CAPÍTULO IV – DISCUSSÃO
4.5. Categoria 5: O que consideram como qualidade de vida
[...] é viver bem, estudar, trabalhar, gostar do que faz, falar bem com as pessoas, tratar todo mundo bem e do mesmo jeito [...]”. (P1).
“Quando você tem amigos, você tem uma qualidade de vida melhor, mais feliz [...]”. P(2).
“[...] é pensar no futuro. Ter uma vida boa, feliz”. (P3).
“[...] Trabalhar, ser independente, constituir o futuro. [...] Estudar bastante, para no futuro você colher o que você vai precisar”. (P3).
“[...] é viver bem, mas eu não sei explicar”. (P4).
“É a pessoa que estuda, trabalha, tem sua família, tem momentos de lazer, que pratica esporte, que vai ao cinema e teatro. Esses lugares que oferecem momentos de alegria”. (P5).
“[...] vestir-me bem, curtir a vida, passear com a minha família, estar sempre junto dos parentes”. (P6).
“[...] é aproveitar, viver bem. Sair com as amigas, ir aos lugares que você quer ir”. (P7).
“[...] é ter muito cuidado com a sua vida e se prevenir. Ser comunicativa, ter a ajuda dos amigos [...] um ombro amigo, sempre é bom [...]”. (P8).
“[...] sempre gostei de cuidar do meu corpo [...] freqüentei uma academia praticava esporte, corrida, esteira, caminhada, natação e aula de dança”. (P9).
“[...] manter a alimentação [...] um dia da semana, comer uma salada e não exagerar nos lanches e frituras”. (P9).
“[...] deixei aquela coisa de sedentarismo [...]”. (P9).
Notamos, em relação à qualidade de vida, narrativas diversas, e as mais variadas percepções que envolvem o tema, desde questões pessoais, como viver e vestir-se bem, como a valorização da amizade, confiança, família, o sair, trabalho, estudo, cultura, como também, ter cuidado com a vida, além de cuidar do corpo, alimentação e a ausência do sedentarismo.
Na literatura, essa percepção é confirmada por França e Azevedo (2003), ao relatarem a percepção e preocupação dos adolescentes, em relação ao corpo e suas mudanças, considerando, também, que possuem uma elevada auto-estima. Associamos, também, os estudos realizados por Avanci et.al. (2007), ao considerar a adolescência como um período positivo, relacionado a um momento, também, criativo de saúde e perspectivas. Interdonato e Greguol (2009), percebem que os que praticam atividades físicas, estão mais preocupados com o corpo e possuem maior habilidade motora.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo enfocou adolescentes que possuem baixa visão, com o objetivo de avaliar a qualidade de vida dos participantes e identificar a percepção dos fatores de risco e de proteção à saúde e a vida entre eles, além de verificar como lidam com as situações ocorridas, em seu cotidiano.
A Qualidade de Vida, é percebida pelos adolescentes, positivamente, pois, não existem indicadores negativos nesta questão. Observa-se, que neste grupo, os domínios com maior predominância foram o físico e o psicológico. Esses domínios parecem estar, diretamente, ligados a eles, porque tendem a gerar maior autoconfiança e autonomia em suas respostas, em função do seu posicionamento, estando aparentemente relacionado ao seu desempenho.
Em relação aos domínios das relações sociais e meio ambiente, destaco que as respostas, são consideradas regulares ou medianas, com maior freqüência, ainda, com tendências positivas. No relacionamento com as pessoas, aparentemente, as expectativas deles não são atingidas como desejam. Há evidências de conflitos na esfera social, porém os amigos são reconhecidos como apoiadores. Do mesmo modo, são, diretamente, influenciados pelo meio em que vivem, também, indicando maiores negativas ou imparcialidade nas indagações.
Destaco três pontos que chamam a atenção: Primeiramente percebem sua capacidade de locomoção como favorável e ao mesmo tempo reconhecem os riscos em que estão sujeitos, nesta questão, que muito os preocupa. Em segundo lugar a dupla relação do suporte social, que demonstra imparcialidade, porém, reconhecem mãe, família e amigos, como um fator de proteção de grande valia. E, por último, a busca pela oportunidade de lazer, que pode reduzir o isolamento para alguns. Em princípio, essas posições aparentam contradições, porém, a reflexão e análise revelam que as informações se complementam e associam-se na realidade deles.
De modo geral, os indicadores de qualidade de vida, por eles apontados, são positivos, pois, observamos, apenas, que são adolescentes mais cuidadosos e mais dependentes do suporte social.
Em relação aos riscos, verificamos maior vulnerabilidade quanto à locomoção na rua. A complexa relação de ter baixa visão e de pertencer, também, a um mundo que é predominantemente visual, está refletida na referência comum ao medo de estar sozinho, de cair ou ser atropelado, o que demanda desses jovens muita flexibilidade, de acordo com cada situação vivenciada.
O excesso de zelo e cuidado dos pais, que os superprotegem e que acabam por limitá-los na descoberta do que são capazes e na sua independência, restringuindo-os a novas experiências. Observamos, ainda, que os professores necessitam de capacitação profissional, para saber como ensinar à esse aluno com baixa visão, por meio dos recursos e técnicas existentes, porque esses alunos encontram-se, em sala de aula regular e necessitam ser estimulado e desenvolvido, como os demais alunos.
