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SANATÓRIO ANTITUBERCULOSO DE CELAS (1932)

PERCURSO DE OBRAS E PROGRAMAS

O INÍCIO DE UMA INTERVENÇÃO SISTÉMICA (1927-35)

2. SANATÓRIO ANTITUBERCULOSO DE CELAS (1932)

O processo de instalação deste sanatório evidenciou um Bissaya Barreto tão determinado quão influente. A solução que circulava no seio da Faculdade de Medicina fica clara numa carta enviada por Ângelo da Fonseca a Adelino Vieira de Campos, em 23 de Janeiro de 1928169. Nessa missiva, o médico falava da importância de instalar, em Coimbra, um Dispensário anti-tuberculoso mesmo que em instalações provisórias, acrescentando ainda que a permanência de tuberculosos no Hospital dos Lázaros se tornava insustentável, pois aquele edifício tinha de albergar também outros tipos de doentes. A sua solução apontava o aproveitamento do Convento de Santa Teresa (perto do Penedo da Saudade) como uma possibilidade para a instalação de um estabelecimento específico para tuberculosos e referia o Picoto dos Barbados (Vale de Canas) como uma boa localização para a construção de um Sanatório, na linha do que defendia Lopo de Carvalho.

Contra qualquer uma destas opções, pela localização170, pela junção de doentes femininos e masculinos, pela consciência de que uma construção de raiz de um edifício

169 C.D.F.B.B. - FBB/OBRS/PLAN/SCOV/CX2.

170 Que, caso se concretizasse, na perspectiva de Bissaya Barreto, posteriormente reconhecida e auto-elogiada, ia inutilizar “inteiramente o Bairro do Penedo da Saudade, que ficaria conspurcado pelos escarros bacilíferos dos doentes”, para além de ser uma zona de “nevoeiros e batido pelas ventanias” e de ficar “sobranceiro a toda essa zona moderna do Cidral e Calhabé para onde a cidade mais se tem desenvolvido” (Acta da Sessão de 2 de Dezembro de 1956 do Conselho Provincial, fl. 19).

com as dimensões necessárias não passaria do papel, Bissaya Barreto apressou-se em encontrar alternativas válidas e em desenvolver todos os esforços para a sua construção.

Como vimos, Bissaya Barreto procurou, desde cedo, implantar um pensamento estratégico de racionalização dos recursos existentes, designadamente dos imóveis171. Pelo Decreto n.º 16.694, de 20 de Junho de 1929, foi transferido para a posse da J.G.D.C. o antigo Asilo Distrital de Cegos e Aleijados, em Celas, que se encontrava àquela data sob a alçada da Câmara Municipal de Coimbra172. O objectivo era transformar este grande edifício, situado em local privilegiado, “a pequena distância da Cidade, mas cercado por uma extensa área de terreno ajardinado e cultivado” (BARRETO, 1970, p. 43) e detentor de uma favorável exposição solar, num Sanatório Antituberculoso de Mulheres173.

Desde logo, é de assinalar o intuito de criar dois estabelecimentos distintos (feminino e masculino, este segundo na Quinta dos Vales e sobre o qual mais detalhadamente nos debruçaremos adiante), facto que não tinha “similar neste País, pois os sanatórios existentes são sanatórios mistos em que os dois sexos se encontram no

171 Os dados fornecidos pelos mapas de movimentos do Asilo de Velhos e Aleijados (Acta da Sessão de 31/10/1935 da J.G.D.C.) mostram que, em meados dos anos trinta, o número de internados rondava as três dezenas, ocupando estes, um edifício que tinha capacidade para albergar centenas de tuberculosos.

172 Edifício e anexos que se encontravam sobre administração da edilidade por virtude do disposto nos Decretos de 6 de Agosto e de 24 de Dezembro de 1892. O referido Decreto de 1929, esclarecia que o objectivo estabelecido na legislação de 1892 era a “fundação de um instituto de caridade”, situação que não tinha acontecido, nem se previa que acontecesse, devido à “falta de recursos financeiros daquela câmara”, pelo que se mantinha ainda em funcionamento até então o Asilo de Cegos e Aleijados. Situação entretanto alterada com a reactivação das Juntas Gerais de Distrito (extintas precisamente em 1892) e que possibilitava, finalmente, a criação do aludido “instituto de caridade”, ou seja, o Sanatório Anti-Tuberculoso.

