Izanna, Francielle, Bárbara, Luana, Karol, Sávio, Áurea, Jéssica, Ana Márcia, Gabriela, Iasmine, Juliana, Carla, Fabi, Indy, Letícia, Amélia e Gabriel — nossos cola- boradores até o fechamento desta edição, amigos que dividiram conosco sua escrita e abraçaram com tanta gentileza e sensibilidade nosso projeto. Obrigada pelas mãos dadas. Encerro agradecendo aos nossos leitores, verdadeiras razões para estarmos aqui e seguirmos escrevendo, produzindo e reverberando alguma forma de arte. Este livro é para vocês.

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escrita. Também à minha mãe, pai e irmão, que me ensinaram o amor.

Dedico, ainda, aos meus leitores(as) que, há anos, me incentivam a escrever e publicar. Especial- mente àqueles que sempre se perguntam se eu estou escrevendo sobre eles. E, sim, eu estou. risos.

Agradeço a todos os amigos e amigas que, de alguma maneira, contribuíram com o projeto BemDitasCartas, ajudando a tornar esse sonho possível. E a todos os responsáveis pelo Prêmio das Artes Jorge Portugal. Por último, à Jaya Magalhães, pela caminhada até aqui.

Incluo esse capítulo na minha vida, com a certeza de que novos e belos caminhos se abrirão a partir daqui. Devo isso a cada um de vocês. Vamos juntos para as próximas páginas?

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Carta para apresentar minha escrita

Monotemática, alerto já de início. Posso fazer todos os rodeios inimagináveis, mas se você prestar atenção não vai dar outra: estarei falando de amor.

Não sei fazer poesia, mas às vezes faço. Ignoro as métricas e sempre peço licença. É fato que às vezes acontece de atravessar mesmo sem recebê-la. Há quem ouse chamar minha produção de prosa poética.

Aceito, muito porque algumas pessoas precisam dar títulos a tudo — o que, aliás, sempre dispensei. A vida não é acadêmica e palavra é liberdade.

Escrevo desde que me alfabetizei, aos quatro anos, mesma idade na qual encontrei meu primeiro amor. A literatura. Com o tempo as palavras ganharam sentido e a mágica estava pronta: juntando letras e

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sonhos eu poderia viajar por histórias criadas por mim. Desde então, passei a caminhar pela vida com um livro em uma mão e uma caneta na outra. Atual- mente, tudo isso cabe às vezes dentro de um único aparelho, através do qual escrevo esta carta.

Talvez você não esteja curioso, mas minha timidez reservo para encontros cara a cara. Escre- vendo gosto muito de falar. Portanto, prossigo.

Sempre enxerguei meu conteúdo bastante margi- nalizado e ausente de padrões até que, durante um curso livre com aulas de iluminar, entendi exata- mente a origem e o destino desse movimento de afeto que faço com as palavras. E se chega até você, se provoca algum sentimento que te conecta a mim, tudo faz sentido.

Começo meus textos quase como tentando acertar o buraco miúdo da agulha: quando a primeira frase consegue atravessar, dando o tom dos passos seguintes, o bordado de palavras dança.

É como segurar nas mãos da coragem para cruzar uma ponte muito alta: concentra-se no caminhar.

Transposta, basta sentar e apreciar o encontro.

Escrever é travessia.

Escrevo sem preocupações ou rituais. Solto as palavras para, em seguida, num exercício passional- mente artesanal, lapidar parágrafos, aparar arestas,

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embalar tudo com essa preciosidade de quem se vê entregando parte do que se é. Com muito barulho ao redor ou no mais profundo silêncio. A necessidade de esvaziar-se é poderosa — ao mesmo tempo preen- cho-me de mim mesma. Nada mais corajoso.

Avessa a definições, conforme pontuado, quando me classificam como escritora, sorrio:

parecem falar de outra pessoa. Tenho, sim, um livro publicado. Duas monografias. Mas existe essa recusa em assimilar a palavra como profissão. Provavel- mente algum medo residual de ser levada a sério por conta de algo que me faz tanto. Li uma vez um autorretrato de Gabriel García Márquez (1966), a quem carinhosamente chamo de Gabo, e ele dizia:

“Sou escritor por causa da timidez. Minha verda- deira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. De qualquer maneira, as duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde que eu era criança: que meus amigos pudessem me amar mais”. Senti como se houvesse aberto meu coração e fotografado. Caminho por esse mesmo lugar de amor, sem nenhuma pressa, de modo que escrevo para presentear os meus. Para poder estar, materializada, nos dias onde não posso entregar meus braços. Escrevo para abraçá-los.

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Escrevo pela poesia e também por não saber desenhar. Porque escrevendo viro eu mesma aqua- rela. Escrevo para chegar, ainda que na grande maioria das vezes não saiba sequer para onde estou indo. Escrevo, sim, para que meus amigos possam me amar mais. Para ver nas palavras espelhos de mim.

Para ser nas palavras o oposto de mim. Para ser. Escrevo porque sou. E escrevendo sou possível. Aconteço.

A palavra sempre me terapeuta.

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Carta para fechar a porta

“- Isso é só o fim. O que importa já foi feito.

- E agora?

- Agora é o resto das nossas vidas.”

(Trecho do filme Apenas o Fim, Matheus Souza, 2008)

Primeiras horas de um dia nublado. Levanto da cama ainda me espreguiçando e sento na cadeira, encarando minha parede verde de esperançar cami- nhos. Nunca mais escrevi no papel, mas agora sinto que só conseguirei te desenhar assim. Não enviarei

— talvez depois eu rasgue ou queime. O que importa é a simbologia do ritual: seguir esvaziando o excesso de você em mim. É em Peixes meu sol. Terceiro decanato.

Plutão, inspiração, intensidade, idealismo, “divino maravilhoso”, não-explicação, sem-fim. Tenho andado

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feliz. E sim, continuo falando de amor, escrevendo os mesmos textos de sempre, poetizando qualquer coisa que apareça e fingindo não ser romântica.

Agora mesmo equilibrei a doçura, na ponta dessa caneta azul. Consegue ver? Se eu deixar cair, espalha. Fico feliz em notar que ainda carrego alguma delicadeza nos dedos ao escrever para você.

Não nos despedimos.

Essa semana peguei um táxi e passei do ponto.

Olhava pela janela, longe do presente, pensando que, ah!, são coisas muito bonitas nos esperando. E quando pisei no chão, primeiro com o pé esquerdo, deixei cair parte do que um dia já foi seu. Despeda- çou-se enquanto tive uma certeza: eu vou te amar em todos os meus amores. Já não contesto.

Outro dia revi Apenas o Fim. Cada diálogo foi como se compusesse nossa despedida. Foram coisas lindas. Coisas bobas. Coisas nossas. Ele você, ela eu.

Quis te mandar uma mensagem, quando foi dito:

“Você é meu chicletinho mastigado.” Não somente por ser a cara do que fomos, mas também porque inter- pretei de um jeito engraçado, sabe? É que vai ver perdeu o sabor, mas continua a grudar. Está grudado.

Vai sempre ficar um pedaço, uma marquinha. Ficou.

Aprendi que não existe pedagogia para senti- mentos. Eu tive febre, e passou. Passou aquela

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vontade de querer te ligar durante o sinal vermelho só para contar do que andou acontecendo. A vontade de te contar das minhas revoltas, das minhas mudanças. Ando tão madura, tão mais potente, tão mais eu, tão menos você. Passou a vontade de falar do medo que tive nos primeiros dias, de ser a cada hora menos você. Passou. Passou inclusive minha fantasia contente ao me imaginar escrevendo e lembrando nós dois, num futuro, balbuciando entre um suspiro e outro, com uma voz muito concen- trada no azul, a frase do poeta: “Minha impressão é que tenho amado sempre.”