Os dados revelam que o isolamento esteve presente na vida de alguns adolescentes, que conseguiram superá-lo e relatam esse período com apreensão. Reconhecemos que essa tendência ao afastamento é comum na adolescência, mas no caso da pessoa com deficiência, pode ser mais evidente, em virtude da dificuldade de aceitação social.
Como um período, que compõem o ciclo vital da vida, a adolescência se mostra comum à eles na difícil condição de fazer escolhas, viver a ansiedade do futuro, com conflitos e confusões que fazem parte deste período, igualmente, entre todos os adolescentes.
Em relação ao álcool, o risco da dependência também está presente entre eles. Na sexualidade, apresentam o interesse em viver a situação de um namoro, porém, reconhecem limitações na questão de ver o outro e compartilhar a possibilidade da paquera, limitando-os a uma vida amorosa e sexual com mais dificuldades.
Cabe destacar, que no contexto da adolescência com deficiência visual, neste estudo, com possuidores de baixa visão, observam-se riscos específicos que são inerentes a condição de ser deficiente visual, limitações, que, claramente, se tornam desafios pessoais, sociais e emocionais de superação, que torna o período
da adolescência, ainda, mais delicado, ademais, conflitos pessoais, familiares, dúvidas e angústias, fazem parte da mesma realidade entre todos, nesta fase.
É importante ressaltar, que eles se adaptam a condição da deficiência e descobrem como lidar com ela, seja por meio da comunicação, em explicar às pessoas as necessidades e dificuldades vivenciadas, no maior nível de atenção e cuidado em tudo o que fazem, com vistas à prevenção e proteção da integridade física, para não se machucarem, seja no melhor uso e maior atenção dos outros sentidos, como instrumento para uma melhor percepção e na utilização da baixa visão que possuem, como recurso essencial e existente, que lhes possibilita, por menor que seja, maior independência. Demonstram-se atualizados, em relação aos recursos de tecnologia como sistema de voz e instrumentos, como Braile e Lupas, para melhor socialização e independência.
Como características, comuns da adolescência, buscam, também, a companhia e integração de outros adolescentes, de modo a se sentirem pertencentes a tal grupo, além da espiritualidade, por meio da Fé, que contribui como uma forma de proteção e segurança. A saúde é percebida pelo grupo, ainda, como restrita ao bem estar físico e ausência de doenças, não atribuem a ela uma abordagem mais ampla, com questões emocionais, sociais e psicológicas. Percebem a saúde, de forma muito satisfatória, percebemos e relacionamos essa abordagem, associada a predominância do maior domínio físico de qualidade de vida entre os participantes.
Constato que a proteção está alicerçada, por uma auto-estima elevada, adquirida pelo suporte social, por meio das pessoas e da instituição que freqüentam e por situações que mostram a eles, que são capazes de superar os desafios e conquistar o que desejam. A proteção, também, é identifica por eles quando estão ao lado de familiares, amigos e pessoas conhecidas, pois aparentam ser identificados como um acolhimento, um suporte social muito significante e que os deixa mais tranqüilos.
Em relação às expectativas para o futuro, falam com entusiasmo em trabalhar e estudar, apresentam enquanto perspectiva fazer uma faculdade, abrir um lan house, por exemplo, que vise a inclusão entre os deficientes físicos e visuais, ter
um namorado, ajudar aos pais, ir a shows e até estudar fora do país. Observa-se, neste contexto, questões de desenvolvimento pessoal e profissional, desejos que são comuns, típicos, em relação aos demais adolescentes.
No que tange à Qualidade de Vida, o trabalho e estudo, também, estão presentes, além de ter amigos, projetar o futuro, ser independente, viver bem, conquistar o bem estar social, além de estar com a família, desfrutar de cultura, se vestir bem, inclusive cuidar do corpo e ter uma alimentação saudável.
Com o objetivo de contribuir para uma sociedade mais igualitária e para contribuir para a formação de profissionais especializados, este estudo apresenta algumas sugestões. A partir dos dados encontrados, sugiro que as políticas públicas observem a necessidade contínua da preparação dos profissionais de educação, em conhecer e saber como melhor conduzir o processo de aprendizagem entre eles, além, dos professores especializados da sala de recurso.
Sem dúvida políticas que atendam e facilite a locomoção destas pessoas, através da melhoria da acessibilidade, por exemplo, através da boa qualidade das calçadas, da utilização de semáforos sonoros, ações que atendam ao direito de ir e vir desses cidadãos.
Sugiro, também, treinamento especializado para os profissionais dos serviços públicos e para a sociedade, porque as pessoas, em geral, não sabem como auxiliá-los e conduzi-los, em caso de necessidades e isso poderia ser feito, por meio de palestras e campanhas. Políticas relacionadas ao lazer, que contribuam para a socialização, divertimento e, possivelmente, experiências enriquecedoras para eles.
Em conjunto com as instituições e escolas, os pais sejam orientados por profissionais, como psicólogos, pedagogos e professores, a maneira mais adequada para compartilhar o período da adolescência com os filhos e fortalecer a independência de pais e filhos. Conclui-se, que o desafio do desenvolvimento da autonomia e da confiança individual e ambiental, está presente na vida dos adolescentes com deficiência visual, pesquisados, do mesmo modo que os demais adolescentes que vivenciam o turbilhão de transformações, próprias desta etapa do ciclo de vida humana.
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