4 A EXPERIÊNCIA DE APRENDIZAGEM DOS EGRESSOS
4.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS DA PESQUISA
4.2.3 Categoria: aprendizagens mais importantes
A terceira categoria refere-se as aprendizagens mais importantes encontradas pelos egressos nos projetos extensionistas. Mas, antes de detalharmos sobre as subcategorias faz-se necessário conceituar o termo aprendizagem, que conforme Oliveira (1993, p. 57), é “o processo pelo qual o sujeito adquire informações, habilidades, atitudes, valores e etc. a partir do seu contato com a realidade, o meio ambiente e as outras pessoas”.
Demo (2001, p. 141) já enfatizava que o processo de aprendizagem era “um horizonte reconstrutivo e político", significa dizer que, o conhecimento é uma interpretação pessoal das informações recebidas. Então, as aprendizagens que mais se destacaram desenvolvidas pelos egressos varia de acordo com a seletividade de
cada indivíduo no recebimento das informações, e isso faz com que ele reconstrua seu conhecimento, esse processo criativo, que dá a cada ser uma valoração diferente de mundo, ou seja, o contato da realidade é tão importante para os egressos, pois eles vão ter uma percepção de mundo diferente dos olhares acadêmicos.
Foram criadas, de acordo com os depoimentos quatro subcategorias apresentadas na tabela 03. Observa-se que a aprendizagem mais importante na percepção dos egressos foram: a interação dialógica com 48%, seguida da necessidade de adquirir conhecimentos e/ou experiências com 30%.
Tabela 03 - Aprendizagens mais importantes
CATEGORIAS SUBCATEGORIAS FREQUENCIA %
APRENDIZAGENS MAIS IMPORTANTES
Interação Dialógica 13 48
Adquirir Conhecimentos e/ou
Experiências 8 30
Olhar Crítico 5 19
Fazer Adaptações 1 4
Fonte: a autora
4.2.3.1 Subcategoria: Interação Dialógica
É através da interação dialógica, isto é, a interação com a realidade, que defende Costa et all (2013, p. 66) os discentes se colocam "frente a frente sua subjetividade individual com a subjetividade social." O que significa dizer que os discentes têm sua percepção de mundo através do conhecimento adquiridos dentro e fora da universidade. São sujeitos com emoções, interesses e motivações. Entretanto por intermédio dos projetos de extensão eles vislumbram uma realidade social, um mundo que está fora do seu mundo. Portanto, conclui Cenci e Costas (2011, p. 1):
O sujeito individual está constituído pela subjetividade social, mas a subjetividade social também se constitui a partir das ações do sujeito nesse espaço. Assim, o sujeito não somente se conforma a uma subjetividade social, mas também as consequências de suas ações criativas podem transformá-la.
Essas ações criativas se dão com uma relação teoria/prática, pois contribui para aprendizagem e, também, se constitui um campo que oportuniza a vivência de
conteúdo, além de potencializar o currículo. Foram 48% dos depoentes que apontaram ter encontrado a dialogicidade:
- Foi a questão de desarnar do professor, da didática [...] com manuseio, com o contato com o público principalmente foi muito bom. (D-04)
- Aprendemos a lidar em grupo saber passar informações de forma mais precisas diretas para as comunidades mais carentes. (D-05)
E continua:
- A maior aprendizagem foi aprendizagem pessoal de dialogar com as pessoas, saber escutar de trabalhar em equipe coisas que as graduações em si não proporcionam. (D-05)
- A interação com a comunidade a vivência com a comunidade onde a gente atuava fazendo os atendimentos. (D-08)
- Eu acho que a gente aprende mais é ver a realidade porque as vezes a gente está dentro da universidade e a gente imagina, idealiza um cenário lá fora e quando a gente vai para a ação a gente vê que não como a gente imagina ... idealizava. (D-09)
- Adquiri conhecimento popular. (D-10)
