CONFIGURAÇÃO DE HIERARQUIAS TERRITORIAIS
Mapa 1. Cartel europeu das agências, entre 1856 e
Elaboração própria, com base em Read (1999) e Aguiar (2009a). Base: fronteiras de 1866.
Pode-se observar no mapa acima que grande parte do território da América Latina estava prevista para ser compartilhada entre Havas e Reuters. A Havas concentrava-se nos domínios franceses e em parte da Europa ocidental, excluindo-se a Grã-Bretanha, de controle da Reuters. Esta atuava fortemente nos domínios do Império Britânico. A Wolff ficaria, principalmente, com os mercados da Europa oriental e Escandinávia.
Posteriormente, a agência norte-americana Associated Press juntou-se, subordinadamente, ao cartel, o que não foi seguido por sua concorrente nacional na época, a United Press (up, conhecida pela sigla posteriormente adquirida, upi30). Para
ilustrar o funcionamento desse cartel, Palmer (1983, p. 104, tradução própria31) narra o
modo como essa cooperação atingia o jornalismo francês:
30 Em 1958, a United Press comprou a International News Service (ins) e tornou-se UPI, como foi conhecida até sua decadência na década de 1980.
31 “Tel est le principe du fonctionnement de l'alliance des agences. L'essentiel de toute l'information étrangère
disponible em France transite par ce système et donc par Havas : elle monopolise celle-ci comme elle monopolise l'information nationale. […] Si le journalisme anglo-américain gagne la presse française, c'est un peu parce que Havas réceptionne des services de Reuter et de l'alliée américaine, l'Associated Press de New York” (palmer, 1983, p. 104).
A grande maioria das informações estrangeiras disponíveis na França passa por este sistema e, portanto, pela Havas: ela monopoliza essas informações como monopoliza as informações nacionais. [...] Se o jornalismo anglo-americano ganha a imprensa francesa, é apenas porque Havas recebe os serviços de Reuter e da aliada americana, a Associated Press.
A designação do território brasileiro — e da América Latina — como área de influência conjunta da Havas e Reuters culminou, em 1874, com o início do serviço da “Agencia Telegraphica Reuter-Havas” (frédérix, 1959, p. 137), com correspondentes no Rio de Janeiro (Havas) e em Santiago, no Chile (Reuters), na América Latina e operando com base em um cabo transatlântico recém-instalado. Pouco tempo depois, esse acordo se encerrou e a agência Havas passou a monopolizar, até a década de 1930, os fluxos noticiosos internacionais latino-americanos e estabelecer sua rede no continente.
O cartel das agências, enquanto uma divisão territorial do trabalho noticioso, foi importantíssimo para estabelecer as bases da organização desse setor até os dias atuais. Conforme Silveira (2004, p. 92), o mundo construído e seu arranjo de objetos e normas, ao mesmo tempo em que se transforma com o movimento da totalização32,
impõe a ele uma inércia, obrigando os vetores a uma adaptação. A isso ela chama de
escala33 de império, representada pelo tempo objetivado, pelo tempo empiricizado. Esta
autora também discute a escala da ação, constituída de tempo: o tempo global, o tempo nacional, o tempo local. Em outras palavras, teríamos de um lado a escala como
32 A totalidade está sempre em movimento, que é chamado de totalização. Segundo Sartre (2002 [1960], p. 36), “os fatos particulares não significam nada, não são verdadeiros ou falsos enquanto não forem referidos pela mediação de diferentes totalidades parciais à totalização em andamento”. A totalidade representa um resultado momentâneo desse processo. Os sistemas de objetos e sistemas de ações são novas totalidades dessa totalidade em movimento: o espaço geográfico (santos, 2006a [1996], p. 119). Entender o movimento é crucial: o processo histórico é esse processo de totalização (sartre, 2002 [1960]).
33 Em função da visão geométrica de espaço, a escala geográfica foi, por muito tempo, confundida com a escala cartográfica. A escala geográfica, conforme Santos (2006a [1996], p. 152) está relacionada, na verdade, com a área de ocorrência de um fenômeno e é, portanto, um dado temporal, e não meramente de extensão.
rugosidade — a inércia, dinâmica, das formas herdadas — e de outro como possibilidade: a materialidade criando inércia e resistência à mudança, enquanto a ação cria instabilidade e conflitos e, portanto, novos limites. Nesse movimento, as materialidades e normas que estabeleceram a divisão territorial do trabalho noticioso entre as três agências, fundadas no cartel, condicionou o desenvolvimento das comunicações — particularmente, dos fluxos noticiosos — no mundo e no território brasileiro.
Durante a Primeira Guerra Mundial, as agências transnacionais enfrentaram dificuldades financeiras. As agências europeias aumentaram suas relações com os governos, realizando, além dos serviços regulares, transmissões sob demanda dos Estados-nação que representavam (shrivastava, 2007, p. 118).
No que tange às agências, até o início da década de 1930 nosso continente ficou sob comando praticamente exclusivo da Havas, ainda que a agência Associated Press tivesse se estabelecido antes no território latino-americano (boyd-barrett, 1980, p. 171-172). Após a Primeira Guerra Mundial, diversos jornais da América Latina passaram a sofrer maior influência das agências norte-americanas, sobretudo buscando alternativas às visões enviesadas das agências europeias34. Além disso, a
queda da Alemanha na guerra acompanhou a decadência da Wolff, agência desse país — tanto em função da dependência de incentivos estatais, quanto pelos problemas econômicos do país, que afetaram seus assinantes (aguiar, 2009a, p. 11). Dessa forma, o cartel passou a perder força. No caso latino-americano, as agências UPI e AP passaram, então, a concorrer com a agência Havas. Isso não encerrou a dependência do continente das informações dessas agências transnacionais europeias e norte-americanas, como observou Rangel (1967).
A crise financeira de 1929 também afetou as agências de notícias, como lembra Paz Rebollo (1999, p. 118), pois as forçou a terem caráter oficial, de forma a garantir subsídios estatais. Desse modo, ampliaram-se ainda mais as ligações — e a
34 Cabe ressaltar que não concordamos com parte da bibliografia que credita às agências norte-americanas nesse período uma “neutralidade” ou “imparcialidade” — apenas identificamos, no momento mencionado, a necessidade desses jornais de buscarem fontes alternativas.
dependência — das agências com seus respectivos Estados nacionais.
No período entre guerras, o cartel europeu ainda permaneceu existente, contando com uma adesão formal da Associated Press em 1927. Todavia, com o surgimento de uma agência soviética, a tass, o contexto mudou gradativamente até o momento que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, quando as agências norte-americanas Associated Press e United Press e a agência soviética fizeram um acordo rompendo e repudiando formalmente o cartel europeu — que chegou, assim, ao seu fim (shrivastava, 2007, p. 15).
A Segunda Guerra Mundial acompanhou importantes mudanças no mercado de agências, já que as agências europeias Wolff e Havas sofreram incorporação estatal e uma precarização de suas condições (montalbán, 1979, p. 42). Após a guerra, houve uma ruptura na organização dos círculos de informações devido às transformações políticas no sistema-mundo, que reverberaram na configuração das agências transnacionais de notícias.
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