Capítulo 4 Estudos de Casos
4.3. Caso 3: Gerador de 22,5 MVA conectado em 88 kV
O terceiro caso apresenta um gerador síncrono distribuído a vapor de 22,5 MVA
conectado diretamente na rede de distribuição em 88 kV, conforme Figura 4.22. A
simulação consistiu na variação da carga conectada na linha de subtransmissão para
se verificar o tempo de detecção de ilhamento para cada umas das funções de
proteção discutidas neste trabalho. O ilhamento é provocado intencionalmente, com a
abertura do disjuntor 52-S1. Este sistema é um caso real de uma instalação de
cogeração com exportação do excedente conectado no sistema CPFL/CTEEP em 88
kV na cidade de Cubatão/SP. Os dados do gerador estão apresentados na Tabela
4.15.
Figura 4.22: Caso 3 - GD de 22,5 MVA conectado em 88 kV
Sistema Eq. 1
52-S1
88 kV
Scc=1000 MVA
X/R=5
GD
22,5 MVA
13,2 kV
52-GD
TR1
88/13,2kV
Linha 1
15 km
Linha 2
15 km
Carga
1,25 a 20 MVA
FP = 0,92
Fonte: Próprio autor
Tabela 4.15: Caso 3 - Dados do Gerador de 22,5 MVA
Parâmetro Dado
Potência nominal 22,5 MVA
Tensão nominal 13,2 kV
Reatância síncrona de eixo direto (Xd) 159%
Reatância transitória de eixo direto (X’d) 26%
Reatância subtransitória de eixo direto (X”d) 21%
Reatância síncrona de eixo em quadratura (Xq) 137,2%
Reatância subtransitória de eixo em quadratura (X”q) 11,8%
Constante trans. de eixo direto em curto-circuito (T’d) 5,5 s
Constante subtransitória de eixo direto em curto-circuito (T”d) 50 ms
Constante trans. de eixo em quadratura em curto-circuito (T’q) 1,25 s
Constante subtransitória de eixo em quadratura em
curto-circuito (T”q)
180 ms
Constante de inércia H 1,5 s
Número de polos 2
Rotação nominal 1800 rpm
A Figura 4.23 apresenta o sistema de proteção da GD instalada em 88 kV, onde
as funções de proteção analisadas para a detecção do ilhamento foram o relé de sub
e sobrefrequência (ANSI 81 o/u), ROCOF ou df/dt, salto de vetor (ANSI 78) e direcional
de potência reativa (ANSI 32Q). Os ajustes destas proteções estão apresentados na
Tabela 4.16. O gerador foi simulado considerando potência ativa nominal e potência
reativa nula.
Figura 4.23: Caso 3 - Sistema de Proteção da GD 22,5 MVA conectada em 88 kV
GD
22,5 MVA
13,2 kV
TR1
88/13,2kV
3xTC
3xTP
52-GD
Relé de Proteção 81u 81o 27 df/dt 78 59N 67 21 32QRede de Distribuição
Fonte: Próprio autor
Como critério de avaliação, foi considerado 500 ms como tempo limite para a
detecção do ilhamento. Este valor foi escolhido baseado no tempo usual das
concessionárias de energia no Brasil que utilizam 500 ms como o tempo morto para a
primeira tentativa de religamento do alimentador.
Para se analisar o desempenho das funções de proteção na detecção de
ilhamentos, diferentes ajustes foram simulados para que se pudesse observar o
impacto nos tempos de atuação dos relés. A proteção de frequência foi simulada para
atuar em variações de frequência na ordem de 1 a 2 Hz temporizado em 100 ms. O
relé ROCOF foi simulado com ajustes de 1 a 3 Hz/s temporizado em 100 ms. A
proteção de salto de vetor foi simulada seguindo recomendações de Jenkins et al.
(2000) que sugere ajuste de 6° para redes com fonte forte (alta potência de
curto-circuito). Já a proteção direcional de potência reativa foi simulada para atuar quando
o fator de potência de exportação da GD for inferior a 0,97 a 0,99 indutivo, o que
resulta em uma potência reativa de 1,058, 1,492 e 1,823 MVAr por fase, pois para
aplicação deste relé é necessário que o gerador opere com fator de potência unitário
permanentemente. Um resumo dos ajustes é apresentado na Tabela 4.16.