- Aprende a ter empatia com aquelas pessoas que estavam ali internadas. É entender que todo mundo tem uma história de vida e que a gente tem que ver o ser humano como uma coisa complexa, e integral. (D-14)
- Com todo mundo que se envolvia o projeto era um o grande aprendizado... é você saber lidar a cada situação, com cada pessoa e além de tentar buscar entender o que uma passa, cada momento, cada grupo requer uma dinâmica diferente. (D-21)
- Então esse fato de aprendizado, de como trabalhar com as mulheres, de como desenvolver um trabalho que elas despertassem aquilo que elas têm de melhor (D-26)
E finaliza:
- O principal é saber que nós aprendemos com a comunidade foi em relação a como eles faziam artesanato, de que era um modelo único, o módulo deles fazerem era único. Então assim, até os estudantes de outras áreas como design, eles aprenderam a forma como eles estavam fazendo artesanato, e nós levamos o conhecimento em relação a como trabalhar com cooperativismo, a questão do custo, do lucro, de como ver a questão da marca. (D-26)
Observa-se que a aprendizagem é um processo mais amplo que adquirir conhecimento. Os discentes aprendem não só a aplicar, como também, a adequar os conhecimentos recebidos em sala de aula, veem a importância do diálogo com as pessoas que compõem a comunidade e com isso aprimoram os seus conhecimentos. Desta forma, concordamos com Zanella (2003, p. 25) quando destaca que "a aprendizagem significa a própria mudança que vai se operando no sujeito através das experiências”.
A dialogicidade, também, perpassa em trabalhar e gerenciar pessoas. Dos quinze entrevistados, três depoentes afirmaram que aprenderam, através de sua participação nos projetos, a trabalhar e gerenciar pessoas sejam elas colegas ou pessoas das comunidades.
De acordo Motta (1991, p. 151) gerenciar é arte de pensar, decidir, agir, fazer acontecer e obter resultados, que podem ser definidos, previstos, analisados e avaliados, mas são alcançados por meio das pessoas e em uma interação humana constante. Então, relembrando Oliveira (1993, p. 57) quando define aprendizagem que tudo acontece quando os sujeitos têm " contato com a realidade, o meio ambiente e as outras pessoas". Entre esses depoimentos está:
- Sem dúvida o trabalho em equipe porque a gente trabalhava vários estudantes de alguns professores. Acho que foi aprendizagem mais importante tanta relação com outras pessoas, o trabalho em equipe como a participação em eventos relacionados ao projeto de extensão. (D-08)
4.2.3.2 - Subcategoria: Adquirir Conhecimentos e/ou Experiências
Adquirir conhecimentos e/ou Experiências, também, foi uma das preocupações de oito dos quinze depoentes quando a temática é aprendizagem, significando 30%. A Extensão Universitária, através dos projetos abre um leque de informações e experiências que dá às discentes competências diferenciadas. É através da EU que a educação, enfatiza Freire (1987, p. 119), serve como "instrumento do educando e não só do educador e que identifica o conteúdo da aprendizagem com o processo mesmo da aprendizagem". O autor continua reforçando “a educação autêntica, repitamos, não se faz de “A” para “B” ou de “A” sobre “B”, mas de “A” com “B”, mediatizados pelo mundo" (FREIRE, 1987, p. 48). É o que nos relata os depoentes abaixo:
- Eu pude me inteirar mais de alguns conhecimentos que eu ia usar durante o curso (D-01)
- Eu via no projeto de extensão essa possibilidade [...]. Assim foi a parte prática de uma disciplina que havia cursado. Aprendizado de como fazer um vídeo [...] colocou isso em prática. (D-02)
- Como eu disse o projeto ele foi a minha universidade [...] se tinha que aprender algo na Faculdade de Direito de fato eu aprendi em razão das demandas jurídicas e políticas que se apresentavam a partir do projeto. (D-07)
- Eu participaria de projeto de extensão sem bolsa [...] Só pela experiência [...] com certeza [...] pois aprendizado nunca é demais ... São sempre bem-vindo. (D-15)