Por ter/ser passado, hoje, quero pedir: não me devolva nada. Não me entregue suas ternurinhas. Não me devolva tudo o que já te entreguei, agora, quando já não interessa. Você deixou a porta entreaberta, eu fechei. Fecho. Se abra inteiro, encontre alguma menina interessante, me deixe passar. O meu amor foi grande. É imenso. É sempre seu. Mas não mais vivemos juntos nele. Ainda penso conseguir um dia estar a seu lado, saber te ouvir, arranhar seus ouvidos com meus sorrisos, ficar horas pendurada ao telefone.

Me engano assim para doer menos. Já doeu demais.

Continuo a te querer bem. Respeito nosso relicário. Respeito você. Sempre que noto as cons- truções conjuntas que me foram deixadas, me sinto

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leve. Faz cócegas ter você me alicerçando. Amores de ontem, todavia, devem ficar na poesia intocável.

Por isso afirmo que, aqui, nesse parágrafo, estou me despindo de você. Deixo tudo. Vai haver um ponto final adiante, porque aprendi a usá-lo. Deixo aqui.

Não aceito devoluções.

Te abraço com calma, para que os corpos solucem todos os beijos que não foram dados. Te entrego alguma coisa bem bonita. Que todo o amor que deixei seja seu, ainda que levado por outro alguém.

Que o coração jamais se apague.

P.S.: o que importa, realmente já foi feito. E é nosso. Sempre seremos nossos, porque ninguém nunca nos terá igual. Nunca havia sido tão assim, eterno.

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Carta para o moço do violão

Lembro de estar deitada na grama, de olhos fechados, enquanto você dedilhava as cordas e pulava de uma música para outra completamente distraído. Nós, alguns amigos, um debate caloroso sobre qual a melhor pizza da cidade e filosofias acerca de um futuro que acabou nos direcionando ao momento presente: espalhados pelo país, carre- gando nas malas fotografias de tudo exceto de nós mesmos, não fosse a clareza com a qual minha memória preserva as imagens que guardei de você em mim.

Eu nunca te disse, mas após alguns anos, enquanto você dirigia e eu observava as paisagens pela janela do carro, passou a existir uma transmu- tação daquele amar de todos os dias. Percebi quando você me olhou de lado, as mãos no volante e uns

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olhos inquisitivos. Tive um medo muito grande de que você pudesse enxergar (e sentir) toda aquela denúncia de afeto. É diferente quando o amor coti- diano desacostuma e decide sentir mais. E lá estava eu, sentindo tudo, por você.

Lembro da sua preferência pelos números, da sua curiosidade em me desvendar, de como se emocionou após o teatro, de como suspirava enquanto me ouvia falar das minhas impressões, de como disse que ver através do meu olhar era enxergar com lentes de um mundo que poucos conseguem acessar e do meu silêncio ao te abraçar, amansando os olhos e me demorando um pouco mais, só para que o cheiro do que você é grudasse por algumas horas na minha blusa preta lisa — tela para o que você se propusesse a estampar em mim.

Você pedalava pela cidade e eu comprei uma bicicleta. Quem sabe um dia os caminhos me levassem a algum dos seus roteiros. Descobri novas passagens enquanto percebia que, na conclusão dos dias, eu só queria meu telefone guardando sua voz dizendo que estava chegando. Daí então, você sentaria na cama, violão no colo e eu, deitada na rede, arriscaria às vezes colocar letras na melodia que você era — e que meu tom não alcançava.

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Você falava sobre a física das coisas e eu simulava algum interesse. Seu cabelo crescia junto a meus planos de ir embora. Eu nunca te escrevi um poema, mas o mais bonito deles se fez sozinho, quando adormecemos juntos naquela cama aper- tada de uma casa apertada, no meio da tarde alaran- jada de um verão eterno, diante de um filme ruim.

Acordamos abraçados, com olhares ao redor dando nomes ao que nunca seria.

Você afinava o meu violão debaixo da árvore e eu assistia a suas apresentações em silêncio, na primeira fila. Meus elogios nunca eram maiores que seu perfeccionismo. Adaptei minha playlist aos seus ouvidos. Ignorava seus pedidos para me ouvir arranhar alguns acordes de recém-aprendiz. Fiquei confusa quando o carro parou no semáforo e você me pediu um beijo. Alguém buzinou.

Só hoje entendo o motivo de nunca ter arriscado tocar na sua frente. Seria fácil. Muito natural. Você leria a minha música em si e já me basta escrever(-te).

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Carta de alento durante a pandemia

O outono chegou com seus ventos e tempera- turas amenas e enquanto observo o céu nesse fim de tarde, penso em cheiros que me trazem lembranças de sorrir. Cheiros de poesia interna, resolvo nomear.

Guaraná, por exemplo, tem cheiro do parque que eu ia todo domingo, menina. Café recém-coado me faz ouvir meus passos caminhando pela cozinha de minha avó junto às vozes misturadas dos meus tios e de meu avô.

Panela de pressão cozinhando um feijão bem tempe- rado me permite escutar o sorriso de minha mãe e dos meus irmãos. Pipoca me transporta para uma tarde muito sépia na varanda, comendo e vendo a chuva cair lá fora. Amora, de qualquer jeito e em qualquer lugar, me lembra as mãos sempre abertas de meu avô

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me ofertando um pedaço de mundo. Observo as cores dessa tarde lá no alto e respiro memórias de vários ontens bonitos de viver. O hoje anda perigoso e eu sinto uma falta dolorida do amanhã.

Acho que já faz quase dois meses que não saio de casa. Resolvi que não ia contar, porque não tem data para chegar a hora de dançar com sensações livres. Quase dois meses e meu coração se desmontou para caber um pedacinho em cada parte do meu corpo.

Sinto em excesso, mas não consigo definir nada que sinto. Estamos em casa, juntos, inventando maneiras de deixar as coisas o mais parecidas possíveis ao que já não é. Cozinhamos, limpamos, almoçamos, damos risadas e também brigamos. Mas, a parte que é para mim mais importante: respeitamos nossos silên- cios. Às vezes pesa e nos esquecemos na cama, cada um no seu quarto, ensimesmados e com a certeza muda de estarmos ali uns pelos outros. Quando fica muito cinza, somos levados dentro do carro para enxergarmos a vida que pulsa lá fora enquanto não observamos. Crianças sorriem no quintal vizinho e um pouco de paz respinga por aqui. Aviões não pousam mais nessa cidade, mas outro dia estavam quatro bem-te-vis conversando no muro. A vida continua, completamente desavisada e agora de um jeito diferente. E depois?

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Meus olhos andam desbotados e não choram.

O mundo já está tão triste sem minhas lágrimas, que fico martelando jeitos novos de ser feliz. Cada vez mais consciente dos meus privilégios, agradeço sem pressa todas as vantagens de não precisar brigar no braço com esse inimigo invisível que todos temos em comum. Tenho suspirado o dia inteiro, como se jogasse para fora parte do sufoco das incertezas.