Tabela 4.16: Caso 3 - Ajustes de Proteção
Parâmetro Ajuste
Subfrequência – ANSI 81 u
Frequência de partida 59 / 58,5 / 58 Hz
Temporização 100 ms
Sobrefrequência – ANSI 81 o
Frequência de partida 61 / 61,5 / 62 Hz
Temporização 100 ms
ROCOF – ANSI 81 df/dt
Variação de frequência máxima 1 / 2 / 3 Hz/s
Temporização 100 ms
Salto de Vetor – ANSI 78
Salto vetorial máximo 4° / 6° / 8°
Temporização 100 ms
Direcional de Potência Reativa – ANSI 32Q
Potência reativa máxima por fase 1,058 / 1,492 / 1,823 MVAr
Temporização 100 ms
Direcionalidade Direta (Exportação)
O relé de frequência apresentou detecção de ilhamento dentro do limite de
operação de 500 ms para desbalanços de potência ativa a partir de 10,7%, conforme
Tabela 4.17. O desempenho do relé pode ser observado nas Figuras 4.24 e 4.25.
Tabela 4.17: Caso 3 - Limites de desbalanços de potência para detecção de ilhamento em 500 ms
pela proteção de frequência ANSI 81 o/u
Limites de desbalanço de potência para detecção de ilhamento
FP da
carga
Ajuste em ± 1 Hz Ajuste em ± 1,5 Hz Ajuste em ± 2 Hz
P
G> P
CP
G< P
CP
G> P
CP
G< P
CP
G> P
CP
G< P
C0,92 10,7% 19,69% 17,73% 28,48% 24,14% 37,77%
1,00 16,25% 10,05% 22,03% 17,48% 27,41% 24,92%
Como os estudos de caso anteriores, o relé de frequência apresentou limitações
na detecção de ilhamento, não atuando para pequenos desbalanços de potência ativa.
O fator de potência da carga afetou o comportamento deste relé, fazendo diminuir sua
eficiência quando a carga se torna mais indutiva na situação de déficit de geração.
Por outro lado, a eficiência do relé de frequência melhora quando há excesso de
geração. Observa-se também que o impacto do fator de potência da carga é mais
acentuado para a situação de déficit de geração, pois a tendência quando há
sobrecarga é de subtensão na rede, o que provoca uma diminuição na potência ativa
absorvida pela carga na proporção (V/V
0)
2. Neste cenário, a sobrecarga diminui e o
desbalanço de potência também, piorando o desempenho do relé de frequência.
Figura 4.24: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção ANSI 81 o/u versusΔP: carga tipo impedância
constante com excesso de geração (P
G> P
C)
Figura 4.25: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção ANSI 81 o/u versusΔP: carga tipo impedância
constante com déficit de geração (P
G< P
C)
O relé ROCOF apresentou tempos de detecção de ilhamento dentro do limite
estabelecido de 500 ms para desbalanços de potência a partir de 8,09%, conforme
Tabela 4.18. O desempenho do relé é apresentado nas Figuras 4.26 e 4.27. Assim
como os demais casos, o relé de taxa de variação de frequência teve limitações para
detecção de ilhamentos para pequenos desbalanços de potência, porém, obteve
resultados ligeiramente melhores que o relé de frequência, conforme explicado no
estudo de caso 1.
Tabela 4.18: Caso 3 - Limites de desbalanços de potência para detecção de ilhamento em 500 ms
pela proteção df/dt
Limites de desbalanço de potência para detecção de ilhamento
FP da
carga
Ajuste em 1 Hz/s Ajuste em 2 Hz/s Ajuste em 3 Hz/s
P
G> P
CP
G< P
CP
G> P
CP
G< P
CP
G> P
CP
G< P
C0,92 8,09% 12,32% 8,23% 27,32% 13,23% 32,32%
1,00 12,88% 7,55% 18% 7,59% 23,03% 12,66%
Figura 4.26: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção ROCOF versusΔP: carga tipo impedância
constante com excesso de geração (P
G> P
C)
Figura 4.27: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção ROCOF versusΔP: carga tipo impedância
constante com déficit de geração (P
G< P
C)
O relé salto de vetor apresentou limitação na detecção de ilhamento a partir de
5,78%, conforme Tabela 4.19. O desempenho do relé nas condições de excesso e
déficit de geração está apresentado nas Tabelas 4.28 e 4.29.