173 Pretendia-se um “Sanatório Popular” com o fim de “receber doentes pobres, que assim o justifiquem, por documento passado pela Junta de Freguesia; doentes remediados, que pagarão dez escudos diários, e haverá também uma secção para doentes com meios bastantes, e que pagarão vinte e cinco escudos diários” (Acta da Sessão de 26/05/1932 da J.G.D.C., fl. 175v).

mesmo estabelecimento, sem qualquer vantagem para a doença e para o doente” (BARRETO, 1970, p. 299). Esta decisão era justificada, principalmente, por questões de controlo e disciplina interna que se queria rígida e austera. Tratando-se de sanatórios que se pretendiam essencialmente destinados às populações mais pobres, Bissaya Barreto considerava que não tinha de se “lastimar a dureza dos regulamentos ou das disposições adoptadas e seguidas sempre, e só, a bem dos doentes, muitas vezes contra a vontade dos doentes”, pois estes “raras vezes têm a compreensão do que lhes convém e lhes pode ser útil” (BARRETO, 1971, p. 562). Enquanto promotor destes estabelecimentos, tinha a consciência de que eles não se podiam constituir, segundo as bases “comerciais” com que se confrontara, por exemplo, numa visita à Suíça, onde, como dizia, os sanatórios “pertencem a empresas industriais” pelo que “há que atrair os hóspedes, há que fixar os hóspedes e não é contrariando-os, desgostando-os que eles se fixam” (BARRETO, 1971, p. 561).

Foi na Sessão de 19/12/1929 da J.G.D.C. que ficou decidida a abertura do concurso para a execução das obras, após análise do projecto de autoria do engenheiro-técnico José de Macedo.

A intervenção directa de Bissaya Barreto na construção desta obra fez-se sentir, de forma preponderante, nas suas diferentes fases. Na definição do imóvel e na compra de faixas de terreno adjacentes ao mesmo, de modo a permitir a construção de jardins, anexos e uma eventual ampliação; no respectivo processo de cedência e à transferência programática do Asilo para Semide; no pedido de subsídios a diversos organismos; na organização funcional a concretizar; e até na escolha e encomenda de materiais e mobiliário174.

As obras, realizadas numa fase inicial por António Luís d’Almeida Patrício e depois pelo construtor civil António Maia, decorreram entre 1930 e 1932. O projecto de adaptação teve necessariamente as condicionantes funcionais e estruturais condizentes com aquele grande e antigo edifício. No entanto, e não por acaso, o programa daquele Convento Feminino adaptava-se de forma relativamente fácil ao seu novo destino. Observando o imóvel existente, deparamo-nos com um extenso edifício com cerca de

174 Como se pode constatar em diversas actas das Sessões da J.G.D.C., nomeadamente nas de 2/01/1930, de 9/01/1930 e de 5/02/1931. Registam-se encomendas feitas à Sociedade dos Mármores de Vila Viçosa Lda., no que toca a pavimentos, a Martins & Irmão e Joaquim Gomes Porto & Irmãos, respeitantes a mobiliário, e à empresa berlinense Alfred Stettiner & Co. relativamente a equipamento cirúrgico. Sobre esta, é ainda dito que “o Senhor Presidente esclareceu que devia ser preferida a instalação Luntenschlager feita por esta casa, porquanto na sua última viagem à Alemanha teve ocasião de verificar varias instalações deste género que plenamente satisfazem o fim desejado” (Acta da Sessão de 5/02/1931 da J.G.D.C., fl. 76).

70 metros de comprimento e 3 andares, atravessado longitudinalmente por um corredor central, ao longo do qual se distribuíam as celas conventuais. Transversalmente, o volume era dividido em três parcelas, através de duas escadarias.

Este esquema arquitectónico adaptava-se de forma franca ao de um sanatório e Bissaya Barreto sabia-o. Bastava para tal ter visitado, como fez, o Sanatório de Schatzalp, em Davos, dirigido pelo Dr. Neumann (BARRETO, 1971, pp. 561-562). Para além da referência à sua visita àquele estabelecimento suíço, encontra-se igualmente presente no C.D.F.B.B. uma brochura promocional do referido sanatório que permite, muito claramente, identificar as semelhanças de um modelo que influenciou Bissaya Barreto.

