2. O SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS E A JUSTIÇA DE
3.1 Caso 1. Gomes Lund e Outros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil
3.1.3 Caso 4. Caso Contreras y otros Vs. El Salvador
Nos dias 16 de novembro de 2001 e 4 de setembro de 2003 a Comissão Interamericana recebeu petições ajuizadas pela Asociación Pro-Búsqueda de Niños y Niñas Desaparecidos e pelo Centro por la Justicia y el Derecho Internacional (CEJIL) relatando o desaparecimento de Gregoria Herminia, Serapio Cristian, José Rubén Rivera Rivera, Gregoria Herminia, Serapio Cristian e Julia Inés Contreras (CORTE IDH, 2011).
A Comissão declarou admissíveis as petições e emitiu resolução concedendo ao Estado de El Salvador um prazo de dois meses para que informasse sobre as medidas adotadas para dar cumprimento às recomendações (CORTE IDH, 2011).
98
3) efetuar o pagamento das custas e gastos no prazo de um ano. 99
Diante da falta de apresentação de informação por parte do Estado, no dia 28 de junho de 2010 a Comissão apresentou para a Corte Interamericana uma demanda contra El Salvador (CORTE IDH, 2011).
A demanda versa sobre os desaparecimentos forçados ocorridos entre os anos de 1981 e 1983 das crianças Gregoria Herminia, Serapio Cristian e Julia Inés Contreras, Ana Julia e Carmelina Mejía Ramírez e José Rubén Rivera Rivera por parte de membros de diferentes organizações militares no contexto de "Operativos de Contrainsurgência" durante o conflito armado ocorrido em El Salvador (CORTE IDH, 2011).
O Estado reconheceu durante uma audiência celebrada pela Comissão Interamericana que no contexto do conflito armado que ocorreu no país entre os anos de 1980 e 1991 foram produzidos padrões sistemáticos de desaparecimentos forçados de crianças e jovens em diferentes regiões, mas especialmente aquelas afetadas em maior medida por enfrentamentos armados e operativos militares (CORTE IDH, 2011).
Alguns soldados declararam que desde 1982 recebiam ordens de levar qualquer criança que encontrassem durante o ataque a posições inimigas. (CORTE IDH, 2011)
Segundo a prova recebida nos autos, os possíveis destinos das crianças depois da separação de sua família podem ser classificados da seguinte forma: 1) adoções por meio de um processo formal dentro do sistema judicial, sendo que a maioria foi adotada por famílias estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos, França e Itália; 2) adoções de fato por famílias salvadorenhas sem nenhuma formalização; 3) casos de adoção de fato por parte de militares que incluíram estas crianças em suas famílias como filhos; 4) crianças que cresceram em orfanatos, nos quais os encarregados não tentaram encontrar os parentes dos menores; 5) crianças que cresceram em instalações militares; 6) vítimas de tráfico ilegal (CORTE IDH, 2011).
Segundo a Asociación Pro-Búsqueda havia 881 denúncias de crianças desaparecidas durante o conflito armado, das quais 363 foram localizadas com ou sem vida. Destes casos foi possível produzir o reencontro dos familiares de 224 jovens (CORTE IDH, 2011).
Comprovou-se também que muitas crianças desaparecidas eram registradas com informação falsa ou com os dados alterados, sendo que esta situação irradia efeitos em dois sentidos: 1) para a criança lhe é impossibilitado buscar sua família e conhecer sua identidade e 2) à família de origem é obstaculizado o exercício dos recursos legais para restabelecer a identidade biológica, o vínculo familiar e fazer cessar a privação de liberdade (CORTE IDH, 2011).
A Corte já estabeleceu em sua jurisprudência que a separação de crianças de sua família constitui, sob determinadas condições, uma violação de seu direito à família reconhecido no artigo 17 da Convenção Americana (CORTE IDH, 2011).
Nos casos de desaparecimento forçado é imprescindível que as autoridades fiscais e judiciais atuem de forma pronta e imediata, ordenando medidas oportunas e necessárias dirigidas à determinação do paradeiro da criança. No presente caso a obrigação é reforçada pelo fato de que as vítimas eram crianças no momento dos fatos, motivo pelo qual o Estado tinha o dever de assegurar que fossem encontradas de forma mais breve possível (CORTE IDH, 2011).