- Sim a desenvoltura para falar em público para apresentar depois dos resultados tudo isso me levou a um crescimento dentro da universidade. (D-08)
4.2.3.3 Subcategoria: Olhar Crítico
Paulo Freire, ao longo de sua obra, enfatiza q u e a escola d e ve se r um lugar de trabalho, de ensino, de aprendizagem, um espaço que possibilite o desenvolvimento dos discentes que, entre outras coisas, deve fazer reflexões críticas sobre a sociedade seu papel dentro dela, principalmente, no enfrentamento da realidade marcada pelas desigualdades sociais. A Extensão Universitária dá aos discentes a oportunidade de olhar de forma crítica o que acontece ao seu redor. Essa subcategoria - olhar crítico foi citada por 19% dos depoentes afirmando:
- Eu pude pensar como intelectual orgânico, como dizia Grammes [...] desses sujeitos e me reconhecer inclusive como um desses sujeitos. (D-07)
- Foi importante para a gente conseguisse ver é choque de realidade. (D-08)
- Então acho que isso me ensinou a ter empatia com as pessoas, a entender que todo mundo tem uma história de vida. (D-14)
- Olha aprendi que a realidade é um pouco mais diferente[...] com o olhar mais aguçado das pessoas [...] me dedicar mais ao outro isso é
bem importante [...] aprendi muito com eles e que cidadania se constrói além da universidade. (D-18)
- Porque muita coisa na prática se mostrava diferente, então quando a gente olha para a teoria tendo feito a prática é interessante porque a gente aprende a ter um olhar crítico sobre a teoria. (D-20)
Isto posto, corroboramos com Gautier (1999, p.24) quando defende que “cada dispositivo do olhar e da observação modifica o objeto de estudo [...] por isso, nunca estudamos um objeto neutro, mas sempre um objeto implicado, caracterizado pela teoria e pelo dispositivo que permite vê-lo, observá-lo e conhecê-lo.
O que se deseja é uma universidade onde seus docentes e discentes possam contribuir para as mudanças na perspectiva de uma sociedade justa e igualitária, e isso perpassa por uma proposta pedagógica que propicie aos discentes a capacidade de agir e refletir.
4.2.3.4 - Subcategoria: Fazer Adaptações
Apenas 4%, isto é, um depoente fez menção a essa subcategoria, mesmo sendo um percentual baixo, tem valor quando estamos falando de aprendizagem, pois destaca La Rosa (2003, p. 15), que “ todas as aprendizagens são importantes, porém a sua relevância depende de seu conteúdo e do que significa para o aprendiz – quer dizer – o quanto ela modifica o indivíduo e em que sentido ela o faz”. Fazer adaptações demonstrou que o egresso aprendeu a teoria, fez a pesquisa e, através do projeto de extensão, buscou aplicar os resultados de modo eficaz para a comunidade envolvida. É o que relatou o depoente D-09 quando afirmou que:
- Gente realmente perceber o que a gente aprende é muito importante tudo, mas a gente tem que fazer muitas adaptações para conseguir levar o que a gente aprende para fora. Tem que adaptar muito a realidade do que a gente vive, pois lá fora é muito diferente da realidade acadêmica. (D-09)
As atividades extensionistas favorecem e ampliam a aprendizagem, e esta não está limitada às instituições de ensino e aos conteúdos curriculares, isso quer dizer, que todas as práticas e as trocas que vivenciamos são processos educativos e pedagógicos. A Extensão Universitária, junto com o ensino e a pesquisa, tem, a função de oportunizar uma pluralidade de experiências de aprendizagem, por isso concordamos com Síveres (2013, p. 31) quando afirma que a EU deve ter uma postura educacional exigindo:
Uma sensibilidade diante da realidade, uma compreensividade dos conhecimentos e um compromisso com a sociedade, aspectos que confirmam o princípio da aprendizagem por meio do jeito de ser, da maneira de dialogar e da possibilidade de aprender.