Através das fotografias, percebem-se algumas semelhanças no uso da pedra, na decoração e organização das salas de jantar e nas divisórias de cerca de 2m de altura presentes nas corridas galerias de cura. Analisando as plantas, são visíveis os dois corpos de escadas que dividem o edifício em três. Estruturalmente, na fachada surge uma arcaria coberta no piso térreo e galerias de cura nos três pisos superiores e, funcionalmente, o piso térreo é ocupado com a cozinha nas traseiras e com duas salas de jantar e uma sala de estar na fachada principal. Na verdade, com as devidas adaptações, esta poderia ser a descrição do Sanatório de Celas. Organizado em 3 andares (com aproveitamento parcial do sótão para quartos do pessoal), o primeiro era composto, na

Fig. 14 - Planta do Sanatório de Celas (obras de 1971).

fachada sul, por uma arcaria e continha 8 enfermarias, no segundo incluíam-se mais 8 enfermarias, surgindo a fundamental galeria de cura que marcava o seu carácter sanatorial e, no terceiro, 27 quartos a que se somavam uma galeria e um terraço, ambos expostos a sul. O alçado oposto era claramente secundário, resultando também da directa expressão exterior das plantas, mas numa composição de vãos menos regular e formalmente mais aleatória.

Quanto aos materiais utilizados, estes seguiam a mesma linha suíça e eram descritos por Bissaya Barreto com grande vaidade, ainda para mais por, segundo ele, esta obra ter sido feita “sem engenheiros, nem arquitecto” (BARRETO, 1959, p. 158). Assinalava a “policromia”, assim como a “harmonia atraente dos móveis, das roupas, da decoração mural”, num resultado que rompia “com a monotonia de asilo” (BARRETO, 1959, p. 159). Destacava os predicados das instalações sanitárias com “paredes forradas a azulejos pretos, de cima abaixo, a contrastar com a alvura das louças e da banheira” (BARRETO, 1959, p. 161). Finalmente, apontava os “mármores de Estremoz” como elemento esteticamente diferenciador, sendo que as suas características de manutenção os tornavam os revestimentos mais “higiénicos” e “económicos” (BARRETO, 1959, p. 160).

Em 1931, ainda na fase intermédia das obras no edifício, foi encomendado a Jacinto de Matos um estudo paisagístico para os “terrenos a ajardinar”175 na envolvente do edifício, denotando a atempada e consciente preocupação com a valência relativa aos espaços exteriores. Para além de um extenso jardim geométrico, implantado numa plataforma de nível que confrontava com a fachada sul, é de registar que, aproveitando a necessidade de ligar a cota da soleira de entrada com a da entrada no terreno (feita através da Avenida Dr. Bissaya Barreto), se tenha plantado “no meio dum grande canteiro de gazon verde, em mosaicultura com iresinas vermelhas, uma grande Cruz de Lorena, símbolo da tuberculose, com cerca de 15 metros de comprimento” (BARRETO, 1959, p. 163), motivo desenhado segundo indicação de Bissaya Barreto e sobre o qual falava com especial orgulho.

175 Acta da Sessão de 2/07/1931 da J.G.D.C., fl. 112. Fig. 18 - Jardim do Sanatório de Celas.

Nota ainda para um pormenor construtivo na área exterior que, no entanto, se reveste de um carácter particularmente simbólico. No final de 1931, foi cedido à J.G.D.C., após pedido efectuado por Bissaya Barreto, o “portão de ferro e respectiva cantaria” que pertencera à “Prisão Oficina de Coimbra” de modo a que pudesse ser usado como entrada do Sanatório. Contudo, este portão foi substituído, em 1938, por um novo com desenho da autoria de Luís Benavente e com subsídio do Fundo de Desemprego176. Tratava-se de uma peça dentro da estética usual em Benavente naquela época e na linha da expressão utilizada nos espaços interiores do edifício. Era composto por dois conjuntos de 4 colunas circulares e caneladas por azulejos (tal como as dos cobertos das Casas das Criança), coroadas por duas luminárias às quais se associava a simbólica Cruz de Lorena. Esta entrada veio a ser substituída por uma outra, aquando da sua transformação em Hospital Pediátrico, no início dos anos 70, num resultado monolítico, com uma escala pouco cuidada e formalmente infeliz, ainda existente.

Por fim, a inauguração oficial do Sanatório foi realizada no dia 14 de Setembro de 1932177, sendo que as primeiras doentes tinham já sido internadas há mais de 2 meses.

Mais tarde, em 1946, foi anunciada178 por Bissaya Barreto a proposta de adição de um novo corpo ao edifício principal, de modo a criar um Pavilhão de Crianças, pois “repugnava-nos a promiscuidade de crianças com adultos no Sanatório, sobretudo nos Sanatórios para o sexo masculino e, por isso, tomámos a iniciativa”179. Recorrendo a uma verba resultante de um empréstimo foi possível realizar as obras desse novo Pavilhão que albergava cerca de 80 crianças, mas que foi apenas inaugurado em 1958.