Meu coração está quase cicatrizado enquanto muitos se rasgam. Vou ao quintal, volto e lavo as mãos. Dou banho no cachorro, lavo as mãos. Lavo as louças e, quando vejo, estou no banheiro lavando as mãos. Passo as mãos no rosto e sinto o resseca- mento. Escrevo uma mensagem para minha mãe, dou risadas virtuais com meus irmãos, lavo as mãos, limpo o telefone com álcool. Me abraço às vozes que eu queria perto, lembro que faz dois meses que não descanso o coração em ninguém e bebo água.

Tenho bebido muita água, talvez inconscientemente querendo afogar as ansiedades, deixando boiar apenas o que for sereno. Moraes Moreira morreu e junto a ele metade da minha já escassa vontade de fazer festa. Mesmo assim ainda pulso.

Olho o céu procurando o mar, refletindo num looping eterno sobre como tudo aqui é efêmero. Procuro me demorar. Muito. Em tudo.

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Pintei os meus cabelos. Não consigo estudar. Cortei os cabelos dos homens aqui de casa. Faço bolos e sobremesas. Tenho lido muito. Tenho ficado parali- sada e ansiosa. Tenho fantasiado uma pessoa bonita de se ter nos sonhos. Alguns dias acontecem e não vivo. Tomei uma decisão importante e talvez atra- sada, para quando o depois chegar. Durmo quando consigo. Continuo com o yoga. Queimo incensos e pingo gotinhas de lavanda no meu travesseiro.

Entendi que gosto da cidade que abandonei depressa e talvez a história me leve de volta para lá.

Nunca imaginei que fosse um dia viver a parte ruim de um filme outrora fictício. Estamos doendo muito e ver pessoas virando números retira de mim peças que jamais se encaixarão.

Nunca mais o sol me recheou e respirar continua sendo um exercício de sorte. Escrevo e esse é o maior movimento de amor que posso fazer agora. Escrevo para que as palavras façam as vezes de um abraço proibido. Nada vai acabar sem dar certo. Há de chegar o instante onde acenderemos, logo ali, pertim. Pela primeira vez desde que cheguei aqui, fora da redoma maternal, vejo todo mundo junto e apontando para um lugar comum cheio de luz. Sinto saudades. Medo. Mas a fé continua a chegar calma em todos os segundos. Quem sabe

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essa noite eu consiga até dormir de verdade e voltar a sonhar.

Eu sinto e dá tempo.

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Carta para o Instinto Materno

Prezado,

Depois dos trinta anos, comecei a ouvir falar de você com mais frequência, mesmo sem termos ainda sido apresentados. Estava quieta quando de repente alguém, obviamente inconveniente, começou a dizer coisas estranhas como “relógio biológico” e a desen- volver uma preocupação instantânea e aparente- mente urgente quanto ao meu futuro, questionando sobre quem vai assumir as responsabilidades e cuidados durante minha velhice. Continuei quieta enquanto pensava em minha ginecologista que, em recente exame, disse estar tudo ok. Achei irônica essa importância dada aos geriatras de uma hora para outra. Tenho, no mínimo, outros trinta anos antes

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de procurar me consultar com tais especialistas. O que houve?

Depois dos trinta anos, primas e amigas começam a ter filhos. Entre gravidezes festejadas e outras não planejadas, todas passam a comentar sobre você, Instinto Materno, loucas para que nos conheçamos. Sorrio e escuto enquanto vejo-as vestir uma capa transformadora, capaz de deixá-las ainda mais belas conforme suas barrigas crescem. Admi- ro-as e penso no atual receio que tenho de ocupar a mesma posição. As crianças nascem e ao mesmo tempo essas mulheres saem do seu casulo de nove meses, agora mães. Em mim, as vontades seguem sem latejar, pelo menos por enquanto. Houve, sim, um instante onde, dentro de uma relação que fingi ser estável, ousei escolher nomes para possíveis frutos daquele período. Evitei por razões diversas. Sonhava uma criança, mas não enxergava onde encaixá-la dentro daquela realidade. Ainda não enxergo.

Ultimamente prega-se, especialmente através das redes sociais, a desromantização da materni- dade, a denominada “maternidade real”. Fala-se em relatos de parto, em dores que o corpo de fêmea consegue suportar com naturalidade, na solidão exaustiva do maternar, nos enjoos, no cansaço do puerpério, no abrir mão constante e na responsabi-

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lidade eterna. Algumas corajosas mulheres, após a experiência, afirmam: não faça isso, não seja mãe, você ficará destruída física e emocionalmente, sua vida será vivida 100% em função de outra pessoa etc. Outras dizem: tudo vale a pena, minha história passou a fazer sentido, não conhecia o amor até aqui e somente passei a viver depois que gerei outra vida parte de mim mesma. Qual das duas falas será problematizada? Para mim, ambas. Para a socie- dade, a primeira.

Onde foi que começou a ser complexificado o fato de não ter filhos? Ou ainda o fato de você não dar as caras, Instinto, junto àquele recém-nascido?

Cultural, social e psiquicamente somos levadas a assimilar o maternar como fonte de felicidade. Mas, quando não é, é mesmo preciso sentir vergonha?

Dizem por aí que toda mulher já nasce com você. Será mesmo? Imposições de gênero à parte, e nos tempos antigos, nos quais as mulheres eram verdadeiras máquinas de produção, procriando de modo quase simultâneo (devido também às altas taxas de mortalidade), mas sem cuidar e sequer amamentar? E no século seguinte, quando os homens passaram a travar guerras e revoluções e essas mulheres perdiam a cabeça ao ter que, de uma hora para outra, e habilmente, engolir o patriarcado

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e lidar com os filhos em casa sem saber por onde?

Penso que foi por essa época que você passou a ser idealizado. Espiemos nossas bisavós, com escolas que ensinavam as mulheres a serem boas donas de casa (será que no diploma ganhava-se um instinto materno?) e a criarem as filhas na base do cozinhar/

lavar/passar. Ou ainda mais recente, onde éramos/

somos presenteadas com bonecas, kits de casa e cozinha, sem podermos ousar trocar por um carrinho de controle remoto ou um kit de ferramentas porque estes são brinquedos de meninos/produtos para homens. Como podem os objetos terem gênero? Será, Instinto, que você não era/é forçado por todos os lados? Ainda hoje, caso recusemos a aceitá-lo, logo é dada sentença: essa é/vai ser rebelde.

As pessoas se assustam quando uma mulher afirma: não, não quero ser mãe. No entanto, natura- lizam o homem que, mesmo após ser pai, sem nunca haver sido cobrado por um Instinto Paterno ou ques- tionado quanto ao seu “relógio biológico”, abandona o filho. Tão logo a criança é gerada, passa a existir um contrato de trabalho conjunto e vitalício, mas por que a justa causa nas análises cabe somente aos pais?

É complicado, Instinto, continuar a escrever agora, enquanto concluo que você é mais uma invenção falida. Depois dos trinta, você continua

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não se manifestando por aqui e, antes de pensar que estou quebrada, prefiro ser coerente. Engravidar é apenas uma das infinitas possibilidades que nós, mulheres, temos. Mulher não nasceu para ser mãe, mas com a capacidade de fazer essa escolha. Escolha, repito, é a palavra.

Existe, prezado, uma explicação biológica: a genética, que faz com que as fêmeas sejam capazes de proporcionar condições para recepcionar suas crias. Mas não é instinto, é ciência. Assim como o amor materno incondicional não é passado através do umbigo, não existe uma válvula a ser virada, para de repente estarmos ali, parindo afetos. É gradual. É como funciona a natureza de sermos, nada mítico.

