PERCURSO DE OBRAS E PROGRAMAS
A CRIANÇA E A REGIÃO CENTRO: DUAS PRIORIDADES (1936-45)
1.3 Casa da Criança de Coimbra, Loreto (1940)
Com a denominação de D. Joana de Avelar, esta Casa da Criança, situada no Loreto (arrabaldes norte da cidade de Coimbra), começou a ser edificada em 1937, segundo propostas recebidas pela Junta de Província da Beira Litoral, após abertura de concurso nesse mesmo ano283.
A sua construção foi subsidiada pelo Comissariado do Desemprego284, o qual concedeu uma comparticipação de 37.695$00, sendo desde o início a sua manutenção apoiada pelo Instituto Nacional e Previdência – Secção das Casas Económicas com 500$00 mensais e, a partir de 1953, pela Comissão Municipal de Assistência da cidade de Coimbra, através de igual valor285.
Apesar de se encontrar em funcionamento desde 1939, apenas em 14 de Julho de 1940 foi oficialmente inaugurada (PINHO, 2008, p. 309), de forma a coincidir com o lançamento da primeira pedra da Escola Primária286 do Bairro Económico do Loreto, onde ambas se inseriam. Nesta cerimónia, Bissaya Barreto proferiu um discurso onde,
283 Acta da Sessão de 22/07/1937 da J.P.B.L., fl. 32.
284 O Comissariado do Desemprego foi criado, em 1932, pelo Decreto nº 21.699, e tinha por objectivo colocar desempregados em instituições públicas ou privadas, com o auxílio do Estado, sendo esta estratégia muitas vezes utilizada no caso das Obras Públicas.
285 Acta da Sessão de 16/11/1953 da J.P.B.L., fl. 156v.
286 Edifício localizado a noroeste da Casa da Criança, o qual, nos anos 70 foi acompanhado de um segundo volume semelhante, construído numa cota inferior do terreno (PINHO, 2008, p. 308).
para além de defender as vantagens da criação de uma rede de Casas da Criança, colocava a tónica na importância dos Bairros Económicos no combate a doenças como a tuberculose, através da salubridade dos núcleos habitacionais (BARRETO, 1970, pp. 197-198), estratégia a que nos referiremos mais demoradamente num outro ponto deste capítulo.
À entrada no recinto, o primeiro vislumbre parecia traduzir uma aplicação fiel do projecto-tipo recentemente desenhado por Luís Benavente. No entanto, tal era apenas verdade ao nível do piso principal, neste caso o superior, já que esta Casa da Criança se desenvolvia em dois pisos. A inclinação do terreno por um lado obrigava e por outro potenciava a construção de uma cave onde, de forma vantajosa, funcionava a cozinha, a lavandaria e arrumos, libertando assim espaço no piso dedicado às crianças. Esta foi uma opção utilizada, pelas mesmas razões e de forma formalmente idêntica, por exemplo, na Casa da Criança da Figueira da Foz. Na cave, encontrava-se uma zona coberta escavada ao volume total e que servia como zona exterior de tratamento de roupas.
A envolvente incorporava ainda diversas áreas complementares: a norte, a habitação da regente, as pocilgas e galinheiros associados a uma zona de cultivo (construções ainda hoje existentes, em ruína), a nascente campos de jogos, baloiços e um pequeno coreto e, a sul, junto à entrada do terreno, um jardim de recreio com canteiros geométricos.
Ao longo da década de 60, esta Casa da Criança foi ficando sem utilização e bastante degradada287. O edifício sofreu então obras, em 1967-68, aquando da construção do Instituto de Cegos do Loreto (ao qual nos referiremos posteriormente em pormenor) de modo a tornar-se um complemento ao novo Instituto e ficando formalmente muito próxima de como se encontra nos dias de hoje (novamente sem ocupação). Assim, desde essa data, o seu alpendre redondo, a sul, foi fechado com caixilharia, de forma a criar uma nova sala, e o painel de azulejos que representava D. Joana de Avelar foi destruído288. Nessa zona, mantiveram-se as coloridas colunas, que sobreviveram, destacadas dos novos panos de parede, às obras desfiguradoras. No extremo oposto, no piso inferior, a zona aberta da lavandaria foi igualmente fechada,
287 Informação fornecida por uma antiga funcionária.
288 O painel é visível numa fotografia de Mário Novais, constante do seu espólio no Arquivo Gulbenkian. Curiosamente, em visita ao local, e quando apontámos a ausência do painel de azulejo, um funcionário comentou: “Devem ter caído ou ter sido inadvertidamente danificados durante essas obras, pois se assim não fosse, o Professor Bissaya, que ainda era vivo nessa altura, nunca teria permitido”.
bem como totalmente encerrado o alpendre rectangular que existia superiormente. Compreende-se nesse momento tal alteração pelo consequente ganho de área e eventualmente por motivos de segurança, uma vez que o edifício era utilizado por crianças cegas.
A razão para esta estranha situação de obsolescência apenas duas décadas após a sua inauguração, reside, provavelmente, no facto de a Casa servir quase exclusivamente as famílias do Bairro do Loreto. Ora, como as pessoas se mudaram para ali num período relativamente curto e coincidente, muitas delas, em resultado das demolições feitas na Alta de Coimbra, as suas crianças naquele momento ou as que nasceram poucos anos depois frequentaram a Casa da Criança, não havendo depois delas uma segunda geração no Bairro que logo lhes desse continuidade. A decisão era teoricamente acertada, a de instalar uma Casa da Criança naquele local, sendo coerentemente planeada ao nível da escala da cidade, correspondendo a um Bairro de raiz e acompanhando o desenvolvimento industrial daquela zona nesse período (PINHO, 2008, pp. 305-306). Terá sido, mas apenas no curto prazo, sendo no médio e longo prazo pouco aproveitada e rentabilizada, o que constitui uma das poucas excepções no quadro dos edifícios promovidos por Bissaya Barreto. Mais sucesso prático teve a Escola Primária, anteriormente referida, funcionando desde então até aos dias de hoje, ocupada antigamente por crianças de famílias da Freguesia que não viam necessidade ou obrigatoriedade na colocação dos filhos em creches ou jardins-escolas e, nas décadas mais recentes, por crianças que tinham frequentado outros estabelecimentos pré-primários, entretanto construídos na zona.