Este novo edifício, assinado pelo Arquitecto Manuel Montalvão, desenvolvia-se

176 Acta da Sessão de 24/03/1938 da J.P.B.L., fl. 68v.

177 Tinha sido efectuada, em Junho de 1931, uma outra cerimónia inaugural, integrada no evento “Dias da Tuberculose”.

178 Acta da Reunião de 15 de Março de 1946, fls.79v-81.

179 Acta da Sessão de 2/12/1946 do Conselho Provincial, fl. 119v.

em três andares incluídos num volume em T colocado junto à extremidade nascente do Sanatório existente. No rés-do-chão, que correspondia à cota do 2º piso do Pavilhão de Mulheres, existia um corpo esguio que ligava os dois pavilhões, albergando uma zona de lavagem de louças e de refeitório do pessoal e ainda Copa Suja, Copa Limpa e Desinfecção de Louças. No pavilhão propriamente dito existia ainda um Refeitório, duas Arrecadações, uma Sala de Caldeira, duas Casas de banho, uma Camarata do Pessoal e uma Rouparia.

Já a planta do 1º Piso do Pavilhão de Crianças, que estava à cota do 3º piso do Pavilhão de Mulheres. Na cobertura do corpo que liga os dois pavilhões, encontra-se um terraço (actualmente inexistente) adjacente à Sala de Jogos. Ao lado, o Vestíbulo de entrada que dava lugar ao Átrio que por sua vez distribuía para as escadas, Sala de Aula, Quartos e para o corredor dos quatro Dormitórios de oito camas, cada um deles servido por uma Galeria de Cura corrida. Estes possuíam ainda, em antecâmara, uma zona de lavabos separada por armários que não tinham a altura total do pé direito (3,30m), o que é visível no corte transversal. Ao fundo do corredor surgia o quarto do Vigilante, Casas de Banho, Arrumo de Despejos e Roupa Suja (com saída directa para o exterior) e um Quarto de Isolamento.

O desenho do último piso era semelhante ao do piso inferior, diferindo apenas em dois espaços: por cima do Vestíbulo estavam duas salas para Tratamentos Médicos,

com Casa de Banho e arrumo para Ficheiros, e por cima da Sala de Aula, encontrava-se a Secretaria, o Gabinete Médico e a Radioscopia. Este piso continuava a ter a Galeria de Cura mas já não possuía o Terraço do andar inferior.

Finalmente, entre 1970 e 1973, decorreu um conjunto de reuniões do chamado Grupo de Programas180 que tinha ficado encarregue de gerir a adaptação de todo o edifício a Hospital Pediátrico, solução que era sustentada por Bissaya Barreto (BARRETO, 1971, pp. 679-682) e para a qual efectuara várias diligências (FERREIRA, 1990, p. 406). Com destaque nas directrizes deste grupo181, que era de perto acompanhado por si e onde detinha importante influência, encontramos o médico pediatra José dos Santos Bessa, um dos braços direitos do Presidente da J.D.C. e defensor de longa data da necessidade da criação de semelhante estabelecimento (BESSA, 1987, p. 25). As cópias de peças desenhadas existentes no C.D.F.B.B.182 encontram-se assinadas pelo Arqº Manuel Montalvão, tendo a data de 1971 e 1972.

3. NINHO DOS PEQUENITOS (1933-37)

Este complexo assistencial, apesar de já desaparecido, é uma obra fundamental para conseguirmos enquadrar o perfil inicial da acção de Bissaya Barreto e a sua evolução ao longo dos anos.

Várias questões vitais na visão assistencial deste médico foram aí esboçadas e concretizadas num equipamento coerente. Desde logo, a definição de dois dos seus alvos principais: as grávidas e as crianças; também a capacidade de adaptação dos edifícios e do seu mobiliário aos utentes infantis; ainda a preocupação com a formação de profissionais de Serviço Social; e, finalmente, a noção de complementaridade entre valências e serviços, numa perspectiva global dos problemas ligados à saúde, assistência e formação.