Neste parágrafo peço licença para dizer a quem por ventura esteja lendo: está tudo bem não querer filhos. Antes ou depois dos trinta. E está tudo bem querê-los após os quarenta. Está tudo bem a mater- nidade não ser como você planejou, assim como também está tudo bem se arrepender dessa escolha.

Está tudo bem sonhar em ser mãe e ser completa no maternar. Está tudo bem amar seus filhos e detestar ser mãe. Está tudo bem decidir não ter mais filhos ou querer mais filhos. Só não está tudo bem ceder às pressões externas, àquilo que você não sente. Não está tudo bem trazer uma pessoa ao mundo com

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funções pré-determinadas, pois as conexões se cons- troem em meio às surpresas cotidianas. Não deve ser comum basear sua vida em cima de convenções que não se encaixam nos seus projetos. Somos livres.

Quanto a você, (des)prezado, dê uma volta no avesso do que somos e conheça a Intuição. Ela é quem guia a mulher que sabe de si. É o sentimento alerta, explicado pelo coração. Tem voz. E assina estas linhas.

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Carta para o que não foi

Você me acordou em pleno inverno e me fez decidir usar a primavera sem receio nenhum de antecipar o aroma de jasmim das noites quentes de verão. Você despertou movimentos que meu corpo nem imaginava ainda ser capaz de fazer: bastava sua voz entoando frases feitas com meu nome e pisar no chão era poesia.

Não desviei, tu sabes, cariño. Sou inteira um alvo, onde você mirar será sempre o lugar certo. Te ofereci carona na minha estrada que não sei onde vai dar e você não pediu destino algum, apenas me olhava como se o tempo todo eu acabasse de fazer uma mágica, tirando borboletas dos meus bolsos — borboletas que voavam aflitas para ornamentar suas horas.

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Eu quis ser para você sua sessão preferida do mercado, aquela onde você passa muitas horas, indeciso com tantas opções atraentes, principal- mente se estiver muito faminto (ou mesmo muito calmo, escolhendo delicadamente os ingredientes para um prato especial). Eu quis ser a essência do seu perfume preferido, que cola na sua pele e nas suas roupas, deixando rastros que te pertencem enquanto você cruza avenidas e corredores por aí.

Quis ser a sua sede, te ouvir pedir mais até saciar-se com urgência e nenhum fôlego. Quis ser a luz que você acende no meio da madrugada, só para não te deixar tropeçar em nenhum canto que não fosse em mim. Não consegui.

Você não dormia e pensava em mim. Eu dormia e sonhava você. Não era amor, apesar de sermos amáveis. Falávamos sobre artes, fogueiras, nossas divisas e travessias. Falávamos sobre o (a)mar, sobre o cais e a nossa sobrevivência ao caos. Falávamos e minha voz gostava de cair em você como poucas vezes gostou de cair em alguém. Eu equalizava todos os seus suspiros, como se inventasse um novo poema estranho e secreto, imaginando para onde vão todos os desejos que não morrem.

Nós dois, que sempre fomos para onde o rede- moinho soprasse mais bagunçado, resolvemos fazer

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planos. Primeiro erro. Te presenteei com um livro azul gravado com alguns dos meus versos preferidos.

Segundo erro. Sambamos em cima de uma história bonita e antiga, desajeitados, sem escutarmos o que sentíamos e ansiosos em sentirmos o que não existia. Terceiro erro.

Você me convidou para fugir e desconversei, eu havia acabado de chegar em mim. Você afivelava o cinto enquanto eu procurava meus brincos e no som Moraes cantava que “quanto tempo faz, tanto tempo, amor...” Não soubemos caminhar com cautela, tão interessados em voar.

O único acerto foi quando resolvi olhar as horas. Não posso esperar. Meu maior medo é estar atrasada quando o coração dá sinal de que meus ponteiros estão alinhados. Preciso chegar nos instantes sem assanhar tanto assim meus cachos, mesmo que depois me veja emaranhada nos segundos. Quando sinto, tenho muita pressa de que o tempo passe devagar.

Ajuste seu relógio, pajarito.

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Carta para acordar miudezas

É preciso estar atento. Abrir os olhos e demo- rá-los nos arredores, catando o que for de fazer carinho e guardando na curva das pálpebras. Ouvir todos os silêncios como se fosse alguém a te contar novidades. Inspirar o mundo profundamente e expirar o que precisa deixar circulando. Repetir esse movimento com a consciência de estar, a cada vez que as horas ficarem velozes. Desacelerar.

Esbanjar gentilezas até que as pessoas não se espantem ao tê-las; apenas com sua ausência.

Aprender os nomes de quem faz parte da fotografia do seu cotidiano. Entregar um sorriso e sentir o reflexo do gesto que faz o outro ser espelho. Sair e olhar o céu pelo menos três vezes por dia, só para entender que o mundo acontece. Que a vida não vai apenas até

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onde você alcança. Que ninguém consegue dar conta sempre, muitas vezes, nem de si mesmo, porque somos muitas coisas. E que bom que somos!

Sentir um cheiro de ontens enquanto caminha apressado pela mesma calçada de todos os dias sem olhar para os lados, e pausar. Respirar. Buscar a memória. Abraçá-la. Morar dentro de um livro pelo menos alguns minutos por dia. Falar com estranhos, na fila, no ônibus, no metrô. Entregar e receber histórias. Abrir espaço para quando a lágrima vier e chorar esse banho interno de água e sal — banho do mar de si mesmo.

Reconhecer o tempo. Dos outros, das coisas, o seu. Balançar-se nos ponteiros desviando das ansie- dades. Soprar as mãos num dia muito frio e sentir o sangue aquecendo as emoções doces de sentir.

Perdoar, só pelo prazer de quebrar o cadeado do baú onde se abraçam dores antigas e encará-las uma última vez. Despencar no abismo do amor todas as vezes em que ele chamar, porque coração não mata, só acorda sentimento vivo. Amar como se fosse sempre a primeira vez, porque sempre é. E será.

Vivenciar que a perda só existe onde já houve ganho. Aceitá-la. Recomeçar quantas vezes a vida pedir, porque é sempre possível e dá tempo. Ter um mar azul para cobrir de beijos seu corpo. Ter uma

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serra verde por onde subir e deixar a cabeça nas nuvens. Dar nome aos sentimentos e ajustar-se para senti-los. Acolher-se.

Cuidar de alguém, de uma planta, de um animal — e de quem você é. Cantar. Dançar. Dar ação ao maior número possível de verbos. Adormecer exausto ao voltar de uma viagem bonita — pelo mundo ou para dentro de si. Abrir a porta e deixar entrar o que te faz melhor. Ser maior, cheio de ideias pequeninas. Sentir o vento mudando a textura dos cabelos enquanto a lua engravida o mar e alguém desvenda mapas de tesouros antigos lendo a palma da sua mão. Entregar de presente uma nuvem dourada de outono. Seguir, por todas as estações.

Ter sempre ao alcance uma palavra que te explique coisas secretas que moram entre o céu e as estrelas. E te desanuvie os instantes.

