CAPÍTULO I FATORES DE PROTEÇÃO E QUALIDADE DE VIDA NA
1.2. Estudos com Adolescentes Deficientes Visuais
Entendendo que ações de proteção nas questões adolescentes com deficiência visual relacionadas à educação, preparação e especialização de professores, socialização, questões ambientais, bem como de desenvolvimento, no que tange a recursos acadêmicos, orientações de pais e de sua autoimagem corporal podem facilitar, fortalecer e contribuir para o desenvolvimento e crescimento, na formação destes adolescentes, apresento, a seguir, alguns estudos da literatura acadêmico-científica, que trazem perspectivas sobre adolescentes com deficiência visual. Tais estudos permitem identificar fatores de proteção à saúde e à vida, além de fatores de melhoria da qualidade de vida desses indivíduos.
Na área educacional, Salzeta e Bruns (1999) relatam a importância do professor especializado, que vai além da utilização do Braille, na condução deste aluno em sala comum. Os pesquisadores defendem a participação desse profissional um meio fundamental no desenvolvimento das potencialidades deste aluno. Com suas ações, o professor pode propiciar a socialização, a quebra de barreiras preconceituosas, a participação dos desafios que devem ser encarados pela pessoa com deficiência partilhada com os alunos que são videntes, na busca pela autonomia, independência e capacidade. Ou seja, não evidenciando o isolamento, ou as limitações, por parte deste aluno, com o argumento da deficiência. O desenvolvimento das competências e habilidades necessárias de professores e
demais profissionais no atendimento a este público é visto por Bezerra e Pagliuca (2007) como um fator protetor dessa população estudantil.
Salzeta e Bruns (1999) explicitam a necessidade educacional da utilização de recursos adequados para a facilitação, aquisição e transmissão do conhecimento, por materiais didáticos, transcritos em Braille, ampliados ou sonoros e o acesso a tecnologias e bibliotecas virtuais. Esse investimento na atenção educacional diferenciada deve visar oferecer aos alunos a possibilidade de conhecer suas competências e perspectivas de dinamismo. Os pesquisadores Bezerra e Pagliuca (2007) acrescem a esse conceito a necessidade de se investir em prover um espaço físico escolar mais adequado, através da liberação dos corredores para melhor locomoção e circulação, além de oferecer melhor iluminação nesse espaço.
Salzeta e Bruns (1999) apontam o ambiente escolar como um fator de proteção que pode aproximar e inserir os pais da pessoa com deficiência. Para os autores, o ambiente escolar pode intervir e contribuir com orientações, informações, esclarecer dúvidas para o desenvolvimento do filho. Pode também propiciar uma integração mais adequada da pessoa com deficiência, em seu meio familiar, por meio da redução das dificuldades que os pais apresentam neste convívio em relação à superproteção, ou à rejeição, bem como pode compartilhar o acolhimento em relação às angústias e medos destes pais, no desenvolvimento de seus filhos. Esses autores defendem que, na escola, o fato de estar próximo ao indivíduo portador de deficiência e compartilhar com ele uma relação verdadeira, dele com o outro, é percebê-lo além da cegueira, torná-lo consciente da sua deficiência, de modo a que todos na vida estão sujeitos a frustrações e satisfações.
Amiralian (2010) sugere grupos de pais onde possam ser trocadas experiências comuns, onde uns possam ajudar aos outros nas dificuldades, fortalecendo-os. Segundo ela, esses grupos, além de identificarem cuidados que possam contribuir para o crescimento dos filhos nesta fase da adolescência, podem vir a contribuir para uma adolescência mais amistosa e menos sofrida por parte dos pais por facilitarem a aceitação do crescimento dos filhos.
Amiralian (2010) também ressalta a importância do relacionamento entre aqueles que passam pela mesma condição de deficiente visual, do convívio com
pessoas que são comuns, iguais, como uma forma de identificar-se entre eles, de pertencer a esse grupo. Devido à importância desta questão, a autora em seus estudos, sugere que se propicie a existência de grupos de adolescentes com deficiência visual, para que possam interagir e sentirem-se pertencentes ao grupo, de modo a contribuir para o não isolamento e para evitar a solidão.