Assim como sugerido por Jenkins et al. (2000) e Vieira (2006), o ajuste do relé
salto de vetor deve ser de 6° para redes fortes (alta potência de curto-circuito) e de
12° para redes fracas (baixa potência de curto-circuito). No caso 1 os ajustes testados
foram de 8, 10 e 12° e no caso 2 os ajustes testados foram de 6, 8 e 10° e a resposta
do relé salto de vetor foi satisfatória para desbalanços na ordem de 10 a 15%. Os
Tabela 4.19: Caso 3 - Limites de desbalanços de potência para detecção de ilhamento em 500 ms
pela proteção salto de vetor
Limites de desbalanço de potência para detecção de ilhamento
FP da
carga
Ajuste em 4° Ajuste em 6° Ajuste em 8°
P
G> P
CP
G< P
CP
G> P
CP
G< P
CP
G> P
CP
G< P
C0,92 5,78% 14,18% 10,22 19,45% 15,14% 24,37%
1,00 12,17% 5,38% 15,8% 9,48% 19,76% 14,29%
Figura 4.28: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção salto de vetor versusΔP: carga tipo impedância
constante com excesso de geração (P
G> P
C)
Figura 4.29: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção salto de vetor versusΔP: carga tipo impedância
constante com déficit de geração (P
G< P
C)
maior constante de inércia e uma maior potência nominal. Para se alcançar este
desempenho, no estudo de caso 3, onde a potência de curto-circuito é 10 vezes maior
que a dos casos 1 e 2, os ajustes do relé tiveram que ser de 4, 6 e 8°. Logo, o estudo
de caso 3 comprovou esta afirmação.
O comportamento do relé de salto de vetor quanto ao fator de potência da carga
foi similar ao do relé de frequência. Para a condição de excesso de geração, o
desempenho do relé de salto de vetor melhora à medida que o fator de potência da
carga se torna mais indutivo, conforme Figura 4.28. Já para a condição de déficit de
geração, o desempenho piora à medida que o fator de potência se torna mais indutivo,
conforme Figura 4.29.
Conforme os casos 1 e 2, o relé direcional de potência reativa (ANSI 32Q) para
o caso 3 apresentou um desempenho muito favorável à detecção de ilhamento
somente para os casos onde a carga possui um fator de potência indutivo. Cargas
com fator de potência próximo do unitário fazem o relé 32Q não atuar independente
do desbalanço de potência ativa imposto pós-ilhamento. Na Figura 4.30 é apresentado
o seu desempenho para cargas com fator de potência 0,92 indutivo.
Tabela 4.20: Caso 3 - Limites de desbalanços de potência para detecção de ilhamento em 500 ms
pela proteção direcional de potência reativa com excesso de geração
Limites de desbalanço de potência para detecção de ilhamento
FP da
carga
Ajuste em 1,058 MVAr Ajuste em 1,492 MVAr Ajuste em 1,823 MVAr
0,92 37,55% 22,57% 7,56%
Conforme a Figura 4.30, quanto mais indutivo for o fator de potência da carga,
melhor será o desempenho do relé direcional de potência reativa. Na condição de
déficit de geração e cargas com fator de potência de 0,92, o relé 32Q atua para
qualquer desbalanço de potência ativa, deixando de atuar somente quando houver
excesso de geração a partir de 7,46%. Os limites encontrados estão apresentados na
Tabela 4.20, onde são representados somente os limites com excesso de geração,
pois no relé 32 atua para qualquer desbalanço na situação de déficit de geração.
Figura 4.30: Caso 3 - Tempo de atuação da proteção ANSI 32Q versusΔP: carga tipo impedância
constante
O relé 32Q atua conforme sua exportação de potência reativa. Quando há
grandes excessos de geração de potência ativa, a potência reativa consumida
localmente pelas cargas pode não ser suficiente para que o fator de potência de
operação do gerador reduza a valores inferiores a 0,97, 0,98 ou 0,99 indutivo
escolhidos para atuação da proteção direcional de potência reativa. Assim, quando a
potência reativa das cargas não for superior ao ajuste do relé, a proteção 32Q não
atua.