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Carta para a ausência que está

Chegar em frente às grades do muro baixo e não enxergar seu vulto através da porta de vidro, sentado no sofá branco, para em seguida levantar-se e abri-la com alguma frase engraçada pendurada nos lábios, me pedindo a bença enquanto me aben- çoava com o olhar embaçado de carinho. Entrar e sentir seu cheiro. Olhar para o quintal e quase tocar no eco dos seus passos. Encontrar seu relógio em cima da cadeira, sentar no sofá da sala de televisão e não te ver na outra ponta, sacudindo as pernas, uma em cima da outra. Sentar na sua poltrona, me deixar escorregar, achar um papel que você dobrou e enfiou no cantinho, olhar para a cozinha e não te ver sentado à mesa me oferecendo a mesma fruta

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que você comia. Respirar fundo encarando aquela foto minha e sua, conseguir te ouvir mais uma vez, falando muito claramente: “E a boniteza daqueles dois ali?” Ir embora por não suportar o barulho ensur- decedor do silêncio que sua ausência faz. Chorar.

Acordar e chorar. Fazer tudo sentindo você.

Deitar, adiar o sono e chorar até adormecer. Atender aos telefonemas e contar da sua partida. Chorar em todos. Passar uma manhã na gráfica encarando sua fotografia e ensinando a moça a deixar aquele pedaço de papel tão leve quanto sempre senti sua alma. Escrever algum trecho bonito, porque vó pediu.

Escolher um trecho da Bíblia, porque vó pediu.

Tentar fazer por ela tudo o que ninguém poderia, só você. Receber abraços e chorar em todos. Ver o rosto de vó desmontando aos poucos numa expressão que eu não sabia que ele era capaz de ter. Não me olhar no espelho por semanas. Emagrecer. Esquecer como sorrir de verdade.

Ir embora. Dormir de exaustão e encontrar você no sonho. O primeiro após aquela semana onde vivi suspensa. Nós dois no hospital, como foi durante absolutamente todos os dias naquela última semana. Nós dois, eu me despedindo, mas você se levantando com algum esforço e me dizendo:

“Vem cá dar um abraço no véi antes de ir.” Despertar

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chorando pelo excesso de presença e pelo trans- torno ao cair na realidade, junto à certeza de que essa mesma presença nunca mais vai existir. Não aqui. Não nessa matéria. Rezar, misturando crenças e ao mesmo tempo sem crença alguma. Reviver todos os dias o nosso último dia juntos, quando penteei seus cabelos e você, preocupado, já não disse: “Tem que arrumar os cachos.” Mas eu disse. E você sorriu. Me despedi dizendo que o amanhã seria melhor e pensando em comprar uma mini árvore de Natal para enfeitar aquele quarto branco. Não teve amanhã, você foi embora de madrugada, após passar os últimos instantes fazendo declarações de amor e contando sobre nós todos. Lúcido. Amando.

O amor não morre e você em mim só cresce.

Conversar com você em voz alta pelo apar- tamento, sozinha, acreditando que você escuta.

Lembrar da minha meninice a seu lado. Lembrar da gente dançando valsa na minha formatura da quarta série. Lembrar de você poucos dias antes falando para os meus tios que eu era o seu xodó. Lembrar das minhas fotos de infância que você guardava dentro da Bíblia. Lembrar que toda vez que entrava no táxi sua primeira pergunta ao motorista era:

“Quantos anos você me dá?” E ninguém dizia que você tinha noventa. E você ficava envaidecido. Era

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a pessoa mais feliz do mundo por tê-los, mesmo ficando assustado ao entender que a despedida de tudo estava cada vez mais junto. Se eu fosse um dia pintar uma tela expondo tanta vantagem em estar acordado e gastando a vida, seria uma pintura sua.

Voltar em casa por semanas, ir na sua casa, dormir com vó, caminhar para o quarto e sentir o coração doer forte por não ter a companhia da sua voz me dizendo: “Já vai? Então tá. Sonha mais eu.”

Passar a noite em claro, sentindo tudo pesar. Ir ao cemitério pela primeira vez depois de você. Lembrar que as últimas vezes em que pisei num cemitério estava com você, várias rosas vermelhas nas mãos, distribuindo nos túmulos dos seus pais e irmão.

Rezar, conversar com você ali, debaixo da sombra daquela mangueira. Sentir que você não está ali.

Sentir que você está em mim. Dias depois, no meio de um café da tarde, olhar a cadeira em minha frente e ter uma crise de choro. Levantar e esconder o rosto para vó não me ver assim. Sorrir. Doer. Ligar para vó, já longe de novo, e travar a voz que já ia saltando para perguntar sobre você. Porque não tem mais você.

Lembrar. Doer. Chorar. Sorrir. Estar com meus irmãos e vó na cozinha, nas últimas semanas, e contar uma, duas, três histórias suas. Sorrir. Feliz.

Chorar de sorrir. Chorar e sorrir. Lembrar que foi

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rápido, que você não sofreu além. Lembrar que um dia existiu o melhor avô de todos os universos e entre tantas pessoas possíveis, fui eu a escolhida para vir como sua neta. Agradecer. E depois agradecer de novo. Lembrar do nosso apego. Do nosso carinho.

Das nossas fotografias. Do seu suco. Da rapadura. De você escolhendo uma fruta na feira enquanto falava com todo mundo, tão querido que sempre será. De você voltando para casa com uma sacola de pão todo fim de tarde. Do jeito muito sério. Do jeito muito menino. Dos seus assobios. Da mania de falar uma bobagem e dar risada batendo as mãos nas pernas enquanto jogava a cabeça para trás. Do tom a mais que montava na sua voz ao me apresentar como sua neta. Do carinho que é derramado em mim pelas pessoas que, ainda hoje, descobrem que sou neta de seu Arthur. Da sua felicidade cantando o bingo na sua festa de noventa anos. De te elogiar quando você cortava o cabelo e de você gostar que eu percebesse isso me perguntando se estava parecendo cerôto (ser outro). Das suas histórias sempre recheadas do tanto de ontem acumulado. De ser você a pessoa com mais ontens e tempos que eu já conheci até então.

Lembrar que não esqueço nunca de te amar, vô. Um amor assim, que só está. Que não sabe para onde ir, porque nunca quis deixar de encontrá-lo.

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Acostumou. Um amor que é seu, desde quando eu fazia maria-chiquinha nos seus cabelos, muito menina, até nos últimos tempos, onde te levava nas suas consultas médicas e me via sempre a mesma criança encantada pelo moço de cabelos de algodão.

Meu vô Tuzim. Vovô Arthur. Vô. Seu Arthur, meu.

Você foi a primeira pessoa que vi partir daqui.

O lugar mais bonito onde já senti. E só hoje, há um mês de completar três anos desde aquela data, consigo colocar em palavras todos esses sintomas de amor eterno. Existe. Somos prova. Só duvida quem ainda não chegou.

Bença, vô.

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Carta para depois do amanhecer

Quando você estiver lendo esta carta eu já terei ido embora. Tenho pânico em prolongar despedidas;

prefiro os silêncios e um aceno de longe, principal- mente entre duas pessoas como nós, quebradas e latejando dores com as quais ainda não sabemos e nem queremos lidar.

Talvez você não tenha conseguido perceber, mas existe um detalhe sobre mim que é possivel- mente o mais alarmante: acredito no amor. Esse é o único traço delicado da minha personalidade — e também o mais intenso. Eu respiro o amor, como o amor, me cubro com ele. Mergulho no amor da cabeça aos pés, mesmo quando não é profundo o suficiente para me abrigar. Luto pelo amor. Eu fico.

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Acredito na cura através de. Danço com o amor.

Faço manifestos nada sutis para que ele seja sentido em tantos mundos quantos forem possíveis. Não desfaço minhas malas em nenhum espaço onde ele não esteja, mas se o ambiente for receptivo, tento eu mesma plantá-lo. Em mim o amor está e é. E pres- tando atenção um pouco mais de perto, você perce- berá que, à parte tudo, amor eu sou.