Segundo a Corte, transcorreram aproximadamente 30 anos desde os desaparecimentos forçados das vítimas sem que nenhum de seus autores materiais ou intelectuais tenham sido identificados e processados (CORTE IDH, 2011).
Desde o momento em que iniciaram as investigações foi verificada a falta de diligência e seriedade. O não cumprimento do dever de iniciar uma investigação ex officio; a ausência de linhas claras e lógicas; a negativa de proporcionar informação relacionada com as operações militares e a falta de diligência no desenvolvimento das investigações por parte das autoridades permite a Corte concluir que os processos internos em sua integralidade não constituíram recursos efetivos para determinar ou localizar o paradeiro das vítimas, tampouco para garantir os direitos de acesso à justiça e de conhecer a verdade, mediante a investigação e eventual sanção dos responsáveis (CORTE IDH, 2011).
Segundo a Comissão, até a data da sentença somente foi estabelecido o paradeiro de Gregoria Herminia Contreras. Quanto às circunstâncias do desaparecimento das demais vítimas ainda não foram esclarecidas e os responsáveis não foram identificados e sancionados (CORTE IDH, 2011).
Ao final a Corte de San José dispôs por unanimidade as seguintes obrigações para o Estado de El Salvador cumprir: 1) continuar de modo eficaz as investigações e abrir as que forem necessárias com a finalidade de identificar, julgar e sancionar todos os responsáveis dos desaparecimentos forçados das vítimas, bem como de outros delitos conexos; 2) efetuar a busca de maneira breve e eficaz para determinar o paradeiro das vítimas; 3) adotar todas as medidas adequadas e necessárias para a restituição da identidade de Gregoria Herminia Contreras, incluindo seu nome e sobrenome, bem como demais dados pessoais; 4) conceder tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico às vítimas que solicitarem; 5) realizar a publicação da sentença; 6) realizar ato público de reconhecimento de sua responsabilidade internacional dos fatos julgados; 7) dar nome a três escolas; uma com o nome de Gregoria
Herminia, Serapio Cristian e Julia Inés Contreras; outra com o nome de Ana Julia e Carmelina Mejía Ramírez e uma terceira com o nome de José Rubén Rivera Rivera; 8) realizar documentário sobre o desaparecimento forçado de crianças durante o conflito armado em El Salvador com menção específica a este caso; 9) adotar medidas pertinentes e adequadas para garantir que a sociedade salvadorenha tenha acesso público, técnico e sistematizado aos arquivos que contenham informações úteis e relevantes para a investigação das violações aos direitos humanos cometidas durante o conflito armado; 10) efetuar pagamento de indenização por dano material, imaterial para as vítimas e pagar valor relativo as custas e gastos processuais.
A Corte também dispôs que dentro do prazo de um ano contado da notificação da sentença, o Estado deve informar as medidas adotadas para dar cumprimento às obrigações acima determinadas.
Em relação a primeira obrigação100 o Estado informou que enviou a sentença para a Fiscalía General de la República que é o órgão responsável para investigar os fatos, no entanto, tal órgão não relatou a existência de resultados recentes sobre o caso. Deste modo, o Estado não tinha elementos específicos sobre a investigação ou uma mudança da situação dos processos em aberto.
A Corte demonstra preocupação com o fato de o Estado ter se limitado a informar que não tinha elementos sobre as investigações mesmo quase dois anos após a sentença ter sido proferida. Trata-se de uma situação de total impunidade das violações apuradas no caso.
Quanto à segunda obrigação101o Estado informou que havia localizado duas vítimas do caso: os jovens José Rubén Rivera Rivera e Serapio Cristian Contreras. Já em relação à vítima Julia Inés Contrerás a Comissão Nacional de Busca realizou entrevistas com familiares, informantes, sendo então localizada uma pessoa que acreditavam ser Julia Inés Conteras, no entanto, a prova de DNA descartou esta possibilidade. Com relação às irmãs Ana Julia e Carmelina Mejía, tem sido realizadas entrevistas para buscar um início de prova sobre sua localização.