Ao pesquisarem a imagem corporal entre adolescentes portadores de deficiência visual, França e Azevedo (2003, p.183) afirmam que “a adolescência se caracteriza da mesma forma que nas pessoas dotadas de visão, isto é, com deslumbramentos, inseguranças, desejos e sonhos”. Segundo esses pesquisadores, os adolescentes com deficiência visual apresentam os mesmos conflitos que os adolescentes videntes. Assim, estes autores falam da alta autoestima, da preocupação e atenção em relação ao seu corpo e as mudanças que nele ocorrem, os quais foram informados por outras pessoas e por tocarem o próprio corpo.
Interdonato e Greguol (2009) confirmam que aqueles que praticam atividade física possuem uma maior preocupação com o corpo, se avaliam de forma, ligeiramente, mais positiva, em virtude de uma maior competência motora, comparado aos não ativos. Ambos os grupos, o de sedentários e o daqueles que praticam qualquer atividade física, apresentam percepção de sua imagem corporal e satisfação, autoestima elevada, boa interação psicossocial.
Aulas de educação física contribuem para ajudar na independência, contribuindo para uma maior autoconfiança nas atividades diárias, como andar sozinho nas ruas com melhor locomoção, além de melhorar a postura e o senso de direção para caminhar e para promover melhor convivência com os amigos (GORGATTI, 2005).
Alertamos para os fatores identificados como de risco entre os adolescentes com deficiência visual, como a ausência de informações e materiais pedagógicos, em relação à educação sexual, a dificuldade no diálogo entre pais e filhos, preconceitos por eles enfrentados, falta de material escolares especializados, além do próprio ambiente escolar que não facilita a acessibilidade.
Para França e Azevedo (2003), falar da sexualidade é abordar também o risco, que, para os autores se expressa na não existência de informações e
materiais pedagógicos relacionados à educação sexual e às mudanças corporais dos adolescentes, restringindo-os em sua realidade e direitos, tornando essa adolescência composta de mais desafios ainda.
França e Azevedo (2003) relataram que os adolescentes apresentam curiosidade em questões como namoro, contato físico, sexo e casamento. Eles se tocam e gostam de serem tocados. Demonstram interesse e o desejo em constituir uma família.
Em pesquisas recentes, Moura e Pedro (2006) perceberem informações vagas, confusas e nem sempre corretas sobre sexualidade, e lembram que os deficientes visuais acabam sendo vistos pela sociedade como pessoas assexuadas, sem desejos, pelo fato de demonstrarem pouco conhecimento em relação a essas temáticas. A educação sexual é sugerida pelas mesmas autoras, como uma ação protetora, que pode se concretizar pela transmissão das informações a partir do método Braille, ou outras metodologias como: a verbal, práticas com oficinas, jogos ou dramatizações com informações variadas, que possam ser compreendidos pelos demais sentidos, com o objetivo de contribuir para a educação para prevenção e saúde deste adolescente não vidente, com necessidade de informações.
Diante temas como o namoro e a sexualidade existe a dificuldade de diálogo entre pais e filhos. Essa situação não contribui para uma postura mais autônoma e confiante por parte dos adolescentes. Segundo Amiralian (2010), desinformação e dificuldades da família em lidar com o assunto da sexualidade, percebendo-os como assexuados, contribuem, para que a deficiência atrase a iniciação da sexualidade da pessoa com deficiência, em relação aos demais adolescentes videntes. Para eles, mesmo que intimamente exista o desejo, eles se percebem imaturos e inexperientes. Na sexualidade existe um grande medo do envolvimento emocional com o outro, atrelado à falta da iniciativa na aproximação. Esse medo se traduz em posturas dos próprios adolescentes, que contribuem para uma vida amorosa vazia, sem contato com o real (SALZETA; BRUNS,1999).
