“ (…) naquela mesa ele sentava sempre E me dizia sempre o que é viver melhor Naquela mesa ele contava histórias Que hoje na memória eu guardo e sei de cor (...)”
(Sérgio Bittencourt, 1972)
Hoje nos reunimos para falar do passado e do quanto a nossa família caminhou para chegar em tantos lugares. Em algum momento, só sabíamos falar de você. Ao som das clássicas do Nelson Gonçalves, empertigávamos as vozes para te refrasear:
“Essas crrrrrrrianças, eu não sei não…”, bem assim.
Gargalhadas. Cigarros. Goles pesados de cerveja.
Lágrimas. Falar de você foi quase como te sentir ali, sentado, nos observando.
Fui invadida por uma imensa gratidão, só por saber que estivemos no mesmo espaço, ao mesmo tempo, com o mesmo sobrenome e compartilhamos tanto. E, então, lembrei do seu amor. Da nossa cumplicidade: era eu chegando no mundo e você, do seu jeito, abrindo espaço para eu passar.
Pensei em como eu adorava subir nas suas costas para rodar por aí, vendo tudo lá do alto e comendo pipoca na sua cabeça. Lembrei de como eu me sentia a rainha do mundo, lá do alto. E você, o meu bobo da corte, que me comprava porcaria para comer, toda vez que eu pedia. E me contava histó-rias. E me exibia como um troféu. Um tesouro.
É a imagem mais linda que guardo de ti: nós dois descendo as escadas, eu em cima e você embaixo.
Lembro que eu puxava seus cabelos com força, por medo de cair. Mas na verdade, eu não tinha medo, você me segurava. Tudo era possível no seu colo.
Engraçado pensar, agora, em como eu ficava maravilhada ao te ver cumprimentar tanta gente por onde passava. Você conhecia todo mundo! E, ainda hoje, quando leio seu nome em jornais e revistas, e conheço cada pedaço novo de sua história, me espanto.
É um orgulho muito grande ser de você. Também me lembro do meu orgulho quando, na infância, te
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levei para contar histórias aos meus colegas de sala.
Eles te adoravam. Eu te amava. E enquanto você falava, todo mundo ficava bem quietinho, te absor-vendo. Você marcou a vida de todos eles. E eu me sentia a rainha do mundo de novo. Porque você era só meu. Meu. Meu. Meu.
Hoje eu sei da parte difícil da sua vida, dos problemas em casa, das brigas, das despedidas não programadas e que vieram cedo demais… dos seus problemas consigo mesmo. De como a vida daquele moço bonito, da voz poderosa, conhecido por todos na cidade, tomava rumos errados. Tortos. Inesperados.
Mas eu te acho um dos personagens mais bonitos da história da nossa região, meu velho! E sigo catando pedacinhos da sua existência para, quem sabe um dia, escrever você em outras páginas além da vida que você viveu.
Hoje à noite o Nelson Gonçalves berrou o refrão que fez todo mundo chorar berrando junto:
“Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim…” Seguiu-se um silêncio bonito, doído, familiar. Era saudade. Quando o assunto é você, é sempre saudade.
Sei que seus últimos anos de vida te levaram para longe de nós, mas imagino como também foi difícil para você, deixar a gente aqui. Porque eu sei do
seu amor, que era tão imenso, que até hoje eu sinto.
Reverbera.
Tem um pouco do seu amor guardado em cada um de nós. Pode ficar tranquilo. O seu amor está em cada palavra que me atrevo a mostrar ao mundo, na doce voz das minhas tias, na voz potente do meu pai, na oratória do meu irmão, no sorriso das meninas, no olhar de minha vó. Na boemia que é herança de todo mundo. Pode se orgulhar!
Quando volto à cidade, retorno àquela pracinha na qual eu te encontrava todos os dias. Você sempre estava lá e, não importava o estado de espírito, me abria aquele sorriso e me dava um abraço (e uma bola de sorvete). Era sempre um abraço apertado, de quem está feliz em ver alguém. Sinto falta desse abraço. E do sorvete de morango, que você nunca esquecia ser o meu favorito. Você é uma das minhas melhores lembranças da infância. Um dos melhores pedaços de mim.
Hoje, mais do que nunca, desejei que você estivesse aqui. Queria te contar das coisas que eu fiz nos últimos anos. Dos caminhos que insistiram em me trazer sempre um tantinho mais perto de ser parecida contigo. Te enxergo em cada uma das minhas vitórias, porque você sempre me inspirou a acreditar que eu podia ser todas as coisas. E, vô, eu tenho sido. Todas elas. Inclusive feliz.
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Quando te perdemos pela primeira vez, eu só desejei que você fosse feliz. Que ainda existissem caminhos, amores, momentos a serem construídos por ti. E esperei calmamente por qualquer nova notícia, com uma esperança descompensada de te ver voltar.
Você não voltou, vô. Não para nós, nem para o seu sofá, ou o seu boteco favorito, sua mesa, seus discos… não. Você se foi. E foi quando te perdemos pela segunda vez. Essa definitiva.
Eu nunca te disse adeus, não é? Minha memória só guarda os nossos encontros: aqueles com abraço e sorvete. Com pipoca. Com histórias e música. A minha vida inteira eu nunca estive preparada para me despedir.
Mas a vida, o tempo, o vento, os céus e seja lá quantas divindades pudermos nomear, se encarre-garam de nos separar. Ledo engano do tempo: desde que você partiu do mundo, passou a ficar guarda-dinho aqui dentro do meu. Na mente, no coração, nas veias, na memória. E em momentos como hoje, ao som de um refrão antigo, é como eu te sinto: uma brisa feliz, uma potência incrível, um arrepio de lembrança boa.
Hoje eu te senti vivo. E escrevo para eternizar esse instante, como numa foto mental. Obrigada
por abrir as portas do mundo para mim e florear os caminhos da história para me receber de um jeito tão bonito. Sou muito grata por ser um pedaço de sua existência.
Eu te amo sempre.
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