Não uso frases decoradas, não sei atuar, me guio pela minha intuição noventa e nove por cento das vezes. Minha sensibilidade equilibra o timbre da sua fala, seu jeito de estar, a maneira como você pontua uma expressão. Abrange o que você guarda nos olhos e o que tenta esconder enquanto pisca. Consigo enxergar o que fica pendurado nos seus cílios, o que diz o movimento que você faz com as mãos e a maneira como você segura o copo antes de receber a bebida em sua língua. Pelo abraço faço radio- grafia completa das veias por onde escorrem os seus melhores carinhos. Se eles vão desviar em direção aos meus, a cadência do seu coração explicará.

Não pertenço a nenhuma espécie, sou (re) nascida em mim mesma, nenhum manual consegue desvendar meus algoritmos. No entanto, com paci- ência e algum jeito novo de me fazer sorrir, você verá a liberdade com a qual minhas obviedades circulam.

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Tenho sempre tempo e se eu te disser que não, é para que assim se cumpra, sem nada a ser interpretado.

Se eu quiser segurar nas suas mãos você saberá, não envio sinais: eu falo. Faço. Escrevo. Quase sempre pratico os três verbos. Não peço nenhuma garantia, aprendi que todo amor é frágil.

Se você gostar de fechar os olhos a meu lado, vou me questionar se teremos capacidade de segurar juntos as parcelas de uma cama nova e se conseguirei abrir mão de tudo, mais uma vez, caso as coisas não terminem tão bem assim. Será que vai doer nos mesmos lugares ou você fará novas cicatrizes em cantos que ainda desconheço? E qual a razão de nos banharmos naquela água de cheiro para entorpe- cermos os seus lençóis de capim limão, se depois do sexo irei levantar sem saber o gosto que seus lábios entregam quando acordam de manhã bem cedo?

Não estou amando, mas poderia. Consigo saber por onde ir e isso é muito sério. Mas e se, caso eu me distraia meio de propósito e ame você assim, cheia de paradoxos, ousando cantar baixinho nos seus ouvidos aqueles versos sinceros de If I Fell, você promete desviar o que machuca para não rasgar as costuras desse patchwork recém-terminado?

Eu só preciso que você seja de verdade. Que me veja por dentro todas as vezes em que a lua despertar

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meu peito nu no meio da noite — assim como acon- tece agora enquanto entorno estas palavras no celular e te observo respirar macio —, e não se amedronte.

Preciso que se acostume a receber cartas ou textos muito grandes, assimilando minha verborragia. Que me responda com um olhar de quem vê além, segu- rando meu rosto com as duas mãos como se eu fosse pérola em meio a suas conchas. Que respeite tudo o que me trouxe até aqui e em troca me deixe fazer o mesmo por você.

Mas caso tanta letra seja apenas mais uma despedida, continuo a esperançar. Sei por onde ir, agarrada a mim mesma e às certezas gentis. Histó- rias sempre começam e para minha sorte, além de contá-las me derramo ao vivê-las. Encerro aqui, beijando todos os seus sonhos e desejando que a dor não nos congele. Quando a aurora chegar, já terei ido embora daqui. Mas não você, de mim.

Se você me iluminar, meu bem, eu volto.

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Carta para Salvador

Você foi a primeira capital do Brasil, lugar onde todos começamos. Nascemos as duas no mesmo mês.

Aquele único mês que carrega o mar em seu nome, o mês das águas e das profundezas. Talvez por isso minhas estradas tenham me levado a fazer morada em suas terras. Não queria, mas fui ficando, reclamando, enlouquecendo com suas loucuras tão arianas e me apaixonando pelo seu jeito tão delicioso de convidar meus sentimentos a passear por suas curvas. Quando vi meu sorriso naquela primeira fotografia que tiramos juntas, eu soube. Era amor. Sua cara de pau dizia não achar nenhuma novidade toda a minha descoberta, aí eu fui lá e te amei mais um pouco.

Pode ter sido pelo som que suas ruas fazem, um sotaque que parece um concerto ao qual sempre

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quis assistir. Pode ter sido ali no Rio Vermelho, descendo aquela avenida, tomando uma cerveja e olhando o mar agitado de uma praia chamada Paci- ência. Pode ter sido por não importar se o largo era de Santana ou da Mariquita, a gente escolheu tatuar Cira ou Dinha e quem não entender que prove os acarajés.

Pode ter sido pelo cheiro de alfazema da Casa de Iemanjá ali do outro lado da rua, pelo calor que senti enquanto fazia uma reza, pela certeza de que perto da água minha alma fica acesa o tempo todo.

Pode ter sido porque um dia, quando quiseram me salvar de mim, me levaram na Casa de Jorge Amado e tudo fez sentido. Porque senti a sinergia imersa naquele ambiente de amor e livros e árvores e muitas plantas verdes. Porque na cozinha de Zélia, meus olhos encheram d’água tocando em presenças potentes do que não mais está. Pensei no poder que a literatura tem e senti um real privilégio enquanto seguia imersa naquele enredo, sentada naquele jardim da Rua Alagoinhas, olhando a mangueira onde as cinzas do casal se abraçam e lembrando que é também debaixo de uma mangueira que meu avô descansa. Fiz uma prece.

Pode ter sido pela paisagem da orla da Ribeira, que parece uma pintura antiga que vi um dia num museu. Pode ter sido porque quando o metrô foi

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finalmente inaugurado, num vagão ainda meio vazio, me apaixonei por um cabeludo tocando Alceu Valença e não liguei de descer na última estação, só para acompanhá-lo e ter para mim uma história clichê no metrô. Pode ter sido porque você tem um dialeto absurdamente único, me levando a descobrir que não sabia falar o baianês, mesmo tendo nascido e morado a vida quase toda na Bahia. Pode ter sido porque aprendi, além de me comunicar já diplo- mada, a traduzir-te para os amigos de fora que iam me visitar — em você, cidade, a Bahia é outra onda.

Pode ter sido porque no dia em que subi no Farol da Barra pela primeira vez, te olhei de lá de cima e tive uma epifania pronta sobre esse negócio de todo mundo ser d’Oxum. E somos.

Pode ter sido porque no Mercado Modelo me vi entrando num portal onde o sincretismo jogava capoeira muito à vontade. Pode ter sido porque subi incontáveis vezes o Elevador Lacerda, mesmo quando a fila rodava a praça quase toda, só para pular um carnaval de um tempo antigo que só existe no Pelourinho. Pode ter sido porque na primeira vez que pisei naquelas ruas de pedra do pelô, ninguém precisou me avisar: eu senti. Estava em seu coração, Salvador. Ali eu pertencia como poucas vezes consegui pertencer a um lugar. E por isso, um dia

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cheguei lá de manhã cedo e fiquei até anoitecer, interagindo, ouvindo histórias, decorando risadas, olhando ao redor e me esbaldando de felicidade enquanto uma mulher negra muito cheia de Bahia trançava os cabelos da minha irmã. Pode ter sido porque quando o Olodum saiu de casa com seus tambores naquele fim de tarde, trovejou cantos do meu corpo que eu nem sabia existir. Pode ter sido porque em todos os anos vivendo você, bastava que algo fosse vivido ali e eu saía arrebatada.