Analisando os desempenhos dos relés de sobre e subfrequência, ROCOF, salto
de vetor e direcional de potência reativa, os ajustes definidos para a proteção da GD
do caso 3 estão conforme Tabela 4.21. Optou-se pelos ajustes de valores
intermediários das simulações realizadas, visto que nenhum relé garantiu a detecção
de ilhamento para qualquer desbalanço de potência. A opção de ajustes mais
rigorosos foi descartada porque, tendo em vista que os geradores de GD geralmente
possuem uma inércia pequena, poderia tornar a operação da GD instável com uma
maior probabilidade de falsas atuações da proteção anti-ilhamento.
Tabela 4.21: Caso 3 - Ajustes de proteção definidos
Parâmetro Ajuste
Subfrequência – ANSI 81 u
Frequência de partida 58,5 Hz
Temporização 100 ms
Sobrefrequência – ANSI 81 o
Frequência de partida 61,5 Hz
Temporização 100 ms
ROCOF – ANSI 81 df/dt
Variação de frequência máxima 2 Hz/s
Temporização 100 ms
Salto de Vetor – ANSI 78
Salto vetorial máximo 6°
Temporização 100 ms
Direcional de Potência Reativa – ANSI 32Q
Potência reativa máxima por fase 1,492 MVAr
Temporização 100 ms
Direcionalidade Direta (Exportação)
O gerador distribuído do estudo de caso 3 terá uma limitação na detecção de
ilhamento para cargas com fator de potência unitário para desbalanços de potência
inferiores a 11,63% para a condição de excesso de geração e 11,56% para déficit de
geração, conforme Tabela 4.22. Porém, para cargas com fator de potência mais
indutivo, a tendência é de garantia de detecção de ilhamento para qualquer
desbalanço de potência ativa. Quanto mais indutiva a carga, maiores são as chances
de desconexão da GD, conforme pode ser observado na Figura 4.31.
Assim como nos estudos de caso 1 e 2, as sugestões para garantia de
desconexão da GD para ilhamentos são as mesmas. Quando o ilhamento for
provocado por uma interrupção proposital no fornecimento de energia, para
manutenção, por exemplo, agendar o desligamento e fazer a vistoria in loco pode ser
uma alternativa que não gera custos de implantação, porém, um pouco inconveniente
Tabela 4.22: Caso 3 - Limites de desbalanços de potência para detecção de ilhamento em 500 ms
pelo sistema de proteção completo
Limites de desbalanço de
potência para detecção de
ilhamento
FP da carga P
G> P
CP
G< P
C0,92 0% 0%
1,00 11,56% 11,63%
Figura 4.31: Caso 3 - Tempo de atuação do sistema de proteção completo versusΔP: carga tipo
impedância constante e fator de potência 1 e 0,92
caso a penetração de GD no sistema for grande. O uso de meios de comunicação
para envio de TDD é a solução mais eficiente, porém, de maior custo. Quando o
ilhamento é provocado por uma falta no sistema, a instalação de um relé de verificação
de sincronismo na saída do alimentador que atende a GD elimina a possibilidade do
circuito ser religado fora de fase com a GD. Esta solução gera custos adicionais, mas
que são acessíveis. Ainda, o aumento do tempo morto do primeiro ciclo de religamento
por parte da concessionária também é uma possibilidade que ajuda na garantia de
detecção de ilhamento da GD. Contudo, a concessionária de energia deve concordar
com a alteração visto que o tempo de restabelecimento da energia para os
consumidores aumenta, o que é um ponto negativo nesta solução.
Embora seja possível, a carga agregada apresentar valores de fator de potência
maiores que 0,92 é improvável. Logo, a associação das funções de proteção de
frequência, ROCOF, salto de vetor e direcional de potência reativa se apresenta como
uma boa solução do ponto de vista da detecção de ilhamentos de geradores síncronos
distribuídos.
Capítulo 5 Conclusões e Proposta para Trabalhos
No documento
Igor Lopes Mota. Análise de Alternativas de Proteção Anti-Ilhamento de. Geradores Síncronos Distribuídos
(páginas 96-108)