Amiralian (2010) ressalta a dificuldade dos pais em lidar com o amadurecimento, crescimento, independência, iniciação sexual e busca profissional de seus filhos com deficiência visual, no período da adolescência, de modo a
ignorarem o fato, a percepção desta realidade, procurando limitá-los à vida infantil, tornando a fase da adolescência muito sofrida e angustiante para os pais, somada ao sofrimento da própria fase, pelo adolescente. Salzeta e Bruns (1999) afirmam que poucas são as conversas na relação familiar entre pais e filhos, de modo que estes últimos podem ser, ora superprotegidos, ora rejeitados pelos familiares, que podem apresentar dificuldades e preconceitos ao lidar com o próprio filho.
Salzeta e Bruns (1999, op. cit.) ressaltaram que os preconceitos estão correlacionados às expectativas do que é esperado, pelo senso comum, no mundo dos videntes, sendo difícil fugir. Padrões pré-estabelecidos de normalidades, os quais em virtude da deficiência não se encaixam, são reduzidos à cegueira e não às suas competências. De acordo com Amiralian (2010), a pessoa com deficiência percebe-se diferente em relação aos outros pela necessidade de apoio em movimentarem-se, livremente, como, em atravessar a rua, por sempre precisarem do outro, demonstrando-se submissos. Como não se sentem ou estão com pessoas iguais e também sofrem com da não aceitação social, encontram em situações que podem contribuir para um maior isolamento e solidão já típica desta fase.
Bezerra e Pagliuca (2007) relatam que a acessibilidade e locomoção são dificultadas pela ausência de rampas, escadas sem texturas nos pisos e corrimão, objetos deixados em locais inadequados (corredores), atrapalhando a circulação, sanitários que não respeitam as normas de segurança, e iluminação inadequada. Afirmam que por mais que apresente grande significado na vida, na identidade, na busca do saber e na inserção destes adolescentes por meio da educação inclusiva e socialização, o ambiente físico escolar de escolas regulares, que possuem adolescentes deficientes visuais em seu quadro, ainda, apresenta dificuldades e riscos.
Em Montilha et.al. (2006) se chama a atenção para a não utilização, pelos adolescentes, dos recursos ópticos e não ópticos. Ainda mais nesta fase, quando o grupo é um fator tão importante. O não uso pode estar relacionado por questões psicológicas, ao utilizar outros equipamentos além dos óculos, a estética do aparelho pode não agradar ou ser a desejada, o material escolar diferente entre os demais alunos da sala, pode gerar problemas de auto-estima ou definitiva aceitação da deficiência. Em pesquisa recente, Amiralian (2010) confirma que o adolescente
não se sente bem por perceber-se diferente entre os demais, e classifica os recursos ópticos que podem auxiliá-lo, como algo horroroso.
A ausência do material didático escolar em Braille, de materiais ampliados ou sonoros, além de avisos, que não estão em letras maiores, Bezerra e Pagliuca (2007), dificulta o acesso à informação. Os pesquisadores mencionam também que outro aspecto causador de dificuldades são professores e profissionais que não estão capacitados para lidarem com esses alunos em particular.
A dupla convivência da pessoa com deficiência, na integração entre os dois mundos, nos quais, sem opção, se insere, pois ora interage e participa do mundo dos deficientes visuais, ora está no mundo dos videntes propicia uma complexa relação de ganhos e perdas de experiências entre ambos os mundos, sendo essa uma dificuldade presente na vida dos adolescentes deficientes, que também se constitui como uma dificuldade para a sua própria identificação (AMIRALIAN, 1997; 2010).
Percebe-se uma lacuna, em relação a pesquisas e estudos com os adolescentes com deficiência visual, em todos os contextos que permeiam sua realidade. Apesar da relevância do tema para os indivíduos e para a sociedade como um todo.
Assim sendo, as pesquisas contemplam situações cotidianas e freqüentes na vida destes adolescentes, de aspectos sociais, educacionais, psicológicos de meio ambiente e auto-estima que estão, diretamente, ligados às necessidades para o desenvolvimento.