Pode ter sido porque caminhar pelo Campo Grande fazia minha alma cantar Novos Baianos o tempo todo, atravessando a praça Castro Alves, levando o sol na cabeça pela Avenida Sete e pensando em como era massa finalmente ver a cara das músicas do meu berço. Assim ali como também na Lagoa do Abaeté e em Itapuã, com Caymmi, Vinicius e suas ruas de nomes bucólicos. Por onde a gente passa você canta, Salvador. Do Santo Antônio Além do Carmo até a Baixa dos Sapateiros. Tão irre- sistivelmente afinada que eu sempre cedo.

Pode ter sido ainda por não conseguir nunca caminhar da Ondina até a Barra. Pode ter sido porque me perdi algumas vezes na Pituba e porque, apesar de nunca entender onde acaba Brotas e começa o Candeal, imediatamente passei a chamar

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a Luís Viana de Paralela e a Mário Leal Ferreira de Bonocô. Pode ter sido porque quando descobri as sessões improvisadas de jazz no Museu de Arte Moderna, tudo em mim alucinou. Aquela paisagem é um desaforo e nunca mais vi o sol se pondo com tanta vontade de acertar igual ali, naquele mirante.

Pode ter sido pelo tanto de mar adentrando suas f(r)estas, pelos tantos shows na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, onde me arrepiei exatamente todas as vezes e voltei para casa sempre rouca e transtornada de felicidade.

Pode ter sido porque foi com você que descobri que assumir-se torcedor do Bahia ou do Vitória é assinar um atestado seríssimo. Pode ter sido, Salvador, porque em quase toda esquina do centro existe uma Igreja e porque a sensação de estar rodeada pelo sagrado me faz sentir imersa numa redoma invisível de proteção. Pode ter sido porque ajoelhei na Igreja do Bonfim depois de amarrar as fitinhas na grade e fiz uma longa oração. Ou ainda porque no Dois de Fevereiro vi pela primeira vez um mar de rosas e agradeci à Sereia por melhorar sempre o meu olhar.

Entretanto, não te conheci do avesso, Salvador, mesmo atravessando seus espaços forrados de miséria e quase nenhum acesso. Por anos morei

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numa de suas divisas taxadas como perigosas, exigindo que estivéssemos atentos a ponto de ante- ciparmos nossos passos e possibilidades. Entrei algumas vezes em transportes que acabavam de ser assaltados. Vivenciei a expressão cotidiana daqueles que não te vivem por inteiro e quase não te conhecem porque a condição é a de não haver mesmo condição:

a desigualdade grita, é ofensiva. Você, apesar de ser a capital negra da América Latina, é desproporcio- nalmente racista dentro de uma estrutura que não descobrimos ainda por onde começar a desmontar.

Sua memória é também triste, Salvador, mesmo que vendamos apenas sua imagem feliz.

No fim das contas, nosso flerte engloba tudo:

a perícia com a qual seus cenários acariciam meus olhos e a dor de sentir as mazelas da sua alma.

Você me recebeu e me guardou do jeito que deu.

Fui embora, mas os acasos continuam soltos e uma hora dessas, quem sabe acabemos virando um caso sério retado? Você é barril, cidade! (Em todos os sentidos possíveis.)

É com amor, mesmo quando não é.

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Carta para quando o Ilê passar

Estarei na avenida, preto, brilhando como naquele dia em que você me viu dançar em meio ao afoxé. Esbarrava em corpos que recarregavam minha energia quando senti a linha das suas retinas tentando me pescar. Deixei que você se enganasse antes de entender que minha corda eu mesma seguro. Não saio do mar, mas abro cami- nhos. Você não precisa me pegar, a depender do selo eu mesma me envelopo. Preste atenção e não me deixe extraviar.

É fevereiro e a Bahia não dorme. Saio de casa com aquarela, purpurina e sua fotografia no pensa- mento. Lembro quando você finalmente conse- guiu atravessar a ladeira, olhou-se nos meus olhos,

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encharcou de lavanda minhas mãos e com azul e branco pendurou o colar em meu pescoço, derra- mando a paz que Oxalá mandou. A mesma paz que senti quando você me abraçou pela primeira vez.

Hoje desci para ver o cortejo afro passar e os tambores aceleravam minha emoção. Você não aparecia para me agarrar de costas, segurar minha cintura com as duas mãos e movimentar meus quadris que procuravam sua malemolência tão natural. Você não chegava para se pendurar em mim, tal como um belo amuleto de azeviche, me fazendo estufar o peito como quem carrega em si todo aquele axé espalhado pelas ruas. Você não chegava e eu improvisava uma sequência de rodo- pios, sambando em terras desconhecidas enquanto o sol ia acordando o mar.

Um encontro assim não é de toda hora. Por isso, quando nossas línguas se explicaram naquele beijo, engoli palavras que há tempos não eram usadas sem medo. Diante de sua entrega sem censura, de sua fala usando frases de quem se procurava em mim, ousei mostrar minhas garras para a sua pele enquanto rosnava em seu cangote. Não há como domesticar nenhuma essência, pretinho. Gamei em você ao te notar gamado na liberdade de tudo, enquanto volun- tariamente ia se prendendo em mim. Você chegou

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desavisado, sacudindo o rasta que levava um anel de delírio em cada ponta e me fazendo um cafuné sem convites, embolando meus cachos vermelhos e amolecendo minha nuca suada. Daí então fui sua, pela eternidade de um domingo inteiro.

Acontece que hoje é terça-feira gorda e o único endereço que sei é o das declarações etílicas que marcaram todos os paralelepípedos por onde esti- vemos. Você foi uma das raras pessoas que ouviu meu coração de perto, mas não perto o suficiente para decodificar a mudança de cor da minha íris. Seus pelos tremeram com o meu toque e a paixão digita- lizada em meu corpo não se calou em sua boca. Eu só queria mesmo era poder te olhar mais um pouco.

Te escrevo antes de sair de casa, enlaçando estas letras com duas medidas do Bonfim — azul e branca.

Coloco esta carta aqui na praça, sabendo que você não irá encontrá-la, mas que vai encher de cor algum raio cinza da quarta-feira de amanhã. Eu só queria agradecer. E soltar esses sentires pelos circuitos. A vida é roda e ninguém pode parar.

Sou do sertão, meu bem. Não preciso de cais, você bem sabe. Obrigada por ter chovido em mim.

Quem sabe ano que vem você consiga regular a sua mira, bem ali, naquela rua estreita do Curuzu, quando o Ilê passar.

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Carta para o amor que mata

Um amor fácil, que sopre leve nos dias quentes e desarrume um sorriso em meu rosto. Um amor que se acostume a me ver acordar e me ajude a bagunçar a cama antes de deitar. Um amor que me convide para ficar em silêncio e faça música debaixo do chuveiro.

Um amor que tenha forças para segurar meu mundo enquanto aperto muito forte as suas mãos. Um amor que tenha aptidão em falar de estrelas enquanto organiza as compras na geladeira e me convida a assistir a um filme europeu no final da tarde.

Um amor sincero, responsável e muito claro ao despejar suas intenções. Um amor que saiba que sentimento é construção e preencha comigo os primeiros alicerces com muita firmeza. Um amor

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muito latino e passional, que solte gargalhadas com o corpo inteiro e atravesse as pontes invisíveis para encostar cada vez mais naquilo que sou. Um amor que feche os olhos ao ver um risco no céu e faça um pedido que case com o que deixei guardado na curva das minhas pálpebras.