A Corte valorou os esforços realizados pelo Estado no sentido de buscar as vítimas e pelo fato de ter encontrado José Rubén Rivera Rivera, mas solicita o cumprimento completo desta obrigação.
100
1) continuar de modo eficaz as investigações e abrir as que forem necessárias com a finalidade de identificar, julgar e sancionar todos os responsáveis dos desaparecimentos forçados das vítimas, bem como de outros delitos conexos.
101
Quanto à terceira obrigação102 o Estado informou que foi promovido um processo judicial para a modificação da identidade de Gregoria Herminia Recinos Contreras. Deste modo, a Corte considera que o Estado cumpriu totalmente com sua obrigação.
Sobre a quarta obrigação103o Estado informou que em março de 2011 deu início as medidas de atenção à saúde em benefício dos familiares das vítimas por meio do atendimento em três hospitais da rede pública localizados em regiões do país que correspondem aos lugares de residência das famílias.
Os representantes dos familiares das vítimas reconheceram os avanços na atenção médica, no entanto, expressaram que continuam enfrentando obstáculos para receber atenção prioritária. Algumas pessoas informaram que tiveram problemas em relação a entrega dos medicamentos receitados pelos especialistas, pois tiveram de adquirir com os próprios recursos. Em razão do exposto, a Corte continuará supervisionando o cumprimento desta medida de reparação.
Acerca da quinta obrigação104 o Estado informou que em março de 2012 publicou em diário de circulação nacional e no Diário Oficial o resumo da sentença.
Pela informação disponível a Corte entende que o Estado cumpriu totalmente a obrigação, mas manterá em aberta a obrigação de publicar o resumo oficial da sentença em um meio informativo de circulação interna das Forças Armadas de El Salvador.
Sobre a sexta obrigação105o Estado informou que reconheceu a responsabilidade pelos atos no dia 29 de outubro de 2012 no parque "Antonio José Cañas" na cidade de San Vicente, realizado em uma cerimônia pública com a presença de altos funcionários públicos e pelas vítimas do caso. Tal ato foi televisionado e transmitido em tempo real por meio do Canal 10 da Televisão Nacional.
A Corte considerou que o ato realizado pelo governo salvadorenho foi apropriado e proporcional à gravidade das violações e tem efeito na recuperação da memória das vítimas e no reconhecimento de sua dignidade. Portanto, considerou este ponto resolutivo como cumprido.
102
3) adotar todas as medidas adequadas e necessárias para a restituição da identidade de Gregoria Herminia Contreras, incluindo seu nome e sobrenome, bem como demais dados pessoais.
103
4) conceder tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico às vítimas que solicitarem. 104
5) realizar a publicação da sentença. 105
Para a sétima obrigação106 o Estado informou que foram realizadas reuniões com os representantes das escolas com propostas iniciais. A Corte valorou o fato de o Estado estar realizando ações para dar cumprimento a presente medida de reparação, mas adverte que a obrigação permanece em aberto.
Sobre a oitava obrigação107 o Estado informou que iniciou o planejamento para a produção do documentário e que irá garantir a participação das vítimas e seus representantes nele.
A Corte valorou as ações até então tomadas pelo Estado, mas alertou para que tome todas as medidas para efetivar o cumprimento da medida.
Quanto à nona obrigação108o Estado sustentou que a aprovação da Lei de Acesso à Informação Pública que entrou em vigência em 8 de abril de 2011 garante o acesso à informações úteis sobre os fatos. No entanto, a Corte entendeu que a informação concedida pelo Estado é insuficiente para analisar se esta obrigação foi efetivamente cumprida, sendo mantido, portanto, a supervisão desta medida.
Em relação à décima obrigação109o Estado informou que os valores foram pagos no ano de 2013. Os representantes das vítimas, por sua vez, afirmaram que o Estado não cumpriu o prazo determinado pela Corte, sendo necessário que pague os valores correspondentes pelo período que ficou em mora. A Corte acatou a fundamentação dos representantes determinando que o Estado indique em que mês irá realizar o pagamento dos valores.
Por fim, a Corte declarou que de 10 obrigações o Estado deu cumprimento total somente as obrigações 2, 3, 5 e 6. Determinou, por fim, que El Salvador adote as medidas necessárias para dar efetividade aos pontos pendentes de cumprimento.