Como temos vindo a demonstrar, os objectivos de Bissaya Barreto, enquanto médico, político e promotor de obras arquitectónicas, não passavam por criar edifícios isolados, mas sim por gerar interdependências complementares numa lógica claramente

180 Presente em C.D.F.B.B. - FBB/OBRS/PLAN/PED/CX3.

181 Formado pelo Engº Eduardo Caetano, Prof. Dr. Bissaya Barreto, Dr. Santos Bessa, Dr. Viriato Namora, Sr. Pinho Teles, Dr. Raposo de Sousa, Arqº Luís Bronze e Dr.ª Bela Simões.

evolutiva que conduzia as novas gerações, desde o útero à idade adulta. O Ninho dos Pequenitos era apenas mais uma peça desse puzzle, mas uma parte importante, pois, para além da sua multifuncionalidade e da sua localização no coração da cidade de Coimbra, este estabelecimento tornou-se no símbolo maior do movimento propagandístico e operativo que originalmente se designava por Obra de Protecção à Grávida e Defesa da Criança (O.P.G.D.C.).

Esta organização, cuidadosamente programada, incluía brigadas móveis e postos rurais, numa tentativa de actuar directamente na raiz sócio-geográfica dos problemas; lactários, para a mais favorável alimentação dos bebés; meios de informação e despiste no Dispensário do Ninho (ÁLVARO, 2011, p. 13). Para além disso, à estrutura foram ainda acrescentados um instituto de formação de profissionais, a Escola Normal Social, que preparava assistentes sociais para o trabalho em instituições e no terreno183; uma Maternidade e uma Creche, para apoiar os momentos críticos na definição da taxa de

183 A Escola Normal Social, com direcção da Congregação Franciscanas Missionárias de Maria, era a única no país a formar enfermeiras visitadoras (SOUSA, 1999, p. 165), sendo o serviço social que praticava “um terreno de eleição para a corporativização da sociedade, na medida em que procura a conciliação orgânica entre o capital e o trabalho, através da moralização dos costumes segundo os valores religiosos e do Estado Novo” (SOUSA, 1999, p. 164). Recordemos que o Corporativismo era apontado, por Bissaya Barreto, como a solução “à qual se deve a situação presente e que há-de com certeza continuar a engrandecer e orientar o Futuro da Nação” (BARRETO, 1937, p. 2).

mortalidade infantil, o período pré-natal e a etapa até aos 3 anos de idade; e ainda o Parque Infantil e o Jardim-de-Infância, para dar seguimento ao contexto sanitariamente correcto e iniciar o processo de educação e configuração moral das crianças.

Este modelo de complementaridade, aplicado à puericultura, tanto dentro do mesmo estabelecimento, quanto entre estabelecimentos e, finalmente, entre estes e a acção propagandística activa, apoiada nos conceitos da medicina social, era vigorosamente defendido por Bissaya Barreto que, anteriormente e de forma continuada, estudava exemplos internacionais similares.

Nesta fase, a forte e decisiva influência italiana, a que anteriormente nos referimos, não se cingiu às estruturas organizativas, às visões políticas ou à definição de objectivos. Também a Arquitectura de vários edifícios assistenciais transalpinos se revelou determinante para a consolidação formal de toda uma estética de intervenção. Muitos dos estabelecimentos construídos pela O.N.M.I. evidenciavam uma forte componente racionalista e Art Déco, linguagens que se afirmaram nas décadas de 20 e 30, sendo em Portugal, através de arquitectos como Carlos Ramos, Cristino da Silva, Cassiano Branco, Jorge Segurado, entre outros, que surgiram os seus mais paradigmáticos exemplos.

Recorremos novamente ao livro de Pietro Corsi, que nos mostra vários exemplos: a Casa das Mães e das Crianças, em Trieste (p. 45), composta por volumes algo minimalistas e grandes envidraçados, remetendo para a arquitectura Moderna francesa ou holandesa desse período; a casa da Obra de Assistência à Maternidade e Infância, em Montesacro (p. 109), com uma escala mais contida e formas menos expressivas, mas afirmando claramente a sua estrutura e contemplando um jardim separado em zonas verdes, de jogos e de recreio; e o Asilo-Maternidade de Dalmine (p. 113), um edifício de grande dimensão e pendor racionalista, com três pisos, dispostos simetricamente a partir da entrada, ao centro, com um grande envidraçado e as escadas, originando duas alas de horizontalidade salientada por galerias e janelas contínuas.

Edifícios como estes, certamente, ajudaram a moldar, em Bissaya Barreto, uma forte intenção de modernidade também ao nível da arquitectura, que se virá a traduzir muito claramente no Ninho dos Pequenitos. Este propósito terá ainda sido acentuado pelo seu diálogo próximo, naquela fase, com profissionais como Luís Benavente e