Um amor que chegue como uma boa notícia, que tenha uma inteligência afrodisíaca, que não me deixe sem respostas e não tenha medo de molhar-se a cada vez que chovermos. Um amor que me escute cantar entre as panelas da cozinha e venha me tirar para dançar. Um amor que colecione meus suspiros e saiba conjugar meus verbos preferidos. Um amor fácil de beber, que não precise ser mastigado e não me faça engasgar. Um amor que traga seus clichês para sentar-se junto aos meus e preste muita atenção a tudo aquilo que não digo.

Um amor que respeite o mar e desenhe histó- rias na praia. Um amor que me deixe fazê-lo tão feliz quanto busco ser. Um amor que não grite, que aprenda palavras novas dentro de um copo de cerveja e tente me ressignificar enquanto construo um novo dicionário sobre ele. Um amor que não contenha os beijos — que sejam muitos, toda hora.

Um amor que me leve por estradas de aprender a ser. Um amor que esteja sempre atento, mesmo

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quando estivermos os dois beirando a exaustão. Um amor que desafogue.

Um amor que solte faíscas e pegue fogo para renascer, fazendo as vezes de fênix. Um amor que ande de mãos dadas e desative minhas senhas enquanto abre seus cadeados. Um amor que faça carícia na minha timidez e tenha interesse em me ajudar a adestrar as ansiedades. Um amor que consiga fluir, natural como o cheiro de café de todas as manhãs. Um amor que tenha manhas e dengos, e que me dê muita sorte. Um amor que espalhe delí- cias em todas as suas minúcias e tenha vontade de habitar o canto mais bonito do meu peito.

Um amor que não seja perfeito, mas que saiba cultivar as ervas certas para cortar o efeito de qual- quer dor que se arraste além. Um amor que elogie os meus vestidos, principalmente enquanto ajuda-os a descer pelos meus ombros. Um amor que me navegue e tenha como bússola minhas unhas vermelhas. Um amor que não jogue, que deixe as cartas abertas na mesa. Um amor que ache elegante pluralizar nossos pronomes. Um amor que venha, e me leve quando for. Que seja leve enquanto flor.

Um amor que viva, porque já não sei mais morrê-lo.

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Carta para o sentimento míope

Se eu tivesse tempo, amor. Se a paixão não me deixasse assim tão alterada. Se te olhar de perto não me trouxesse sempre uma nova descoberta. Se você não tivesse colocado aquela flor amarela de hibisco na minha orelha. Se não fizesse um carinho na minha coxa sempre que o carro para no sinal. Se não tirasse com cuidado os meus óculos antes de me beijar bem demorado.

Se não deitássemos na rede e você não dormisse enquanto leio um livro. Se não tivéssemos escolhido plantar uma quaresmeira cor-de-rosa para deixar mais bonita aquela rua cinza. Se você não tivesse lido minha mão esquerda e encontrado

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um caminho. Se não tivéssemos atravessado um ao outro, devagarinho e prestando atenção.

Se seus olhos não vertessem baldes de espe- ranças enquanto me reflorestam. Se sua presença não fosse fonte de delicadezas nas quais gosto de banhar-me. Se eu não parecesse muito eterna a cada instante no qual você se esquece em mim.

Se eu conseguisse fazer uma música para cantá-lo enquanto desafino. Se a vida não fosse tão besta e os sentimentos tão simples a ponto de nos esforçarmos para problematizá-los.

Se você não deixasse sinais pela casa e mensa- gens no seu rosto. Se sua letra feia não me escre- vesse esses bilhetes bonitos. Se você não fingisse não gostar tanto daquele vinil do Cinema Trans- cendental. Se aquele perfume que você usa não me desse alergia e se não fosse você mesmo o próprio antialérgico. Se meu nome nunca tivesse carregado uma pronúncia tão aveludada quanto essa que você entoa ao me chamar.

Se você não esperasse de mim nada além daquilo que sou. Se não preferíssemos usar palavras agridoces só para não corrermos o risco de ficar enjo- ados. Se eu não gostasse de ficar presa no labirinto do seu corpo. Se as relações não fossem tão vulnerá- veis ao mundo. Se você não compreendesse o motivo

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pelo qual agora só mergulho se tiver um snorkel ao alcance. Se não andássemos cansados de tanto amar e não celebrássemos a liberdade de poder errar. Se tudo aquilo que já dormiu em mim não tivesse acor- dado mais uma vez, só para te observar.

Se todas essas palavras não fossem segredos os quais me dispus a revelar ao imaginar seu olhar em cima desses parágrafos. Se não fosse a intenção de libertar tudo o que me atrevo a sentir enquanto escrevo. Se você topasse iniciar pelo fim, onde tudo é mais tranquilo, gentil e acostumado. Se não deixás- semos de nos continuarmos, pingando reticências para não dar tempo aos pontos finais. Se não fosse eu sem saber onde você começa e você sem desco- brir onde termino. Se a paixão não te deixasse assim tão alterado. Se você não plantasse tulipas em meu jardim e eu não sujasse as lentes dos seus óculos enquanto te beijo bem demorado.

Se tivéssemos enxergado. Se ao menos o amor viesse antes de você anunciar esse adeus.

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Carta para romper as grades

Baby,

Sejamos honestos: a quarentena é um perigo para a mulher que arde. Essa mulher meio bicho, que se vê enjaulada e sem acesso às possibilidades de caça. Roda em círculos e deita no chão, nua, enquanto rosna e lambe os lábios, delirando em cima das futuras presas que observa de muito longe.

Essa mulher com esse faro aguçado assim, procura dia e noite algum vestígio do que possa virar satisfação. Inventa histórias sozinha, mordendo a tampa da caneta e pensando em todas as maneiras possíveis que você poderá tocar seu corpo quando os cadeados se abrirem novamente.

Pode chegar pisando macio, com algum tom amadeirado no seu cheiro. Pode estacionar muito

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colado, duvido você não se queimar. Pode afastar os cachos dos meus olhos, ler bem aqui no fundo da minha retina o que farei com você em seguida.

Se entrega, baby, facilita. Mas se você preferir, posso dar o bote. Não existe antídoto em nenhum lugar senão dentro de mim. Deixa eu te mostrar por onde suas mãos podem rastejar. Segura firme e me engole devagar — é uma opção. Me espalho só para sentir você me juntando. Não sou sua, mas pode imaginar assim.

Quando eu estiver solta e escolher me trancar nos seus abraços, não se espante. A selva às vezes se deixa domesticar por algumas horas. Eu sinto fome e você é uma sacanagem para o meu apetite infinito.

Minha boca fica molhada pedindo o seu gosto. Pode vir sem embrulhos, sou suficiente para esquentar você. Então me guarda aí, para usar daqui a pouco.

Sim, já estou entregue. Você, quando chega?

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jaya magalhães

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Carta para você dar o nome

Acordei no meio da noite e pensei em te ligar.

Ou mandar um áudio comprido com voz de sono falando sobre o sonho que tive e sobre o quanto parecia real ter você aqui. Levantei, tomei um gole de água gelada e comecei a assistir a um filme ruim na expectativa de vencer a insônia. Não consegui, resolvi então escrever. A Palavra sempre foi essa divindade responsável pela nossa história. Eu sinto falta de quando espancávamos o teclado durante madru- gadas inteiras construindo um no outro algo que nem sabíamos o que era. E até hoje não sabemos.

Continuo com esse buraco insistente no estô- mago, que se confunde com gastrite, fome e vontade de amar. Esse buraco que nunca é preenchido e que

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